Informação Alternativa

Ásia

Junho 2003

 

Uma operação de política interna russa

 

Musa Yusupov *

Le Monde diplomatique

 

Na véspera da segunda intervenção russa, em 1999, o general Alexandre Mikhaïlov, anteriormente porta-voz do efémero primeiro­‑ministro russo Sergueï Stepachine, não hesitou em declarar na televisão: «Se arrasarmos a Chechénia num mês, o Ocidente nem sequer se aperceberá». Propósitos certamente cínicos, mas exactos. Excepto num ponto: há quatro anos que as tropas russas se empenham a arrasar a pequena República mártir.

 

Certamente, numerosos defensores dos direitos humanos, personalidades, exigem, na Rússia como no Ocidente, que seja posto um termo a esta tragédia sangrenta. Infelizmente, estas vozes continuam a ser demasiado fracas para impor a paz. Quanto aos líderes estrangeiros, consideram o conflito do único ponto de vista dos seus interesses que, geralmente, não coincidem com os princípios e valores humanistas universalmente proclamados. Assim, incentivam o arbítrio russo na Chechénia.

 

Mas aí não está o essencial. Sem remontar às origens históricas da instabilidade na região, é necessário compreender porque os actores se empenham em perpetuar o conflito. Paradoxalmente, as autoridades russas qualificam de “bandidos” e “terroristas” aqueles mesmos que os instam a concluir um cessar fogo e a negociar uma solução pacífica. Em nome da restauração da “ordem constitucional”, pisam com os pés as normas tanto do direito russo como internacionais, autorizando o exército a conduzir contra a população operações terroristas.

 

Nada de surpreendente: a Rússia engajou­‑se, há anos, numa recolonização do território checheno, verdadeiro objectivo desta guerra mediática, psicológica, económica, técnica e militar contra o conjunto dos habitantes. Esta estratégia inspira­‑se na cultura política da elite e dos funcionários, que continua a ser a do século XIX e do início do século XX. Políticos e militares orgulham-se publicamente da sua experiência de luta contra os povos da Ásia central, dos Países Bálticos, da Ucrânia e certamente do Cáucaso. É no entanto duvidoso que as receitas do passado possam resolver o problema checheno. A tradição caucasiana exige a procura, com a ajuda de mediadores, de compromissos fundados em concessões recíprocas. Esta abordagem corresponde às tendências democráticas modernas, mas visivelmente não às ambições imperiais...

 

O exército perpetua também a guerra para garantir os seus próprios recursos. Graças às ofensivas lançadas no Outono de 1999, o orçamento do ministério da defesa foi financiado a 100 % – pela primeira vez desde há dez anos. No ano 2000, beneficiou mesmo de um acréscimo de 60 mil milhões de rublos (2,25 mil milhões de euros), afectados à continuação desta guerra de exterminação. No total, esta custou a Moscovo mais de 40 mil milhões de dólares. Mas o lucro individual motiva também os militares: na Chechénia, participam, por exemplo, no tráfego do petróleo e das madeiras preciosas. Em suma, o conflito foi “privatizado” pelos soldados e pelas forças de repressão, que não portanto desistirão por vontade própria.

 

REACÇÃO AO ABSURDO DO CONFLITO

 

A instabilidade no Sul da Rússia aproveita igualmente à oligarquia, que pôde assim afastar uma parte dos militares da divisão do bolo: foi com o conflito como pano de fundo, em 1994-1996, que a primeira a grande redistribuição dos activos do Estado se operou, tendo uma outra acontecido aquando da segunda guerra. Ricos e burocratas contam com o conflito, em caso de agravamento do clima social, para desviar a contestação para as relações inter-étnicas e justificar um estado de urgência à escala nacional.

 

Graças à Chechénia, um discreto funcionário federal, Vladimir Putin, tornou-se o número um russo. Mas, se perto de 70 % dos russos apoiaram a guerra em 1999-2000, mais de 60 % desejam actualmente negociações. Trata­‑se aí menos de um sobressalto humanista do que uma reacção ao absurdo do conflito. No entanto, o Kremlin sem dúvida não porá em causa as suas escolhas: a instabilidade na região acompanhará o segundo mandato do presidente Vladimir Putin, ainda que a campanha eleitoral o possa levar a mostrar vontade de “normalizar” a situação.

