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Ásia |
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09/01/2005 Devinder Sharma * Conforme as primeiras notícias da devastação causada pelas ondas assassinas do tsunami começavam a chegar, um jornalista do canal de televisão Aaj Tak’s Headline Today perguntou ao seu correspondente no cenário da destruição em Tamil Nadu no sul da Índia: «Alguma ideia dos prejuízos para os negócios? Podes descobrir, porque isso será mais importante para os nossos homens de negócios?» Mal podia o repórter ter uma ideia ou até saber que o desastre do tsunami, que eventualmente acabou por ser uma catástrofe, foi mais ou menos o resultado de negócios e economia tortuosos. A magnitude do desastre foi só exacerbada pelas políticas económicas neoliberais que puseram o crescimento económico acima da vida humana. Foi a consequência de um sistema económico insano – liderado pelo Banco Mundial e pelo FMI – que acredita na apropriação do ambiente, da natureza e de vidas humanas em prol de um crescimento económico insustentável para um poucos. Desde 1960, a região costeira asiática tem sido devastada pelas firmas de camarão largamente industrializadas que trouxeram a aquacultura não amiga do ambiente para o seu mar litoral. A cultura de camarão, que ascendeu a 8 mil milhões de toneladas por ano em 2000, já tinha provocado também estragos no frágil ecossistema. Esta indústria “destrói‑e‑foge”, como em tempos foi designada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), foi largamente financiada pelo Banco Mundial. Perto de 72% da cultura mundial de camarão está confinada à Ásia. A expansão do cultivo de camarão fez-se à custa dos mangues tropicais – entre os ecossistemas mais importantes no mundo. Cada acre de floresta de mangue destruído resulta numa perda estimada em 676 libras na colheita marinha. Os pântanos de mangues têm sido uma protecção natural para as regiões costeiras das grandes ondas, do desgaste do impacto dos ciclones, e servido de infantário para três quartos das espécies de peixes comerciais que passam parte do seu ciclo de vida nos pântanos de mangues. Em todo o caso os mangues eram um dos habitats mais ameaçados do mundo, mas em vez de replantar os mangues, as políticas económicas desastrosas apenas aceleraram o seu desaparecimento. Apesar dos avisos dos ecologistas e dos ambientalistas, o Banco Mundial fez-se de surdo.
O cultivo de camarão continuou a sua pândega destrutiva, devorando mais de metade dos mangues mundiais. Desde 1960, por exemplo, a aquacultura na Tailândia resultou numa perda de 65.000 hectares de mangue. Na Indonésia, Java perdeu 70% dos seus mangues, Sulawesi 49% e Sumatra 36%. Tanto que no momento em que o tsunami atacou em toda a sua fúria, companhias madeireiras estavam ocupadas a cortar mangues na província de Aceh na Indonésia para exportar para a Malásia e para Singapura. Na Índia, a cobertura do mangue foi reduzida a menos de um terço do seu tamanho original nas últimas três décadas. Entre 1963 e 1977, o período em que a indústria da aquacultura ganhou raízes, a Índia destruiu perto de 50% dos seus mangues. Comunidades locais foram desalojadas à força para abrir caminho para o cultivo de camarão. Em Andhra Pradesh mais de 50.000 pessoas foram obrigadas a partir e milhões deslocadas para dar lugar a cultivos de aquacultura. O que ficou dos mangues foi deitado abaixo pela indústria hoteleira. Apoiados e incitados pelo ministro do ambiente e florestas e pelo ministro da indústria, os construtores lançaram-se à devastação da linha costeira. Hotéis de cinco estrelas, campos de golfe, indústrias, mansões brotaram em todo lado desprezando as considerações dos ambientalistas. Estes dois ministros trabalharam sempre para diluir as normas da Coastal Regulation Zone (Zona de Regulação Costeira) assim permitindo aos hotéis ultrapassar o limite imposto de