Informação Alternativa

Ásia

Agosto 2004

 

China, a megapotência

 

Ignacio Ramonet

Le Monde Diplomatique – Edição Brasileira

Um colosso demográfico (1,3 bilhões de habitantes), a China só começou a sua grande reforma económica após a morte de Mao Zedong, em 1976, e, principalmente, a partir de 1978, quando Deng Xiaoping assumiu o poder. Baseado na abundância de uma mão-de-obra mal remunerada, na importação maciça de fábricas montadoras, na exportação de produtos baratos e no afluxo de investimentos estrangeiros, o seu modelo de desenvolvimento foi considerado, durante muito tempo, como “bastante primitivo”, característico de um país atrasado e mantido, com mão de ferro, por um partido único – até o controle de sua demografia seria conduzido de forma autoritária.

No entanto – e apesar de continuar sendo comunista –, não só a China deixou de fazer medo como, na euforia da globalização incipiente, foi apresentada para centenas de empresas, que para lá transferiram as suas fábricas (após terem demitido milhões de trabalhadores), como uma verdadeira sorte grande para investidores atentos. Em pouco tempo, graças à rede de “zonas económicas especiais”, instaladas ao longo da sua orla marítima, a China tornou­‑se uma fenomenal potência exportadora. E passou a liderar os exportadores mundiais de têxteis­‑vestuário, calçado, produtos electrónicos e brinquedos. Os seus produtos invadiram o mundo. Em particular, o mercado dos Estados Unidos, provocando em seu favor um desequilíbrio gigantesco: em 2003, o déficit comercial norte­‑americano para com Pequim chegou a 130 bilhões de dólares [1]!

Capitalismo chinês

O furor de exportar provocaria uma decolagem espectacular do crescimento que, nas últimas duas décadas, superou os 9% ao ano [2]! Esse “comunismo democrático de mercado” também representou um aumento do poder aquisitivo e do nível de vida para milhões de famílias [3]. E proporcionou a escalada de um verdadeiro capitalismo chinês. Paralelamente, o Estado lançou­‑se numa modernização do país em ritmo acelerado, multiplicando a construção de infra-estruturas: portos, aeroportos, rodovias, caminhos de ferro, pontes, barragens, arranha-céus, estádios para os Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, instalações para a Exposição Universal de Xangai, em 2010, etc.

Essa massa descomunal de obras e a nova febre de consumo dos chineses acrescentaram uma nova dimensão à economia: em pouquíssimo tempo, a China, que assustava enquanto potência de exportações invasora, tornou-se um país importador cuja voracidade insaciável é seriamente inquietante. No ano passado, foi o principal importador mundial de cimento (importou 55% da produção mundial), de carvão (40%), de aço (25%), de níquel (25%) e de alumínio (14%). E o segundo principal importador mundial de petróleo, depois dos Estados Unidos. Essas importações maciças provocaram uma explosão de preços nos mercados mundiais. Em especial, os do petróleo.

Admitida na Organização Mundial do Comércio (OMC) em 2001, a China é actualmente uma das maiores economias do mundo – na realidade, a sexta [4]. Puxa o crescimento em escala planetária e qualquer sobressalto que ocorra com ela tem um impacto imediato sobre o conjunto da economia mundial. «Apesar da velocidade do nosso crescimento», pondera o primeiro-ministro Wen Jiabao, «a China ainda é um país em vias de desenvolvimento e ainda nos faltam uns cinquenta anos de crescimento para nos tornarmos um país medianamente desenvolvido» [5].

Caso didáCtico

Mas se a China continuar no ritmo actual, ultrapassará os Estados Unidos por volta de 2041, tornando-se a principal potência económica do mundo [6]. O que terá consequências geopolíticas importantes. E também significa que, a partir de 2030, o seu consumo de energia será o equivalente à soma do consumo actual dos Estados Unidos e do Japão – e, por não dispor de petróleo suficiente para atender a uma necessidade tão gigantesca, será forçada, daqui até 2020, a duplicar a sua capacidade nuclear e a construir duas centrais atómicas por ano durante dezasseis anos...

Ainda assim, e apesar de ter ratificado o protocolo de Kyoto em 2002, a China, que já é o segundo maior poluidor do planeta, tornar­‑se­‑á o primeiro, soltando massas descomunais de gases de efeito-estufa que agravarão as mudanças climáticas que já vêm ocorrendo.

Em relação a isso, a China representa um caso didáctico e antecipa uma questão que amanhã se colocará para a Índia, o Brasil, a Rússia ou a África do Sul: como liberar milhões de pessoas do desespero do subdesenvolvimento sem as mergulhar num modelo produtivista e de consumo “ocidentalizado”, nefasto para o planeta e para toda a humanidade?

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[1] Ler o artigo “Quand la Chine éternuera...” (Quando a China espirrar...), em Cyclope. Les Marchés mondiaux 2004, org. Philippe Chalmin, Economica, Paris, 2004.

 

[2] 9,7% no primeiro semestre de 2004 (enquanto o crescimento económico da França foi de 2,3%).

 

[3] O Produto Interno Bruto (PIB) per capita chegou, em 2003, a 4.690 dólares (na França, o PIB é de 21.700 dólares per capita).

 

[4] Está situada entre a Grã-Bretanha e a Itália (depois de Estados Unidos, Japão, Alemanha e França) e deverá passar a integrar o G8, grupo dos países mais industrializados que, além dos já citados, inclui o Canadá e a Rússia.

 

[5] El País, Madrid, 6 de Junho de 2004.

 

[6] Segundo a especialista Maryam Khelili, nessa data os seis países mais prósperos do mundo serão a China, os Estados Unidos, a Índia, o Japão, o Brasil e a Rússia.