Informação Alternativa

Ásia

10/06/2004

 

Índia: O neoliberalismo sofre um revés

 

Prabhat Patnaik

Macroscan

Em 1991, a Índia, um dos bastões do dirigismo no terceiro mundo desde os dias de Jawaharlal Nehru, lançou-se por um caminho de política económica neoliberal, uma mudança que foi catalogada por um alto economista do Banco Mundial naquele tempo como um dos «três mais importantes eventos do Século XX», junto com o colapso da União Soviética e a abertura da China a «reformas do mercado». A causa imediata que levou à mudança na Índia foi uma crise da balança de pagamentos causada por uma combinação: a guerra do Kuwait e a fuga de depósitos de indianos não residentes dos bancos indianos. Mas este foi um problema menor que poderia ter sido manejado sem mudanças de orientação: a verdadeira razão para a mudança radicava nas contradições da estratégia dirigista que, evidenciada sobretudo numa crise fiscal do Estado, tinha levado a um beco sem saída, em que a burguesia, especialmente os seus sectores mais novos, queria adoptar um regime neoliberal pelo qual, de todos os modos, o imperialismo tinha vindo a pressionar. Ainda que o governo do partido do Congresso tenha iniciado as reformas neoliberais, estas foram implementadas energicamente pelo governo dirigido pelo partido da direita indiana, o BJP, que chegou ao poder em 1998.

Isto poderia parecer enigmático a primeira vista. O BJP é o braço político de uma organização fascista chamada RSS [Organização Nacional de Autoajuda], que foi formada nos anos 20 preconizando um virulento ódio comunitário contra a minoria muçulmana. Não teve nenhum papel positivo na luta pela liberdade já que era fundamentalmente mais anti-muçulmana que anti-colonial. Participou activamente nos distúrbios intestinos que se seguiram à independência e à partição do país, e um dos seus partidários assassinou Mahatma Gandhi. Ainda que não tenham havido provas que vinculassem a organização com este acto, a mesma foi proibida por um tempo até que prometeu renunciar à política. Cumpriu formalmente com este compromisso ao estabelecer o BJP como organização política de fachada, que adoptou uma infinidade de consignas oportunistas, apesar de o objectivo permanente da RSS ter sido o estabelecimento de um Estado indiano. No entanto, como outros organismos fascistas, a RSS também tinha uma Direita Radical oposta à hegemonia das companhias multinacionais e das finanças globais, que advogava o 'swadeshi' ou 'capitalismo indígena', o que faz com que a sua ávida adesão ao neoliberalismo seja algo curiosa.

Mas a RSS/BJP não é uma organização religiosa fundamentalista do tipo que se encontra em vários países do Médio Oriente. Localiza-se mais bem no molde fascista. Enquanto apela aos sentimentos religiosos (a sua recente chegada ao poder foi impulsionada pela destruição de uma mesquita do Século XVI em Ayodhya com a justificação de que tinha que construir um templo nesse lugar preciso porque Lord Rama, a deidade indiana, tinha nascido ali), está em dia na tecnologia e tem numerosos apoiantes entre os profissionais endinheirados de origem indiana nos EU e em outros lugares, que combinam a política conservadora do seu país de adopção com um vínculo indirecto, transmitido pela RSS, com as suas 'raízes culturais'. O BJP, com a sua antiga afinidade com Israel, e portanto com os EU (especialmente depois do 11 de Setembro), subiu rapidamente ao carro neoliberal e assim conseguiu bastante apoio entre os novos ricos do interior, jovens profissionais da mobilidade profissional ascendente (os 'yuppies') e sectores da burguesia (além da sua base pequeno­‑burguesa tradicional). A Direita Radical dentro das suas filas, dadas as circunstâncias, foi facilmente silenciada.

Com todo o seu atractivo étnico e a sua propaganda, o BJP nunca conseguiu obter mais de um quarto dos votos totais no país, algo menos do que o [Partido do] Congresso, e isso também como resultado de um grau de desilusão das pessoas com os primeiros cinco anos de reformas neoliberais. Governou, no entanto, com o apoio de uma série de partidos regionais e mais partidos menores, alguns motivados por um anti­‑congressismo local, outros tentados pela oferta de ajuda financeira aos governos estatais dirigidos por eles, numa situação em que os Estados foram asfixiados economicamente pelo Centro, alguns tentados pelo poder e outros que simplesmente subiram ao carro. O BJP foi, no entanto, o líder indiscutido do governo de coligação (de 22 partidos) chamado Aliança Nacional Democrática desde 1998. O seu mandato funcionou e fê­‑lo com um efeito devastador.