quinhentos metros que era suposto ser mantido ao longo da praia. Numa era de economia de mercado, os burocratas estão no mesmo campeonato dos industriais e dos grandes interesses empresariais. Por essa razão muita da responsabilidade pela morte em massa dos mangues é do governo e dos apólogos do livre comércio. O boom turístico na região Ásia‑Pacífico coincidiu com a tempestade destrutiva do crescimento do cultivo de camarão. Durante a última década, a procura turística e as respectivas receitas cresceram mais depressa do que em qualquer outra região do mundo, quase o dobro dos níveis dos países industrializados. Projecções para 2010 indicam que a região irá ultrapassar as Américas e tornar-se a região turística número dois no mundo, com 229 milhões de visitantes. O que está a ser projectado como um indicador de espectacular crescimento económico esconde os enormes custos ambientais que estes países têm sofrido e que terão de suportar no futuro. Nas duas décadas passadas, toda a linha costeira ao longo da Baía de Bengala, do mar Arábico e do Estreito de Malaca no Oceano Índico e ao longo de todo o Oceano Pacífico sul assistiram ao investimento massivo em turismo e hotéis. Myanmar e Maldivas sofreram muito menos com a farra devastadora do tsunami porque a indústria do turismo não tinha ainda estendido os seus tentáculos aos mangues virgens e aos recifes de coral que circundam a linha costeira. O grande recife de coral que circunda as ilhas Maldivas absorveu muita da fúria do tsunami por isso restringiu as perdas humanas a pouco mais de 100 mortos. O recife de coral absorve a fúria do mar ao quebrar as ondas. A tragédia no entanto é que mais de 70% dos recifes de coral do mundo já foram destruídos. A cadeia de ilhas de Surin na costa oeste da Tailândia similarmente escapou à devastação. Os anéis de coral que cercam as ilhas também receberam o mesmo choque das ondas furiosas mas mantiveram-se firmes e desse modo ajudaram a quebrar o poder letal do tsunami. Os mangues ajudam a proteger os recifes de coral costeiros por filtrarem os fluxos de sedimentos que vão da terra para o mar. O crescimento do turismo, ainda que com o nome de ecoturismo ou turismo de lazer, dizimou os mangues e destruiu os recifes de coral. Se somente os mangues estivessem intactos, os danos do tsunami podiam ter sido grandemente minimizados. Os ecologistas dizem que os mangues provêem dupla protecção. A primeira camada de mangues vermelhos com as suas ramificações flexíveis e as suas raízes enredadas nas águas costeiras absorvem o primeiro embate das ondas. A segunda camada de mangues pretos altos funciona como uma parede resistindo muito à fúria do mar. Os mangues, ademais, absorvem mais dióxido de carbono por unidade de área do que o fitoplâncton oceânico, um factor crítico no aquecimento global. Aconteceu mais cedo no Bangladesh. Em 1960 um tsunami atingiu a costa numa área onde os mangues estavam intactos. Não houve uma única perda humana. Esses mangues foram subsequentemente deitados abaixo e substituídos por culturas de camarão. Em 1991, milhares de pessoas morreram quando um tsunami da mesma magnitude atingiu a mesma região. Em Tamil Nadu, no sul da Índia, Pichavaram e Muthupet com densos mangues sofreram baixas perdas humanas e menos danos económicos com o tsunami de 26 de Dezembro. Antes, os famosos mangues de Bhiterkanika em Orissa (que também é onde as tartarugas olive-ridley pôem os ovos) tinham reduzido o impacto do “super ciclone” que tinha atacado em Outubro de 1999, matando 10.000 pessoas e deixando milhões sem casa. O epicentro do tsunami assassino de 26 de Dezembro foi perto da ilha Simeuleu, na Indonésia. O número de mortes nessa ilha em particular foi significativamente baixo, simplesmente porque os habitantes têm o tradicional conhecimento sobre tsunamis que inevitavelmente acontecem depois de um terramoto. Na ilha Nias, que está