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Janeiro 2006 Martine
Bulard Num momento em que Pequim
anuncia uma revisão em alta do seu crescimento, de tal forma que se posiciona
como quarta potência mundial, os dirigentes japoneses multiplicam declarações
alarmistas sobre o contínuo aumento das despesas militares chinesas. Raramente
terão sido tão más as relações entre os dois países, apesar das trocas económicas
entre ambos registarem uma dimensão inigualável. Na China, os dados agora
revistos mostram uma recuperação do consumo – sempre desigual – e uma subida
do peso dos serviços. Pequim. Entre o terceiro e o
quarto periféricos, a nordeste. A unidade 798. Um belo conjunto de edifícios
em tijolo vermelho, no estilo Bauhaus, onde se vêem galerias vanguardistas,
restaurantes na moda e lojas chiques. Antes de ser um sítio em voga, esta antiga
danwei (grande empresa estatal), concebida em 1957 por especialistas da
Alemanha de Leste em nome da “solidariedade socialista” e cuja área abarca
quase um quilómetro, empregava cerca de 20.000 operários na produção de armamento
chinês. Era no tempo em que as grandes empresas tinham os seus próprios
alojamentos, escolas, centro de saúde, um teatro... No tempo em que o
complexo de Dashanzi, de que a unidade 798 faz parte, era visto como um
modelo. Ou seja, há menos de quinze anos. Desde então, a “reforma económica”
passou por aqui, varrendo a produção, os assalariados, as suas famílias. As fábricas abandonadas
iam-se tranquilamente enferrujando quando às tantas um punhado de artistas em
ruptura com o sistema decidiu refugiar-se ali. Não sem dificuldades (complicações
administrativas, controlos policiais, cortes de electricidade...). Os
dirigentes comunistas acabaram por os tolerar e agora até apoiam esta
comunidade de artistas, ameaçada... pelo mercado – porque o grupo Qi Xing,
que entretanto adquiriu Dashanzi, pretende pôr toda a gente de lá para fora
para construir um “parque tecnológico”, mais rentável. Vemos assim os
censores do passado transformados em defensores da liberdade de criação
artística; singular paradoxo das autoridades, que, por outro lado, tentam
regularmente trancar a Internet e mandam prender qualquer sindicalista que se
mostre um pouco reivindicativo. É certo que por uma questão de imagem mais
vale terem artistas ligeiramente agitados do que trabalhadores francamente
contestatários [1]. A trezentos quilómetros dali,
muito perto de Chengde e do seu palácio imperial de Verão, a fábrica de aço
de Cheng Gang (Chengde Iron and Steel Group Co.) não desapareceu na tormenta.
Os assalariados que servem de cicerones, com prévia autorização do secretário
do Partido Comunista da China (PCC), mostram-se muito orgulhosos dela; foi
com o aço ali fabricado que se construiu a “Pérola Oriental”, torre de
televisão símbolo da Xangai moderna, ou a gigantesca barragem do rio Yangzi. A
unidade utiliza tecnologia italiana e está inteiramente automatizada. Afora
alguns técnicos de controlo que se encontram nas plataformas, os assalariados
ficam dentro de cabinas, agarrados a um computador. É uma fábrica ultramoderna.
Basta porém andarmos umas centenas de metros para entrarmos de novo no século
XIX, vendo-nos perante equipamentos enferrujados e às sacudidelas no meio
duma poeira acinzentada. É impossível visitarmos este inferno – «não seria
bom para a vossa saúde», garante o assalariado que nos guia –, mas vemos
trabalhadores a manipular sem luvas materiais muito poluentes (ao que tudo
indica, cales, manganésio ou enxofre...). Nas suas duas versões, esta
fábrica de aço resume a história industrial da China. Até 1986, os seus 20.500
assalariados viviam mais ou menos bem na pequena cidade de Cheng Gang, graças
a esta empresa de que tudo dependia (alojamento, saúde, desporto, escola,
aposentações). Com as reformas económicas e o aumento das necessidades
nacionais de aço, as coisas começaram a piorar, passando o Estado a exigir
mais resultados. Antes mesmo de modernizar a produção, a direcção despediu os
assalariados com muitos anos de serviço – insuficientemente produtivos – e
substituiu-os por jovens, mais rápidos e por vezes com mais qualificações. Depois
foram importadas tecnologias ocidentais, a que os homens tiveram de adaptar-se.
