Informação Alternativa

América Latina

21/11/2006

 

A Venezuela perante as eleições presidenciais de Dezembro de 2006

 

Marta Harnecker

Rebelión

 

1. O falhanço do golpe militar de Abril do 2002 (mais de 80% dos generais com comando operacional mantêm­‑se fiéis a Chávez e à Constituição) constitui a primeira grande derrota da oposição e um verdadeiro presente para Chávez. Estas circunstâncias permitiram que os actores se desmascarassem e que o povo adquirisse um muito mais elevado nível político (dentro das fileiras militares e dentro dos quadros civis já se sabe com quem se conta e com quem não). Criaram o terreno propício para avançar na depuração da instituição militar. Dividiram a oposição. Fizeram repensar sectores cada vez mais numerosos das camadas médias, que antes estavam contra o processo, ao verem a anarquia a que poderia conduzir a marginalização de Chávez.

 

2. A tentativa frustrada de parar o país no dia 2 de Dezembro do 2002 foi a segunda grande derrota para a oposição. O país não parou. Chávez não se dobrou. Mas o mais importante, a indústria petrolífera passou desde então realmente para o controle do Estado venezuelano. Este foi o segundo grande presente da oposição. Pela sua atitude subversiva, sabotadora, cerca de 18 mil quadros de gestão de alto e médio nível opostos ao governo e que de facto exerciam o controle da empresa criaram as condições legais para serem despedidos.

 

3. A ratificação do mandato do presidente Chávez no referendo revogatório de 15 de Agosto de 2004 — um processo inédito na história mundial — foi a terceira grande derrota sofrida pela oposição venezuelana. O triunfo de Chávez com uma enorme diferença votos [1], perante o olhar atento de centenas de observadores internacionais que ratificaram unanimemente os seus resultados, foi o terceiro presente da oposição. Ninguém podia duvidar já do carácter democrático do seu governo.

 

4. Constituiu, como estimou um deles, Eduardo Galeano, conhecido escritor uruguaio, «uma injecção de optimismo neste mundo onde a democracia está tão desprestigiada» por ter sido incapaz de resolver a pobreza.

 

5. Esta não foi a vitória de um homem, mas de um projecto de país humanista e solidário tanto na sua projecção nacional como internacional, de um projecto de país que se ergue como alternativa ao modelo neoliberal voraz e predador: um modelo de desenvolvimento endógeno e de economia social.

 

6. Foi o triunfo da Constituição venezuelana actual, a única Constituição do mundo que contempla a figura do referendo revogatório do mandato presidencial.

 

7. Mas foi, sobretudo, a vitória do povo, da organização popular, da gente dos bairros, mas também da gente da classe média que respondeu ao apelo do presidente para se organizar­ nos lugares de votação, tomando a iniciativa sem esperar que os organismos de condução da campanha eleitoral fossem constituídos.

 

8. Com este triunfo começa uma nova etapa do processo revolucionário bolivariano. Os guerreiros mediáticos ficaram sem munições. A oposição desmascarou­‑se, perdeu muita credibilidade Agudizaram­‑se as lutas internas entre as suas fracções.

 

9. A oposição foi derrotada nessa batalha, mas era evidente que as forças partidárias de Chávez ainda não tinham ganhado a guerra. Não se podia esquecer que, num país de 26 milhões de habitantes, cerca de 4 milhões de pessoas votaram para o revogar. Também não se podia esquecer as expectativas que o triunfo ia criar nesses 6 milhões de pessoas que votaram pelo NÃO.

 

10. Os desafios a enfrentar nesta nova etapa eram muito variados, como escrevemos poucas semanas depois do referendo num trabalho para a Monthly Review [2].

 

11. O processo revolucionário bolivariano devia dar um salto qualitativo na participação protagonista do povo. A ideia força mais importante do presidente Chávez: «a pobreza não poderá ser eliminada se não se entrega poder ao povo» devia materializar­‑se em formas organizativas e participativas concretas. E assim em parte se fez. Surgiu a figura dos conselhos comunais. Realizando um cálculo aproximado, estimou-se que a Venezuela podia ter cerca de 52 mil comunidades. E em cada uma destas comunidades devia ser eleita uma instância que fizesse as vezes de governo comunitário. A esta instância chamou-se conselho comunal e tem hoje uma lei que o respalda promulgada em Abril deste ano. Em poucos meses, quase uma quarta parte do país estava constituída em conselhos comunais e a maior parte deles tinha recebido recursos do governo para realizar pequenas obras que a comunidade priorizou. Esta medida estimulou enormemente a participação.

