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02/09/2004 As multidões batem as mãos
contra as janelas do compartimento, pretendendo subir e entrar para dentro. Os
seus gritos são incessantes, é este apocalíptico enxamear que é diferente na
Índia. Elas dançam à chuva e esperam no calor amarelo da terra teimosa
tornada pó e que paira acima dos corredores de refugiados a fugirem da
inundação e da guerra. Agora, na última monção em Mumbai, eles empoleiram-se
sobre um outdoor que exibe a imagem de jovens homens de negócios, os
quais têm pele branca e estão alegremente a celebrar a sua compra de um
telemóvel com um écran de TV combinado. Os jovens homens de negócios e os
corvos gordos não se apercebem de uma pirâmide de lixo, onde vive um cão
repulsivo e ratos dardejando (com um olho sempre atento nos corvos) e uma
pequena figura vestida com sari, a escavar metodicamente com as mãos. Mumbai é a mais rica cidade
da Índia. Ela movimenta 40 por cento do comércio marítimo do país; possui a
maior parte dos bancos mercantis e duas bolsas de valores, e a maior favela
da Ásia. Delícia e choque são respostas simultâneas. Levante os olhos e os
magníficos edifícios góticos da Raj nem parecem reais: a Torre do Relógio de
Rajabai, que outrora repicava o "Rule Britannia" ao dar as horas, e
benevolências épicas como a Victoria Terminus, a maior estação ferroviária do
mundo, pela qual passa um milhão de trabalhadores por dia, e o museu do
Príncipe de Gales (ainda é chamado assim, tal como Mumbai ainda é Bombaim),
com as suas colecções notáveis e a abóbada perfeita que domina o Sítio do
Crescente, conduzindo ao Portão de Entrada da Índia. A seguir abaixe os olhos para
as formas humanas côncavas sob juncos e trapos, estranhos às faces radiantes
exibidas nos outdoors, e a questão é sempre a mesma: por que uma
sociedade tão rica, cheia de recursos e culturalmente avançada, com
democracia e memórias de grandes lutas populares, deveria viver assim? Da última vez que estive em
Bombaim, uma geração atrás, perguntei ao grande director de cinema de
Bollywood, Raj Kapoor, porque a pobreza era tão persistente na Índia. «Os de
fora julgam-nos mal», disse ele. «Somos uma sociedade dinâmica. Mas a maior
parte de nós é forçada a viver uma vida predeterminada pelos grupos poderosos
em seu benefício. A questão é que eles precisam da pobreza, a qual é muito
boa para o seu enriquecimento, para levantar esperanças políticas, para
distribuir pacotes de comida, por assim dizer, e para reforçar divisões de
religião e de casta. Contudo, tudo isso é diversão: tal como os meus filmes
são diversões. Quando o povo entender isto plenamente e actuar, as coisas na
Índia mudarão». Uns poucos anos antes, em
1971, eu pusera a mesma questão a Indira Gandhi, então primeira-ministra. Ela
e o Partido do Congresso tinham acabado de reeleger-se por uma enorme
maioria. A sua campanha fora cheia de promessas, e os pobres votaram por ela.
«Após a independência», disse ela, «percebi que em algum momento ao longo do
caminho a nossa direcção mudou. Tínhamos uma escolha. Ou comprarmos bens
estrangeiros ou ajudarmos os industrialistas a ficarem ricos. Assim, agora
temos uma classe média e temos pessoas pobres que sabem que são pobres. Isto
é o princípio da nossa grande mudança». A "grande mudança",
além da sua desastrosa imposição da lei marcial seguida do seu próprio
assassinato, nunca aconteceu. Mais exactamente, aconteceu a chegada de uma
tendência de capitalismo extremo, concebido na Inglaterra no princípio do
século XIX, e conhecida hoje como neoliberalismo. Com a derrota do Partido do
Congresso e a subida do nacionalista hindu BJP à direcção do governo na
década de 90, a sociedade dividida foi tosquiada do seu paternalismo e
licenciada pela Fundo Monetário Internacional. As barreiras que haviam
protegido a indústria e a manufactura indianas foram demolidas: a Coca-Cola
entrou naquilo que fora território proibido, bem como a Pizza Hut, a
Microsoft e Rupert Murdoch. A "Índia resplandecente" ("Shining
India") foi inventada pelos ilusionistas para os seus beneficiários:
a classe média em expansão (uma expressão inadequada na Índia; não há média
de facto) e o capital transnacional. Eles disseram que a Índia alcançaria a
China como potência económica e que a pobreza seria erradicada. Na verdade, os números
oficiais mostram que, no fecho do século XX, o número de indianos a viverem
na pobreza absoluta caiu dez por cento. Contudo, no seu estudo "Pobreza
e desigualdade na Índia: aproximando‑nos à verdade" (Poverty
and Inequality in India: getting closer to the truth) , Abhijit Sen
afirma que o número de pobres indianos realmente aumentou e que, para eles, a
década de 90 foi uma "década perdida". Em 2002, aqueles na pobreza
absoluta representavam mais de um terço da população, ou 364 milhões de
pessoas. «A nutrição inadequada é realmente muito mais generalizada do que a
fome ou o rendimento da pobreza», escreveu ele. «Metade das crianças indianas
são clinicamente subnutridas e quase 40 por cento de todos os indianos
adultos sofrem uma deficiência crónica de energia». A taxa de crescimento da
Índia certamente saltou acima dos seis por cento, mas isto é para o capital,
não o trabalho, para os lucros libertados, não o povo. Toda esta conversa
acerca de uma nova Índia high-tech a atacar as barricadas do primeiro
mundo baseia-se em grande medida num mito. A nova classe tecnocrática é
