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Agosto de 2000 Gabriel García Márquez * Le Monde Diplomatique -
Edição Brasileira Ao entardecer, Carlos Andrés Pérez
desceu do avião que o trazia de Davos, na Suíça, e se surpreendeu ao ver na
plataforma o general Fernando Ochoa Antich, seu ministro da Defesa. "O
que está acontecendo?", perguntou-lhe intrigado. O ministro o
tranquilizou, com argumentos tão confiáveis que o presidente não foi para o
Palácio de Miraflores, e sim para a sua residência oficial, La Casona.
Começava a dormir quando o mesmo ministro da Defesa o despertou por telefone
para informá-lo de um levante militar em Maracay. Mal havia chegado a Miraflores
quando explodiram as primeiras descargas de artilharia. Era o dia 4 de fevereiro de
1992. O coronel Hugo Chávez Frías, com seu culto litúrgico pelas datas
históricas, comandava o assalto de seu posto improvisado no museu histórico La
Planicie. Pérez compreendeu então que seu único recurso era o apoio popular e
se dirigiu aos estúdios da Venevisión para falar ao país. Duas horas depois o
golpe militar tinha fracassado. Chávez se rendeu, com a condição de que
também permitissem a ele dirigir-se ao povo pela televisão. A
graça mestiça do venezuelano O jovem coronel mestiço, com
sua boina de pára-quedista e seu admirável talento de orador, assumiu a
responsabilidade pelo movimento. E seu discurso foi um triunfo político.
Cumpriu dois anos de prisão até ser amnistiado pelo presidente Rafael
Caldera. Entretanto, muitos partidários - e inimigos políticos -
compreenderam que seu discurso da derrota foi o primeiro da campanha
eleitoral que o levou à Presidência da República menos de nove anos depois. O presidente Hugo Chávez
Frías me contava esta história no avião da Força Aérea venezuelana que nos
levava de Havana a Caracas, há algumas semanas. Nos havíamos conhecido três
dias antes em Havana, durante sua reunião com os presidentes Castro e Pastrana,
e a primeira coisa que me impressionou foi o poder que emanava de seu corpo
de granito. Tinha a cordialidade espontânea e a graça mestiça de um autêntico
venezuelano. Ambos tentamos nos ver outra vez, mas isso não fora possível
devido aos compromissos; foi, portanto, no avião para Caracas que conversamos
sobre sua vida e seus projectos. Uma
história de golpes Foi uma experiência
enriquecedora para um repórter de folga. À medida que me contava sua vida, eu
ia descobrindo uma personalidade que não correspondia em nada à imagem de
déspota que tínhamos formado através dos meios de comunicação. Era outro
Chávez. Qual dos dois seria o real? O principal argumento contra
ele durante a campanha de 1998 havia sido seu passado recente de conspirador
e golpista. Mas a história da Venezuela digeriu mais de quatro. Começando por
Rómulo Betancourt, lembrado - com ou sem razão - como o pai da democracia
venezuelana, que derrubou Isaías Medina Antarita, um antigo militar democrata
que tentava de limpar seu país dos 36 anos de ditadura de Juan Vicente Gómez.
Seu sucessor, o escritor Rómulo Gallegos, foi derrubado pelo general Marcos
Pérez Jiménez, que ficaria quase 11 anos no poder. Este, por sua vez, foi
derrubado por toda uma geração de jovens democratas, o que inaugurou o
período mais longo de presidentes eleitos. Escapulário
da sorte O golpe de Fevereiro de 1992
parece ser a única coisa que saiu mal para o coronel Hugo Chávez Frías. No
entanto, ele o viu por um lado positivo, como um revés providencial. É sua
maneira de entender a sorte, ou qualquer coisa que emane do sopro mágico que
tem comandado seus actos desde que veio ao mundo em Sabaneta, Estado de
Barinas, a 28 de julho de 1954, sob o signo do poder: Leão. Chávez, católico
convicto, atribui sua sorte ao escapulário de mais de cem anos que leva ao
pescoço desde pequeno, herdado de um bisavô materno, o coronel Pedro Pérez
Delgado, um de seus heróis tutelares. Seus pais sobreviviam a duras
penas com salários de professores primários, e ele teve que ajudá-los desde
os nove anos, vendendo doces e frutas nas ruas. Às vezes ia de burro visitar
sua tia materna em Los Rastrijos, um povoado vizinho. A seus olhos, era uma
verdadeira cidade porque tinha uma rede eléctrica que fornecia duas horas de
luz no início da noite, e uma parteira que trouxe ele e seus quatro irmãos ao
mundo. Sua mãe queria que ele fosse padre, mas ele só chegou a coroinha e
tocava os sinos com tanta graça que todo o mundo o reconhecia por seu jeito
de fazê-los repicar. "Esse que toca é Hugo", diziam. Entre os
livros de sua mãe encontrou uma enciclopédia providencial, cujo primeiro
capítulo o seduziu de imediato: "Como vencer na vida". Ideal
bolivariano Era, na realidade, um
receituário de opções, e ele tentou quase todas. Fã das pinturas de
Michelangelo e David, ganhou seu primeiro prémio como pintor aos 12 anos,
numa exposição regional. Como músico, tornou-se indispensável nas festas de
aniversário e nas serenatas, tanto por seu talento com o violão, como por sua
voz. Como jogador de beisebol chegou a ser um catcher [1] de primeira.