Na política externa, a Índia aproximou­‑se muito mais aos EU, e o governo inclusive jogou com a ideia de enviar tropas ao Iraque a pedido dos EU, até que a oposição popular em massa o fez desistir. Ainda que não tenha abandonado formalmente o tradicional apoio da Índia à causa palestina, acercou-se a Israel, e inclusive falou­‑se ocasionalmente de um eixo Índia-EU-Israel. Em nome da luta contra o terrorismo, promulgou uma draconiana lei: a Lei de Prevenção do Terrorismo (POTA por suas siglas em inglês) na qual se prevêem a detenção sem fiança e o juízo por tribunais especiais. Os quadros da RSS arremeteram contra as minorias, os muçulmanos evidentemente, mas também contra os cristãos. Missionários cristãos foram atacados em muitos lugares e exigiu­‑se uma lei que proibisse as conversões. Pretendia-se que instituições culturais e educacionais dirigidas pelo governo fossem entregues a pessoas com pouca experiência, mas com conhecida lealdade à RSS. Toda uma série de livros de texto, que reinterpretavam a história indiana a gosto da RSS, devia ser introduzida no âmbito escolar. E queriam introduzir cursos obscurantistas sobre astrologia e práticas sacerdotais bramânicas nas universidades. Já que os 'comunistas' eram vilipendiados e toda a opinião progressista oposta à RSS era qualificada de 'comunista', todas as actividades académicas eram efectivamente tratadas com suspeita. Atacaram o pintor mais conhecido e o activista teatral mais conhecido do país, que por acaso são muçulmanos. Sobretudo, houve um pogromo em massa contra os muçulmanos em Gujarat a partir de Fevereiro de 2002, organizado com a conivência do governo do Estado que era, e continua a ser, dirigido por um partidário da RSS da linha dura. O pogromo, com apoio do Estado, teve lugar aparentemente pelo assassinato de alguns activistas indianos, ainda que a natureza exacta destes assassinatos siga envolta em mistério. Em suma, houve um verdadeiro assalto contra a amalgama cultural do país, os fundamentos laicos da sua política, e todo o legado da luta anti-colonial.

Este legado viu­‑se também socavado no campo económico mediante o decidido apoio ao neoliberalismo. A década neoliberal dos anos noventa viveu uma deflação em massa. Dado que desceu a relação impostos-PIB, como resultado dos cortes de impostos e 'incentivos' ao investimento, dado que aumentaram os juros da dívida pública, e dado que o aumento do déficit fiscal tem sido tabu (apesar da coexistência durante grande parte do período de um excedente de reservas alimentícias, de uma capacidade industrial não-utilizada e de florescentes reservas de divisas estrangeiras), os governos, ambos do Centro, e pela pressão do último deles no âmbito estatal, cortaram drasticamente os gastos, especialmente os gastos no sector social, em investimentos, no desenvolvimento rural e os pagamentos de transferência aos não-ricos. Isto provocou uma crise de infra-estruturas (que não pôde ser resolvida com o acolhimento com bombos e festa às companhias multinacionais). Também levou a cortes nas estruturas educacionais e sanitárias públicas (utilizadas sobretudo pelos pobres) e a uma compressão da procura total pela redução do poder de compra, em especial na Índia rural.

A taxa de aumento da produção de grãos alimentícios caiu abaixo da taxa de crescimento da população nos anos noventa pela primeira vez desde a independência. Apesar disso, a baixa do poder de compra foi tão drástica, especialmente na Índia rural, que em Junho de 2002 havia 65 milhões de toneladas de reservas de alimentos em grãos em poder do governo, ainda que o consumo per capita do país tenha caído nessa data ao nível de antes da II Guerra Mundial. Para livrar-se das reservas, o governo dirigido pelo BJP vendeu alimentos em grãos no mercado mundial a preços abaixo do que pagam os mais pobres do país, ainda que houvesse uma crescente fome em massa no interior (reflectida na acumulação anormal de reservas).

