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29/10/2004 Antoaneta Bezlova O apetite de China por
matérias-primas provoca preocupação mundial, não só porque faz aumentar os preços
de produtos básicos, mas também porque o gigante da Ásia decidiu usar as suas
divisas para adquirir empresas estrangeiras extractoras de recursos naturais.
Para alguns, a preocupação é de natureza ambiental e económica. Outros preocupam‑se
pelos estreitos vínculos entre o governante Partido Comunista chinês e as grandes
empresas que investem no estrangeiro e, assim, ganham grande influência em
outros países. Essas preocupações manifestaram‑se na reacção no Canadá
pela oferta de um consórcio chinês para adquirir a Noranda Inc., a maior e mais
antiga companhia de mineração do país, ao preço de 5.600 milhões de dólares. O acordo dará a Pequim o
controle de uma das mais respeitadas empresas canadenses, com depósitos
estratégicos de zinco, cobre, níquel e outros minerais. Se a compra for
concretizada, os 15 mil empregados da Noranda em todo o mundo passarão ao
controle do consórcio chinês. Alguns jornais canadenses pediram ao governo
que bloqueie o acordo devido aos antecedentes da China em matéria de direitos
humanos. «Existe uma questão moral aqui», escreveu o colunista Peter Foster,
no National Post, de Toronto. Outros alertam que não seria saudável a
China obter tanta influência doméstica nem controle sobre os empregos de
canadenses. A empresa China Minmetals
Corp. fez a oferta representando um consórcio que inclui outras quatro
companhias: Baoshan Iron and Steel, Citic Investment Corp., Jiangxi Copper e
Taiyuan Iron and Steel. Concretizada a compra, este será o maior investimento
da China no estrangeiro e fará pequeno o seu investimento externo directo no
Canadá, de 400 milhões de dólares no ano passado. «As aquisições no
estrangeiro são um aspecto da campanha da China para se transformar numa
potência política, económica e militar», diz um editorial do jornal Toronto
Star. «Entretanto, o sistema político da China continua a ser de partido
único, dominado por uma pequena elite comunista. A Minmetals não responde aos
seus accionistas, mas ao governo, directamente», acrescenta a nota. Outros críticos advertem que
o Canadá poderia fechar os olhos às violações de Pequim contra os direitos
humanos e recordaram que o governo da Austrália calou as críticas aos abusos
na China desde que esse país se transformou no seu cliente mais importante de
minério de ferro e gás natural. Até agora, a China investiu 6.000 milhões de
dólares em empresas de gás e petróleo em todo o mundo, segundo o Diário do
Povo, órgão do Partido Comunista. Por outro lado, empresas chinesas
investiram cerca de 33.000 milhões de dólares em indústrias baseadas em
recursos minerais, que estão em rápida expansão e requerem cada vez mais
matéria-prima. Muitos estão preocupados
pelos estreitos vínculos entre empresas investidoras e o governo da China. A
Minmetals, por exemplo, conta com o apoio financeiro do estatal Banco de
Desenvolvimento da China para a compra da Noranda. Outros preocupam‑se
mais com as consequências ambientais do desmesurado consumo de recursos
naturais pelo país mais povoado do mundo, com 1,3 biliões de habitantes. A
frota pesqueira chinesa, a maior do mundo, é acusada de pesca em excesso, não
só no litoral da China como, também, na região, o que causou tensões com as Filipinas,
o Vietname e o Japão. Grande parte da redução dos bancos de pesca e da
captura mundial é atribuída ao voraz apetite da China pelos recursos
marinhos. Por outro lado, a procura
chinesa de madeira gerou uma superexploração e exportação desse recurso na
Birmânia, Tailândia, Laos e Indonésia. As importações de madeira birmanesa
pela China somaram um milhão de metros cúbicos em 2002, e segundo a
organização ambientalista britânica Global Witnes, teria chegado a 1,4
milhões no ano passado. Como resultado, enormes áreas de florestas tropicais
de antigo crescimento desapareceram da Birmânia. A crescente procura chinesa
também provocou aumento no preço dos metais este ano. O cobre atingiu este
mês o seu preço máximo em 15 anos e o níquel chegou, em Janeiro, ao seu pico
em 14 anos. A necessidade de metais
também levou a China a procurar acordos com países como a Índia, a Mongólia e
o Chile, onde as empresas de mineração chinesas nunca tiveram uma forte
presença. Em Junho, a companhia Jiangxi Copper anunciou a sua intenção de
participar de um empreendimento canadense na Mongólia e comprar a mina de
cobre de Saindak, no Paquistão. A Minmetals também negoceia uma empresa
conjunta para explorar jazidas no Chile. A crescente procura da China também
causou este ano escassez mundial de cobre e níquel. O consumo mundial de
cobre nos primeiros sete meses de 2004 superou a produção em 710 mil
toneladas, uma diferença duas vezes maior do que a de 2003. Esta tensão sobre as
limitadas reservas de produtos básicos é mais visível no mercado do petróleo,
cujos preços estão no seu pico histórico, mas de facto, faz‑se sentir
em todos os sectores. Por exemplo, a procura da China fez aumentar os preços
do mineral de ferro e do carvão de coque a um recorde histórico, privando as
companhias de aço do Japão (alguma vez as maiores compradoras de produtos
básicos) da capacidade de fixar os preços. A firma financeira Merrill Lynch
estimou que os fabricantes de aço japoneses estabelecerão no próximo ano um
aumento de preços de até 22%. Por outro lado, calcula-se que o preço do coque
aumentará cerca de 54%. Num esforço para se opor à
crescente competição da China por matérias-primas, as companhias de aço da
Índia estão a voltar‑se para projectos de gás e mineração. Por
exemplo, a Autoridade do Aço da Índia e a Tata Steel, os maiores fabricantes
de aço do país, planejam utilizar mais gás nos seus fornos e comprar mais acções
de minas de ferro e carvão. Mesmo com preços altos, a competição pelos
produtos básicos é feroz, especialmente porque se prevê que a procura chinesa
continuará a crescer. Segundo a Comissão Estatal de Desenvolvimento e
Reforma, as medidas de Pequim para esfriar a economia estão a dar resultados,
mas a procura de carvão, petróleo e energia em geral continua a exceder a
oferta. «Prevemos uma exigência de recursos ainda maior no próximo inverno»,
disse Cao Yushu, porta-voz da Comissão. |