A opção militar não estava na lista, nem a ele havia ocorrido por sua própria
conta, até que lhe contaram que o melhor modo de chegar às grandes equipes de
beisebol era ingressando na academia militar de Barinas. Estudou ciência política,
história do marxismo e leninismo. Apaixonou-se pelo estudo da vida e da obra
de Bolívar, seu "Leão" maior, e aprendeu todos os seus discursos de
cor. Seu primeiro conflito com a política real foi por ocasião da morte de
Allende, em setembro de 1973. Chávez não entendia porque os militares deviam
depor Allende, se os chilenos o haviam eleito. Pouco depois, o capitão de sua
companhia lhe deu a tarefa de vigiar um filho de José Vicente Rangel, que
acreditavam ser comunista. "Veja as voltas que a vida dá", disse
Chávez, com uma gargalhada. "Agora, o pai dele é meu ministro das
Relações Exteriores!" Um
contador de histórias Mais irónico ainda é que em
sua formatura Chávez recebeu o sabre de oficial das mãos do presidente que,
20 anos depois, tentaria derrubar: Carlos Andrés Pérez. "Além
disso", disse eu, "você esteve a ponto de matá-lo." "De
maneira nenhuma", protestou Chávez. "A ideia era instalar uma
Assembleia Constituinte e voltar aos quartéis." Desde o primeiro momento,
dei-me conta que era um narrador nato. Um produto íntegro da cultura popular
venezuelana, que é criativa e poética. Tem um grande sentido do tempo e uma
memória quase sobrenatural, que lhe permite recitar de cor poemas de Neruda
ou Whitman, e páginas inteiras de Rómulo Gallegos. Desde muito jovem, descobriu
por acaso que seu bisavô não fora um assaltante de estradas, como dizia sua
mãe, e sim um guerreiro lendário dos tempos de Juan Vicente Gómez. Foi tal o
entusiasmo de Chávez que ele decidiu escrever um livro para purificar sua
memória. Vasculhou arquivos históricos e bibliotecas militares e percorreu a
região de povoado em povoado para reconstituir os itinerários do bisavô
através de depoimentos dos sobreviventes. Desde então o incorporou ao altar
de seus heróis e começou a levar o escapulário protector que havia sido seu. Espionagem
acaba no bar Num desses dias, Chávez
atravessou a fronteira, sem se dar conta, pela ponte de Arauca, e o capitão
colombiano que revisou sua bagagem encontrou inúmeras razões para acusá-lo de
espionagem: levava uma câmara fotográfica, um gravador, papéis secretos,
fotos da região, um mapa militar com gráficos e duas pistolas do Exército. Os
documentos de identidade, como ocorre com os espiões, podiam ser falsos. A discussão se prolongou por
várias horas num posto militar onde o único quadro era um retrato de Bolívar
a cavalo. "Eu já não aguentava mais", me contou Chávez, "pois
quanto mais explicava, menos ele entendia." Até que lhe ocorreu a frase
salvadora: "Veja como é a vida, meu capitão: há menos de um século
éramos um mesmo exército e esse que nos está olhando neste quadro era o chefe
de nós dois. Como posso ser um espião?" Comovido, o capitão comovido
começou a dizer maravilhas da Grande Colômbia e os dois terminaram a noite
bebendo cerveja de ambos os países num bar em Arauca. Na manhã seguinte, com
