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21/04/2005 Roberto Mansilla Blanco * No próximo 24 de abril, a
diáspora arménia no mundo comemorará o 90º aniversário do primeiro genocídio
conhecido pela história da humanidade. Efectivamente, foi em Abril de 1915,
quando o governo da União e do Progresso, historicamente conhecido como o dos
“Jovens Turcos” e que naquele momento governava o outrora Império Otomano,
planificou o extermínio da população arménia localizada no sudeste da
Turquia. Esta região, em torno do lago de Vão e a população de Diyarbakir, é
conhecida como a “pátria histórica dos arménios” e hoje encontra‑se
habitada, maioritariamente, pelo povo curdo. O resultado da decisão dos
“Jovens Turcos”, instigada pelo então vizir Talaat Pashá, foi a expulsão e
posterior massacre de 1,5 milhões de arménios, entre 1915‑1916.
Considera-se que a população actual na República de Arménia (anteriormente,
uma das repúblicas soviéticas, independente desde 1991) supera os três
milhões de pessoas, sem contar a numerosa diáspora arménia localizada,
principalmente, nos EUA, França, Canadá, Suíça, América do sul, Rússia, Síria
e Líbano. Esta diáspora ronda os 4‑5 milhões de pessoas. O genocídio de 1915 foi a
continuação dos massacres otomanos realizadas entre 1894 e 1896 pelo então
sultão Abdulhamid, a quem a história recorda como o “sultão vermelho”.
Naquele tempo, uns 250.000 arménios morreram às mãos dos turcos e seus
aliados curdos, chechenos e circasianos, os quais também exerceram um efectivo
labor no genocídio de 1915. Do mesmo modo, os turcos contaram com a
colaboração de oficiais alemães, o seu principal aliado na I Guerra Mundial. O LONGO CAMINHO PELO
RECONHECIMENTO Existiam razões para o ódio
entre arménios e turcos? O facto de constituir a nação cristã mais antiga da
história (abraçou esta fé no ano 301, evoluindo para a variante ortodoxa nacional)
pôde influir no receio por parte dos turcos e outros povos muçulmanos. Na
realidade, um Império Otomano em fase de desintegração política sentiu‑se
compelido ante a ideia de que os arménios se estavam a constituir numa
“quinta coluna” das ambições imperiais da Rússia cristã ortodoxa, quando
durante séculos turcos e arménios conviveram com relativa estabilidade. Os
curdos entraram na equação ao ser‑lhes prometidas as antigas terras arménias
como novo lar. O genocídio arménio não foi
reconhecido mundialmente até que a República Oriental do Uruguai o fez em
1965, um país que conta também com uma florescente comunidade arménia. Outros
países, especialmente os que albergavam emigrantes arménios, seguiram o exemplo
uruguaio. Em 1987, o Parlamento Europeu reconheceu‑o, no mesmo ano em
que a Turquia realizou a sua solicitação formal de admissão à Comunidade
Europeia. Em 2001, a Assembleia Nacional Francesa promulgou uma lei onde
reconhecia o genocídio arménio e instou o governo turco a reconhecê-lo, como
elemento de importância nas negociações de admissão à União Europeia. Resulta óbvio que a rejeição
oficial turca a reconhecer esta página escura do seu passado é um obstáculo
que hoje recobra interesse, depois da decisão do Conselho Europeu, no passado
dia 17 de Dezembro de 2004, de fixar para 3 de Outubro de 2005 a abertura de
negociações para a admissão turca na União Europeia. O presidente francês
Jacques Chirac, cujo país conta com uma influente diáspora arménia, avisou o
primeiro‑ministro islâmico Recep Tayyip Erdogan, da necessidade de realizar
«um grande trabalho de memória» para reconhecê-lo, um esforço histórico que
feche feridas do passado. A MEMÓRIA COMO BÁLSAMO Precisamente, o trabalho da
memória histórica é o que hoje ocupa a atenção. Na Turquia, a tese oficial,
fundamentada pelo historiador Türkaya Ataöv, enfatiza o facto de que não houve
tal genocídio e de que, mais bem, foram as populações camponesas turcas da
Anatólia as que sofreram às mãos dos “guerrilheiros” arménios apoiados a
partir da Rússia. As mortes de arménios deveu‑se, na opinião turca, às
inclemências temporárias durante as deportações até à desértica Síria. Outra
das razões em que se baseia a tese turca é a aparente inexistência de uma
ordem oficial otomana, emanada por Talaat Pashá, de extermínio e deportação
dos arménios. Da parte arménia, as suas
fontes documentais narram a existência de declarações oficiais nas quais se
fundamenta a tese do genocídio. Menciona-se o diário do embaixador estado‑unidense
em Istambul, Henry Morguenthau, amplo conhecedor pessoal de Talaat Pashá.
Também existem as revelações dos arquivos de Aram Andonian, sobrevivente do
genocídio e que exerceu uma grande influência no presidente estado‑unidense
Woodrow Wilson. Inclusive, existe uma declaração de Adolf Hitler de 1939, sobre
a necessidade de exterminar os judeus «como em 1915 fizeram os turcos com os arménios.
Depois de tudo, quem se lembra hoje dos arménios?». Estas parecem ser as
principais fontes que reafirmam a tese do genocídio. Actualmente, alguns tímidos
passos se deram para a reconciliação histórica. O primeiro‑ministro
turco Erdogan pediu ao líder da oposição, Deniz Baykal, a criação de uma
comissão imparcial de historiadores turco-arménios para estudar os factos.
Escritores como Orham Pamuk, historiadores como Halil Bektray e editores como
Hrant Dink, foram silenciados na Turquia por pedir um reconhecimento
histórico e um perdão oficial aos arménios. No entanto, o seu trabalho está a
obter o apoio no estrangeiro. Alguns historiadores turcos “revisionistas”
participaram inclusive na comemoração anual em Erevan, a capital arménia. Noventa anos depois, não
deixa de ser relevante este acontecimento, à luz da situação geopolítica actual.
Os acontecimentos de 1915 envolvem directamente turcos, curdos, chechenos,
caucasianos, arménios e europeus e reflecte o necessário percurso pelo
espinhoso caminho da memória histórica como elemento para selar a
reconciliação. ____________ * Analista do IGADI (Instituto Galego de Análise e Documentação Internacional). |