E Informação Alternativa

América Latina

30/11/2006

 

Chávez deve vencer com folga, mas oposição ganha espaço

 

Gilberto Maringoni

Carta Maior

 

Com mais de vinte pontos à frente, Chávez deve ser reeleito presidente da Venezuela no próximo domingo. A oposição consegue unificar­‑se e mostrar que tem base social. Principais desafios do próximo mandato são melhorar serviços públicos, atender demandas sociais e debater o que seria o “socialismo do século XXI”.

 

Todas as pesquisas de opinião apontam uma vantagem de vinte pontos ou mais para o presidente venezuelano Hugo Chávez nas eleições deste domingo (3). O seu maior opositor, Manuel Rosales, actual governador do estado Zulia, conseguiu tornar-se candidato único de oito partidos de oposição. É uma convergência inédita nos últimos anos. Com ele estão, dentre outros, Primeiro Justiça, COPEI, Movimento ao Socialismo (MAS) e parte da Acção Democrática, todos situados claramente à direita no espectro político.

 

Rosales apoiou o golpe de 2002 contra Chávez e hoje alega ter­‑se arrependido do gesto. Há dois anos tornou­‑se um dos poucos governadores eleitos pela oposição e quer agora externar uma personalidade política diversa. Comandando a região onde se situam as maiores reservas petroleiras do país, buscou dar uma face social-democrata com preocupações sociais à sua administração.

 

«Esta característica permitiu que Rosales conseguisse juntar várias forças políticas e apresentar-se como postulante de uma frente eleitoral», diz Edgardo Lander, sociólogo e professor da Universidade Central da Venezuela (UCV). Para ele, trata-se de uma mudança importante na cena política. «Mesmo com a previsível vitória do presidente, há um sector da oposição que recupera sentido ao participar do jogo político». Há alguns meses existiam propostas, entre a oposição, de não participar das eleições, alegando possíveis fraudes.

 

«DUAS IDEIAS DE PAÍS»

 

Teodoro Petkoff, ex-comunista e um dos coordenadores da campanha de Rosales, escreveu no editorial do seu jornal Tal Cual desta quinta-feira (30) que «Culmina hoje a campanha eleitoral mais carregada de significados que vivenciámos desde 1958. Duas ideias de país se digladiarão neste domingo». Há um certo exagero na comparação. Há 48 anos caía a última ditadura militar da Venezuela, no meio de um verdadeiro levante popular. De lá para cá, pelo menos dois embates nas urnas foram decisivos: a eleição de Chávez, em 1998, e o referendo revogatório de 2004. Foram seis anos de aguda confrontação, tentativas de golpe e isolamento internacional.

 

Quando começou a ficar claro que a vitória de Chávez representava mais que um fenómeno venezuelano e se inseria num amplo quadro de descontentamento com as reformas liberais no continente, o isolamento começou a dissolver­‑se. O reflexo interno foi a fragmentação oposicionista, apesar do amplo apoio com que as forças conservadoras contam nos meios de comunicação.

 

UM GRANDE ACTO

 

O grande tento que a candidatura de Rosales logrou obter foi a realização de um gigantesco acto de encerramento de campanha, no sábado (25), na auto­‑estrada Francisco Fajardo, zona leste de Caracas. A larga via, de oito pistas, foi tomada por cerca de 400 mil oposicionistas, número inédito desde o golpe de 11 de Abril de 2002. Naquele dia, um público semelhante iniciou, no mesmo local, uma expressiva marcha rumo ao palácio de Miraflores, exigindo a saída de Chávez. No sábado, a oposição vitaminou­‑se ao perceber que conta com uma expressiva, embora minoritária, base social.

