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26/08/2004 Altamiro Borges Caracas, capital venezuelana
com os seus 5 milhões de habitantes, é um vale cercado por morros miseráveis
de todos os lados. Na curta estadia neste país efervescente, entre 14 e 18 de
agosto, foi possível conhecer muitos moradores destas habitações precárias. O
melhor passaporte para entrevistá-los era afirmar: “Sou brasileiro”. A
recepção era calorosa, empolgante, expressa numa única palavra: “Lula”. O
interesse pelos rumos do Brasil é enorme neste povo que se politiza de
maneira acelerada e que aprendeu a valorizar a integração latino-americana
como o melhor caminho para enfrentar “el diablo George Bush”. Esta politização ajuda a
entender a esmagadora vitória de Hugo Chávez no referendo de 15 de agosto com
quase 60% dos votos. O povo dos morros votou NO ao passado, NO ao retrocesso,
NO ao retorno das elites, NO ao imperialismo. A periferia pobre rebelou‑se
contra os parasitas residentes na parte leste luxuosa de Caracas, uma gente
arrogante nascida na Venezuela, mas com a mente e muitos dólares em Miami. Em
certo sentido, o referendo concluiu um ciclo, que teve início nas rebeliões
populares de 1989, o Caracazo, prosseguiu com o levante militar de 1992, e
ganhou ímpeto com a vitória eleitoral de Chávez em 1998. Na entrevista colectiva no
Palácio Miraflores, na tarde do dia 16, um presidente revigorado e radiante
com a ratificação do seu mandato decretou: «A IV República [o reinado da
oligarquia, da submissão aos EUA e da democracia de fachada] está morta.
Nasceu a V República, a República Bolivariana». Citando um dos seus autores
preferidos, o revolucionário italiano Antonio Gramsci, lembrou que até ao
referendo «o velho estava morrendo, mas ainda não havia morrido; e o novo
estava nascendo, mas ainda não havia nascido... A partir de agora, a energia
da revolução bolivariana será ainda maior. O processo revolucionário vai‑se
aprofundar. Não tem mais retorno». As suas palavras impactam o auditório com
mais de 150 jornalistas! BAIRRO DE LA PASTORA De onde provém tamanha
convicção? Aonde reside a vitalidade da revolução bolivariana? O que explica
milhões de pessoas nas filas, aguentando um tórrido calor por mais de 12
horas, num país conhecido pelos altos índices de abstenção nas eleições (em
que as praias ficavam cheias e as urnas, vazias)? Para entender esse fenómeno,
que corrobora a originalidade do processo bolivariano, basta conversar com os
moradores dos bairros pobres de Caracas. A esperança está estampada nos
rostos dessa gente simples, que recobrou a dignidade e está disposta a tudo
(«uma filinha não é nada») para garantir o avanço da sua “revolução”. La Pastora é um dos bairros
mais antigos de Caracas. Ainda há muitas casas no estilo colonial, da época
do domínio espanhol. As antigas e as novas habitações são precárias, sem
acabamento. Tijolos expostos confirmam que é um bairro popular, habitado por
trabalhadores do sector informal e desempregados. Pela sua proximidade do
centro da cidade, também há camadas médias residindo nesta parte do morro,
como médicos e advogados. A chegada do autocarro com os observadores
internacionais dos EUA, El Salvador, Colômbia e Brasil evidencia o carisma de
Chávez. As janelas das casas estão tomadas com os cartazes vermelhos do NO;
os muros estão grafitados com frases e desenhos em defesa da revolução
bolivariana. Nos quarteirões, casas
modestas abrigam as sedes das patrulhas eleitorais, compostas por 10
militantes responsáveis cada um por conversar com mais 10 moradores. Muitos
vestem camisetas das missões, os programas sociais de saúde, educação e
outros que são geridos directamente por vários comités populares. As reuniões
são frequentes, fazendo o controle e mapeamento do bairro. Chama a atenção a
forte presença da juventude. Os carros, caindo aos pedaços, tocam alto as
músicas bolivarianas. “Uh, ah, Chávez no se vá”, cantam e dançam os jovens
nas ruas. O clima, à véspera do referendo, é de festa e total confiança. Dois senhores, entusiasmados
com a irreverência, alegria e politização da juventude, explicam as razões de
tanto engajamento no La Pastora. «Estamos construindo um país de pessoas activas,
destemidas. Elas é que vão defender as conquistas da revolução de qualquer
forma. É pátria ou morte!», argumenta Alfredo Alvarez, 53 anos. «É outra
Venezuela. Os ricos nunca ligaram para o povo. Eles não acreditavam na nossa
inteligência, na nossa força. Agora, tudo está mudando», completa Alberto
Vaisques, 57 anos. Mas são os jovens que rodeiam o brasileiro para anunciar o
nascimento desta “nova Venezuela”, onde o povo parece ter despertado de um
longo sono e adquire consciência política com uma velocidade espantosa. Dois irmãos, animados,
argumentam. «Chávez está preocupado com a juventude. Hoje temos acesso à
universidade, ao tratamento médico, ao desporto. Não somos jogados na
marginalidade, na criminalidade. A Venezuela não é mais o país só dos ricos.