 

12. No entanto, pouco se avançou noutra medida participativa fundamental: o orçamento participativo municipal. As câmaras municipais e governações, salvo muito escassas excepções, continuam a decidir que obras executar nas costas das pessoas. Será tarefa do próximo governo dar um grande impulso a este processo que é uma arma muito importante na luta contra a corrupção e a ineficiência.

 

13. Era também indispensável avançar no desenvolvimento de um novo modelo produtivo alternativo e para isso considerava­‑se essencial a iniciativa estatal. Em meu entender, era preciso ir consolidando grandes empresas estatais nas áreas estratégicas: petróleo, electricidade, telecomunicações, finanças, distribuição de alimentos, transporte. E avançou-se nestes anos bastante neste sentido. Foi-se transformando a Venezuela de um país rentista, exportador de matérias primas, num país com uma sólida base agrícola e industrial destinada a produzir os bens e os serviços de que o consumo popular necessita. Foi-se tentando um maior equilíbrio territorial, mediante um desenvolvimento harmónico e proporcional das regiões para superar a problemática do sobrepovoamento e colapso das cinco grandes cidades onde se concentra 75% da população. Exemplo disso são: a Cidade do Aço, no Estado Bolívar, onde se estão a instalar 4 indústrias básicas, e o pólo de desenvolvimento endógeno Caicara-Cabruta nas margens do rio Orinoco. Está a criar-se, por outro lado, uma nova geração de empresas básicas orientadas para aprofundar o desenvolvimento endógeno. Refiro-me à criação da Companhia Nacional de Indústrias Básicas (Coniba) e das suas onze empresas filiais, e da Corporação Petroquímica da Venezuela (Pequiven) que pretende o fortalecimento de capacidades tecnológicas inovadoras para transformar matérias­‑primas em produtos de crescente valor agregado que permitam substituir importações e diversificar a oferta exportável. O Estado também está a investir nas indústrias estratégicas como as de telecomunicações (CVG telecom) e aquelas que têm a ver com a segurança e a soberania alimentar, como a Corporação Venezuelana Agrária (CVA), casa matriz de novas empresas no sector agrícola.

 

14. Além disso colocávamos, em Setembro de 2004, a necessidade de desenvolver em grande escala a economia popular, através de cooperativas e associações dos mais diversos tipos que permitissem a participação protagonista de trabalhadores no processo, para assim ir conseguindo uma transformação das relações de produção. E neste sentido, além do grande crescimento do número de cooperativas, impulsionaram-se as chamadas “empresas de produção social”, inspiradas em princípios de solidariedade, cooperação, complementaridade, reciprocidade e sustentabilidade económica e financeira, como um modo de ir construindo um modelo baseado em novas relações sociais de produção que libertam o trabalho assalariado da exploração do capital.

 

15. Por outro lado, assinalava então a necessidade de que os trabalhadores desempenhassem um papel importante na gestão das empresas, assegurando a aplicação de uma lógica humanista e solidária. Contudo, ainda que neste aspecto os avanços não tenham sido significativos a nível de todo o país, houve avanços locais notáveis tanto na indústria eléctrica no Estado Mérida como na empresa de alumínio ALCASA no Estado Bolívar. E aumentou o número de empresas recuperadas nas mãos dos trabalhadores.

 

16. Por outro lado, considerei como uma das tarefas prioritárias da etapa que começava depois do referendo a necessidade de resolver o problema do emprego e que, para isso, além das iniciativas antes assinaladas, era necessário impulsionar também a reactivação do sector industrial privado disposto a colaborar com o projecto de desenvolvimento endógeno proposto pelo governo. Neste sentido, estabeleceu-se um acordo marco com este sector através do qual o governo outorga créditos a uma taxa de juro mais baixo sempre que ditas empresas cumpram certos compromissos sociais, como, por exemplo, que se comprometam a dedicar pelo menos 10% dos seus rendimentos a cobrir as necessidades mais prementes das comunidades vizinhas da indústria, e também, que permitam a participação dos trabalhadores na gestão de ditas empresas.

 

17. Propunha então a necessidade de avançar na integração latino­‑americana como uma condição indispensável para o avanço dos projectos económicos do governo, Este avanço foi muito maior que o esperado. O novo cenário político, resultado dos recentes triunfos eleitorais presidenciais na região, foi criando condições cada vez melhores para a dita integração.

