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14/08/2004 Os venezuelanos vão às urnas
neste domingo decidir o futuro do seu país e o resultado dessa decisão poderá
reflectir‑se em toda a América Latina, uma vez que a confrontação
política entre a oposição e o governo de Hugo Chávez fez os olhos do mundo se
voltarem para o Sul do Hemisfério. As pesquisas de opinião
apontam que o presidente ganhará o plebiscito com, no mínimo, 10% de vantagem
na consulta popular, em que mais de 14 milhões de cidadãos terão de optar por
encurtar ou não o mandato do governante. Na pesquisa da North American
Opinion Research, do mês de agosto, a única em que Chávez excede essa margem,
ele vence o referendo por 63% de votos contra 32%. Nessa pesquisa, apenas 5%
responderam que deixariam de votar, o que seria um salto histórico de
participação, pois a média de abstenção nas eleições chega a 30% do
eleitorado. Nos últimos dias, duas
grandes marchas de chavistas e opositores mostraram que os dois grupos estão
dispostos a tudo para garantir a vitória. De um lado, os apoiantes do governo
que, durante 40 anos de período democrático, foram excluídos de qualquer
possibilidade de acesso às necessidades básicas como educação e saúde. De
outro, sectores das classes médias e altas que perderam o controle da empresa
estatal Petroleos de Venezuela (PDVSA). Essa diferença se vê nas
ruas. O taxista Carlos Rodríguez, de 56 anos, disse que Chávez é o resultado
da história do povo venezuelano: «Esse governo chegou porque havia uma nação
de excluídos. Agora, essas pessoas têm acesso à saúde, educação e conhecem os
seus direitos» - comentou o taxista, morador do bairro popular de Petare. Pai
de seis filhos, ele afirmou que votará pelo "não" porque não quer o
seu país «entregue aos Estados Unidos. Veja o que eles fizeram com a
Argentina, não queremos isso aqui. Agora somos uma pátria soberana» - disse
Rodríguez, confiante na vitória. Os sectores oposicionistas,
por sua vez, responsabilizam Chávez pelo número de desempregados (52% da
força de trabalho está na economia informal) e por sustentar um governo autoritário
e antidemocrático. Outro reclame da oposição é
de que Chávez promoveu a divisão de classes no país: «Não queremos um governo
que se esquece dos ricos e governa só para os pobres» - afirmou Orangel
Gonzalez, vendedor informal. Para conseguir impedir que
Chávez termine o seu mandato, a oposição necessita angariar no mínimo um voto
a mais que os 3.757.773 conquistados pelo presidente quando eleito em 1998.
Além disso, tem que conseguir a maioria dos votos no referendo. Presidente
confia na vitória Em colectiva de imprensa,
Chávez disse estar confiante na vitória e que diante dos resultados, «ninguém
poderá negá-la». Com o mapa-múndi de apoio para explicar a sua estratégia de
integração política e económica com os demais países latino‑americanos,
o presidente, que é acusado pelos seus opositores de conduzir um regime
antidemocrático, recorreu à Constituição para explicar a sua estratégia
política: «Para saber o que é este
governo, basta ler a Constituição. Não fazemos nada que não esteja aqui» -
afirmou o mandatário com o exemplar na mão. O revogatório é um processo
inédito em todo o mundo. Diante da possibilidade de
uma vitória amanhã, Chávez disse que está disposto a dialogar com a aliança
opositora desde que eles estejam «dispostos a isso» e que «iniciem um
processo de reconciliação com a Constituição». O presidente convocou os seus
opositores a admitir os resultados do referendo e criticou as declarações
como as de Enrique Mendoza, um dos principais líderes da oposição, que afirma
que só respeitará os resultados se os observadores internacionais, Centro
Carter e Organização dos Estados Americanos (OEA), os validarem como “transparentes”.
«Damos a bem-vinda aos observadores, mas não serão eles que darão os
resultados. Temos instituições, não somos uma colónia, somos livres» -
criticou Chávez. Urnas
electrónicas preocupam Além de protagonizarem o
primeiro processo de referendo revogatório de um chefe de Estado, os
venezuelanos, pela primeira vez, vão participar de uma eleição electrónica, um
dos factores que preocupa pela possibilidade de manipulação dos dados. As
urnas foram testadas e aprovadas pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE). O presidente da Junta
Nacional Eleitoral, Jorge Rodríguez, garante que as máquinas estão “blindadas”
contra fraude. O chefe da missão da Organização dos Estados Americanos (OEA),
o brasileiro Valter Pecly Moreira, também creditou o bom funcionamento das
máquinas. No entanto, o processo de
totalização dos votos será feito pela central de telecomunicações Cantv,
ligada à oposição. Para o sociólogo venezuelano Edgardo Lander, o controle da
informação pode ser uma das estratégias dos sectores contrários ao governo
para tentar reverter os resultados: «Apesar dos testes positivos
com as máquinas, esse processo nunca foi utilizado. Não podemos prever a
segurança na transmissão dos dados. Podem simular falhas na electricidade,
problemas técnicos imprevistos e isso comprometer o resultado" - avalia
Lander. Para ele, nenhuma possibilidade
pode ser descartada quando está em jogo o projecto dos Estados Unidos para o
continente. «O que está em questão é a manutenção de um governo que tem sido
referência aos movimentos sociais da América Latina. Se for derrubado, será
mais uma derrota para todos aqueles que já se decepcionaram com Gutiérrez no
Equador e com a timidez do governo Lula no Brasil» - avalia o sociólogo, que
faz um chamado: «Em 15 de agosto todos têm
que estar sob alerta». Nas ruas, a população que já presenciou actos de
violência promovidos por franco-atiradores durante o golpe de 11 de Abril e
das barricadas de Fevereiro desse ano, o clima é de apreensão, caso hajam
dúvidas nos resultados, de um lado ou de outro. |