O povo pobre ocupou o seu espaço e não aceita retrocessos. Essa é a nossa
única esperança», afirma Ivan Justo, 19 anos. Umberto, de 22 anos, evidencia
a evolução desta consciência. «Chávez ensinou‑nos a acreditar na nossa
força, a acreditar nos nossos heróis nacionais, a amar a nossa pátria. Os
militares e o povo pobre despertaram e estão construindo uma experiência
diferente. Não é socialismo e nem este capitalismo desumano; é o
bolivarismo”, teoriza. Essa intensa participação
inclusive já seduz parcelas das “classes médias” antes temerosas com o
governo Chávez. «Os profissionais que residem no nosso bairro, médicos e
advogados, já conhecem os avanços da revolução. Vivem com o povo pobre, sabem
das nossas dificuldades e reconhecem as melhorias. Eles não estão envenenados
pela propaganda mentirosa da TV privada», festeja a secundarista Ana Relis
Quintana. Outra estudante, Adriana Carlejo, procura analisar tal conversão. «A
revolução bolivariana mudou as nossas vidas. Hoje eu tenho a oportunidade de
ir para uma universidade; antes isso era impossível, a faculdade era só para
os ricos». Glicélia Rivero arremata: «Hoje temos esperanças no futuro, temos
dignidade». O entusiasmo da juventude
emociona a deputada Nídia Diaz, a legendária guerrilheira de El Salvador que
pegou em armas em 1971, foi fundadora da Frente Farabundo Martí de Libertação
Nacional e candidata à vice-presidência da República em 1999. «Este é um
processo revolucionário singular, diferente, original. Ele expressa‑se
nas conquistas sociais e na transferência das estruturas do poder aos setores
populares. O povo é protagonista da história. Numa fase tão difícil como a actual,
diante da fúria do imperialismo, a revolução bolivariana é a alternativa mais
avançada ao neoliberalismo no nosso continente». BAIRRO 23 DE JANEIRO O bairro 23 de Janeiro é o
mais populoso de Caracas, com cerca de 500 mil habitantes. É famoso por ser o
mais politizado da capital. A data homenageia a queda da brutal ditadura de
Pérez Jimenez, em 1958, que teve neste local o principal foco da oposição. Em
13 de abril de 2002, os seus moradores voltaram a ocupar a cena política ao
descerem o morro e cercarem o Miraflores, exigindo o retorno do presidente
deposto por um golpe fascista. Com os seus prédios degradados, no que já foi
tido como o maior conjunto habitacional da América do Sul, o bairro orgulha‑se
da fama de politizado. Várias faixas nas ruas se gabam de que este é um
“território bolivariano”. Nos belos grafites, as imagens de Simón Bolívar,
Che Guevara e Chávez. Outro motivo de orgulho é a
presença constante do presidente da República circulando no bairro. Chávez
sempre vota no Liceu Manuel Fajorolo, no cume do morro. A sua chegada para
votar, ao meio dia, tumultua a quilométrica cola (fila). Todos querem
abraçá-lo. A comitiva presidencial tem enorme dificuldade para adentrar na
escola. A propaganda eleitoral está proibida. Na saída, carros, motos e
bicicletas perseguem o carro do presidente. A patrulha do quarteirão passa
sufoco para reorganizar a fila. Muitos saíram de casa para votar no referendo
às três horas da madrugada, quando os comandos bolivarianos tocaram cornetas
estridentes para avisar sobre o dia decisivo do NO contra a oligarquia e o
seu chefe, o “diablo Bush”. Todos os entrevistados
garantem que Chávez tem mais de 95% de aprovação no 23 de Janeiro. Há até um
certo endeusamento do presidente. «Ele é um protegido de Deus», garante
Matilde Prata, uma fervorosa católica de 75 anos de idade. «Sou uma
venezuelana crioula de verdade e nunca tinha visto um presidente andando sem
seguranças pelas ruas deste bairro. Outros presidentes nunca pisaram no
