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Novembro 2005 Odaira
Namihei Após a visita, em Outubro,
do primeiro‑ministro nipónico Junichiro Koizumi ao santuário
Yasukuni, onde estão enterrados os criminosos de guerra, as relações entre o
Japão e a China deterioraram-se mais uma vez. A sua rivalidade política e
diplomática não impede o reforço dos seus laços económicos. Empresários
chineses investiram mesmo no Japão. As somas são modestas, mas o fenómeno é
significativo. Naquele dia 26 de Abril de 2005 reinava uma atmosfera algo estranha nos corredores do maior centro comercial de Pequim especializado em produtos informáticos, situado no bairro de Zhongguancun. Enquanto noutros locais da capital chinesa milhares de jovens se manifestavam contra o Japão e a sua leitura da história [1], apelando ao boicote dos produtos japoneses, outros, igualmente numerosos, comprimiam-se nas lojas de Zhongguancun, sonhando com os computadores e as consolas de jogos importados do país do Sol Nascente. Os serviços de segurança privados encarregados de filtrar as entradas tinham conseguido evitar que as desordens da rua interrompessem a actividade de um lugar onde as máquinas Sony e outras Toshiba são veneradas por um público conhecedor. Apesar disso, alguns jovens tinham logrado entrar, exibindo t‑shirts nas quais podia ler-se, em chinês e em inglês: «Dizhi Rihuo, Xing Wo Zhonghua», «Fuck Japanese, China is strong», ou seja, «Boicotemos os produtos japoneses, apoiemos a China», «Que se lixem os japoneses, a China é forte». Os vendedores das lojas IBM – cuja divisão de computadores pessoais foi comprada em Janeiro de 2005 pelo principal fabricante chinês do sector, a Lenovo – pareciam aprovar estes slogans, procurando aproveitá‑los para convencer o cliente a interessar-se pelos seus produtos. «Os nossos computadores valem tanto quanto os da Sony. De qualquer forma, vai ver que um dia uma empresa chinesa há-de acabar por os comprar. A Lenovo conseguiu até apanhar a IBM», lançou um dos vendedores a um ocidental mais interessado pela última criação da gama Sony. Sem dúvida encorajado pelos acontecimentos que se desenrolavam não longe dali, tal como em várias cidades do país, o homem não podia tê-lo dito melhor. É certo que o gigante Sony não está sob a ameaça de ser adquirido por um rival chinês, mas é doravante evidente que as empresas vindas do continente cobiçam cada vez mais o país do Sol Nascente e a sua tecnologia. «Uma das suas principais motivações consiste em adquirir a experiência e as tecnologias de produção por que são famosas em todo o mundo as pequenas e médias empresas [PME] japonesas», confirma Tanaka Shigeaki, vice‑presidente da filial de Xangai da Organização do Comércio Externo do Japão (JETRO). Este interesse não deixa de preocupar a opinião pública do Arquipélago, que não vê com muito bons olhos a chegada de firmas chinesas. É que estas estão a comprar empresas locais, ao mesmo tempo que o Japão continua a ser o principal fornecedor de ajudas públicas à China [2]. Mais ainda, Pequim ultrapassou Washington e tornou-se o principal parceiro comercial de Tóquio [3]. Tudo começou em 2001, quando a Shanghai Electric, um grupo industrial que possui já 300 empresas e emprega cerca de 210.000 pessoas, assumiu o controlo da Akiyama, uma PME japonesa especializada em material de impressão. Salva da falência graças à chegada de capitais chineses, a empresa, rebaptizada como Akiyama International, viu decuplicar a sua actividade, nomeadamente a dirigida à China, onde o mercado da impressão está em plena expansão. Três anos depois de ter entrado na Shanghai Electric, a PME implantada na periferia de Tóquio rejuvenesceu: o número de assalariados passou de 79 para 160, o sistema dos salários por antiguidade foi mantido e os prémios “esquecidos” desde há anos voltaram a ser realidade. Ainda que