Deste modo, os efectivos reduziram-se a 17.000 pessoas e a média de idades
passou a ser de 35 anos. Num primeiro tempo, os
despedidos ficam «fora do posto de trabalho» (xiagang zhigong), não
são desempregados. Em dinheiro, a vantagem que obtêm é limitada; um dos
nossos guias afirma dispor de 800 yuans por mês (80 euros) [2], quando antes
auferia 2000, como assalariado. Mas a ligação contratual com a empresa
mantém-se, o que significa protecção social... e reconhecimento. Privada de
emprego aos 46 anos e agora uma jovem reformada de 50 anos, a senhora Jing
Zheiying [3] continua a ter a impressão de fazer parte da danwei, ao
mesmo tempo que “vai dando uma ajuda” em pequenas empresas que têm surgido na
cidade. Graças a este sistema de “desenrasque”, a senhora Jing e o marido
puderam comprar o apartamento onde vivem e acrescentar-lhe uma casa de banho
novinha em folha. Nesse prédio, várias pessoas conseguiram realizar um sonho
até aqui inimaginável: tornarem-se proprietárias da sua própria habitação. Claro que nem todos os xiagang
zhigong vivem com esse conforto. Mas graças à solidariedade familiar o
sistema do “desenrasque” tem funcionado, em Cheng Gang e em todo o país. Actualmente,
está em vias de extinção, porque nem os accionistas privados da fábrica de
aço, ainda minoritários, nem os proprietários públicos querem assumir
despesas sociais que oneram a rentabilidade. Além disso, a fábrica de aço não
poderá furtar-se ao “plano de racionalização da siderurgia” anunciado por
Pequim a 20 de Julho de 2005. A miséria pode pois tomar conta da cidade, da
mesma forma que alastrou nalgumas regiões industriais no final da década de
1990. Tie Xi Qu. Bairro de Shenyang, capital da
província de Liaoning, na ex-Manchúria, a mais de uma hora de avião de Pequim.
É o pulmão industrial desta cidade, com os seus altos-fornos, cimenteiras,
indústrias que cospem enxofre e outros resíduos, o suor e a sujidade que se
incrustam nos corpos, chuveiros surpreendentes num universo enegrecido, a
alegria dos operários nos desafios de mah-jong, a sua resignação...
Deste universo filmado por Wang Bing nos alvores do século XXI, de que
resultou um magnífico documentário [4], nada ficou: fábricas, dédalos de
casebres, operários. Este bairro outrora industrioso está agora impecavelmente
traçado. De um lado, amplas avenidas bordejadas de fábricas de aspecto
renovado que escaparam à limpeza ou inteiramente novas. Do outro lado, um
alinhamento de stands onde se expõem veículos automóveis, quase todos
estrangeiros. Em menos de cinco anos, um bairro inteiro foi varrido do mapa e
nasceu um outro, povoado de ricos comerciantes e quadros superiores beneficiários
da política chamada de “abertura”. Como explica Wang Bing, «queríamos criar
um mundo, mas esse mundo acabou por explodir». Di-lo à sua maneira um antigo
técnico, de rosto marcado pela vida que passou numa fábrica de cabos
eléctricos, encerrada desde há quatro ano: «Não ganhávamos muito, o trabalho
era duro, mas tinham consideração por nós». Di-lo sem raiva, limitando-se a
constatar. A industrialização desta região, que vinha da era dos Qing, no
século XIX, e que criou o primeiro caminho-de-ferro chinês, não se reduzia
unicamente à exploração dos trabalhadores, significava também um colectivo de
trabalho, uma altivez operária. «Aquilo que nós fabricávamos era útil», faz
questão de precisar este ex-técnico, «mas “eles” decidiram mandar vir os
cabos de outro lado». “Eles” são simultaneamente os novos proprietários da
empresa, que compraram e desmantelaram a fábrica e a respeito dos quais
ninguém sabe nada, o governo «que nos abandonou», e as autoridades locais «que
não fazem grande coisa»... Este desempregado exprime na perfeição aquilo que
sentem os excluídos do milagre chinês, numerosos nesta região em plena
reestruturação, uma «Lorena à décima potência», segundo a expressão do
sociólogo francês Antoine Kernen [5]. As primeiras vítimas são os
assalariados mais velhos, porque «eles fizeram toda a vida o mesmo trabalho,
muitas vezes sem grandes qualificações», sublinha Wang Zheng, investigador da
Academia das Ciências Sociais de Chenyang. «É-lhes difícil adaptarem-se. E
alguns recusam o trabalho que lhes propõem, por o considerarem desqualificado».
