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30-31/10/2004 Brian Cloughley Poucas vezes se pode sofrer
um tremendo ataque de riso ao ler um depoimento ante o Comité de Relações
Internacionais da Câmara de Representantes dos EU. A maioria dessas
deposições são pomposas e aborrecidas e quase ninguém lê o material. Mas o
depoimento em Julho ante o Subcomité sobre o Médio Oriente de Mira R
Ricardel, subsecretária adjunta interina do Secretário de Defesa para a
Política de Segurança Internacional, foi diferente. Foi pomposo,
evidentemente; mas alguns dos detalhes estiveram longe de ser aborrecidos. O tema da declaração jurada
da Sra. Ricardel foi o Uzbequistão, e ela produziu uma farsa moral que numa
primeira leitura pode parecer uma sátira: talvez uma caricatura exuberante e
muito divertida do que os depoimentos ante o Comité da Câmara tão
frequentemente são. Por desgraça, não pretendia ser uma paródia. Mas por que
haveria alguém do pessoal de Rumsfeld testemunhar ante a Câmara sobre um país
na Ásia Central? A administração Bush afirma
que o Uzbequistão é vital para a segurança dos EU porque aluga uma imensa
base militar às forças militares dos EU. Em consequência, a Sra. Ricardel
entusiasmou‑se na sua deposição escrita dizendo que é «um valorizado
sócio e amigo dos Estados Unidos», nada menos. É certamente o caso, mas o
facto desagradável é que o Uzbequistão é uma brutal e desapiedada ditadura
sem a menor pretensão de ajustar-se a padrões civilizados de decência. Bush
outorga um apoio total ao seu governante apesar de o Departamento de Estado
informar em 2003 que o Uzbequistão «não possui um sistema judicial ou
legislativo independente, não tem uma oposição legal, nem meios de
comunicação livres», enquanto o regime «continuou a cometer numerosos abusos
graves», e «tanto a polícia como o NSS [Serviço Nacional de Segurança; o
antigo KGB sob quase a mesma chefia] torturou, espancou e maltratou detidos
para obter confissões ou informação incriminante». Mas ordenaram ao Departamento
de Estado que fosse realista e que subisse a bordo do barco pró-Uzbequistão
da administração. De repente, no Relatório de 2004 do Departamento de Estado
sobre o Uzbequistão, as coisas mudaram. Ó se mudaram! Claro que não podia ser
uma limpeza total, porque isso teria atraído uma atenção desfavorável e a
zombaria, como sucedeu quando as cifras de incidentes terroristas foram
falsificadas para Bush na primeira versão do Relatório sobre Modelos do
Terrorismo Global de 2004. Mas houve manipulação e adulteração e a nova
edição anuncia brilhantemente que «os Estados Unidos apreciam o Uzbequistão
como uma força estável, moderada, numa região turbulenta. Os Estados Unidos
urgem maiores reformas para promover a estabilidade e a prosperidade a longo
prazo. O registo de partidos políticos independentes e de organizações não
governamentais de direitos humanos, seria um passo importante. O governo
registrou a Organização Independente de Direitos Humanos do Uzbequistão em
Março de 2002. Um ano depois, em Março de 2003, o governo registrou uma
segunda organização de direitos humanos, Ezgulik. Também são necessárias a
aplicação das garantias constitucionais que protegem as liberdades pessoais,
religiosas, da imprensa e cívicas». Este é o tipo de palavrório
intelectual desonesto que a marioneta falante Mira R Ricardel apoiou ante o
Subcomité da Câmara. Mostrou-se efusiva num grau extraordinário ao falar
sobre o lugar. «O Uzbequistão está a fazer um significativo progresso na
reforma do seu exército de estilo soviético. De facto, em muitas áreas serve
como modelo para outros países da região. Único, entre os estados da Ásia
Central, o Uzbequistão nomeou um ministro da defesa civil e estabeleceu um
firme controle civil dos militares. Sob a direcção do ministro de defesa
Gulamov [sic; o seu nome é Qodir Ghulomov], o ministério uzbeque de defesa
iniciou planos de reforma da defesa para treinar, equipar e utilizar as suas
forças seguindo orientações da NATO». Em Agosto de 2002, a Human
Rights Watch registou mais de 6.500 prisioneiros religiosos e políticos no
país. A camarilha dirigente é decadente, corrupta e repressiva. O código
legal é uma farsa, e a população sofre uma repressão draconiana da parte de
uma maligna autocracia cujo compromisso declarado com os direitos humanos é
uma burla obscena da verdade. O dono do Uzbequistão é um
rufião corrupto e cruel chamado Islam Karimov. Não é um muçulmano, apesar do
seu nome, e foi Primeiro Secretário do Comité Central do Partido Comunista
Uzbeque. Quando a URSS finalmente entrou em colapso, despachou o comunismo e