bairro. Mandavam representantes ou ofícios», explica. E essa cola enorme no
referendo? «Essa filinha não é nada. No paro petroleiro [locaute patronal que
durou 63 dias, entre dezembro e fevereiro de 2003], eu enfrentei filas de
três dias para conseguir um botijão de gás. Chávez merece qualquer
sacrifício. Deus está com ele». Entre outras conquistas da
revolução bolivariana, os moradores destacam a regularização da posse dos
seus imóveis. «Vivo há 47 anos neste bairro e nunca tive o registro da minha
casa; agora o governo garantiu a posse e eu tenho um endereço», diz Estóquio
Varga, 56 anos. Os mais jovens falam da possibilidade de ingressar na
faculdade. «A juventude está esperançosa e sonha em ingressar na
universidade, em ter uma profissão e um futuro», relata Sonimar Ordaz, 21
anos. Os médicos cubanos da Misión Barrio Adentro são um consenso. «Antes,
nenhum médico subia o morro. A minha irmã gastou fortuna em cirurgias. Agora,
os cubanos atendem com carinho, moram connosco e fazem parte da minha
família», afirma Ingri Cequera. Nesse bairro famoso pela
politização, muitos já criticam o governo por ser complacente com a
oligarquia. «Chávez é democrático demais. Está na hora de colocar essa
oposição para correr. Os militares hoje estão com o povo e a oligarquia deve
aceitar a vontade da maioria», reclama Elói Rangel, 45 anos. «O povo já
garantiu o retorno de Chávez no golpe e agora dará nova surra nos ricos. As
TVs falam em democracia, mas os ricos são fascistas e devem ir embora para
Miami», afirma Ernesto Coronel, 47 anos. Adunai Leon, 34 anos, activo
militante bolivariano, não acredita que a oligarquia e os EUA acatarão o
resultado do referendo. «Caminhamos para o confronto armado e o 23 de janeiro
está se preparando para esse dia». ENCONTRO SINDICAL O entusiasmo com a revolução
bolivariana também é crescente no sindicalismo venezuelano. No luxuoso
auditório da Universidade Bolivariana, lideranças sindicais do sector público
elucidam para as delegações estrangeiras o que está em jogo na Venezuela.
Durante nove décadas, os vultuosos recursos da exportação do petróleo,
principal riqueza do país, foram apropriados por uma minoria parasitária e rentista
e serviram unicamente os interesses dos EUA. Hoje, esse dinheiro é aplicado
em programas sociais que beneficiam milhões. A defesa da soberania e da
distribuição da riqueza atiçou o ódio da oligarquia e do império. Durante décadas, a democracia
venezuelana foi de fachada, num bipartidarismo que repartia o poder entre a
oligarquia e corrompia a cúpula sindical do país. Hoje, a democracia
bolivariana estimula a participação popular. Através de inúmeros mecanismos
da Constituição, os trabalhadores tornaram‑se protagonistas na
definição dos rumos da nação. Nos últimos seis anos, a país vive uma
verdadeira “revolução sindical”. A Central dos Trabalhadores da Venezuela,
patronal e corrupta, está totalmente desmoralizada; centenas de sindicatos já
se desfiliaram; e a foto de Carlos Ortega, milionário presidente da CTV, está
estampada pela cidade com a legenda “procura-se” pela sua activa participação
no golpe fascista de abril de 2002. A União Nacional dos
Trabalhadores (UNT), nova central nascida no ano passado em decorrência dessa
ascensão popular, já conta com mais de 600 entidades filiadas. O grosso do sector
produtivo, incluindo os sindicatos de petroleiros, já aderiu à jovem central.
Ela agrega todas as forças engajadas na revolução venezuelana. A sua direcção
tem 21 coordenadores nacionais – um terço de militantes chavistas, um terço
de sindicalistas que romperam com a CTV e outro terço de lideranças
independentes de variadas correntes – socialistas, autonomistas, trotskistas.