A redução do investimento em infra-estruturas, combinada com o corte dos subsídios ao campesinato, o fim virtual do regime de créditos a baixo custo destinados à agricultura, e a importação da queda dos preços mundiais para muitas culturas sob a nova administração da OMC, causaram uma crise agrária em massa pela em que milhares de camponeses em vários Estados, inclusive em alguns prósperos, cometeram suicídio. Também numerosas indústrias em pequena escala se viram obrigadas a fechar ante o novo contexto de créditos a alto custo e a liberalização das importações. Ainda que houvesse uma considerável expansão dos serviços relacionados com a tecnologia da informação e o Outsourcing de processos empresariais à Índia (que agora o candidato presidencial Kerry quer restringir), as oportunidades de emprego reduziram­‑se nas áreas urbanas e nas rurais. Os trabalhadores organizados viram­‑se frente à redução de gastos, à "aposentadoria voluntária", e a um poder de negociação infinitamente reduzido, com a promulgação pela Corte Suprema de um veredicto contra o seu direito à greve. A necessidade de 'introduzir flexibilidade no mercado de trabalho' (um eufemismo para um ataque generalizado contra os trabalhadores) começou a ser manifestada abertamente.

Tudo isto também o viveram outros países, e poderá não parecer grande coisa a uma pessoa de fora, mas para a Índia, com a sua prolongada história de dirigismo e a sua forte tradição democrática herdada de uma longa luta anti-colonialista, representou uma mudança inimaginável, especialmente porque o governo dirigido pelo BJP começou a vender ao sector privado empresas do sector público que registravam ganhos a preços de liquidação (e algumas foram revendidas em semanas por um múltiplo do preço a que foram compradas). Inclusive trataram de privatizar o sector petrolífero, cujo controle tinha sido obtido depois da descolonização, graças a uma prolongada luta contra as grandes petrolíferas e as agências imperialistas que actuavam por sua conta, e isso só graças à ajuda da União Soviética. Um punhado inicial das acções da Oil and Natural Gas Commission, uma empresa pública altamente rentável, foi comprado pelos representantes de Warren Buffet, o financeiro californiano.

Enquanto, apesar de tudo, o mercado de valores vivia um verdadeiro boom, as reservas de divisas estrangeiras multiplicavam­‑se, chegando a assombrosos 110.000 milhões de dólares a princípios de Maio, enquanto o Banco da Reserva tratava de manter sob controle a revalorização da moeda numa situação em que a Índia se estava a transformar num "estacionamento para dólares"; e as cidades enchiam­‑se de carros importados, ou montados localmente, enquanto os escalões sociais acaudalados, que na Índia ascendem a alguns milhões de pessoas, prosperavam sob a nova administração, uma prosperidade que foi exagerada pelos mídia, tanto internacionais como nacionais.

O governo dirigido pelo BJP, enganado por este arranque, que foi apoiado por várias sondagens de opinião, decidiu convocar eleições antecipadas, e fez campanha com o slogan 'a Índia brilha' e um factor de "bem-estar" que sentia no ar. Foi enfrentado por uma aliança laica dirigida pelo Partido do Congresso em vários Estados, e pela esquerda nas suas próprias praças fortes. A aliança entre estas duas forças limitou­‑se a uns poucos Estados, apesar de ser bem sabido de antemão que a esquerda apoiaria um governo laico no Centro. O resultado da eleição foi uma ressonante derrota da aliança dirigida pelo BJP, algo que não se tinha visto nas mesmas dimensões desde 1977, quando Indira Gandhi sofreu uma humilhante derrota na eleição que tinha programado para legitimar o seu regime autoritário imposto durante a 'Emergência'. O povo indiano esteve uma vez mais à altura das circunstâncias. Estes resultados eleitorais mostram sobretudo as fortes raízes que a democracia eleitoral ganhou na Índia. É por certo algo abassalador que as pessoas, no que é virtualmente todo um continente, tenham actuado em uníssono, sem nenhum contacto prévio, apesar de estarem aparentemente fragmentadas pela linguagem, pela religião, pela casta e outras linhas, rejeitando obstinadamente o que os eruditos lhes tinham estado a dizer sobre 'a Índia brilha'.

O seu veredicto, no entanto, não se dirige só contra o BJP. Vai na contramão do curso da política neoliberal. Vale a pena notar que inclusive em Estados governados pelo Congresso, como Karnataka e Punjab, onde rege o mandato do Banco Mundial ou do Banco de Desenvolvimento Asiático (ADB) e os camponeses foram levados ao suicídio, as pessoas votaram contra o Congresso, como o tinham feito uns meses antes em Madhya Pradesh, expulsando o governo do Congresso. Na verdade, desde o momento mesmo da introdução de 'reformas' neoliberais em 1991, a tendência foi que os governos orientados para a 'reforma' foram eliminados do poder em eleições, mas sempre tinham conseguido camuflar este facto utilizando esta ou aquela explicação específica da impopularidade do respectivo governo. O recente resultado eleitoral, no entanto, revela clara e precisamente este facto. Não surpreende que o Congresso, ao sentir a opinião popular, tenha saído com um manifesto eleitoral que discrepa da agenda neoliberal que foi essencialmente introduzida na economia indiana por esse mesmo partido.

