Informação Alternativa

Ásia

27/04/2005

 

Licença recusada à Coca­‑Cola

 

Karthika Thampan

Countercurrents

 

O Perumatty grama panchayath (conselho local) recusou ontem renovar a licença da Hindustan Coca-Cola Beverage Limited em Plachimada, no estado indiano de Kerala. Esta é a mais recente reviravolta na longa batalha travada entre a Coca-Cola e os aldeões que lutam pelo seu direito à água potável.

 

O Panchayath decidiu de modo unânime rejeitar um requerimento submetido pela Coca-Cola em 13 de Abril para renovar a sua licença, pois não tinha submetido juntamente com o requerimento o aval do Conselho de Controle de Poluição do Estado de Kerala e uma licença emitida sob a Lei Industrial. Em 7 de Abril de 2005, o colectivo de juízes do Alto Tribunal de Kerala havia ordenado ao panchayath que concedesse licença à companhia caso ela submetesse, no prazo de duas semanas, o requerimento condizente com os certificados acima.

 

«A companhia informou o panchayath que tem a licença emitida sob a Lei Industrial e o aval do Conselho de Controle de Poluição do Estado. Mas não mostrou os documentos ao panchayath», disse à imprensa o Presidente do Perumatty Panchayath, A. Krishnan.

 

O colectivo de juízes também deliberou que a companhia poderia, entre 2005 e 2006, extrair até quinhentos mil litros de água por dia das instalações de 34 acres da sua engarrafadora em Plachimada. O colectivo disse que «uma pessoa tem o direito de extrair água da sua propriedade, a não ser que seja proibida por algum estatuto». O Perumatty Panchayath apresentou um apelo no Supremo Tribunal da Índia contra a decisão da Alto Tribunal de Kerala.

 

Desde então o panchayath cancelou a licença da companhia em 7 Abril de 2003, sob risco de perder quase metade da sua renda anual – cerca de 700 mil rupias ou 16.300 dólares – alegando queixas de moradores locais de que a enorme quantidade de água extraída do solo pela companhia teria secado poços, causando na área uma aguda escassez de água potável. Mas a fábrica conseguiu manter-se em funcionamento até 10 de Março de 2004, apoiada numa ordem governamental e num veredicto de um único magistrado do Alto Tribunal de Kerala que derrubava a decisão do corpo cívico.

 

A unidade de engarrafamento foi estabelecida em 2000 num terreno de 34 acres (15,2 hectares) na sua maioria terra agrícola de colheitas variadas no distrito de Palghat, a dois quilómetros do rio Chitturpuzha e perto de vários reservatórios e canais da irrigação. Palghat é tradicionalmente conhecida como a tigela de arroz de Kerala.

 

Em cada dia, a companhia extraía cerca de 1,5 milhões de litros de água subterrânea e aproximadamente 85 camiões carregados de produtos deixavam as instalações fabris. A empresa também recorria à água de fontes em vilas vizinhas, pois os poços cavados na sua área tinham falhado em providenciar o rendimento requerido. A companhia extraía água suficiente para atender às necessidades mínimas de aproximadamente 20 mil pessoas. Elas não só perderam a sua água mas, com o encerramento de fazendas tornadas completamente secas, também os seus empregos. Os mais gravemente afectados são até 10.000 trabalhadores sem terra.

 

Depois há a poluição. Os produtos químicos produzidos no processo de limpeza das garrafas contaminam os lençóis de água. Tentativas de secar a lama malcheirosa e vendê­‑la como fertilizante falharam quando os agricultores começaram a desenvolver feridas na sua pele e notaram que os coqueiros estavam a morrer. A fábrica tentou dar a lama de graça, mas ninguém a quis.

 

Análises laboratoriais feitas pelo Conselho de Controle de Poluição do Estado de Kerala revelaram perigosos níveis de cádmio na lama. Outro relatório feito na Universidade de Exeter, na Inglaterra, a pedido da Rádio 4 da BBC (cujo repórter John Waite visitou Plachimada e transmitiu a sua reportagem em Julho de 2003) encontrou na água de um poço próximo da fábrica não só quantidades impermissíveis de cádmio, mas chumbo a níveis que «podem ter consequências devastadoras», especialmente em mulheres grávidas. O laboratório de Exeter também considerou a lama inútil como fertilizante.

 

Em 16 de Dezembro de 2003, um único magistrado do Alto Tribunal exigiu à unidade da Coca-Cola que cessasse a exploração dos recursos hídricos do Panchayath e que encontrasse fontes alternativas para suprir as suas necessidades de produção. Apesar de um colectivo de juizes ter anulado a decisão do Alto Tribunal, em 17 de Fevereiro de 2004 o Gabinete de Estado de Kerala ordenou à companhia que pusesse fim à operação, tendo em conta a situação de seca aguda no distrito de Palakkad. Consequentemente, a companhia parou a sua produção em 10 de Março de 2004.

 

A decisão do Perumatty Panchayath vem apenas cinco dias após o aniversário de três anos da mobilização anti-Coca-Cola. Em 22 de Abril, líderes políticos e activistas sociais reuniram­‑se em Plachimada e prometeram apoio à luta. Dirigindo­‑se ao “encontro das pessoas anti­‑Cola” organizado para assinalar a ocasião, o líder do partido Janata Dal, M. P. Veerendrakumar, disse que a luta prosseguiria até que a fábrica fosse fechada, pois a questão chave era o direito vital de uma comunidade à água potável. As poderosas corporações podem nem sequer temer a administração Bush, mas foram batidas pela verdadeira coragem e determinação com que a população pobre de Plachimada manteve de pé a luta para afirmar o seu direito à água potável e contra a sua exploração pela fábrica de refrigerantes, disse Veerendrakumar.

 

O líder do Adivasi Gotra Mahasabha, C. K. Janu, exigiu uma legislação que assegure o direito das pessoas à água e fiscalize a sua exploração comercial. Mayilamma, uma mulher tribal à frente da agitação de Plachimada, inaugurou a encontro. A. Krishnan, presidente do Perumatty Panchayat onde a fábrica está localizada, leu o “manifesto anti­‑Cola-Cola”.

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