Informação Alternativa

América Latina

16/08/2004

 

Chávez fortalece­‑se; a oposição contesta

 

Gilberto Maringoni

ALAI

Uma chuva fina, porém constante, caiu sobre Caracas durante toda a madrugada de segunda feira. As ruas dos bairros de classe média estavam praticamente vazias e pouquíssimos táxis circulavam. Mas na avenida Urdaneta, em frente ao palácio de Miraflores e em vários bairros populares, o clima era outro. Milhares de pessoas, já encharcadas, começavam a comemoração de uma vitória que se anunciava nas horas anteriores.

Eram exactamente 3:47 hs., quando o presidente do Conselho Nacional Eleitoral, Francisco Carrasquero, em rede nacional de rádio e televisão, anunciou o primeiro resultado parcial das apurações do referendo revogatório do mandato do presidente Hugo Chávez. Foi um pronunciamento curto e seco de menos de dois minutos:

«Apurados 94,49% do total, a opção "Não" obteve 4.991.483 votos, correspondentes a 58,25% da totalidade válida e a opção "Sim" alcançou 3.576.517 votos, chegando a 41,74% do número de eleitores. Muito obrigado».

O visível ar de cansaço de Carrasquero, um respeitado jurista, contrastou com a explosão de alegria das ruas. Minutos depois, o próprio Chávez subiu ao palanque montado no meio da pista para comentar os números: «Aqui não há ganhadores ou perdedores, só vencedores. Ganham os que votaram pelo ‘não’ e ganham os que votaram pelo ‘sim’; ganha a democracia venezuelana». E aproveitou para fustigar mais uma vez o governo norte-americano. «Que isso sirva de aviso à Casa Branca, para que respeite a soberania de nosso povo».

Chávez fortalece‑se imensamente com os resultados. É a sua oitava vitória eleitoral consecutiva, desde que se sagrou presidente em dezembro de 1998. Com um dado a mais: a sua aceitação cresceu, tanto em número absoluto de votos (3,67 milhões naquela época), quanto em termos percentuais (57% há seis anos). E ganha musculatura internacionalmente, por mostrar ser possível seguir governando sem contar com o beneplácito de Washington.

Inconformismo

Durante o dia de segunda-feira, vários membros da oposição revezaram-se nos programas de entrevistas das redes privadas de televisão, para externar o seu inconformismo com os resultados. O líder do MAS (Movimiento al Socialismo), Felipe Mujica, alegou fraude e sequestro dos resultados. Outros, como o ex­‑presidente da PDVSA (Petróleos de Venezuela), Luis Giusti, dizia que «a instabilidade continua», pois Chávez «não pode governar contra metade do país». E não faltaram vozes a tentar desqualificar o próprio CNE como parcial e pró-chavista.

A esses, o deputado do MVR (Movimento Quinta República, apoiante do governo), Juan Barreto, respondeu: – d É curioso. Em junho, quando o CNE anunciou que iria haver referendo, apesar de inúmeras comprovações de fraudes no processo de colecta de assinaturas, nenhum deles levantou uma única reclamação.

O próprio ex-presidente norte-americano Jimmy Carter, proprietário da Organização Não Governamental Centro Carter, presente como observador, reconheceu ser o processo eleitoral venezuelano «mais limpo do que o da Flórida no ano 2000, quando se consagrou a vitória de George W. Bush». É bem possível que aumente a tendência de fragmentação da oposição, diante dos resultados da consulta popular.

Filas e demora

No entanto, se no aspecto da lisura o processo de votação de domingo se mostrou bastante impermeável a fraudes, o mesmo não se pode falar da metodologia eleitoral. Filas imensas formaram-se desde às seis da manhã em praticamente todos os locais de votação. Eleitores, muitos deles idosos, tiveram de esperar por mais de seis horas nas filas, o que levou o pleito a se prolongar até à meia noite.

Apesar disso e apesar do voto ser facultativo, ninguém arredava pé dos seus postos. «Quero participar desse momento histórico», «espero quanto tempo for, debaixo de sol ou chuva» diziam vários eleitores.

A polarização extrema e a crescente politização da sociedade fez destas as eleições mais disputadas da história venezuelana. Os atrasos nas filas têm algumas causas bem objectivas: o aumento de mais de 20% do número de eleitores, a queda acentuada da abstenção, ao redor de 40% nos últimos dez anos, e o fato da distribuição das mesas não ter sido a melhor possível. Colégios com até 9 mil eleitores contavam com apenas quatro mesas de votação, o que tornou moroso o processo, apesar das urnas automatizadas.

"Pero, estamos haciendo um revolución"

«Não me surpreende essa lentidão», afirmou o escritor uruguaio Eduardo Galeano, presente como observador internacional. «Temos uma participação política inédita da população, que se confronta com um sistema eleitoral ainda organizado segundo os velhos métodos burocráticos e viciados existentes por 40 anos na Venezuela», diz ele, que se surpreendeu com o «ar de graça e felicidade estampados nos rostos das pessoas ao votar».

Por trás de tudo, há também uma crónica desorganização, parte da cultura geral do país. Uma crise económica e institucional de mais de 20 anos e uma informalização grande no mundo do trabalho geram comportamentos de desleixo em várias esferas da vida nacional. Compromissos pessoais são descumpridos sem grande preocupação e horários marcados são muito mais flexíveis que no Brasil (onde a pontualidade geral também está longe de ser britânica).

Quando indagados sobre essas características, muitos venezuelanos têm hoje uma resposta na ponta da língua, como o assessor presidencial Maximilien Arvelaiz: - Si, és verdad. Pero, estamos haciendo una revolución. Y ustedes?