|
E Informação Alternativa |
|
América
Latina |
|
07/12/2006 Pedro Campos Uma Venezuela vermelha,
vermelhinha (roja, rojita) é o resultado das presidenciais de 3 de
Dezembro. Hugo Chávez triunfou com uma margem de quase três milhões de votos. De acordo com a mais recente informação do Conselho Nacional de Eleições, no fecho desta edição, que se refere a 90,96% das actas de voto, o actual presidente obteve 62,57% dos votos (6.857.485, a votação mais alta jamais alcançada no país) contra 37,18% (4.074.871) de Manuel Rosales, actual governador do estado Zúlia, petrolífero por excelência e o mais rico do país). Foi uma vitória limpa, transparente e esmagadora. Num processo que contou com
uma participação que se estima a mais elevada das últimas décadas – a
abstenção ficará provavelmente abaixo dos 25% – Hugo Chávez venceu em todos
os estados do país, incluindo os dois geridos por governadores da oposição.
Uma vitória tão esmagadora obrigou a que a mesma fosse rapidamente
reconhecida pelo seu principal adversário, que agora voltará à sua condição
original de governador, provavelmente até que seja objecto de um referendo
revogatório. Para Manuel Rosales esta não foi uma decisão pacífica mas foi,
sem dúvida, um momento de galhardia e de responsabilidade política, que já lhe
custou várias acusações de “traidor” e “vendido”, vindos da ala mais
reaccionária dos seus apoiantes, que queria enveredar pelo atalho da
desestabilização e afastar Chávez através de um golpe de Estado ao pior
estilo pinochetista ou mesmo de uma eventual guerra civil. UH! AH! CHÁVEZ NO SE VÁ
[1] Este grito de guerra foi o que
se ouviu durante todo o discurso da vitória, pronunciado por Chávez desde a “Varanda
do Povo” do palácio presidencial, sob um aguaceiro torrencial que aguentaram
a pé firme e a céu aberto apoiantes e líder. Durante a sua intervenção, o
presidente venezuelano afirmou que este triunfo era «o ponto de partida para
uma nova era socialista» e vincou a necessidade de aprofundar a revolução
bolivariana do socialismo do século XXI – um processo original que se começou
a desenhar com as missões sociais nos campos da educação, saúde, habitação e
alimentação, e que tomará novos contornos no futuro imediato, segundo as
necessidades do país. Generoso com o adversário, Chávez felicitou os seus
opositores porque, finalmente, parecem ter optado pela luta dentro da constitucionalidade
e abandonado a tentação do golpismo e do assalto traiçoeiro ao poder. O tempo
dirá, mas, entretanto, Chávez convidou o país inteiro a participar na
construção de um futuro de maior igualdade e justiça social para todos os
venezuelanos. UM SISTEMA ELEITORAL EXEMPLAR Como vem sendo costume, a
consulta do 3 de Dezembro confirmou que as eleições venezuelanas são as mais
observadas do mundo, tanto nacional como internacionalmente. Neste caso,
estiveram em campo 1114 observadores especializados, entre eles 126 da União
Europeia, 60 da Organização de Estados Americanos e oito do Centro Carter, e
todos coincidem em confirmar a limpeza e correcção do acto eleitoral e dos
seus resultados. Muito deles foram mesmo mais além, chegando ao ponto de afirmar
que se trata de um mecanismo eleitoral de vanguarda, que gostariam de ver
implantado nos seus países. Por exemplo, na edição de 4 de Dezembro do New
York Times, jornal marcadamente antichavista, podemos encontrar duas
notas a talhe de foice. Uma nota diz que «o presidente Chávez foi reeleito
por uma avalanche» de votos, «o que lhe dá um mandato forte para avançar com
as suas políticas socialistas», e outra é sobre as máculas do sistema de
votação automática nos Estados Unidos. «No mês passado, em Ohio, Illinois,
New Jersey e outros estados, houve casos – alguns confirmados por
funcionários eleitorais – em que os votantes escolheram no ecrã um candidato
e as máquinas registaram outro. Na Florida, onde um deputado republicano
