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Março 2005 Jean‑Jacques
Varoujan * Na origem de todas as
diásporas encontra-se sempre um acontecimento traumático. As vítimas do
primeiro genocídio do século XX foram os arménios. Preparado pelos massacres
de 1894‑1896, o genocídio foi perpetrado durante a Primeira Guerra
Mundial, em 1915, pelos milicianos do partido turco União e Progresso, por
ordem dos dirigentes dessa organização e com a cumplicidade de oficiais
alemães incorporados no exército. Foram exterminados dois terços dos arménios
da Turquia – cerca de 1,2 milhões de pessoas. Noventa anos passados, vivem na
sua República independente 3 milhões de arménios, mas são quase 6 milhões os
que estão disperses pelo mundo: Médio Oriente, Rússia, Europa, Estados Unidos...
É esta memória do exílio que aqui é reavivada pelo escritor Jean-Jacques
Varoujan. É preciso mudarmos de olhos,
recomenda Sófocles. Porém, como agir perante certas cenas? Uma simples
sequência de retratos mergulha‑nos na dor. Vejo-me quando tinha sete
ou oito anos e isso desespera-me. Nunca teria querido que morresse, que se
sumisse, que se esvanecesse nos fiapos do tempo o garoto de calções que já
fui. Nunca poderei aceitar que a cadelita que está aos pés da minha avó tenha
visto o que viu, sem poder defender-se, sem poder ladrar aos assassinos do
seu dono. O filho do exilado para si
mesmo diz: nunca verei o que não vi, tudo quanto me tiraram, de que só sei
pelo que ouço contar, pelo que dizem, pelo que choram, pelo que cantam. Onde está o erro? Onde reside
o terrível busílis? Nestas ruas, nestas árvores, nestas campas revolvidas,
nesta multidão que num 24 de Abril se manifesta para clamar alto e bom som:
eles morreram para que nós vivêssemos! Acrescentando o fotógrafo: e para que
o não esquecêssemos.
Mas poder-se-á esquecer? Como
esquecer os acontecimentos, tantas vezes trágicos, por vezes resultantes de
crimes, que levaram todo um povo a deixar as suas terras? E sempre esta
incompreensão, esta questão lancinante: porquê eu? Que erro cometi? Que
deveria eu não ter feito, que deveria eu ter feito? Calar‑me,
desfigurar‑me, renegar‑me? E se as causas dos genocídios, das
execuções sumárias, dos desterros, dos massacres de 1915 na Anatólia Oriental
se devessem à insolente beleza da minha língua, tão diferente, à inviolável
beleza do meu país, onde os sorrisos, os risos, as danças, os cânticos, as
rezas têm muitos séculos de existência, se tudo isso se devesse a tantos cristos
na cruz? O meu desejo de liberdade, diz ainda a si mesmo o exilado, a vontade
de viver a minha fé, levaram os bárbaros a fazer pior, dia após dia, até ao extermínio
e destruição do que não é tajique – ali, vermelho ou ainda ariano –, de tudo
o que pudesse testemunhar... Depois de ter massacrado a grande
maioria dos infiéis e dos resistentes e dos fedayin, e depois de ter
levado os ilesos a fugir, o ocupante turco, o ocupante alemão, o ocupante
chinês. todos eles privaram os sobreviventes da natural felicidade de serem
arménios, judeus, tutsis ou tibetanos. Essa felicidade, essa alegria, jamais
voltarão por completo, porque no novo país onde se encontram eles se tornaram
outros. Segunda pátria, é costume dizer‑se, como se fôssemos filhos de
dois pais. Onde quer que esteja, faça o
que fizer, seja o que for que vir ante os seus olhos, o olhar do exilado
volta-se para o passado vivido, para o momento anterior à sua morte moral. Sustenta-se
das imagens que não pode olvidar, da fotografia dos parentes, mesmo que estas
imagens, estas fotografias, se encontrem na sua cabeça e a sua consciência
esteja adormecida. Acaso alguém transporta a pátria
na sola dos sapatos?, exclamou Danton ao proporem-lhe o exílio voluntário
para escapar à morte. Sim, cavalheiro, sim,
cidadão, sim, camarada, nós transportamos sempre qualquer coisa. Mas o quê? Uma
realidade que o tempo acaba por transformar em quimera, em pura miragem. Em