Uma terceira central, a CUTV, menos representativa e sob hegemonia do Partido
Comunista da Venezuela, já aprovou a fusão com a UNT ainda este ano. «Não estamos dispostos a
perder o que conquistamos nestes seis anos. Faremos de tudo para defender os
avanços sociais. Em assembleias nesta semana, os petroleiros de todo o país
decidiram que não enviarão uma gota de petróleo para os EUA caso o governo
Bush insista em sabotar a nossa revolução e não acate a vitória do nosso
referendo. Ele que não meta mais o nariz no nosso país porque senão vai
faltar petróleo nos EUA. Essa medida drástica não é contra o povo
norte-americano, mas sim contra o governo terrorista, assassino, irresponsável
e imperialista deste país», anunciou Franklin Rondon, coordenador nacional da
UNT e subsecretário da social‑cristã Confederação Latino-Americana de
Trabalhadores (CLAT). O anúncio foi ovacionado
pelos estrangeiros. Roger Touissant, presidente do Sindicato dos Metroviários
de Nova Iorque, elogiou a luta dos venezuelanos e disse que «quem move o mundo
está disposto a mudar o mundo». Arturo Griffitas, panamenho radicado nos EUA
e presidente da União dos Trabalhadores em Serviços (SEIU), o maior sindicato
do império com 1,7 milhões na base, prometeu pressionar a AFL-CIO a exigir o
fim da ingerência do governo Bush. Benedito Barbosa, director do Sindicato
dos Metroviários de São Paulo, defendeu «a união dos venezuelanos e
brasileiros contra Bush». E Gilson Reis, membro da executiva nacional da CUT,
arrancou gargalhadas ao propor «a criação do Centro Chávez para fiscalizar as
eleições nos EUA, onde Bush costuma cometer fraudes». A proposta foi aprovada
por unanimidade. UNIVERSIDADE BOLIVARIANA O prédio em que ocorreu essa
animada reunião sindical é emblemático dos novos tempos vividos pelo país.
Ele foi sede administrativa do departamento de gás da poderosa estatal do
petróleo, a PDVSA, que durante décadas funcionou como um “Estado dentro do
Estado”, sem qualquer controle da sociedade. Nos estertores do locaute
petroleiro, em fevereiro de 2003, milhares de pessoas ocuparam a luxuosa sede
Los Chaguramos, acarpetada e de mármore. Num acto carregado de simbologia,
que mexeu com o imaginário popular, Chávez decretou a doação em comodato do
prédio para a criação da Universidade Bolivariana. Segundo a assessora de
imprensa Yelitaz Medina, a universidade já conta com 4.230 estudantes e possui
três programas de formação aprovados pelo Conselho Nacional Universitário:
comunicação social, gestão ambiental e gestão do desenvolvimento local. «O
critério básico para o jovem ingressar na Universidade Bolivariana é que ele
tenha sido excluído de uma faculdade privada por não ter conseguido pagar a
mensalidade ou que a sua permanência nas poucas faculdades públicas
existentes tenha sido inviabilizada por problemas financeiros no pagamento do
vestibular ou na compra de materiais», explica. Recebida com aplausos, Maria
Egilda Castellano, reitora da universidade, relata que já funcionam quatro
unidades no país, com 9.560 jovens, e que a meta é descentralizar essa experiência
inovadora de ensino. «A Universidade Bolivariana supera a educação tecnicista
e individualista; dá formação ética, política e cultural, numa visão
humanista, engajada nas transformações estruturais. Ela estimula o contacto
directo do jovem com a sua comunidade para que ele ajude com o seu talento a
mudar o país. O nosso objectivo é acabar com o privilégio dos ricos no acesso
à faculdade». A reunião termina em clima de festa e os sindicalistas de
vários países, extasiados, saem mais convencidos da urgência da solidariedade
ao povo venezuelano! Reencontro o risonho e jovial
Arturo Griffitas num jantar das delegações estrangeiras em comemoração à
vitória arrasadora do NO. Acompanhado do actor Danny Glover, ele não pára de
falar e gesticular. «Virei um bolivariano». O jornalista Breno Altman, que
teve importante papel na articulação do apoio do PT ao governo Chávez, e o
escritor Gilberto Maringoni, autor do melhor livro publicado no Brasil sobre
o tema, também não escondem a alegria. Militantes da CUT, do MST e do Comité
Paulista de Solidariedade estão eufóricos. O franco-venezuelano Maximilien
Arvelaiz, assessor de Chávez, também está presente. A noitada termina numa
animada e desafinada roda de samba brasileiro! |