 

Estes diferentes factores contam mais que o temor dos líderes russos de ver a Federação conhecer o mesmo destino que a União soviética. Aliás, os presidentes Djokhar Doudaev e Aslan Maskhadov não tinham exigido uma independência completa para a sua República : pediam uma autonomia interna e certas relações políticas externas, nos limites das fronteiras russas. A crer nas sondagens, a própria opinião chechena dividia­‑se entre partidários de uma igualdade em direito com os outros membros da Federação Russa, adeptos do máximo possível de independência no interior desta e por fim militantes da independência total. Havia por conseguinte motivos para negociar, mas certamente não para desencadear uma guerra...

 

Analistas e peritos sabem muito bem que as causas de uma eventual explosão da Rússia se enraízam na sua situação sócio­‑económica e na sua divisão territorial e demográfica entre Ocidente e Oriente. Não tem nada a ver com as implicações do caso checheno, onde se mistura a escolha do regime político bem como da organização social e estatal da Federação Russa, as perspectivas de evolução das suas instituições, da liberdade de expressão da vontade popular, as comunidades étnicas e sociais... Neste contexto, a guerra favorece a militarização da elite e da sua gestão da sociedade, agindo como um travão à democratização.

 

O conflito ajuda as forças no poder a superar as crises da transição, funcionando como uma espécie de válvula pela qual a sociedade doente evacua a sua energia negativa, contribuindo ao mesmo tempo para a acumulação descontrolada de capitais criminosos. Os poucos fragmentos de informação fornecidos diariamente sobre as operações militares e as acções ditas terroristas não permitem decifrar o essencial, quer dizer, o entrelaçamento dos interesses russos e chechenos, nacionais e comunitários, mas também os dos ministérios, de grupos de influência e indivíduos. Elementos que se sobrepõem à contradição entre centro e regiões, à acareação histórica entre o estado russo e o povo checheno.

 

Hoje em dia, é a componente militar­‑policial do poder que prevalece na Chechénia. A administração designada pelas autoridades centrais é apenas o instrumento da vontade federal. As instâncias dirigentes da resistência encontram-se, quanto a elas, na clandestinidade. Guarnições militares controlam todas as localidades. Mas, tanto de dia como de noite, ninguém se sente em segurança – nem os militares, nem os funcionários, nem os combatentes chechenos, nem a população.

 

MOSCOVO APOSTA NO ESGOTAMENTO

 

A resistência checheno não chegará ao fim com o dispositivo militar russo: procura sobretudo preservar as suas forças afirmando a sua vontade de uma solução pacífica. Moscovo, na falta de uma vitória rápida, aposta no esgotamento demográfico e material da resistência para obter a extinção do conflito. As autoridades russas realizam grandes esforços para “chechenizar” o conflito, ou seja, fazer de modo que este último oponha os chechenos entre si. Curiosamente, as manobras visam simultaneamente dividir a elite chechena pró­‑russa.

 

Certos observadores falam de uma tentativa que visa enviar o problema para as gerações futuras. Isso não impede que Moscovo deva manter na Chechénia um dispositivo de segurança para proteger e salvaguardar os órgãos de poder leais para com a Rússia. Ainda que a resistência chechena fosse asfixiada, o conflito não estaria por isso resolvido. E a “pacificação” encalhará finalmente perante o sentimento de rejeição alimentado, na geração chechena actual e na seguinte, pela morte de 150.000 a 200.000 inocentes, sem esquecer a humilhação quotidiana da dignidade de todo um povo.

 

Uma verdadeira estabilização pressupõe uma reflexão que leva às origens e à evolução do conflito e tenha em conta as relações de forças assim como diversas sensibilidades na sociedade chechena. Exige a procura de vias de normalização de relações russo­‑chechenas aceitáveis de uma e outra parte. O único caminho que conduz ao fim desta tragédia, são negociações de paz entre os beligerantes.

 

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* Dirige o departamento de Sociologia da Universidade de Grozny.

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