perto da ilha Simeuleu, os mangues funcionaram como uma parede salvando as pessoas da destruição. O desafio, portanto, para os países em desenvolvimento é aprender com as tecnologias testadas pelo tempo que foram aperfeiçoadas pelas comunidades locais. Olhemos agora para a vantagem comparativa de proteger o ambiente e portanto reduzir a destruição provocada pela economia de mercado orientada pelo crescimento. Tendo-se multiplicado por dez nos últimos quinze anos, o cultivo de camarão é agora uma indústria de 9 mil milhões de dólares. É estimado que o consumo de camarão na América do norte, no Japão e na Europa ocidental cresceu 300% nos últimos dez anos. A onda de destruição maciça causada pelo tsunami de 26 de Dezembro que atingiu 11 países da Ásia ultrapassou sozinha os ganhos económicos que a indústria do camarão tantas vezes afirmou ter obtido. Com mais de 150 mil mortos, a desgraça social e as perdas económicas levarão algum tempo para serem contabilizadas. Os governos mundiais prometeram até agora 4 mil milhões em ajuda. Isto não inclui os milhões que estão a ser despendidos pelas agências de socorro. O Banco Mundial considerou ademais aumentar o pacote de ajuda para 1500 milhões de dólares. Já foram disponibilizados (em 10 de Janeiro de 2005) 175 milhões e o presidente do banco James Wolfensohn foi citado como tendo dito: «Podemos subir de 1000 milhões para 1500 milhões dependendo das necessidades». Além disso, o Programa Alimentar Mundial (WFP) planeia alimentar cerca de 2 milhões de sobreviventes nos próximos seis meses. A operação de alimentação custará cerca de 180 milhões de dólares. Se apenas os sucessivos presidentes do Banco Mundial tivessem sido refreados de promoverem agressivamente políticas destrutivas para o ambiente mas amigas do mercado, muitas vidas humanas podiam ter sido salvas. O que é que o mundo ganhou em apostar nas reformas de mercado e em olhar com extremo desprezo para o ambiente e para as vidas humana? Pode Wolfensohn justificar o apoio financeiro aos sectores da aquacultura e turismo apresentando o balanço dos custos e benefícios, incluindo os custos sociais envolvidos? Tome-se os campos de camarão, por exemplo. O ciclo de vida de um campo de camarão é de dois a cinco anos no máximo. Os viveiros são depois abandonados deixando para trás lixo tóxico, ecossistemas destruídos e comunidades deslocadas, aniquilando meios de subsistência. O cultivo desenvolve-se à custa de ecossistemas naturais, incluindo os mangues. O mesmo ciclo de destruição é então repetido noutras zonas costeiras imaculadas. Foi estimado que as perdas económicas devido ao cultivo de camarão são aproximadamente cinco vezes os seus potenciais ganhos. O turismo não é melhor. Kerala no sul da Índia, divulgada como a “terra de deus”, destruiu os mangues numa tentativa desesperada para atrair os turistas. Só depois da razia do tsunami é que o governo do estado foi rápido a anunciar um projecto de 340 milhões de rupias destinado a proteger a linha costeira de Kerala contra a fúria do mar. Outros destinos turísticos da Ásia serão agora provavelmente repensados. Portanto, a questão que precisa ser feita é se precisamos de retirar um pesado fardo humano antes de percebermos a loucura de macaquear cegamente a lengalenga da estúpida economia de mercado? Quantas mais pessoas queremos que morram e quantos mais milhões queremos que fiquem sem casa antes de percebermos o grave erro de insistir na economia de mercado? Quem vai responsabilizar estes economistas do mercado livre pelas perdas humanas e sofrimento? _________ * Devinder Sharma é um analista de política alimentar e de comércio com base em Nova Deli. Entre as suas obras estão GATT to WTO: Seeds of despair [Do GATT à OMC: Sementes de desespero] e In the famine trap [Na armadilha da fome]. O seu email é dsharma@ndf.vsnl.net.in. |
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