loucura. E pomo‑nos então a contar aquilo que já fomos, a mostrar o
que restou da casa, da igreja ou da rua para escapar a uma morte ainda pior. Acaso diremos nós aos ossos
de nossos pais: erguei-vos e segui-me para uma terra estrangeira! Quantos romanos, outrora,
preferiram a morte ao exílio! Quantos proscritos viveram como mortos numa
terra de recurso! O meu avô Garabed nunca mais falou depois de ter
desembarcado em França, e a bem dizer nunca mais o vi sorrir. Sempre fechado
em si mesmo. Dobrado para dentro. O seu leit-motiv interior, o seu
tiquetaque de todos os dias, era este: que faço eu aqui? Aqui onde nos
primeiros tempos tive de pedir ovos ao merceeiro de Alfortville perguntando «Amane
oeuf?» e, sem poder explicar-me, imitando o som dum galináceo, “cró‑cró”. De nossos amores que há-de
restar quando vivemos longe do nosso próprio país, longe dos nossos, dos que
lá morreram, da aldeia, das montanhas, das galinhas e coelhos? Restará a
memória. A não ser, e isso acontece, quando não é a nossa que regressa. Ao
fim de certo tempo, é forçoso admiti-lo, essa memória é mais ou menos feita
de narrativas, de histórias que nos foram contadas, vividas em sonhos
inexplicados, também elas mais ou menos inventadas, alindadas ou enegrecidas
com lendas de permeio, talvez até com efabulações... Na realidade o que resta
são imagens. Umas quantas fotografias salvas não se sabe como, achadas no
fundo duma mala velha que levámos muito tempo a abrir, sempre à espera do
regresso, segundo críamos, ao país da origem. Sobretudo aquelas, tiradas mais
tarde, nos lugares do exílio, de gente desenraizada, por vezes desconhecida,
embora com nomes apontados no verso, com nomes que nada dizem. Com nomes
mudos. Restam os olhos que continuam
em busca, sem muitas vezes conseguirem agarrar-se a uma realidade que não lhes
é própria – mas de onde virá o sorriso que às vezes neles paira? Há lutos a que
só sobrevivemos sorrindo. Deixamos de saber muito bem quem estamos a ver – o
olhar turva-se-nos ao vê-los. Nem sempre é o tio, a avó, um amigo de
infância... Arrancados como foram à sua própria identidade, já não se trata
de um homem nem de uma mulher – mas porventura do ser que não se pode
trucidar, mesmo a golpes de cimitarra. De nossos amores que resta? Tendo
perdido toda a pertença a uma identidade reconhecida, documentada, na melhor
das hipóteses aproximamo-nos do que em nós ainda resta de essencial, despojado
dos seus ouropéis, dos sinais, dos rótulos que nos levam a ser como ninguém,
como éramos no primeiro dia, antes de saber, antes de obedecer às regras
estabelecidos, antes de ter de suportar os certificados de origem, as marcas
do contraste.
Mas os jovens rebentos não
partilham esta opinião. Quando o exilado evoca “o
país” diante dos filhos... – “O que é isso, o nosso país?”, replica logo o
filho. E o pai, boquiaberto, fica sem sopro de voz. Pregado ao chão. – “Não estamos em Kharpet!”,
exagera a filha. – “Cala-te lá ou apanhas uma
lambada!” (à letra: comes uma lambada). – “Mas eu sou francesa!”,
protesta uma miúda arménia num filme de Isabelle Ouzounian, Le Jardin de
Khorkom. É este o mais terrível
castigo que o emigrado tem de suportar, o mais terrível grito da sua
progenitura – como um espinho penetrando-lhe na carne, uma morte sem crime,
sem ninguém para desferir o golpe fatal. E no entanto é outra vida que assim
se manifesta. O nascimento para uma outra vida. Um nascimento enquanto morre
uma parte – mas qual? – do coração desfeito. Que restará do homem que
somos, quando esse homem se vê num campo de refugiados, numa tão provisória
situação, num tal anonimato? Ou numa cidade, num bairro, numa rua onde não
conhece vivalma, quando ele próprio é uma alma morta? Onde ninguém fala a sua
língua, numa casa desabitada, debaixo de um céu onde o azul é outro – onde só
os pássaros, que não sabem das diferenças que entre os homens há, cantam,
segundo ele crê, para lhe trazerem notícias do país...