diminuta. Os famosos call-centres, onde jovens indianos educados
afectam conhecer os "estilos de vida" britânico e americano a fim
de servir os tipos do American Express, empregam apenas 100 mil pessoas, ou
0,01 por cento da população. Desde 1993, o chamado boom do consumidor na
Índia abrangeu, no máximo, quinze por cento da população; e, para a maioria
destas pessoas, a nova prosperidade significou a aquisição de comodidades
básicas da vida moderna, ao invés de carros e telefones móveis. Os jornais indianos reflectem
isto de modo impressionante. O Indian Express apresenta uma dolorosa
investigação às espantosas condições hospitalares, a seguir trombeteia a
inclusão da Índia numa lista superficial dos "melhores países do
mundo" redigida pela Newsweek e baseada totalmente no assenso do
"novo mercado". O director de saúde de Maharashtra, relata o Times
of India, afastou-se devido a "um bom serviço" conseguido na
Organização Mundial de Saúde. Ele ficará afastado durante meses, dirigindo um
inquérito no sudeste da Ásia. No ano passado, no seu território, umas 9000
crianças tribais — as mais pobres — morreram de desnutrição e falta de
cuidados médicos. O responsável pela justiça criticou-o por
"negligência" de deveres. «As mortes são comuns», respondeu o
director, «e eu fiz o suficiente nos últimos dez anos. Por que deveria eu
agora prejudicar a minha carreira por causa desta questão?» Há muito nesta história de
traição quase displicente que explica porque a maioria dos indianos votou
como o fez na eleição geral de Maio último e com cólera tão evidente. Embora
destinada especificamente ao governo dirigido pelo BJP, o principal
patrocinador do "novo mercado", a sua cólera foi descrita por um
comentador como «um clamor contra uma elite que os tem tornado quase invisíveis
desde a independência». Mais de setenta por cento da população vive fora da agricultura.
Não só a desnutrição e a discriminação prevalecem entre as minorias como 70
milhões de pessoas de origem tribal e 150 milhões de Dalits (intocáveis),
pequenos agricultores de todos os grupos étnicos sofreram durante a
"década perdida". Suicídios entre arrendatários «agora contam-se em
muitos milhares», contou-me a ambientalista e escritora Vandana Shiva. «Os
governos não ousam admitir o número verdadeiro». A dívida, frequentemente
para com usurários a taxas de juro de até 120 por cento, é agravada por um
mercado aberto no patenteamento de sementes, plantas e fertilizantes naturais
por companhias estrangeiras de biociência: «o pirateamento da nossa fonte
vital», é como Shiva chama a isto. As alternativas existem.
Desde o século XIX, os movimentos de massas na Índia têm demonstrado que os
pobres podem não ser fracos. Desde que foi eleito em 1978, o governo
socialista popular em Bengala Ocidental (oficialmente, comunista) tem
efectuado a Operação Barga, uma campanha para manter o rastro e registar
todos os 2,3 milhões de arrendatários do estado. Cada locatário é procurado e
os seus direitos são-lhe explicados, e a organização política do governo do
estado na sua aldeia garante-lhe o acesso a empréstimos a longo prazo e que
não seja intimidado pelos proprietários da terra. A Operação Barga é
considerada por toda a Índia como um êxito, especialmente porque a produção
de arroz em Bengala Ocidental aumentou. A antítese disto pode ser
encontrada nas periferias das cidades, as quais proporcionam uma advertência
ao mundo do que acontece quando agricultores são expulsos da sua terra. Havia
um lençol de chuva quando visitei a área "ferroviária" de Mumbai.
Muitas das pessoas daqui haviam fugido da sua terra arrendada em estado de
fome absoluta; eles mal subsistiam. Outrora, a cidade proporcionava trabalho,
dentro de si e nos seus arredores, nas fábricas têxteis, mas estas foram substituídas
pelos "ITES parks" (Information Technology Enabled Services). Mesmo
o humilde estafeta está a ser substituído pelo computador. As condições em que estas
pessoas vivem são dificilmente descritíveis: uma extensa família de 20
pessoas é comprimida dentro de uma caixa de embalagem, os esgotos fluindo e
refluindo na monção; inclusive na estação seca. Os corvos gordos a
empoleirarem-se sobre esqueléticos guarda-chuvas das pessoas; cães de párias
a mastigarem qualquer coisa. Mesmo um breve relance dentro deste chocante
mundo Lilliput mostra uma vontade de asseio, roupas embrulhadas em plástico e
as crianças com cores vivas. É ao mesmo tempo pungente e humilhante, sempre,
ver tal dignidade. Encontrei um homem de Bengala que estivera a poupar
durante semanas o equivalente a 6 libras (9 euros), com as quais compraria
uma caixa para engraxar sapatos; ele discutiu a sua situação desagradável
comigo; nada me pediu. Ao longo da Praia Chowpatty, onde o movimento Quit
India outrora efectuou os seus grandes comícios pela liberdade, agora diz-se
que a propriedade vale mais do que em Londres ou em Paris. Os especuladores
chamam a isto "ouro castanho". Na Livraria Oxford, em
Churchgate, fui ao lançamento de um livro de Rajmohan Gandhi, o neto de
Mahatma. Ele escreveu uma biografia de Ghaffar Khan, o inspirado "Gandhi
Muçulmano" que se opôs à Partição. «A Índia é, de muitas maneiras, um
país violento», disse-me ele. «O facto de termos democracia hoje é devido em
grande medida à não-violência do principal movimento pela liberdade». Democracia talvez, mas a
liberdade espera. |