Informação Alternativa

América Latina

18/08/2004

 

Entrevista com Hugo Chávez

 

Arturo Cano

La Jornada

O presidente Hugo Chávez Frias demora três minutos a completar o seu acto reflexo: leva a mão ao bolso do traje cinza e saca o seu pequeno exemplar da Constituição da República Bolivariana da Venezuela, a bicha, dizem alguns aqui, com a qual derrotou a oposição duas vezes em 1999, com a qual se reelegeu em 2000 e com a qual se submeteu com êxito à prova do referendo revogatório. Não a solta no cuso de toda a entrevista.

Depois de ser ratificado no poder, com uma votação inédita na história eleitoral venezuelana, o presidente Chávez repassa a sua obra de governo, assegura que os reclamos da oposição terão que se resolver em tribunais e que não são um tema que vá ocupar o seu tempo: «Eu ganhei e vou continuar a governar».

Contudo, considera «possível» que alguns sectores da oposição procurem uma saída violenta à confrontação política aberta desde 2001. No entanto, assegura que para já recebeu «alguns bons sinais» de sectores da oposição, especialmente empresários, bispos e alguns directores de meios de comunicação. Não ocorreu assim com os dirigentes da Coordenadora Democrática: «Oxalá acabem de enfrentar os seus próprios demónios e de vencê-los».

Em entrevista exclusiva com La Jornada, no seu gabinete do Palácio de Miraflores, Chávez sustenta que os seus quase 6 milhões de votos, contra uns 4 milhões da oposição, não mostram um país partido em dois blocos: «Aqui o que há é um país aberto e democrático».

Entre as muitas leituras que dá ao seu triunfo, está a do apoio ao seu projecto de país e nesse teor fala das missões, os seus programas sociais que, diz, se converterão nas instituições básicas «do novo Estado social». Isto é o que chamou o «aprofundamento do processo». Porque em matéria de pagamento da dívida externa, controle cambial, políticas monetária e fiscal, Chávez assegura que «há poucas coisas que mudar, porque simplesmente têm vindo a funcionar».

Apesar de não estar «totalmente satisfeito», o presidente venezuelano afirma que deve considerar-se que «por algo fui ratificado com 60 por cento da votação popular».

O presidente Chávez afirma também que não mexerá um dedo para defender os indivíduos que dispararam contra uma manifestação opositora na passada segunda­‑feira, ainda que se trate de apoiantes seus. «Deve cair-lhes o peso da lei com todo o seu rigor, sejam quem forem».

– A primeira pergunta está a cargo de José Vicente Rangel, hoje vice-presidente, que a fez dois dias antes do seu primeiro triunfo eleitoral. Com um país dividido, dizia ele, é muito difícil avançar e governar. Poderá «avançar e governar» depois do referendo?

– Temos já cinco anos governando. Nem nos dias mais difíceis deixamos de governar. Chego a crer que nem sequer nos dias do golpe de Estado. Nunca deixamos de governar, com maior ou menor dificuldade. Não é que esteja totalmente satisfeito, mas por algo fui ratificado com 60 por cento da votação popular. Isto significa que os logros do governo foram aprovados.

«Em primeiro lugar, conseguimos uma nova Constituição. Na IV República funcionou durante 20 anos uma Comissão para a Reforma do Estado e não puderam mudar uma letra à Constituição. Nós, num ano, fizemos uma nova. Veja, que efectividade de governo. 1999 foi o ano da nova Constituição, e 2000 foi o ano da relegitimação.

– Da sua reeleição.

– Todos os poderes foram relegitimados. Foi o ano do nascimento da nova República, e nasceu com dificuldades como todo o parto, mas aí está, pudemos nascer. Teve eficácia, porque teríamos podido ficar-nos neste librito. Quantas constituições nasceram e foram engavetadas? Não tiveram impacto porque não houve capacidade de governar a situação.

«2001 foi o ano da legislação revolucionária...

– As leis habilitantes.

-Fizemos 49 leis, uma por semana. As leis para dar vida à Constituição e para ter impacto de maneira directa na realidade e começar a transformá-la. Veja, que sucesso o de um governo que consegue elaborar 49 leis em menos de um ano, e começamos a aplicá-las.

– Essas leis foram as que puseram a oposição na rua pela primeira vez.

– Claro, por estas elites... Não podemos dizer que todos os que votaram e continuam a votar contra Chávez chegaram ao grau radical de oposição da Coordenadora Democrática... E não creio que seja correcto falar de um país dividido em dois blocos, não, aqui o que há é um país aberto e democrático. Quando começamos a aplicar as leis habilitantes começou a reacção furibunda da oligarquia e veio o golpe de Estado, e a sabotagem para tratar de acabar com o governo. Veja, que capacidade para ultrapassar a tormenta. O barco não se afundou.