Convém dizer que os salários dos empregos públicos são de 300 yuans por mês,
quando muitos desses trabalhadores auferiam na empresa, no mínimo, 1000 yuans
mensais. E que empregos lhes propõem? Varredores das ruas, ajudantes de
jardineiros, auxiliares da circulação rodoviária... Terá o ex-técnico da fábrica
de cabos de Tie Xi Qu recusado esse género de trabalho? É impossível sabê-lo.
Em todo o caso, nessa manhã, como todas as manhãs, vimo-lo à esquina de uma
rua, com uma dezena de outros homens e mulheres, sentados sobre os
calcanhares, na sua maior parte de telemóvel à cinta, todos com um letreiro
pendurado onde descreviam as respectivas competências: pedreiro, pintor,
electricista, mulher a dias... Um mercado do emprego a céu aberto onde particulares
e empresários vêm alugar, por uns quantos yuans, um trabalhador ao dia, à
semana, quase nunca ao mês. Um trabalho “ilegal” que nem sempre dá ao
trabalhador um tecto onde dormir, e isto numa cidade invadida pelas máquinas
da construção civil. Com efeito, desde o XVI
Congresso do PCC, realizado em Outubro de 2003, a província e a sua capital
foram classificadas “zona de desenvolvimento prioritário”. Jorram os dinheiros
públicos, mas nenhuma assembleia pública fiscaliza a sua utilização. Shenyang
transformou-se numa cidade em obras, onde os prédios, na maior das confusões,
crescem como cogumelos, com fachadas douradas, tectos em forma de pagodes e
outras «dragãozices», segundo a expressão dum arquitecto chinês indignado com
tanto mau gosto... e tanta corrupção – o endémico mal graças ao qual se pode
construir seja o que for e onde muito bem se entender. Até Mao Zedong, no
meio da praça Zhongshan, foi mobilizado para a longa marcha da
comercialização, apontando o braço, já não para um futuro radioso, mas para
os painéis publicitários das grandes marcas estrangeiras que o cercam. É verdade que foram
construídas zonas especiais de desenvolvimento económico e tecnológico. Para
atrair capitais estrangeiros, a cidade procurou mobilizar a sua diáspora [6],
descobrindo então que tinha relações históricas com Hong Kong, amizades
especiais com Taiwan e – ainda mais espantoso – com o Japão, tão detestado
nesta região, durante muito tempo ocupada pelo exército nipónico. Têm-se
implantado ali grandes empresas japonesas, sul-coreanas, norte-americanas ou
francesas (Canon, Toyota, Coca-Cola, LG Electronics, Alcatel, Michelin,
etc.). Ao lado de fábricas de
montagem há unidades da mais alta tecnologia, na produção de medicamentos ou
nos metais da nova geração, tais como a Shenyang Kejin New Materials
Development Co, que teve origem no Instituto de Investigação sobre os Metais.