os empregados da Akiyama International estejam no essencial satisfeitos com as condições de trabalho, alguns espíritos angustiados não deixam de se interrogar sobre as reais motivações dos responsáveis da Shanghai Electric. «Estavam já a ocorrer transferências de tecnologia do Japão para a China, mas não se tratava de técnicas de ponta. Para obterem estas últimas e desenvolverem a sua própria capacidade tecnológica», sublinha Tanaka Shigeaki, «os empresários chineses compreenderam que precisavam de comprar empresas nipónicas. E para não causarem muitas ondas optaram sobretudo por empresas doentes». APROPRIAÇÃO DAS NOVAS TECNOLOGIAS Em Novembro de 2004, a aquisição pela mesma Shanghai Electric da sociedade Ikegai, fundada em 1889 e pioneira no sector das máquinas-ferramentas, constitui uma ilustração suplementar desta vontade de penetração no mercado japonês para conseguir com isso crescer no plano tecnológico. «Quando se fala de tomada de controlo ou de investimentos financeiros, tem-se muitas vezes em mente o modelo ocidental, que na maior parte das vezes se traduz por reestruturações», explica por seu lado Zhang Chunhua, presidente do conselho de administração da SEC Japan, filial nipónica da Shanghai Electric. «A nossa abordagem é diferente. A China continua a ser um país em desenvolvimento. É por isso que privilegiamos o reforço dos laços comerciais com as empresas que adquirimos, em vez de um simples retorno do investimento. As máquinas-ferramentas e o material de impressão integram-se perfeitamente na estratégia da nossa firma, tanto mais que a China tem uma terrível necessidade de produtos deste tipo.» De acordo com os especialistas, esta tendência deverá reforçar-se ao longo dos próximos anos, apesar das inevitáveis tensões políticas e económicas entre os dois países [4]. Em quatro anos, as somas investidas pelas empresas chinesas no Japão foram multiplicadas perto de 400 vezes, tendo passado de 260.000 dólares para perto de 100 milhões, o que não obstante continua a ser uma gota de água em comparação com os milhares de milhões que empresas como a Daimler ou ainda a Renault tiveram que pôr em cima da mesa para adquirirem participações importantes na Mitsubishi Motors e na Nissan, respectivamente [5]. Tanaka Shigeaki, da JETRO, recorda que a chegada dos investidores ocidentais ao mercado japonês, em meados da década de 1990, foi dolorosa, mas que agora a opinião pública aceita a sua presença. O mesmo deverá passar-se no futuro, a seu ver, com os investidores chineses, ainda que muitos japoneses não aceitem de bom grado que a China possa um dia tornar-se a potência económica dominante na Ásia. O passado caótico das relações entre os dois países e as dificuldades políticas recentemente registadas alimentam esta desconfiança nipónica. Os investidores chineses sabem-no, e tudo fazem para gerir as susceptibilidades [6]. «Recordo‑me do responsável da Câmara do Comércio de Xangai convidando os seus membros a que evitassem qualquer acto susceptível de ser mal interpretado pela população japonesa, a fim de que as fusões com as empresas locais se desenrolassem o melhor possível», conta o número dois da JETRO em Xangai. A tomada de controlo da Toa, uma PME da indústria farmacêutica implantada pelo gigante chinês Sanjiu na Primavera de 2003 em Toyama, na costa ocidental japonesa, confirma as palavras optimistas de Tanaka Shigeaki. Confrontada com uma acesa concorrência no mercado japonês, a Toa não dispunha dos meios necessários a um desenvolvimento das suas actividades, o que era no entanto sinónimo da sua sobrevivência a longo prazo. A sua aquisição pela Sanjiu, mais conhecida no Ocidente pela marca 999, foi encarada como uma oportunidade. Com efeito, o grupo chinês dispõe de uma rede com mais de 10.000 lojas no continente, o que garante uma distribuição mais fácil dos produtos Toa. Esta