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05/09/2004 José
María Pérez Gay A barbárie
terrorista chechena, que causou anteontem uma das matanças mais atrozes dos
anos recentes na região do Cáucaso, assaltou o colégio de Beslan, uma cidade
da república caucásica da Ossétia do Norte, e sequestrou mais de mil e 200
pessoas, entre crianças e adultos. Segundo diferentes versões, uma explosão
acidental dentro da escola ou a intervenção directa das forças de segurança
russas desencadearam o inferno. O comando abriu fogo contra os reféns e as
tropas de assalto entraram a sangue e fogo. Os
serviços de emergência tinham recuperado até Sábado mais de 320 cadáveres,
incluídos 175 de crianças de cinco a 14 anos. O mais
incrível de tudo é que os terroristas chechenos decidissem assassinar as
crianças, executá-las pelas costas. Mas é‑o sem remédio – ainda que
agora não custe trabalho crê-lo, depois do sequestro dos dois aviões e da
mulher chechena que se imolou com explosivos frente a uma estação do Metro em
Moscovo. Porquê
esta loucura demoníaca? Quem são estes criminosos dementes? A partir de 1991,
a Rússia perdeu o controle da Chechénia, mas a falta de direcção política
numa região não significa necessariamente que esse território declare a sua
independência, se constitua em Estado autónomo e se separe da Federação
Russa. Faz 10 anos, Moscovo perdeu também o controle político sobre as
regiões de Nagorno-Badashan (Tadjiquistão), Nagorno Karabach (Azerbaijão),
Abkasia (Geórgia), Kirovakan (Arménia) Chimbay (Uzbequistão), Daguestão
(Ingushetia) e, seguindo essa lógica, já se teriam declarado estados
independentes. Segundo fontes das Nações Unidas, existem 40 territórios em
todo o mundo que declararam a sua autonomia; mais ainda, na região de Sikkim,
na Índia (1975), uma eleição popular votou a favor da sua independência, mas
o poder central não a concedeu. Sempre
tive a impressão de que Moscovo corria muitos mais riscos do que os que podia
permitir-se se não levasse a sério a proclamação de independência da
Chechénia (1991). Boris Yeltsin aceitava com dificuldade a existência dos
rebeldes, negava-se a negociar com esses foragidos, talvez porque depois do
desaparecimento da União Soviética os dirigentes russos tinham perdido a
memória. Tinham esquecido que, em 1785, durante o império da czarina Catarina
II, os povos islâmicos montanheses do Cáucaso do Norte, sob as ordens do
checheno Mansur Uschurma, que se autonominou Imam, declararam a guerra santa
à Rússia, venceram várias vezes os exércitos do czar e refundaram Grozny, a
sua capital. A princípios da década de 1990, Moscovo adiou três anos a sua
intervenção no Cáucaso, uma zona de grande interesse geopolítico. A 31 de
Dezembro de 1994, o exército russo entrou em Grozny, a capital da república
da Chechénia, para conter uma rebelião separatista, mas não encontrou nenhuma
resistência. Nesse dia as coisas corriam bem; a vitória, cantada. As tropas
russas apoderaram‑se do centro da cidade e foram‑na ocupando
por zonas; dispunham-se a celebrar o ano novo, grupos de soldados cantavam e
bebiam pelas ruas. Ao amanhecer do primeiro de Janeiro de 1995, no entanto,
os chechenos saíram do fundo da terra, verdadeiros mestres na guerra de
guerrilhas, passaram à acção. A 2 de Janeiro, a 131ª Brigada russa contava
com mil homens e 150 veículos blindados. Em 48 horas perderam 830 soldados e
148 veículos. Durante três semanas, os guerrilheiros defrontaram o exército e
a aviação russos, que devastaram a cidade com bombas de fragmentação,
lança-foguetes, tiros de canhão e mísseis. De nada serviu a destruição. Os
exércitos russos nunca conseguiram o controle absoluto de Grozny. Os
chechenos continuavam a disparar das ruínas e na escuridão. Quanto se
declarava segura uma zona, os comandos atacavam pelas costas e os emboscavam.
A luta chechena era mais bem um estado de alma, uma paixão desmedida e um
ódio indomável. Os chechenos reconquistaram duas vezes a sua capital: em
Agosto de 1996 e em Janeiro de 2000. Hoje, na realidade, Grozny já não
existe, o exército russo apagou‑a do mapa, é uma sucessão de túmulos e
ruínas. Morreram 48 mil pessoas, entre civis e milicianos chechenos e 6 mil
soldados russos. Por esse então, Yeltsin estava convencido de que a
intervenção na república da Chechénia podia resolver-se em 15 ou 20 dias;
segundo os relatórios militares, as suas tropas avançavam sem muitas baixas,
iam acabando com os rebeldes. Mas um antigo general soviético, Dzohjar
Dudáev, cuja experiência na guerra do Afeganistão era lendária, converteu num
pesadelo a intervenção russa na Chechénia, submeteu o estado maior do
exército a uma das maiores humilhações da sua história, depois do
Afeganistão. A primeira guerra da Chechénia de finais do século XX tinha
começado. A 31 de
Janeiro de 1995, a guerra tinha deslocado 450 mil pessoas; 160 mil fugiram às
repúblicas vizinhas de Ingushetia (130 mil), Daguestão (42 mil) e Ossétia do
Norte (5 mil). A maioria destes fugitivos encontraram um lugar nas famílias
dos vizinhos, ou esconderam‑se nas montanhas do norte, sobretudo
grande número de mulheres, crianças e idosos. Os refugiados suscitaram
numerosos conflitos na Ingushetia (que ademais recebeu outros 50 mil
refugiados em consequência da guerra com Osetia do Norte) e no Daguestão, uma
zona praticamente isolada ao cortar-se as vias de comunicação com a Rússia.