O universo, aqui, está mais próximo do Robocop do que de Émile Zola. Convém
não esquecermos que se a China, por um lado, produz e exporta têxteis e
brinquedos de baixa gama, ela açambarca também 55 por cento do mercado
mundial de computadores portáteis, 30 por cento de televisores de ecrã plano,
20 por cento do mercado dos microprocessadores... A China monta muitas das
peças concebidas noutras paragens, copia bastante, inventa pouco mas cada vez
mais. Os seus bons resultados na indústria espacial ou nas nanotecnologias
não são apenas fogo de vista. Embora os investimentos na investigação e
desenvolvimento continuem a ser modestos (1,4 por cento do produto interno
bruto em 2003), a verdade é que desde 1997 eles duplicaram. São assim criados empregos
que apelam a uma mão-de-obra por vezes muito qualificada e raramente
reivindicativa. Tanto mais que o sindicato oficial (All China Federation of
Trade Unions, ACFTU) parece pouco virado para os protestos. Quanto aos jovens
sem qualificações, recrutados nas zonas rurais e amontoados em assombrosos
dormitórios, estes dificilmente podem revoltar-se. Esta região continua
marcada pelas grandes mobilizações de Março de 2002, nomeadamente em
Liaoyang, cidade de uma já antiga indústria química e mecânica. Após vários
dias de manifestações maciças, os líderes do movimento foram pura e
simplesmente presos [7]. Mas o poder acabou por dar satisfação a uma parte
das reivindicações, tais como o pagamento do subsídio de desemprego e das
aposentações. O corrupto director da empresa foi condenado e o dirigente local
do partido transferido. Entretanto, os dirigentes operários continuam presos,
em isolamento [8], e agora, em Liaoyang, quase ninguém fala deles. Além disso, embora os
salários sejam escandalosamente baixos, para as famílias que ficaram nas suas
aldeias eles representam um autêntico maná. Os operários, homens ou mulheres,
que trabalham dez horas por dia nas empresas da região, recebem entre 800 e
1200 yuans por mês; os técnicos, em média, auferem um salário de 2500
yuans... Segundo as estatísticas oficiais, estes rendimentos, desde 1990 e em
média, terão sido multiplicados por seis [9]. Em Shenyang, e mais ainda na
China litoral, foi-se progressivamente constituindo uma classe média, pouco
preocupada com a diligente mão-de-obra das fábricas automatizadas. Tem
melhores rendimentos, aprecia os primeiros dias feriados que goza (onze, em
média, em toda a China urbana), e à contestação prefere o consumo. O governo
sabe-o muito bem, receando qualquer contratempo que possa surgir no
crescimento económico, muito dependente do exterior; o mercado interno – potencialmente
imenso – não absorve as suas produções, por falta de poder de compra. Um
outro dos paradoxos chineses reside no facto de o modelo assentar em baixos
salários, mas esta exploração da mão-de-obra fragilizar o sistema. Em 1,3 mil milhões de
habitantes, cerca de 900 milhões não têm acesso ao templo do consumo,
objectivo supremo. Um responsável da missão económica francesa resume a
situação com uma imagem: «Estamos num sistema em que num prédio de dez
andares apenas três estão ocupados». Resta saber se os outros andares vão ser
ocupados, se alguns moradores vão ser despejados e s euma súbita erupção
vulcânica não vai ameaçar os alicerces do prédio. A China, que já teve a
experiência de vários desastres (invasões ocidentais, ocupação japonesa,
loucura ditatorial do maoísmo), passou por cima da revolução industrial do
século XIX e do século XX. Doravante, tem de responder ao desafio da
revolução informacional do século XXI e ao desafio da revolução social. E
tudo isso em tempo recorde. Classicamente, se assim
podemos dizer – e na falta de um modelo alternativo –, a China fez suas as
leis do mercado. Em 1987, no XIII Congresso do PCC, Deng Xiaoping teorizou do
seguinte modo essa conversão: «A planificação e o mercado não constituem as
diferenças essenciais entre o socialismo e o capitalismo. Visto haver
planificação no capitalismo, o que define o socialismo não é uma economia
planificada; a economia de mercado existe no socialismo. Por conseguinte,
planificação e mercado são duas formas de controlar a actividade económica» [10].