Por certo, as duas características mais impressionantes destas eleições foram o giro na posição oficial do Partido do Congresso, e o forte ressurgimento da esquerda. O manifesto do Congresso fala do renascimento do investimento público, de ênfase no sector agrícola, de fortalecimento do sistema público de distribuição de grãos alimentícios e de outros bens essenciais, de não privatizar empresas públicas que rendam benefícios, e sobretudo de um sistema de garantia de emprego que asseguraria um mínimo de 100 dias de emprego por ano a pelo menos um membro de cada lar. Estas, entre outras, foram as exigências da esquerda durante o apogeu do neoliberalismo. Que agora o Congresso as tenha adoptado é sintomático do sentimento popular, tal como o considerável crescimento da esquerda, ainda que haja que reconhecer que isto ocorreu só nas suas áreas de influência.

A esquerda, que consiste de uma aliança de quatro partidos, obteve 62 cadeiras numa Câmara de 543, o seu melhor resultado histórico. Virtualmente varreu nas votações nos três Estados em que é uma força importante: Bengala Ocidental, Kerala e Tripura. Já que não se podia formar um governo sem o seu apoio, existia a opinião de que devia unir-se ao governo para fortalecê-lo. Ainda que este ponto de vista tenha sido rejeitado oportunamente pelo Comité Central do Partido Comunista da Índia (Marxista), o maior dos quatro partidos, e a esquerda tenha decidido apoiar o governo desde fora, o que foi significativo foi que numerosos artistas, intelectuais e activistas sociais, em representação de todo um espectro de pontos de vista políticos, desde o gandhismo ao esquerdismo anárquico, da social democracia ao progressismo ao estilo das ONG, rogaram à esquerda que participasse no governo. Muitos deles foram tradicionalmente hostis à esquerda organizada. Que, no entanto tenham querido que a esquerda fizesse parte do governo para defender os interesses das pessoas, mostra um importante realinhamento das forças sócio-políticas, a aparição de um novo tipo de relação. A activa participação da esquerda no Foro Social Mundial em Mumbai em Janeiro de 2004 já tinha sido um indício.

O novo governo foi formado sobre a base de um Programa Comum Mínimo (PCM) que, ainda que não inclua tudo o que a esquerda teria desejado, foi amplamente endossado pela esquerda e foi bem recebido em geral. O Programa representa uma mudança de direcção que se afasta do neoliberalismo, reafirmando a centralidade da intervenção do Estado para melhorar as condições de vida das pessoas. Não importa com que provisões específicas comece, se existe uma adesão honesta a esta percepção, inevitavelmente estabelecerá uma alternativa dialéctica afastada da trajectória neoliberal.

Não pode surpreender, portanto, que os meios financeiros globais não tenham apreciado o PCM. Na verdade, a Índia representa neste momento o espectáculo clássico de uma luta entre a vontade do povo que exige uma mudança que se afaste do neoliberalismo, e a vontade do capital financeiro internacional e os seus aliados locais, que exigem a continuação das 'reformas' neoliberais. A massa dos meios de língua inglesa, tanto impressos como electrónicos, soma-se a eles. O capital financeiro disparou o primeiro tiro na sua luta contra a vontade popular durante o próprio processo eleitoral (que na Índia dura vários dias), com a intenção de influenciar o veredicto popular. Quando as sondagens à boca das urnas depois do início da votação indicaram dificuldades para o regresso ao poder do governo dirigido pelo BJP, os mercados de valores caíram, e o BJP pediu votos em nome da estabilidade financeira. Quando apareceram os resultados e a esquerda, sem a qual não se podia formar um governo, se expressou na contramão do desinvestimento nos sectores básicos e nas empresas públicas que obtêm ganhos, teve de novo um crash no mercado de valores, que os mídia exageraram adequadamente como um presságio de desastre.