uma dor-de-cabeça mútua, o capitão devolveu a Chávez seus instrumentos de
pesquisa e se despediu com um grande abraço na metade da ponte internacional. Início
do movimento "Foi nessa época que
comecei a compreender que alguma coisa de errado se passava na
Venezuela", disse Chávez. Tinha sido designado comandante de um pelotão
de 13 soldados e uma equipe de comunicação na província de Oriente, para
liquidar os últimos redutos guerrilheiros. Numa noite em que chovia muito, um
coronel do serviço secreto com uma patrulha de soldados e alguns supostos
guerrilheiros - famintos e esqueléticos - pediu-lhe para pernoitar na
caserna. Por volta das dez da noite, quando Chávez começava a dormir, ouviu
do quarto contíguo gritos dilacerantes. "Eram os soldados que estavam
batendo nos presos com bastões de beisebol envoltos em trapos para que não
ficassem marcas", contou Chávez. Indignado, exigiu que o coronel lhe
entregasse os presos ou que se fosse imediatamente dali. "No dia
seguinte me ameaçaram com um inquérito e corte marcial por
desobediência", - disse - "mas acabaram só me mantendo por um tempo
sob observação". Alguns dias mais tarde teve
outra experiência ainda mais marcante. Um helicóptero militar aterrissou no
pátio do quartel com um carregamento de soldados recém-feridos numa emboscada
da guerrilha. Chávez carregou nos braços um soldado com várias balas no
corpo, apavorado. "Não me deixe morrer, tenente"... dizia-lhe. Só
deu tempo para o colocar numa ambulância. Outros sete morreram. Nessa noite,
desacordado em sua rede, Chávez se perguntava: "O que é que eu faço
aqui? De um lado, camponeses vestidos de militares torturam camponeses
guerrilheiros, e do outro, camponeses guerrilheiros matam camponeses vestidos
de militar. A essas alturas, com a guerra terminada, não tem o menor sentido
ficarem uns atirando contra os outros." E aí concluiu, no avião que nos
levava a Caracas: "Foi essa a minha primeira crise existencial." Discurso
de improviso No dia seguinte, acordou
convencido de que seu destino era fundar um movimento. E o fez aos 23 anos,
com um nome evidente: Exército Bolivariano do Povo da Venezuela. Seus membros
fundadores: cinco soldados e ele, com a patente de subtenente. "Com que
finalidade?" perguntei. Muito simples, disse ele: "Com a finalidade
de nos preparamos se acontecesse algo." Um ano depois, já como oficial
pára-quedista de um batalhão de blindados em Maracay, começou a conspirar
seriamente. Mas fez questão de frisar que usava a palavra conspiração só no
sentido figurado: convocar voluntários para uma tarefa comum. Essa era a situação a 17 de
dezembro de 1982, quando ocorreu um episódio inesperado que Chávez considera
decisivo em sua vida. Era já capitão no 2º Regimento de pára-quedistas e
oficial do serviço secreto. Quando menos esperava, o comandante do regimento,
Ángel Manrique, o escalou para pronunciar um discurso diante de 1.200 homens,
entre oficiais e tropa. À uma da tarde, com o batalhão já reunido no campo de
futebol, o mestre de cerimónias o anunciou. "E o discurso?",
perguntou o comandante do regimento ao vê-lo subir à tribuna sem papel.