declarou a independência. Depois chegou à liderança numa contenda em que os
partidos de oposição ou não puderam participar ou foram perseguidos
criminalmente pela polícia e outros facínoras. Em 1992 proibiu os principais
partidos de oposição e encarcerou os seus dirigentes, no seguimento do que a
sua antiga organização comunista, ridiculamente rebaptizada Partido
Democrático Popular, ganhou as eleições. O período de governo de Karimov foi
ampliado por cinco anos mediante um referendo em 1995, e em 2000, numa
votação igualmente desonesta, foi “reeleito” presidente. (Observadores
independentes descreveram o espectáculo como “nem livre nem justo”, o que é
discurso diplomático para algo totalmente amanhado). O indivíduo é um tirano
mafioso com sangue nas suas mãos. Assim, foi naturalmente
convidado para a Casa Branca. Depois de se reunir com Bush e Rumsfeld,
visitou o Congresso. Segundo o comunicado de imprensa: «Quando entrou Islam
Karimov, os senadores puseram‑se de pé e ovacionaram‑no
prolongadamente. Assinalaram que as relações do Congresso com o Uzbequistão
mudaram consideravelmente devido ao rápido apoio do Uzbequistão à coligação
anti‑terrorista, não já limitado a apoiar o seu papel na segurança
regional, mas em defender princípios de democracia e liberdade». Um maligno, repugnante,
bárbaro ditador que não permite «um sistema judicial ou legislativo
independente, nem uma oposição legal, nem meios de comunicação livres» foi
honrado por Bush e recebeu uma ovação de pé de gente que não seria capaz de
encontrar o seu país num globo (...), porque forneceu uma base para a invasão
do Iraque. Para Bush, ele não pode fazer nada mau e, deixando de lado toda a
evidência do contrário, Washington professa a crença de que ele está a
«defender princípios de democracia e liberdade». Este quadro vergonhosamente
distorcido do Uzbequistão foi fielmente convertido num depoimento ante o
subcomité da Câmara pela Sra. Mira R Ricardel. Deveria receber um lugar na
Galeria de Personagens Famosos como uma covarde apologista de um regime que
não valoriza nem a verdade, nem a decência ou o estado de direito. E a coisa
verdadeiramente engraçada é que a Sra. Ricardel foi anteriormente vice‑presidente
de programas na Freedom House
[Casa da Liberdade] que se descreve como uma «organização sem fins
lucrativos, não partidária» que é «uma voz clara pela democracia e pela
liberdade», e que, como corresponde, produz relatórios sobre o progresso da
democracia e da liberdade em todo mundo. O relatório da Freedom House
de Abril de 2004 concluiu que o Uzbequistão é um dos estados mais
politicamente repressivos do mundo, tendo perpetrado «graves violações» dos
direitos humanos e das liberdades religiosas. Três meses mais tarde, essa
antiga luminária da Freedom House, a Sra. Mira R Ricardel, declarou
orgulhosamente que «Temos estado a trabalhar estreitamente com o Ministério
da Defesa para apoiar os objectivos do Uzbequistão na ocidentalização do seu
exército... está a fazer um significativo progresso na reforma do seu exército
de estilo soviético. De facto, em muitas áreas serve como modelo para outros
países da região». Como nas eleições amanhadas, na tortura dos seus cidadãos,
na proibição de jornais e na perseguição dos opositores políticos. É
surpreendente como os princípios se evaporam quando o perfume sedutor do
progresso na carreira é farejado por farsantes bajuladores. O ministério dos negócios
estrangeiros britânico declarou (em 28 de Setembro de 2004) que «O historial
de direitos humanos do Uzbequistão é pobre... os partidos políticos de
oposição estão proibidos ou são impedidos de se registrarem... A tortura é
uma preocupação particular... O Relator Especial da ONU para a tortura
visitou o Uzbequistão... e disse que era “sistemática”». Mas depois, também o
ministério mudou de tom e em Outubro destituiu o embaixador que tinha
informado que a tortura era permanente e que era realizada com o
encorajamento da administração Bush. (O embaixador foi alvo de uma campanha
de malvado vilipêndio do tipo em que os lacaios de Tony Blair têm uma
venenosa experiência em levar a cabo. É uma forma de arte, realmente, mas a
um nível sórdido. As acusações contra ele eram bagatelas sem valor, mas a
lama pegou. Uma operação brilhante.) (Poderia acrescentar que não tenho tempo
para o indivíduo, que nunca deveria ter chegado a embaixador em primeiro
lugar; mas foi tratado de maneira repugnante e sacrificado no altar da
lealdade de Blair a Bush.) Mas nada disto importa a Bush
e Washington porque o ditador Karimov tem o gosto de receber bases militares