venceu por menos de 400 votos, o caso está nos tribunais porque as máquinas
de votação electrónica sem papel parecem ter deixado de registar qualquer
coisa como 18 mil votos». Curiosamente, na “atrasada” Venezuela, as máquinas
entregam ao eleitor um comprovativo de papel onde se vê claramente o nome do
candidato e partido escolhidos. UM NOVO MAPA ELEITORAL No campo progressista, o Movimento V República confirmou-se como o partido mais importante do país (mais de 4 milhões de votos), seguido imediatamente por Podemos, Pátria Para Todos e Partido Comunista da Venezuela, este último muito perto dos 300 mil votos. Do lado opositor, os partidos
mais fortes são Um Novo Tempo (do governador Rosales), que conseguiu à volta
de 1,4 milhões de votos e Primeiro Justiça, com 1,2 milhões. Em terceiro lugar,
ficou o partido democrata‑cristão, que já tinha vencido duas eleições
presidenciais e desta vez ficou com pouco mais de 200 mil votos. Partidos que
tinham sido importantes noutras eleições foram varridos do horizonte
eleitoral e os social‑democratas nem sequer participaram com medo de
ficar mal no retrato. A espectacular vitória de
Hugo Chávez não só confirma a constituição de um novo mapa eleitoral na
Venezuela, como a de uma nova correlação de forças na América Latina, agora
reforçada, pela esquerda, com o triunfo de Rafael Correa, no Equador, já
reconhecido internacionalmente, mas que o seu oponente da direita oligárquica
se nega a aceitar, apesar da grande diferença de votos. UM PERCURSO COM HISTÓRIA Chávez foi eleito pela primeira vez a 6 de Dezembro de 1998 com 56,24 por cento dos votos, pondo fim a quase meio século de governos corruptos e prepotentes. Em 30 de Julho de 2000, após a eleição de uma Assembleia Constituinte encarregada de dar início às transformações democráticas, Chávez volta a ser reconduzido no cargo com 59,5 por cento dos votos. Nascido a 28 de Julho de 1954, Hugo Chávez licenciou-se em Ciências e Artes Militares, tendo ingressado na Academia Militar da Venezuela em 1975, como subtenente. Em 1990 detinha já o posto de tenente-coronel. A necessidade de mudar a realidade de um país com enormes riquezas e milhões de pobres levam-no, em 4 de Fevereiro de 1992, a encabeçar um movimento de jovens oficiais que tenta derrubar o governo. Com o fracasso da revolta, é preso e condenado a dois anos de cadeia. Quando sai em liberdade funda o Movimento V República, que estabelece alianças com diversos partidos de esquerda – como Pátria Para Todos, Comunista, Movimento Eleitoral do Povo –, o então Movimento para o Socialismo e outros grupos sociais. É apoiado por essas forças que chega à presidência da Venezuela em 1998, dando início a uma política de defesa dos interesses nacionais e de aproximação a outros países da região, o que suscita de imediato a hostilidade declarada da administração norte-americana. Chávez enfrenta com sucesso, graças ao apoio popular, uma tentativa de golpe de Estado, em Abril de 2002; um boicote do grande patronato, de 2002 a 2003; e um referendo para o afastar do poder, em 2004. As sucessivas vitórias alcançadas pela revolução bolivariana devem-se ao facto de o governo de Chávez basear a sua acção em planos sociais financiados pelos rendimentos do petróleo, tal como a assistência médica gratuita, que já abrange 17 milhões dos 26 milhões de venezuelanos; um projecto contra o analfabetismo (1,5 milhões de adultos aprenderam a ler e a escrever); apoio a centenas de milhares de alunos com baixos rendimentos em todos os graus de ensino; e um ambicioso programa nacional de erradicação da miséria, que através da chamada Missão Mercal permite o acesso de 15 milhões de venezuelanos a uma cesta básica alimentar, a preços subvencionados. ______ [1] Título e refrão de uma conhecida canção de apoio a Chávez do Grupo Madera (n. IA). |