"Eu não escrevi", respondeu Chávez. E começou a improvisar. Foi um
discurso breve, inspirado em Bolívar e Martí, mas com um toque pessoal sobre
a situação de injustiça na América Latina, 200 anos após a independência. Congressos
na clandestinidade Os oficiais o escutaram
impassíveis. Entre eles, os capitães Felipe Acosta Carle e Jesús Urdaneta
Hernández, simpatizantes de seu movimento. Irritado, o comandante
repreendeu-o: "Chávez, você parece um político." Felipe Acosta, que
estava a dois metros de distância, dirigiu-se ao comandante: "O senhor
está equivocado, meu comandante. Chávez não é um político. É um capitão da
nova geração, e quando alguns poderosos corruptos o escutam, mijam-se nas
calças." Depois disso, Chávez foi a
cavalo com os capitães Felipe Acosta e Jesús Urdaneta até Samán del Guere, a
dez quilómetros de distância, onde repetiram o juramento solene de Simón
Bolívar no monte Aventino. "No final, é claro que fiz algumas
mudanças", disse. Em lugar de "quando tivermos quebrado as
correntes que nos oprimem pela vontade do poder espanhol", disseram:
"Até que tenhamos quebrado as correntes que nos oprimem e oprimem nosso povo
por vontade dos poderosos." Desde então, todos os
oficiais que se incorporavam ao movimento secreto tinham que fazer esse
juramento. Durante anos fizeram congressos clandestinos, com representantes
militares de todo o país. "Durante dois dias fazíamos reuniões em
lugares escondidos, estudando a situação do país, fazendo análises e
contactos com grupos civis, de amigos." "Em dez anos - diz Chávez -
conseguimos fazer cinco congressos sem sermos descobertos." O
minuto estratégico Para o comandante Chávez, o
acontecimento mais importante de sua vida foi o Caracazo, a sublevação
popular que devastou Caracas em 1989. Ele sempre repete: "Napoleão disse
que uma batalha se decide num segundo de inspiração do estrategista." A
partir desse pensamento, Chávez desenvolveu três conceitos: um, o momento
histórico; o segundo, o minuto estratégico; e três, o segundo táctico. Aconteceu um drama tremendo,
e eles não estavam preparados. "Ou seja", - conclui Chávez -
"o minuto estratégico nos surpreendeu." Referia-se à insurreição
popular de 27 de fevereiro de 1989: o Caracazo. Carlos Andrés Pérez
acabava de assumir a presidência com uma votação caudalosa e era inconcebível
que, em apenas 20 dias, se pudesse produzir uma revolta tão violenta. "Na
noite do dia 27, eu ia para a universidade, onde fazia um curso de doutorado,
e parei na caserna de Tiura para abastecer o carro", me contou Chávez
minutos antes de pousar em Caracas. "Vi a tropa saindo e perguntei a um
coronel: 'Para onde vão esses soldados?' Estavam levando os homens da
Logística, que não estão treinados para combate, muito menos para combate de
rua. Eram recrutas assustados com seus próprios fuzis. Por isso insisti com o
coronel: 'Para onde vai essa gente?' E o coronel respondeu: 'Para a rua. A
ordem é acabar com os tumultos do jeito que for, e eu vou fazê-lo.' E então
eu disse: 'Mas, coronel, o senhor já pensou o que pode acontecer?' E ele
respondeu: 'Escute bem, Chávez, trata-se uma ordem e não há nada para fazer.
Seja o que Deus quiser." A
tragédia do Caracazo Chávez se lembra que estava
com muita febre naquela noite por causa de uma crise de rubéola. Quando ligou
o carro, viu um soldado que vinha correndo com o capacete caído, o fuzil
dependurado e a munição desarrumada. "Aí eu parei e o chamei",
conta Chávez. "Ele entra, todo nervoso, suando, um jovenzinho de 18
anos. E eu pergunto: 'Para onde você está correndo?' 'Eu perdi o meu pelotão.
Eles vão ali na frente, naquele caminhão. Me ajude, major, me leve até lá.'
Alcancei o caminhão e perguntei ao motorista: 'Para onde vocês estão indo?' E
ele disse: 'Eu não sei de nada. Acho que ninguém sabe.' Chávez respira fundo e quase
grita, asfixiando-se na angústia da lembrança daquela noite terrível:
"Você sabe, eles mandam os soldados para a rua, assustados, com um fuzil
e quinhentos cartuchos. Eles atiravam sobre tudo que se movia. Varriam as
ruas à bala, as favelas, os bairros populares. Foi um desastre! Milhares de
mortos! Entre eles, Felipe Acosta. E meu instinto me diz até hoje que o mandaram
matar", afirma Chávez. "Foi o minuto que esperávamos para
agir." Desde então, começaram a preparar o golpe de Estado que
fracassaria três anos depois. O avião pousou em Caracas por
volta das três da manhã. Vi pela janela o lago de luzes daquela cidade
inesquecível. O presidente se despediu com um grande abraço caribenho.
Enquanto se afastava entre sua escolta de militares condecorados e amigos de
primeira hora, fui tomado pela estranha sensação de que havia viajado e
conversado com gosto com dois homens opostos. Um a quem a sorte obstinada
oferecia a oportunidade de salvar seu país. E o outro, um ilusionista, que
podia passar para a história como um déspota a mais. |
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Escritor
colombiano, Prémio Nobel da Literatura de 1982
[1] apanhador