Informação Alternativa

Ásia e Pacífico

Março 2005

 

Washington, Moscovo, Pequim: o grande jogo

 

Vicken Cheterian *

Le Monde diplomatique

 

O presidente russo Vladimir Putin afirmou o seguinte durante a inauguração de uma nova base militar no Tadjiquistão: «A nossa presença militar no Tadjiquistão não terá apenas como objectivo zelar pelo nosso investimento, mas representará também uma garantia de estabilidade nesta região» [1]. Com efeito, Putin prometeu investir neste país, durante os próximos cinco anos, cerca de 2 mil milhões de dólares. Após uma década em que se assistiu ao decréscimo da sua influência, os russos estão de regresso à Ásia Central com uma presença militar acrescida e com mais capitais investidos nas infra-estruturas e na energia.

 

No vizinho Quirguistão, Moscovo reforçou a base aérea que possui em Kant através do envio de mil militares e de novos aparelhos. A base encontra-se situada a apenas 20 quilómetros do aeroporto de Manas, perto de Bichkek, onde os Estados Unidos dispõem de instalações militares. É certo que o presidente russo autorizou a presença das tropas americanas no terreno dos antigos satélites soviéticos, mas fê-lo, em primeiro lugar, por não ter outra escolha e, em seguida, por ser a favor do esmagamento dos talibãs e de outros grupos militantes como o Movimento Islâmico do Uzbequistão (MIU), que ameaçam os aliados da Rússia na Ásia Central. Aliás, Moscovo já declarou oficialmente que, uma vez estabilizado o Afeganistão, as tropas norte­‑americanas deverão retirar­‑se.

 

Na realidade, as bases americanas no Uzbequistão e no Quirguistão têm menos a ver com a luta contra os talibãs no Afeganistão do que com a nova estratégia militar de Washington. Os Estados Unidos vão deslocar 70.000 militares, actualmente estacionados na Europa, para os Balcãs, o Médio Oriente e a Ásia Central. O que está em causa é a criação de uma força de intervenção rápida, de que as bases recentemente adquiridas na Ásia Central constituem um pólo estratégico, não apenas para a segurança da região, mas também enquanto posicionamento estratégico entre a Ásia Meridional, a China e a Rússia.

 

Se a estratégia militar dos Estados Unidos é inteligível, já a sua prática política, terrivelmente confusa, é mais difícil de compreender. Com efeito, a redução da ajuda prestada ao Uzbequistão devido aos insuficientes progressos do país em matéria de direitos humanos ocorre em simultâneo com um grande desenvolvimento da cooperação militar entre os dois países. Estas contradições semeiam a discórdia entre os amigos, tal como entre os inimigos... Além disso, o apoio de Washington a regimes corruptos e repressivos faz com que a população desconfie de qualquer movimento democrático de estilo ocidental, para já não falar dos próprios dirigentes que, desde que assistiram ao derrube de Saddam Hussein e de Eduard Chevardnadze, também se tornaram desconfiados.

 

Foram recentemente suspensos no Uzbequistão todos os projectos que beneficiavam do apoio dos Estados Unidos e das suas organizações não governamentais, por medo da influência que poderiam ter em período pré­‑eleitoral. «O Ocidente não ajudou o Afeganistão suficientemente após a guerra», assegura Vyacheslav Khamisov, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, em Bichkek. «Por causa disso, perdeu a iniciativa estratégica na Ásia Central».

 

A influência chinesa na Ásia Central, desde há um século inexistente, está a crescer e a suscitar inquietações em Moscovo... e em Washington. Vêem-se cada vez mais negociantes chineses em Almaty e em Bichkek; uma nova estrada, entre Krog e Kachgar, faz a ligação entre o Tadjiquistão e a província do Xinjiang, no nordeste da China. Depois dos shuttle-traders (comerciantes vai­vém) é agora a vez de os responsáveis chineses se deslocarem à região para comprar petróleo cazaque ou turquemeno, procurando responder às novas necessidades energéticas de uma economia chinesa em plena expansão.

 

Em Maio de 2004, após sete anos de negociações, a China e o Cazaquistão assinaram um acordo para a construção, até ao fim de 2005, de um oleoduto de mil quilómetros entre Karaganda, no centro do Cazaquistão, e o Xinjiang. Também Pequim está activa no plano diplomático, através do Grupo de Xangai (que reúne, para além da China, cinco Estados da Ásia Central e a Rússia). Esta organização dedica-se essencialmente às questões de segurança, em conformidade com a preocupação de Pequim de evitar qualquer desestabilização na Ásia Central que pudesse encorajar o separatismo uigure no Xinjiang. O crescimento da influência chinesa faz também temer intrusões territoriais: o Cazaquistão é um país vasto, mas os seus 14 milhões de habitantes representam apenas 1 por cento da população chinesa...

 

 

Ler: Vicken Cheterian, A Ásia Central entre nacionalismo e islamismo.

 

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* Jornalista, Genebra.

 

[1] Reuters, Duchambe, 18 de Outubro de 2004.

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