A planificação (que trazia uma certa igualdade, mas no interior da carência)
está em vias de desaparecer. O mercado triunfou, tornando possível uma
acumulação do capital que fez o país descolar. Mas a China ainda não se juntou
aos países desenvolvidos e o seu Produto Interno Bruto (PIB) representa menos
de metade, por exemplo, do PIB japonês. Esta mercantilização do
trabalho, sem precedentes, abalou por completo as relações sociais [11]. Entre
1998 e 2003, entre 40 a 60 milhões de pessoas ficaram sem trabalho, quando
até então o emprego era vitaliciamente garantido. De um dia para o outro, foi
preciso imaginar um sistema que os países ocidentais levaram mais de um
século a pôr de pé, amiúde na sequência de violentas lutas sociais e
políticas. Foi preciso transformar tudo, da unidade de trabalho ao Estado,
num país onde por tradição milenar a burocracia local sempre se distanciou
das directivas centrais. No seu gabinete do Ministério
do Trabalho e da Segurança Social, em Pequim, Pi Dehai, o director‑geral,
confirma a dificuldade dessa tarefa: «Temos de inventar tudo para pôr em
aplicação um sistema público de protecção social». Actualmente, segundo ele,
a maioria dos assalariados urbanos está coberta por um serviço de saúde,
sendo garantidos subsídios mínimos às pessoas que já trabalharam; quanto às
aposentações, estas são progressivamente assumidas pelo Estado (no tocante a
um terço) e por um sistema privado de fundos de pensões; e foi instaurado um
rendimento mínimo (dibao), num montante que se situa entre os 100 e os
800 yuans, segundo as regiões. Este sistema, todavia,
continua a ser embrionário e por vezes não é aplicado, ao mesmo tempo que as
reestruturações avançam a grande velocidade. A conclusão é simples: as desigualdades
aumentam explosivamente. Até o muito douto Study Times, jornal que
segue a doutrina do Partido Comunista, se mostrou impressionado: «A luz
alaranjada já está acesa e nos próximos cinco anos o alerta vermelho poderá
ser ultrapassado» [12]. Segundo o Ministério do Trabalho e da Segurança
Social, os 20 por cento de chineses mais ricos açambarcam 55 por cento das
riquezas do país, enquanto os 20 por cento mais pobres têm de dividir entre
si 4,7 por cento dessa riqueza. O coeficiente de Gini, estabelecido pelo
Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD) com o objectivo de
avaliar as desigualdades (com uma graduação que vai de zero, em caso de
igualdade perfeita, a cem), situa a China, em 2004, no nível 44,7. Menor que
o do Brasil (59,1), do Chile (57,1) ou da Nigéria (50,6), mas num escalão
muito elevado, e sobretudo em aumento constante; em 1981, o nível da China
era 28. No topo da pirâmide social
situam-se os chineses da diáspora que retornaram ao país, mas também antigos
quadros do partido reciclados nos negócios, os mesmos que, segundo a
expressão do sociólogo Lu Xueyi [13], já antes constituíam a «camada social
suprema» de uma China que então se afirmava sem classes. Na realidade, operou-se uma
nova estratificação do país, em torno de quatro linhas de fractura. A
primeira opõe a população urbana à população rural; a segunda separa as
regiões do litoral, desenvolvidas, das do interior, durante muito tempo
abandonadas. E, nos escalões mais baixos, os camponeses do Oeste, onde vive,
numa grande pobreza, a maioria dos 150 milhões de pessoas recenseadas pelas
estatísticas oficiais, muito subavaliadas. É certo que em 2003 o governo
baixou 30 por cento os impostos pagos pelos camponeses e que em Outubro de
2005 anunciou um aumento do rendimento mínimo, bem como a supressão do
imposto sobre a produção agrícola e, sobretudo, um programa a favor do
sistema escolar e da saúde [14]. Mas estas medidas continuam a ser
insuficientes ou pura e simplesmente ignoradas pelos potentados locais. As outras linhas divisórias
separam as cidades entre os assalariados cuja qualificação é reconhecida e os
outros; entre os que têm trabalho e os que o não têm – incluindo jovens com