Isto era absurdo, já que os preços das acções têm muito pouco impacto nas decisões de investimento privadas das corporações na Índia, para não falar do rácio geral de investimentos; já que as assim chamadas 'perdas' pela queda do valor das acções são sobretudo 'perdas de papel' sem impacto na riqueza real do país; e já que em qualquer caso só cerca de um 0,1 por cento da população do país participa no mercado de valores. Mas a ofensiva dos mídia foi implacável: um milhão de milhões de rupias de riqueza, afirmaram, tinham sido "apagados" devido à 'intransigência ideológica' da esquerda. Encorajados por este ruído, alguns financeiros inclusive realizaram uma manifestação contra a interrupção dos desinvestimentos nas empresas do sector público que produzem ganhos (como se fosse seu direito natural o apoderar-se da propriedade do povo!)

Houve uma verdadeira ressurreição do mercado de valores quando Sonia Gandhi, a líder do Congresso, que estava em boa sintonia com as massas e que virtualmente sozinha tinha conduzido o Partido ao poder, e que, porque a sua 'inexperiência' era considerada como 'pró-pobres', deixou o seu lugar de chefe do governo a Manmohan Singh, o arquitecto original das 'reformas'. Mas quando o PCM foi revelado ao público, houve um novo crash. O novo ministro de finanças, Chidambaram, também com antecedentes de ser favorável às 'reformas', tem estado a tratar de tranquilizar o capital financeiro de diversas maneiras, mas com resultados ambíguos até agora. A fuga de capitais não foi um problema ainda, mas não passa um dia sem que os mídia façam circular histórias de horror sobre as implicações do PCM.

A pergunta que se levanta é: qual será a saída deste confronto? Aonde vai a Índia? A dependência governamental do apoio da esquerda assegurará que não poderá ter uma mudança radical frente aos compromissos incorporados no PCM quanto a política económica. Ainda que a esquerda tenha prometido o seu apoio ao governo para todo um período de cinco anos, é pouco provável que o governo aproveite este compromisso para impulsionar uma agenda neoliberal. O mínimo que pode ocorrer a este respeito a breve prazo é portanto uma 'congelamento' das 'reformas' com algumas medidas para aliviar os sofrimentos das pessoas, como as que foram anunciadas pelo novo governo de Andhra Pradesh, onde o prévio regime, tão amado pelo imperialismo, foi expulso na eleição. E certamente muito pode ser feito para eliminar a sinistra influência do fascismo étnico na esfera da educação, para eliminar a POTA da legislação, para promulgar leis estritas contra o fomento da violência étnica, para corrigir a parcialidade na política externa do governo dirigido pelo BJP e, em geral, para restaurar os fundamentos laicos do sistema de governo.

Com uma perspectiva a um prazo um pouco mais longo, no entanto, vê-se claramente que a adopção da agenda neoliberal foi em parte o resultado de que o antigo dirigismo tinha levado a burguesia a um beco sem saída; a capacidade desta de elaborar um novo rumo afastado do neoliberalismo é limitada. A actual burguesia não é a burguesia do período da luta anti­‑colonial, bem como o actual imperialismo difere enormemente do antigo colonialismo. A actual burguesia não está em condições de orientar uma trajectória de desenvolvimento anti­‑imperialista, ainda que possa beneficiar dessa trajectória e sectores dela possam inclusive unir-se ao movimento para a adoptar. A liderança de uma trajectória alternativa semelhante tem que vir da esquerda. Em outras palavras, o actual desenvolvimento na Índia marca o começo de um processo, que sem dúvida será prolongado e tortuoso, com vários giros e voltas, de polarização da sociedade em dois campos, um campo pró-imperialista apoiado pelo Fundo, a Banca, as finanças globalizadas e as companhias multinacionais, e um campo anti­‑imperialista dirigido pela esquerda mas incluindo diversos elementos. A iminente derrota do imperialismo no Iraque abriria espaço para a consolidação deste último campo, mas o grau com que esta consolidação poderá com sucesso ser conseguida depende crucialmente da capacidade da esquerda de superar o sectarismo e a estreiteza de vistas e unir os segmentos o mais amplos possíveis das forças sociais anti­‑imperialistas. As pessoas em toda uma série de países do terceiro mundo, e a Índia é a mais recente a somar-se, rejeitaram nos últimos meses a agenda neoliberal, imposta pelo imperialismo. Um novo sentimento anti­‑imperialista é visível no terceiro mundo. A esquerda tem que reagir ante a sua presença, e só se o fizer poderá levá-lo a avançar para o seu eventual objectivo.

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