 

A multidão que tomou o asfalto repetia a palavra de ordem “Atreva-se!” e gritava, referindo-se a Chávez: “Se vá, se vá, se vá, se vá”. Tentando imprimir um viés social à campanha, Rosales garantiu que irá «retirar todas as crianças das ruas, caso contrário sairei da presidência». Prometeu que «A Venezuela terá um novo presidente para uma nova democracia social, para que todos possam participar das riquezas e viverem bem». Denunciou ainda o clima de insegurança que «tornou Caracas a segunda cidade mais perigosa da América Latina». E não se esqueceu de mandar um recado ao mercado: «Teremos segurança jurídica para chamar o capital privado nacional e estrangeiro a gerar trabalho e mais riquezas para a Venezuela».

 

A REACÇÃO CHAVISTA

 

«Após o comício, aconteceu então algo surpreendente», relata o economista brasileiro Luciano Wexell Severo, funcionário do Ministério do Comércio Exterior venezuelano. A campanha de Chávez convocara uma manifestação para o dia seguinte, na avenida Bolívar, no centro, com diversos pontos de concentração pela cidade. Severo lembra que apesar da existência de diversos focos de descontentamento popular com corrupção, burocratismo e ineficiência dos serviços públicos, a resposta popular foi incisiva. «Na hora em que se percebeu a força do outro lado, mesmo os recalcitrantes saíram às ruas em apoio ao governo». O resultado foi uma maré humana, vinda de diversas partes do país, como poucas vezes se viu em Caracas. «Eu estive nas duas concentrações. Havia pelo menos o dobro de gente apoiando Chávez», relata.

 

O discurso presidencial no acto teve como centro a ideia de que a partir de segunda-feira «começará outra era revolucionária». O “comandante”, como é chamado, deseja radicalizar o combate às mazelas que descontentam a população e candidatar­‑se novamente em 2010. «Vamos discutir o socialismo do século XXI, os conselhos comunais e estreitar a nossa aliança com países irmãos, como Cuba». No âmbito político, deseja unificar todas as agremiações que o apoiam num «único partido da Revolução», para enfrentar o que define como «oposição contra-revolucionária», que seria representante «do governo imperialista dos Estados Unidos».

 

A longa intervenção foi feita no mais puro estilo Chávez. Falou de quase tudo, de Bolívar, da história, dos planos do futuro, da integração regional, da melhoria dos programas sociais etc. Dedicou a vitória «ao povo venezuelano, ao povo da Nicarágua, a Evo Morales e ao povo da Bolívia, ao Brasil e a Lula, o companheiro presidente, amigo e irmão, à Argentina e seu povo, a Nestor Kirchner, a Tabaré e ao povo uruguaio e a todos os povos companheiros». Mais do que retórica explícita, o presidente busca indicar quais são suas alianças regionais.

 

DEMANDAS POPULARES

 

«Chávez toca em demandas reais, como fim à corrupção, participação popular e mesmo sobre o que seria o socialismo do século XXI», diz Edgardo Lander. Estes temas, segundo o sociólogo, foram deixados de lado no debate eleitoral. «Diz-se que um ciclo se fecha e outro se abre. Mas não há muito conteúdo nessas palavras de ordem». Para ele, a discussão sobre o “socialismo do século XXI” precisa levar em conta o que foi o socialismo do século XX, com seus erros e acertos, as suas tendências autoritárias e centralizadoras, para que os problemas não se repitam. É um debate que tende a aflorar em 2007, opina.

 

Com todos os problemas, o desemprego baixou para menos de 8%, embora alguns serviços públicos continuem deficientes. «A cidade, como espaço urbano, continua a ser um caos, com iluminação, recolhimento de lixo e transportes que continuam precários». Mas o embate desses dias tende a inverter um quadro preocupante na participação democrática da população. «Houve uma polarização nos últimos dias. É possível que a abstenção eleitoral, tradicionalmente alta, caia na disputa de domingo», opina Lander.

 

Apesar de se colocar abertamente ao lado de Manuel Rosales, a imprensa, diante da vitória quase certa de Chávez, perdeu um pouco do seu exagero habitual. Um pouco mais sóbrios, os jornais aparentemente já se conformaram com o resultado e, nos últimos dias, buscaram produzir um noticiário menos disparatado do que em outras disputas políticas.