– Mas esteve em sério risco.

– Claro, eu estive a ponto até de morrer. Estivemos à beira de uma grande conflagração interna. Os Estados Unidos lançaram todo o seu poder contra nós. Houve apoio dos Estados Unidos ao golpe militar, à desestabilização económica, apoio financeiro, militar, de inteligência. George W. Bush decidiu que Hugo Chávez tinha que se ir. E, no entanto, aqui estou sentado contigo, falando no gabinete presidencial de Caracas. Isto é, apesar de submetido às maiores pressões, apesar de cruzar os mares mais tormentosos, o barco não se afundou nem se afundará já, Deus permita.

«Isto é, depuramos as Forças Armadas dos golpistas; estamos reactivando a economia e, este ano, temos o primeiro lugar do crescimento na América Latina; recuperamos a indústria petrolífera e estamos a produzir 3 milhões 200 mil barris diários, o quinto lugar no mundo; descobrimos os jazigos de gás maiores deste continente; atraímos investimento estrangeiro desde a China até aos Estados Unidos; incorporamo-nos no Mercosur.

«Politicamente, conseguimos vencer o referendo, vencendo muitas dificuldades, conseguimos convocar e motivar quase 10 milhões de votantes, um recorde.

"Socialmente, as missões revolucionárias: alfabetizamos milhão e meio de pessoas num ano, entregamos 200 mil moradias, entregamos 2 milhões e meio de hectares aos que não tinham terra, triplicamos os créditos aos pobres.

Condutas patológicas

– Bem. Mas também tiveram golpe, desemprego, firmazo e reafirmazo. A lenda popular conta que você ldisse a Gustavo Cisneros (o empresário venezuelano que é a segunda fortuna latino­‑americana) «você e eu vamos acabar matando-nos». Acabou tudo com o referendo? Teme ou calcula que sectores da oposição possam tentar uma saída violenta?

– Isso é possível. Mas nunca, com ninguém, disse que vamos terminar matando-nos. Tenho uma grande fé na vida. Uma vez passado o referendo, e reconhecido o nosso triunfo pelo mundo inteiro, excepto por este mesmo grupito que creio que tem uma conduta patológica, até de psiquiatra...

– Dissociação psicótica, disse você.

– Sim, sim. É verdade, ontem à noite estava a ver um dirigente da oposição e pensava que alguns deles não têm remédio. É como se nas Olimpíadas víssemos que um boxeador cai, que o têm que levar em maca, que os médicos estão a atirar-lhe água porque não acordou e haja gente que ainda não reconheça o triunfo do outro. É um nocaut claro, tanto que até Washington o reconhece. Mas a oposição está chegando ao ridículo. Os que votaram contra mim estão no seu direito, mas a maioria estão de férias ou nas suas casas. Só um por cento está nos mídia, tratando de ver como fazem para demonstrar uma fraude ou tratar de manchar um referendo tão limpo.

– Você vai colaborar para que se afaste qualquer dúvida.

– Não, eu não. Eu ganhei e vou continuar a governar.

– Cabe ao Conselho Nacional Eleitoral.

– Se a oposição insiste, teimosamente, que vá aos tribunais. Eu estou reconhecido uma vez mais como presidente da Venezuela, desde Moscovo até Washington, desde o Quebeque até Buenos Aires e vou continuar a governar.

O presidente Chávez anuncia então as suas próximas actividades fora da Venezuela. Irá a Brasil, «a uma cimeira com Lula»; à Europa, convidado pelo presidente espanhol José Luis Rodríguez Zapatero; e, claro, a países petrolíferos como a Rússia e o Irão.

«Tenho muito trabalho. Não vou deixar-me amarrar por uma loucura», afirma.

Aos meus opositores «conheço­‑os muito bem»

– Os seus colaboradores insistiam, antes de domingo, que a violência não sairia do chavismo, porque nesta força há comando, liderança, controle. Mas os factos de Altamira trouxeram uma sombra ao resultado do referendo.

– Bom, isso é o que eles queriam. Lamentavelmente, conseguiram­‑no. Eles, os dirigentes irresponsáveis da oposição, que têm uma história macabra e estão cobertos de sangue. No golpe de Estado eles procuraram mortos. Eles estiveram muitos meses procurando um morto, e quando por fim o tiveram, celebraram «já o temos para o atirar ao Chávez». Uma coisa macabra, fascista. (Em abril de 2002) eles convocam uma marcha e conduzem os seus próprios seguidores a um massacre para depois dizer ao mundo que é Chávez quem os massacrou. Que cálculo tão perverso e assassino. Isso é o que abunda nesses círculos da chamada Coordenadora Democrática. Doentes, eu creio que são doenças de poder. Quando eles governaram este país faziam desaparecer gente, matavam gente, roubavam até mais não poder, nunca lhes doeu a pobreza. Creio que perderam boa parte da condição humana, creio­‑o porque os conheço muito bem.