constituiu, assim, uma oportunidade favorável para a pequena empresa japonesa, incapaz de se lançar sozinha na exploração de novos mercados. Por seu lado, colocando a Toa sob sua protecção, a Sanjiu conseguiu, com custos reduzidos, um acesso ao mercado japonês, muito apreciador da farmacopeia chinesa. «O exemplo de Sanjiu demonstra, de uma forma clara, que cada qual pode ali encontrar o que lhe convém e que os investimentos chineses no Japão não devem ser vistos como uma humilhação para os japoneses», explica um dos responsáveis da Toa. Contudo, no Arquipélago nem toda a gente partilha este sentimento, muitos sendo os japoneses que não aceitam facilmente ver Pequim impor-se no seu país. A temida presença das tríades chinesas, que investem no imobiliário em certos bairros de Tóquio, enquanto os japoneses têm dificuldade em fazê-lo, contribui para reforçar os preconceitos. Uma sondagem publicada no Yomiuri Shimbun [7], o principal diário do país, ilustrava com limpidez a antipatia dos japoneses em relação aos seus vizinhos chineses. As recentes manifestações antijaponesas na China fortaleceram, sem dúvida, as suas reticências. O sucesso do manga de Hirokane Kenshi [8] dedicado à dificuldade que os homens de negócios chineses e japoneses têm em compreender-se não veio, sem dúvida, contribuir para modificar o estado de espírito da opinião pública. Parece, no entanto, ser inelutável a aproximação económica dos dois países, porque ela é indispensável ao equilíbrio regional. Tendo em conta o seu passado comum, nenhum dos dois Estados pode aceitar a dominação do outro. O desenvolvimento de participações cruzadas entre as empresas dos dois países parece tanto mais desejável quanto as paixões nacionalistas podem provocar feridas difíceis de cicatrizar. «A multiplicação dos investimentos chineses no Japão é, a longo prazo, algo muito bom, porque os empresários chineses procurarão assegurar a estabilidade das relações entre os dois países», conclui Tanaka Shigeaki. Um discurso que parece não ter sido ainda compreendido por alguns visitantes do mercado de electrónica de Pequim. ______ [1] Claude Leblanc, Entre Pékin et Tokyo, l’ombre des nationalismes [ed. brasileira: O risco do nacionalismo], Le
Monde diplomatique, Outubro de 2004. [2] Segundo um relatório do Ministério japonês dos Negócios Estrangeiros de Junho de 2005, desde a disponibilização das primeiras ajudas públicas japonesas, em 1979, o Japão entregou já 23,894 mil milhões de euros à China. [3] Jetro Sensor, revista da JETRO, Tóquio, Maio de 2005. [4] Mo Bangfu, Nichichûwa naze wakariaenainoka (“Porque não podem o Japão e a China compreender‑se”), ed. Heibonsha, Tóquio, 2005. [5] Em 1999, o construtor francês desembolsou cerca de 5 mil milhões de euros para comprar 36,8 % do capital da Nissan. Em Março de 2002, detinha 44,4 % da marca japonesa. [6] Uma sondagem efectuada pelo Zhongguo Qing‑nianbao (“Diário da Juventude”), em Pequim, e publicado a 24 de Novembro de 2004, indicava que 53,6 % das pessoas inquiridas tinham «boa opinião» do Japão. [7] Segundo esta sondagem, publicada a 16 de Dezembro de 2004, 71 % das pessoas inquiridas afirmavam «não confiar na China». Uma outra sondagem, publicada a 6 de Dezembro de 2004 pelo diário conservador Sankei Shimbun, de Tóquio, revelava que mais de 57 % dos japoneses desejavam que o seu país deixasse de fornecer ajudas públicas à China. [8] Hirokane Kenshi, Jomu Shima Kosaku (“Shima Kosaku, o administrador), publicado em fascículos em Shukan Morning (ed. Kodansha, Tóquio) desde 17 de Fevereiro de 2005. Este manga, que narra as dificuldades de uma empresa japonesa que se implanta na China, está entre a realidade e a ficção, seguindo a evolução das relações entre os dois países. Assim, os últimos episódios publicados reagem às manifestações antijaponesas que agitaram a China na Primavera de 2005. |