qualificações que se vêem pela primeira vez no desemprego. Os mais desfavorecidos
continuam a ser os mingong, os operários-camponeses exilados no seu
próprio país e sem direitos nenhuns. Para poderem beneficiar dos sistemas
públicos (escola, saúde, subsídio de desemprego), precisam dum certificado de
residência, o famoso huku concebido na década de 1950 para evitar o
êxodo rural, documento que ainda hoje não têm. A hipocrisia é aqui total,
porque os mingong «estão no âmago da competitividade e da máquina
produtiva chinesas», como refere Geneviève Domenach-Chich, que dirige em Pequim
o programa da UNESCO destinado aos migrantes [15]. Os mingong, com
efeito, representam 79,8 por cento dos empregados da construção urbana, 68,2
por cento dos empregados da produção electrónica, 58 por cento da
restauração... A preocupação que visa evitar
um amontoamento de favelas nas cidades tentaculares nada tem de ilegítimo,
mas além da brutalidade da exploração assim admitida, o sistema explode por todo
o lado, como reconhece, no seu gabinete da prestigiosa Universidade de Fudan,
em Xangai, o jovem economista Lu Ming. Em 2004 foram tomadas medidas pelo
governo central «para suprimir as discriminações, mas localmente as
autoridades travam ao máximo essas medidas». Atitude que corresponde a um
erro político e económico: «Quer encaremos esta questão pelo lado político – “construir
uma sociedade harmoniosa” [palavra de ordem do poder] – ou pelo lado
económico, é preciso desenvolver o mercado interno e proteger os
trabalhadores, para garantir a estabilidade e o desenvolvimento». Com efeito, as injustiças são
de tal ordem que os trabalhadores se insurgem cada vez mais contra elas. Reconheceu‑o
o próprio ministro da Segurança Pública, Zhu Yongkang, ao tornar público o
número de manifestações ocorridas no país, que habitualmente fica no segredo
dos deuses: 74.000 protestos em 2004, que congregaram 3,76 milhões de pessoas,
contra 10.000 em 1994. Dever-se-á ver nisso o início duma ebulição social e
política? É impossível predizê-lo. Diferentemente da década de 1980, em que
essa ebulição levou às revoltas da praça Tiananmen, e apesar da actual
explosão das desigualdades, a situação duma grande parte da população
melhorou. Paul Wolfowitz, o novo presidente do Banco Mundial, pouco suspeito
de simpatia pelo regime chinês, lembrou recentemente que 280 milhões de
habitantes se elevaram acima do limiar de pobreza entre 1978 e 2003 [16]. Nas zonas rurais, os pais
vivem com a ideia de que os filhos hão-de viver melhor do que eles se puderem
frequentar a escola. Nas cidades, sublinha Lu Ming, «pela primeira vez, os jovens
diplomados que tenham alguma experiência ganham mais do que a geração dos
pais». Esta esperança leva os chineses a suportarem o insuportável. Mas toda
a gente sente que a China está agora a abordar uma nova fase, muito mais
delicada. Não foi por acaso que no fim da última sessão plenária do Comité
Central do PCC (11 de Outubro de 2005), Hu Jintao anunciou um plano
quinquenal de luta contra as desigualdades. Irá a China mergulhar no
capitalismo selvagem? Ou conseguirá ela preservar a sua originalidade? A
questão está a ser debatida pela esquerda intelectual chinesa, sem ter
ressonâncias no grande público. Durante muito tempo confiante na vivacidade
da cultura do seu país, o escritor Xu Xing [17], conhecido pela sua linguagem
livre e que continua a viver num minúsculo apartamento, na popularíssima zona
sudeste de Pequim, sente‑se hoje muito mais inquieto. O seu protesto é
permanente contra um «capitalismo sem limites» que «sacrifica muitas pessoas»
e provoca «violentas destruições das culturas regionais ou locais». Xu Xing
também não se mostra nada meigo para com os intelectuais, acusando-os de se
terem tornado «cães de guarda do grande mercado globalizado» e de aceitarem o
jugo do autoritarismo. Outros intelectuais, desamparados perante o avanço da