Todo o peso da lei

A noite de domingo, admite o presidente Chávez, estava «preocupado de que se alongasse muito» o anúncio dos resultados do referendo.

A razão, explica, foi que Jimmy Carter e César Gaviria, os coadjuvantes internacionais, pediram ao CNE não dar a conhecer o primeiro boletim, que tinham pronto «à uma ou duas da madrugada», até que eles não falassem com a oposição.

O ex­‑presidente estadunidense e o secretário geral da OEA, diz Chávez, trataram de «evitar o que não puderam evitar».

Na reunião com os opositores, refere Chávez, Carter e Gaviria expressaram à Coordenadora Democrática: «Vocês têm que reconhecer isto, porque os resultados que vai dar o CNE são os mesmos que nós temos».

Inclusive Súmate, a ONG que faz as contas eleitorais para a oposição, «já lhes tinha dito que ganhava Chávez, mas eles tinham o plano de procurar a violência, porque sabem que nunca vão ganhar-nos um referendo».

Ainda com esses dados, sustenta Chávez, depois do anúncio do CNE na madrugada da segunda-feira, a oposição «decide chamar à desobediência, a manifestações». Nas ruas, diz o presidente venezuelano, demonstrou-se o «escassa liderança» da CD, porque poucos acudiram à chamada.

«Aqui em Caracas, outra vez na Plaza Altamira, onde não eram mais de 200 pessoas. Por que saíram essas 200 pessoas? Por causa da chamada destes irresponsáveis. Nessa madrugada, o que eles deveriam dizer ao país nessa noite é 'reconhecemos o triunfo do NO, felicitamos o povo e viva a democracia', e chamar toda a sua gente a descansar, como eu chamei os meus, a celebrar sadiamente e depois ir descansar».

Em Altamira, os opositores bloquearam a rua e chegou um grupo de indivíduos em motocicletas que, depois de um confronto a socos, sacou das suas armas e disparou, com o saldo de uma senhora morta e vários feridos.

O presidente informa que dois dos sujeitos que dispararam já foram prendidos, mas diz que ainda está em investigação a que grupo pertencem.

Isso sim, está seguro de que «não são do Comando Maisanta, não são dos partidos que me apoiam, porque aí há disciplina, temos uns comandos que funcionam até ao nível bairro».

– Não vai protegê-los.

– Absolutamente não. Deve cair-lhes o peso da lei com todo o seu rigor, sejam quem forem. Agora, de todos os modos há que perguntar, para avaliar retrospectivamente a situação, por que chegaram esses dois grupos a enfrentar-se aí? Sem dúvida, quando a irresponsável direcção opositora, em vez de reconhecer o triunfo popular, chama à desobediência e a tomar praças, então também há sectores da outra corrente que dizem 'vamos nós também à rua'. E então é quando começa para nós o terrível repto de frear a nossa gente. Se esta gente são grupos que apoiam o governo, actuaram por sua conta e risco. Sem dúvida, que esses factos mancharam isto, e lamentamos muito a perda de uma vida humana.

A corrupção metida até os ossos

– Nos cerros, entre as suas bases, escutam-se muitas histórias de sectarismo, de rejeição aos partidos, de corrupção. Diz-me uma senhora que precisam de «uma revolução dentro da revolução».

– Esse processo já começou. Disse que 2004 seria da revolução dentro da revolução. Claro, as revoluções, se morrem, morrem. Mas esta colheu vida e tem que ir renovando-se e reforçando-se a cada passo. Isso tem muitas leituras e muitas frentes de batalha.

«Claro que há corrupção na Venezuela. Temos uma cultura de corrupção criada desde faz meio século, precisamente por esta gente que forma a Coordenadora Democrática, os adecos e os copeyanos, que se faziam ricos.

«Tenho um amigo lá na minha terra que foi prefeito, ele era copeyano, e é muito honesto. Quando entregou o próprio carrinho, a própria casita rural, a própria mulher. E a maior parte das pessoas dizia: «Este sim é palerma, não aproveitou, não roubou».

O presidente Chávez afirma que a corrupção dos partidos tradicionais «se derramou pelo país. E é uma das grandes batalhas que temos que travar ainda, a revolução moral. Ainda há corrupção. Tive que tirar gente do governo, gente em que cria muito, e ordenar investigações. Agora, que acontece? Quase todas as acusações que eu fiz, ou ordenei, ficam por aí nos corredores de um Poder Judicial ainda penetrado pela mesma corrupção e pelos partidos Acção Democrática e COPEI. Mas isso vai começar agora sim, estou seguro, porque agora aprovou­‑se a nova lei do Tribunal Superior de Justiça, e daqui a pouco a Assembleia Nacional designará novos magistrados, o que nos permitirá ir a fundo a todos os tribunais para tirar os juízes corruptos ou que não têm coragem para actuar.