dos EU no seu território feudal, sendo este o motivo de uma repugnante farsa
em que Bush celebrou Karimov de um modo que não é dispensado a muitos líderes
de democracias. Os dirigentes da França e da Alemanha
foram eleitos em escrutínios abertos e legais. Os seus governos não praticam
a tortura. (Os facínoras de Karimov efectivamente ferveram duas pessoas
vivas, segundo um relatório oficial britânico). Têm partidos políticos de
oposição e os seus meios de comunicação são totalmente livres. Mas não são
bem-vindos na Casa Branca porque se atreveram a estar em desacordo com
algumas políticas de um presidente dos EU cujos valores morais estão tão
grosseiramente pervertidos que autocratas criminosos são elogiados enquanto
líderes democráticos e as suas nações são vilipendiados e insultados. «Vocês
estão connosco ou com os terroristas», diz Bush, e se os tiranos aceitam
incondicionalmente o seu jogo, eles e outros brutais canalhas serão
bem-vindos nos palácios da liberdade, não importa quantas pessoas tenham
cozido vivas. Bush é um fervente confrontacionista, mas não confrontará
ditadores opressores se são pró‑Bush. O Uzbequistão tem um tratado
com os EU formulado em termos tão ofuscantemente surreais que temos de nos
perguntar se não é na verdade uma anedota descomunal. A “Declaração sobre a
Associação Estratégica e o Marco de Cooperação entre os Estados Unidos da
América e a República do Uzbequistão” é um documento absurdo: um bizarro
relambório de patranhas, baseado em circunstâncias que não existem. No acostumado estilo
senhorial pontifica que «ambas as Partes reafirmam o seu compromisso com os
objectivos legais e os princípios da Carta das Nações Unidas... bem como com
os princípios do direito internacional e dos direitos humanos». Isto é
grotesco. Mesmo a administração Bush não pode possivelmente acreditar que o
torturador assassino Karimov tenha o mais minúsculo «compromisso com os
princípios de direitos humanos». E depois o tratado declara que «ambas as Partes
esperam um progresso concreto» no «melhoramento das instituições
democráticas... estabelecendo um autêntico sistema multipartidário ...
assegurando eleições justas e livres... [e] assegurando a independência dos
meios de comunicação». Este palreio foi assinado em
Março de 2002. Sabem o que ocorreu desde então no que diz respeito à melhoria
da democracia ou à criação da independência dos meios de comunicação, ou
alguma coisa decente no Uzbequistão? Claro que sabem. Nada. Nada de nada. A
Human Rights Watch assinala que «Os meios de comunicação no Uzbequistão
operam sob estritas restrições governamentais. A liberdade de imprensa está
severamente limitada por um regime
não oficial de censura... Não existem meios noticiosos locais
independentes». A Freedom House informa que «jornalistas críticos são com
frequência acossados, ameaçados de morte e de violência física». Esta é uma
situação que merece a total aprovação de Bush e do Pentágono e obviamente da
Sra. Mira Ricardel, anteriormente da Freedom House e agora subsecretária
adjunta interina do Secretário de Defesa para Política de Segurança
Internacional, que declara que «o Uzbequistão é um valorizado sócio e amigo
dos Estados Unidos», enquanto o seu líder, Karimov (uma «força estável,
moderada»), continua a reprimir as pessoas do seu país com um entusiasmo
selvagem. Karimov é um vigarista
fedorento e criminoso que utiliza a tortura e o assassinato como instrumentos
de política estatal, mas não é estúpido. É a pessoa mais rica da Ásia
Central, e sabe exactamente donde vem o seu apoio, e não é dos cidadãos do
Uzbequistão. Pode cometer todos os crimes que queira e Bush pagar‑lhe‑á
e protegê‑lo‑á, sempre que o Pentágono possa manter a sua base
militar no seu país. Na última “Reunião do
Conselho Conjunto de Cooperação na Segurança” entre os EU e o Uzbequistão em
Washington foi declarado que «a parte uzbeque reafirmou o seu compromisso com
a transformação democrática da sociedade», o que é lixo completo. E Bush disse no seu discurso
sobre o Estado da União que «a liberdade é o direito de cada pessoa e o
futuro de cada nação», o que também foram tretas para aplauso sem sentido.
Quando lhe convém ignora a tortura e a repressão, e o resultado é que o
ditador assassino do Uzbequistão goza do lucrativo patrocínio do Pentágono.
Bush é um hipócrita arrogante e mendaz, e a sua mensagem internacional é
clara: Ditadores do mundo, votem em Bush para vossa sobrevivência e
prosperidade pessoal. ____________ Brian Cloughley escreve sobre assuntos militares e políticos. Pode ser contactado na sua página www.briancloughley.com. |