ocidentalização, voltam-se para as ideologias do passado, em particular para
Confúcio, cujos escritos estão de novo em voga. Ao mesmo tempo, uma nova
escola de sociologia tenta conjugar desenvolvimento económico e progresso
social. Segundo Dai Jian-Zhong, director‑adjunto do Instituto de
Sociologia da Academia das Ciências Sociais de Pequim, que participou em
todas as lutas contra a aniquilação do pensamento, não é a abertura ao
mercado ocidental que põe problemas, é a maneira como está a ser levada a
cabo e a aceitação da lei do mais forte. «Os operários que se encerram num
frente a frente com o patrão não podem negociar. Ora, não lhes é permitido
organizarem‑se e o sindicato está sempre do lado da direcção». Na
realidade, «no que diz respeito à protecção social, às condições de trabalho,
à jornada de 8 horas ou à limitação das horas extraordinárias, as leis
existem, o que se passa é que elas não são aplicadas». Para muitos, os
obstáculos são sobretudo políticos e institucionais, porque o poder proíbe
todo e qualquer debate destas questões. Os bloqueios são também
sociológicos; embora as elites do PCC pareçam pouco fascinadas pelo Ocidente
e afirmem um patriotismo que por vezes roça o nacionalismo (e apesar de uma parte
da nova geração ser formada no estrangeiro), a sua referência continua a ser
a das universidades ocidentais, cuja reputação não é propriamente a de serem
criativas no domínio social. Ora, como lembra Dai
Jian-Zhong, ao longo dos séculos a China conseguiu sempre transformar as
contribuições exteriores para moldar uma cultura original. Estará ela hoje em
condições de operar uma tal alquimia? Como outros chineses, Dai Jian-Zhong
sonha conciliar justiça social, desenvolvimento pessoal – noção que mal
começou a despontar – e bem-estar da sociedade, explorando assim uma via
chinesa do desenvolvimento. Via essa, no entanto, que se mantém no estádio da
utopia. _______ [1] Mesmo assim, em 25 de
Novembro de 2005 as autoridades mandaram destruir o estúdio de um fotógrafo
numa outra comunidade de artistas, Suojiacun, na zona leste de Pequim. [2] 1 yuan corresponde a 10 cêntimos do euro. [3] Nome alterado. [4] Wang Bing, Tiexi Qu (A
oeste dos carris), 2002, em DVD (9 horas), produzido pela MK2. Ler Lu Xinju, “Ruins of the future”, New
Left Revue, n.º 31, Londres, Janeiro-Fevereiro de 2005. [5] La Chine vers l’économie de marché. Les privatisations
à Shenyang, Karthala, Paris, 2004. [6] Os 30 milhões de chineses
que vivem no estrangeiro, sobretudo na Ásia Meridional, tiveram um papel
crucial no aumento dos investimentos estrangeiros. [7] Em 2005, Xiao Yunliang e
Pang Qingxian continuam encarcerados. [8] Ler Philippe Cohen e Luc Richard, La Chine
sera-t-elle notre cauchemar?, Mille et une nuits, Paris, 2005, e Cai
Chongguo, Chine: l’envers de la puissance, Mango, col. “En clair”, Paris,
2005. [9] National Bureau of Statistics of China (NBS). [10] Citado por John Gittings, The Changing
Face of China, Oxford University Press, 2005. [11] Jean-Louis Rocca, La Condition chinoise,
Karthala, Paris, 1º trimestre de 2006. [12] Citado no China Daily,
10 de Outubro de 2005. Ler “Income Gap in China Reaches Alert Level”, Xinhua,
Pequim, 20 de Setembro de 2005. [13] Lu Xueyi (dir.), Dangdai
Zhongguo shehui liudong (A mobilidade social na China contemporânea),
Edições Shehui Kexue Wenxian Chubanshe, Pequim, 2004. [14] Sobre as desigualdades
escolares, ler Teng Margaret Fu, Perspectives chinoises, n.º 89, Hong
Kong, Setembro de 2005. [15] “Les migrations internes en Chine”, Connexions,
n.º 27, Pequim, Junho de 2005. [16] Visita de Paul Wolfowitz,
12 de Outubro de 2005. Discurso na página Internet do Banco Mundial, www.worldbank.org. [17] Em 2005, Tudo o que resta é para ti, uma sua obra escrita dezasseis anos antes, foi publicada com... algumas modificações. Ler “Les tribulations d’un paysan chinois” [ed. brasileira: As atribulações de um camponês chinês], Le Monde diplomatique, Agosto de 2002. |