 

18. Sustentei, simultaneamente, que outro dos desafios que se colocava ao governo depois do referendo era melhorar a correlação de forças no plano institucional. E esta melhorou notavelmente. As eleições de governadores e presidentes de câmara deram resultados muito positivos para o governo. De oito governadores que se tinha então, nas eleições de Outubro de 2004, passou­‑se a vinte e dois. A oposição só governa dois dos vinte e quatro estados. Por outro lado, a Assembleia Nacional só é bolivariana como consequência das eleições de 2005, devido a que os candidatos opositores, ao verem­‑se perdidos, optaram por não comparecer às eleições, procurando desta maneira desprestigiar a dita entidade legislativa.

 

19. Essa acumulação quantitativa de forças no plano institucional devia ter-se traduzido numa acumulação qualitativa, em aumento da eficiência, em que cada um dos actores governamentais desempenhasse melhor as suas respectivas responsabilidades pondo em prática eficientemente os projectos e iniciativas anunciados pelo governo, mas isto está bem longe de se ter conseguido. O velho modelo de Estado continua de pé com muita força, apesar das tentativas de Chávez de mudar as coisas. E o mesmo ocorreu com o flagelo da corrupção.

 

20. Por outro lado, avançou-se muito pouco ou nada, na criação de um instrumento político mais adequado aos grandes desafios propostos pelo processo revolucionário bolivariano. Continua e talvez se tenha acentuado a disputa por cargos nos níveis de direcção do processo. O comando eleitoral Miranda, criado para dirigir o processo eleitoral presidencial que terá lugar a 3 de Dezembro, foi hegemonizado pelo Movimento V República, provocando mal-estar no resto dos partidos políticos e mal-estar na população.

 

21. Além disso, em lugar de se avançar na construção de um instrumento unitário dos trabalhadores, retrocedeu­‑se. Há ainda demasiada dispersão. Continuam a empregar-se os velhos métodos.

 

22. Neste contexto, os meios de comunicação opositores, claramente maioritários, avultando exponencialmente os erros e debilidades do governo, e tergiversando o seu projecto, conseguiram recrear um clima contrário a Chávez, influindo num número significativo de venezuelanos. As forças políticas opositoras, que saíram do referendo debilitadas e dispersas, conseguiram nos últimos meses superar a sua crise concitando a simpatia de um número nada desprezável de venezuelanos.

 

23. A este bombardeio mediático de todos os dias e a toda a hora, soma­‑se então uma oposição finalmente unificada em torno da figura de Manuel Rosales como candidato presidencial opositor. O ex governador de Zulia, um dos maiores e mais estratégicos estados do país, que tem a seu favor um relativamente bom governo nesse estado fronteiriço com a Colômbia, levou adiante uma bem montada campanha eleitoral. Promete conservar tudo o que de bom o governo de Chávez fez e aperfeiçoá­‑lo. Anuncia demagogicamente que além do mais depositará directamente na conta de cada lar venezuelano pobre uma significativa soma de dinheiro fruto dos ingressos petrolíferos.

 

24. Por fim, é necessário ter em conta que por trás do cenário de toda a estratégia opositora tem estado sempre presente a acção do governo norte-americano. Para este, Chávez tornou­‑se uma verdadeira obsessão e utilizará qualquer meio ao seu alcance para se desfazer dele.

 

25. Percebendo todas estas limitações e obstáculos, e as ameaças de um novo período de distúrbios ocasionados pela oposição, a escassas semanas do evento eleitoral, o presidente começou a envolver a juventude como o motor central da sua campanha, assinalando este sector social como uma força moral que permitirá superar a apatia e os vícios que as anteriores gerações arrastam.

 

26. Se a juventude bolivariana não trabalhar seriamente para conquistar novos eleitores nas duas próximas semanas, tudo faz pensar que, apesar das notáveis conquistas que o povo venezuelano obteve com o governo bolivariano durante estes últimos anos, será muito difícil que o presidente Chávez consiga obter resultados eleitorais melhores que no referendo. Esta apreciação é confirmada pela maioria das sondagens de opinião que o dão como ganhador por uma diferença de uns 20 pontos, os mesmos 20 de há pouco mais de dois anos atrás.

 

_____

[1] Cerca de 2 milhões. Chávez obteve o apoio de cerca de 6 milhões de pessoas; assinaram a favor da revogação cerca de 4 milhões.

[2] Monthly Review, Volume 56, número 6, Novembro 2004. Este trabalho foi integrado depois no livro Venezuela: Una revolución sui géneris, publicado na Venezuela pelo Ministério da Cultura-Conac, Caracas, 2004.