Informação Alternativa

Ásia

06/09/2004

 

O Cáucaso em chamas (II)

 

José María Pérez Gay

La Jornada

Em agosto de 1996, os guerrilheiros chechenos venceram os exércitos russos; uma ofensiva inesperada varreu um regimento no bairro de Chernoreche e os soldados do general Dzohjar Dudájev reconquistaram Grozny, a capital de Chechénia – que Moscovo mantinha ocupada desde Dezembro de 1994. Milhares de soldados russos sucumbiram ou ficaram presos entre as ruínas da cidade; o orgulho do exército da Federação Russa desmoronou­‑se como um castelo de areia. Tudo ocorria num momento crítico da Chechénia, em que a luta armada contra o poder russo estava mais forte e estendida do que nunca. Já não eram os bandos de montanheses dispersos com espingardas que se passeavam ao longo e ao largo do rio Terek, na fronteira com o Daguestão, mas um verdadeiro exército regular, com guerreiros destros e muito bem treinados, bazukas e lança­‑granadas, morteiros e artilharia pesada capazes de arrasar o quartel­‑general russo de Jankala. Várias vezes, nesse ano, as forças armadas da Rússia tinham proclamado a vitória final sobre a subversão chechena, mas a realidade tinha­‑se encarregado de demonstrar no dia seguinte que a guerra continuava cada vez mais intensa e que ameaçava ser sangrenta e sem termo.

Boris Yeltsin tinha começado a guerra esperando que uma vitória rápida aumentasse a sua popularidade, mas nesses dias deu­‑se conta de que era impossível: o jogo bélico tinha terminado. Os exércitos russos renderam‑se, o Estado Maior depôs as armas, hasteou bandeiras brancas e abandonou a Chechénia escoltado pelos guerrilheiros; na retirada, muitos soldados choravam, a memória do Afeganistão regressava às suas filas.

Todos sabiam porque se chegou a esse ponto. Em 1994, a guerrilha chechena expressou o seu propósito de depor as armas para tomar parte nas negociações, em troca de uma amnistia real e completa. O governo de Yeltsin teve então a oportunidade de instaurar uma paz civil na região do Cáucaso que talvez tivesse sido a única verdadeira e estável nos últimos 60 anos. Mas Yeltsin e os seus assessores, Vladimir Putin entre eles, prestaram ouvidos surdos ao clamor nacional, rejeitaram inclusive um projecto de paz do general Alexander Lebed e embarcaram numa guerra absurda e bestial. A Chechénia estava arruinada. Milhares tinham sido torturados e assassinados, os soldados russos especializaram­‑se na tortura directa; violaram as mulheres, executaram os homens nos campos de prisioneiros, torturaram crianças e idosos até à morte. Não conheceram piedade. O general Lebed afirmava que não só deviam desculpar-se com os chechenos, mas também e sobretudo com o povo da Rússia. «Afirmamos que se tratava de uma espécie de operação militar para restabelecer a 'ordem constitucional' num distrito rebelde», escrevia Lebed, «mas esse punhado de bandidos não só resultaram ser guerrilheiros, mas os seus filhos e pais, viúvas e primos: a maioria da população chechena». A operação policial converteu­‑se na guerra contra um povo. Quando Boris Yeltsin, no fragor das eleições (1997), admitiu ter cometido erros, estava reconhecendo também que 10 mil soldados russos, entre os 18 e os 23 anos, sucumbiram enquanto destruíam uma cidade distante e alheia à qual tinham sido enviados como redentores.

Os chechenos celebraram nas ruas destruídas a retirada das tropas russas. No livro Uma guerra suja: uma repórter russa na Chechénia, Anna Politkovskaya recorda esses primeiros meses depois da guerra, no dia em que o comandante militar checheno, Aslán Masjadov, é eleito presidente da república – umas eleições vigiadas por observadores da Organização para a Segurança e a Cooperação da Europa. «Ainda que as perdas chechenas tinham sido catastróficas, e o duelo em massa dominava as horas e se impunha a sensação de um abismo sem fundo, existia um sentimento de que a guerra não tinha sido em vão», escreve Anna Politkovskaya. A memória não se apaga na Chechénia; por paradoxal que soe, as pessoas alimentam­‑se dela. As guerras de independência que se iniciaram no século XVIII e continuaram até ao século XX, seguidas pela repressão e o desterro ordenado por Stalin, são os rasgos distintivos da consciência nacional dos chechenos.