– É a lei que criticaram organismos de direitos humanos muito reputados, como Human Rights Watch.

– Reputados de quê?

– Reconhecidos pelo seu trabalho em muitos lugares, pela sua condenação inclusive do governo dos Estados Unidos.

– Ponho em dúvida essas reputações, ao menos no que se refere à Venezuela. Na situação venezuelana muitas reputações ficaram nuas e despidas.

«Esta é uma lei absolutamente emoldurada na Constituição. A oposição quis boicotá-la porque não lhes convém que haja juízes imparciais. A mim tiveram­‑me sequestrado e depois o TSJ decidiu que eu estive custodiado «por uns militares prenhes de boas intenções». E os golpistas andam livres. Eu tive que engolir areia naquele dia em  que o tribunal supremo tomou essa decisão. E não me ficou alternativa mais do que chamar o povo a obedecer porque as pessoas queriam ir ao tribunal queimá-lo. Agora começará a aplicar-se essa lei, para sancionar os delitos de colarinho branco, para sancionar a corrupção velha e nova.

«Corrupção no meu governo? Ante qualquer suspeita firme, o que fiz foi afastar funcionários públicos e ordenar investigações que estão nas mãos do Poder Judicial. É parte dessa revolução moral em marcha. E essa velha cultura da corrupção adeco­‑copeyana, que se meteu até aos ossos desta sociedade, pois vai custar-nos vários anos e sobretudo muito exemplo para erradicá-la da Venezuela».

As missões, embrião do desenvolvimento endógeno

Líderes e analistas de oposição reconhecem que uma das chaves do triunfo de Chávez foram as missões, programas sociais de saúde e educação empreendidos faz um ano com recursos de Petróleos de Venezuela (PDVSA).

Chávez diz que tais programas «devem ir convertendo-se progressivamente nas instituições básicas do novo Estado social. Sobretudo a Missão Barrio Adentro, está a transformar­‑se já numa instituição, no sistema nacional público de saúde. É preciso ampliá­‑lo, fortalecê-lo, para que...»

– Para que em algum dia deixe de precisar dos médicos cubanos.

– Claro. Dentro de dois meses devem regressar 300 rapazes venezuelanos, que vêm de Cuba, já médicos, que têm cinco anos lá. Esses rapazes vão para a Barrio Adentro e já temos outros 500 lá. E aqui também, em algumas universidades duplicamos a matrícula das faculdades de medicina. O mesmo que a Missão Vuelvan Cara, uma missão estrutural, que nos está a permitir começar a transformação do modelo sócio­‑económico, sobretudo porque estamos a transferir propriedade aos pobres, estamos capacitando­‑os do ponto de vista técnico e estamos semeando o país do que chamamos núcleos endógenos de desenvolvimento, para dar forma ao modelo endógeno do desenvolvimento nacional.

– E em matéria macro­­­‑económica, também se propõe uma revolução?

– É um marco que nos permitiu começar a fazer um processo de transformação. Nesse marco há poucas coisas a mudar, porque simplesmente têm vindo a funcionar. No pagamento da dívida externa não temos nenhuma mudança prevista, aliviamos muitíssimo a dívida, temo­‑la reestruturado e, neste momento, não nos impede de levar por diante o processo de transformação. Em matéria cambial, não temos previsto derrogar o controle de câmbios, pois permitiu­‑nos fortalecer as reservas. A política monetária está nas mãos do Banco Central e não creio que haja uma mudança. No domínio fiscal, prosseguiremos com uma política expansionista do investimento público, para com isso dinamizar o país e atrair inclusive o investimento privado. Não seguiremos em nada as políticas do Fundo Monetário Internacional que sempre ordenam a estes nossos países a restrição fiscal, o corte dos programas sociais.

– Mas tem tratos com o FMI.

– Somos parte do FMI e temos aí milhares de milhões de dólares.

– Mas não aceitam a receita.

– Não é que sejamos inimigos de morte do FMI, que não queiramos nem vê-los. Eu recebi­‑os aqui, ouço­‑os e eles ouvem­‑me. Mas nós temos aqui a nossa própria medicina.

– Quando se vai sentar a oposição com o seu governo?

– Não sei. Mas houve alguns bons sinais.

– A declaração da patronal Fedecámaras.

– Sim. Já disse ao vice-presidente que faça uma primeira aproximação. E também recebi bons sinais de alguns bispos e dos directores de alguns meios de comunicação. Mas os partidos... oxalá acabem de enfrentar os seus próprios demónios e de vencê‑los.