No verão de 1996, o general Alexander Lebed, inimigo de Yeltsin, viajou muitas
vezes a Grozny para negociar os acordos de paz. Depois de apaixonadas e
difíceis negociações, os separatistas chechenos aceitaram adiar cinco anos a
proclamação da sua soberania, dar tempo ao tempo e procurar uma solução
definitiva para o conflito. A
princípios de 1997, o deputado Viktor Kurotshkin propôs na Duma (o Congresso)
a solução mais fácil: a independência de Chechénia. «A Rússia e a Chechénia
devem separar-se de modo pacífico e voluntário», afirmava Kurotshkin, «como
se separaram os checos e os eslovacos». No entanto, a maioria dos políticos
russos amotinaram‑se ante a proposta; opuseram a esse projecto um
Estado forte e caudilho, bem armado, com recursos naturais limitados e uma
economia arruinada, mas com uma política nacional implacável. «Ninguém pode
pactuar», sublinharam, «com uma região sublevada, islâmica e fanática». A
independência de Chechénia traria ao Cáucaso uma enorme quantidade de
problemas fronteiriços; as suas consequências seriam imprevisíveis. Ninguém
pode traçar a linha de demarcação com a Ossétia do Norte, porque os seus
habitantes sentem‑se europeus, nem muito menos com a Ingushetia,
porque ninguém pode vigiá-la. Menos ainda com o Daguestão, porque as tribos
chechenas-accrinas o impediriam de imediato. Stavropol, a cidade onde vivem
milhares de chechenos, fecharia as suas fronteiras. Centenas de milhares de
chechenos vivem fora da Chechénia, a diáspora maior e ilustrada (um terço dos
chechenos) vive na Rússia e não pensa regressar à zona de guerra. Mas nessa
nação os chechenos são vistos como estrangeiros indesejados, suspeitos de
terrorismo e vigiados pela polícia política. Na região
do Cáucaso habitam mais de 60 etnias diferentes; dominam três famílias
linguísticas diferentes, a indo‑europeia, a altaica e a caucásica, 24
dialectos e três religiões: o cristianismo, o Islão, o judaísmo e muitas mais
seitas. A região tem 28 milhões de habitantes, cuja maioria se concentra nas
cidades do Cáucaso do Norte. O idioma oficial é o russo, com a excepção da
Ingushetia e da Chechénia. Nesta babel do Cáucaso, dialectos, rituais,
crenças, ideologias e os inumeráveis agravos do passado enlouquecem os seres
humanos; todos querem ter a razão e vivem uns com os outros numa profunda
discórdia. Ademais, o Cáucaso é uma excepção ecológica no planeta. Não é
senão uma ampla faixa entre dois mares, o Morto e o Caspio: um imenso
depósito de água doce, glaciares, montanhas, massas de neve eterna, chuvas
riquíssimas, campos férteis e um dos jazigos de petróleo e gás mais
importantes do planeta. Mas entre
1996 e 1999, a Chechénia vai‑se transformando, já não é um distrito
russo que luta pela sua independência, mas que se converte num Estado
violento, onde o crime mundial organizado encontra um terreno propício para
expandir as suas redes. Na história conhecemos muitas repúblicas que
protegeram o crime e se fundiram até confundir-se com ele. No século XIV a
ilha de Gotland, a ilha de Djerba, onde os piratas berberes dominaram quase
300 anos e conseguiram vencer a frota espanhola. Mas o exemplo da Chechénia é
a sério algo novo na história. Alguns políticos criminosos e importantes
apoiaram de imediato a sua independência, mas em troca exigiram que a Rússia
conservasse bases militares, e o direito a realizar atentados selectivos
contra terroristas. Em 1994, na Chechénia tiveram lugar 700 assaltos a
combóios de passageiros; em Setembro de 1996, mil e 382. Foram saqueados 724
contentores e registraram‑se perdas de 17 mil milhões de rublos. No
ano de 1997, sobrevoaram o espaço aéreo checheno 345 voos não autorizados.
Pouco a pouco essas fontes foram‑se fechando. No final de 1993,
fecharam‑se todos os oleodutos na Rússia, o produto nacional bruto
diminuiu 68 por cento frente ao de 1991; o consumo, 52 por cento. No auge da
sua exploração, a Chechénia produziu 20 milhões de barris de petróleo. Em
1993 mal chegaram a 3 milhões. No ano seguinte, 200 mil habitantes da
Chechénia abandonaram o país, na sua maioria eslavos e russos. Com o
aproximar de 1995, suspende-se a informação sobre os envios de milhares de milhões
de rublos dos bancos chechenos aos russos; uns meses depois, Moscovo suspende
o comércio e o trânsito entre Grozny e a Rússia. No final de 1994, a
Chechénia suspende toda a sua produção de bens e serviços. Uma pergunta
inevitável: como floresceu a criminalização da Chechénia? |