Nesses anos nenhuma vitória foi mais espectacular; a Chechénia nunca esteve tanto tempo nas oito colunas dos diários internacionais; «nesses dias – diz Anna Politkovskaya – os chechenos aprenderam a dizer 'nunca mais', nunca outra guerra». Mas este optimismo evaporou­‑se muito depressa. Os russos, em contrapartida, não modificaram em absoluto o hermetismo tradicional do poder soviético. Os seus dirigentes guardaram silêncio ante a derrota, com a excepção do general Alexander Lebed, que logo foi retirado do Serviço. Nenhum governo estrangeiro se atrevia a pôr em perigo as suas relações com a Rússia ao reconhecer a Chechénia; nem sequer trataram de ajudar a sua reconstrução, à diferença da antiga Jugoslávia, ou de Timor Oriental. Aparte uma indemnização excepcional que entregou ao governo checheno, a Rússia desligou­‑se do verdadeiro problema da independência e das suas históricas declarações de paz, tudo se esqueceu no decorrer dos dias. Assim, abandonada outra vez pelo mundo exterior, sobretudo pela União Europeia, em ruínas e na miséria, povoada por homens jovens e desempregados, armados até aos dentes e paranóicos, a república da Chechénia iniciou o caminho da sua própria autodestruição. Aslán Masjádov nunca pôde impor a sua autoridade, os grupos armados não lhe obedeciam e confundiu a política com a publicidade. Assim, começou o período mais difícil na vida deste militar pouco acostumado aos paraísos artificiais do poder. Por outro lado, o Conselho de Anciãos, uma espécie de governo descentralizado, estava destruído, as vozes sábias tinham desaparecido, e com eles a memória do passado e das lutas pela independência. A grande maioria dos projectos de mudança, incluída a negociação com a Geórgia e a Ossétia do Norte, que era o mais ambicioso, terminaram em fracasso. No centro deste caos, os grupos islâmicos radicais recém chegados à Chechénia – grupos que tinham dinheiro e davam a impressão de uma férrea disciplina – foram ganhando cada dia maior força. Esta era a situação em Novembro de 1997, quando a espiral do crime e o banditismo se apoderou de Grozny. Nesses dias, a Chechénia, como escrevíamos ontem, estava nas primeiras páginas dos diários, como a capital mundial do sequestro e do crime.

Actualmente, há cerca de 80 mil soldados russos na Chechénia; sem dúvida, um país ocupado. Na realidade, este drama é infinito. Em Abril de 2003, três anos depois da última guerra, a administração imposta por Moscovo na Chechénia – o regime do ex mufti Ajmad Kadírov – escreveu um relatório sobre os crimes cometidos em 2002 pelas forças federais russas. Estas autoridades pró­‑russas revelam umas estatísticas ainda mais escalafriantes do que as do Memorial ou do Human Rights Watch. No ano de 2002, morreram mil e 314 civis em execuções sumárias e como resultado das torturas, isto é, mais de 100 mensais. Esta cifra corresponde ao dobro das estimativas reveladas pelo Memorial, que conduz uma crónica minuciosa de todas as mortes denunciadas na Chechénia e das campas comuns que vão descobrindo. O relatório também confirma a existência de campas comuns, algo que nunca antes tinha reconhecido o Ministério de Situações de Emergência checheno.

A 12 de julho de 2002, no cemitério central de Grozny, encontrou-se uma campa comum com 297 corpos, pessoas assassinadas e com sinais de tortura. Frente à base militar russa de Jankalá, os funcionários públicos do governo de Kadírov encontraram outra campa com 39 cadáveres, e assim até chegar à cifra de 2 mil e 879 corpos. Se lemos o capítulo em torno das mortes violentas – em alguns casos só se encontram partes do corpo, porque os militares põem granadas nos corpos das vítimas torturadas. Na parte militar menciona­‑se o nome da vítima, o lugar do incidente e o número do carro blindado russo – prova da culpabilidade dos militares – presente na operação durante a qual a pessoa foi assassinada ou prendida. Nos três primeiros meses de 2003 registraram­‑se, segundo o relatório da Administração Kadírov, 70 assassinatos, 236 sequestros, 18 desaparecimentos e 35 casos em que se descobriram fragmentos humanos.

O Relatório Kadírov foi escrito para convencer o Kremlin da necessidade de pôr um limite ao enorme poder do exército na Chechénia. Depois desta recontagem do horror, deste relatório sobre a inumanidade, talvez tenha que voltar a citar Nietzsche: «Há que isentar os homens da vingança. Ninguém tem direito a vingar nos demais o que os seus pais ou os seus avôs fizeram com ele». Nietzsche sabia que a nossa sede de vingança é uma corrente infinita de seres humilhados e ofendidos que procuram humilhar e ofender os demais e livrar-se das humilhações e das ofensas anteriores com outras ainda mais atrozes.

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