Qual será esse algures
distante que o seu olhar cavado busca, escondido nos seus olhos desvairados,
negros e cegos? Um espelho acusador? A súplica duma vítima? O que ele busca
não é somente o seu passado, os antigos, o rosto e as palavras dos
antepassados, é também e sobretudo as crianças que foi preciso abandonar,
executadas no sítio onde se encontravam ou sequestradas por canalhas antes de
partir, os corpos não identificáveis que o mar em vagas sucessivas restitui
ou que as águas furiosas do Eufrates levam. Todos os exilados do mundo
têm as mesmas imagens interiores, reflexos do país que foi o seu. Este homem,
longe da sua terra, exilado de si mesmo, passa a ser outro. Um quase nada. Que
futuro é o seu? Às vezes, muitas vezes, o conforto, uma boa situação,
prazeres furtivos, paixões fugazes, mas o seu futuro estará sempre naqueles
seus “outrora e antigamente”, a sua riqueza naquilo que perdeu. Estrangeiro
no estrangeiro, torna‑se um estranho no seu país, caso lá possa voltar
como turista. Além disso, terá durante toda a vida um sentimento de culpa que
por certo não merece. Porquê, porquê? – a si mesmo pergunta repetidamente. Os bárbaros otomanos odiavam
os cristãos que haviam subjugado, porque estes sem cessar lhes mostravam, com
o seu silêncio, com a sua secreta existência, e também com o sorriso que
traziam nos lábios, quem eles eram, uns bárbaros otomanos ou nazis, e porque
os forçavam assim a desvendar-se, a mostrar-se como de facto eram. Para continuar em sintonia
com Mustafá Kemal... Vamos “armenizar” os judeus, anunciou Hitler em 1923,
numa reunião que decorreu na sala interior dum café de Viena. Bem-vindo ao
gang. Um judeu, um arménio, um
grego da Turquia ou um tibetano são pessoas que não podem, ainda que
furtivamente, passar um dia sem sentir, sem que lhes salte aos olhos quem
eles são, mesmo que nesse momento não se interroguem sobre o que significa
ser arménio, judeu ou tibetano. Para remediar a sinistra realidade inversa,
possível, basta-lhes mergulhar – bom proveito... –, todos os dias antes de
morrer, nas páginas do grande livro onde permanecem, naquelas suas imagens
amiúde sem legendas. Todos os dias para não morrerem. Basta a cada um deles
lembrar-se deste ou daquele dos seus que faleceu falando uma língua, a sua,
que ninguém em seu redor pôde entender. Por que razão terá Tchekhov dito
estas derradeiras palavras: «Ich sterbe»? [1] E Tolstoi terá podido
perguntar a si mesmo: Como morrem os exilados? Não é apenas o desejo de
viver que podemos ler no rosto das crianças, dos anciãos ou das mulheres que
são uma espécie de olvidados, é o facto de a vida serem eles próprios. Porque
é talvez aí que a vida está. E não só a de agora e não só aquela que levamos,
a que nos faz dizer, de forma um pouco tola, a cada reviravolta: é a vida! É
nisso que se encontram as verdadeiras razões de crer, sem sabermos
exactamente – mas pouco importa – em quê. Para quê. Vemos por toda a parte esta
eternidade do ser exilado, a sua universalidade, e isso encontra-se às vezes
nas imagens paradas, materiais. Numa rua de Alepo, a rua Barão, aonde chegou
o medonho telegrama de Talaat com a ordem para se exterminar um povo inteiro.
No Karabakh, quando se enterram os velhos, sobre os quais nos debruçamos uma
última vez. Que água bebe esta jovem de Ierevan, a água que ela colhe nas
mãos? De que lado olham estas mulheres enlaçadas, na fronteira, vindas de um
lado, nascidas do outro? Para nos conservar no coração
do Mistério, restará sempre o ser. «O homem por pouco inferior a Deus», diz
David (salmo 8.5). O ser, nascido antes de todas as coisas, que por muito é
superior a Deus. Ele continuará sempre a ser o
exilado que entre o homem e Deus, sem poder desesperar de nenhum deles,
vagueia ao longo de um calvário, que não é deste mundo, onde um e outro o
abandonaram. E porquê? Tudo quanto sabe resulta
disso, de ser um exilado. Tudo quanto não sabe resulta disso, de ser um
exilado. É essa a sua condição, é esse o seu regime. O seu alimento exclusivo
são paixões mortas.
_______ * Dramaturgo e ensaísta,
publicou diversas obras, entre as quais Mort d’un oiseau de proie (Gallimard,
1980), De quoi je? Tentative V (Edipol, 2002) e À plus (L’Harmattan,
2003). [1] «Estou a morrer» (n. do t.) |