Informação Alternativa

América Latina

04/11/2006

 

A célula da Al Qaeda na Ilha Margarita só existe na imaginação da CIA

– Entrevista a Mohamad Abdul Hadi, vice-presidente da Comunidade Árabe –

 

Marwan Paz

Rebelión

 

Depois do 11-S, a CIA e o FBI utilizaram a ameaça terrorista como instrumento de descredito político em numerosas ocasiões. Na Venezuela, a popularidade do Presidente Chávez e a sua relação cada vez mais cordial com países árabes, inspirou aos serviços secretos norte-americanos e à oposição a ideia de vinculá-lo com a Al Qaeda, para minar a sua credibilidade internacional. Rapidamente surgiram rumores que apontavam a Venezuela como país que protegia terroristas islamitas. E esses rumores, cada vez mais insistentes, cevaram­‑se especialmente na comunidade árabe de Porlamar, na Ilha Margarita.

 

James Hill, chefe do Comando Sul norte-americano, afirmou coisas tão graves como que na Ilha Margarita existiam campos de treino da Al Qaeda; que a comunidade de comerciantes libaneses de Porlamar financiava grupos terroristas no Médio Oriente; e inclusive que Ben Laden podia encontrar­‑se escondido na Venezuela. Durante meses esta comunidade árabe sofreu o ataque mediático mais desapiedado da sua história. Diariamente a imprensa antichavista nacional, inspirada e alentada pelos meios de comunicação norte­‑americanos, dedicaram portadas e manchetes à suposta célula terrorista da Al Qaeda. No entanto não só nunca se apresentou nenhuma foto, vídeo ou prova da existência dos supostos terroristas, como a maioria daqueles rumores foram desmontados rapidamente pela actualidade internacional.

 

O exemplo mais gráfico destas torpes manipulações foi protagonizado por Johan Peña , que foi comissário da DISIP (serviço secreto venezuelano) e exilado, como muitos golpistas do 11 de Abril, em Miami. Peña compareceu no dia 30 de Setembro de 2005 perante as câmaras do Canal 41 América TV num dos seus principais programas, “A mano limpia”, dirigido e apresentado pelo jornalista Óscar Haza. Amparado por um suposto dossiê secreto de documentos oficiais, o ex espião venezuelano mostrou uma foto de Mustafá Setmarian, acusado pela imprensa espanhola de ser o cérebro do 11-M e o principal agente espanhol da Al Qaeda, e afirmou que vivia escondido na Venezuela, protegido pelo governo de Chávez. Peña assegurava que Setmarian tinha estado protegido pela Al Qaeda de Ilha Margarita, e que nesse momento se encontrava no estado Bolívar. Mas o embuste durou pouco ao trânsfuga da DISIP, porque somente um mês após tão espectaculares declarações, que tanto a imprensa norte-americana como os meios de comunicação venezuelanos ventilaram generosamente, a 3 de Novembro, toda a imprensa internacional se fazia eco da notícia da detenção de Mustafá Setmarian Nasar… mas no Paquistão, não na Venezuela. Setmarian não tinha pisado na sua vida nem a Margarita, nem a Venezuela, nem a América Latina.

 

INTERROGADO INJUSTAMENTE PELO 11-S

 

Nós quisemos conhecer o ponto de vista das vítimas daquela campanha, e visitámos na ilha o vice­‑presidente da Comunidade Árabe de Porlamar, Mohamad Abdul Hadi, que chegou a ser fichado e interrogado relativamente ao 11-S. Nascido no Líbano, confessa-se abertamente nasserista e chavista. “Manuel”, como é conhecido pelos seus amigos, dirige um dos comércios da zona árabe de Porlamar e foi vítima da brutal campanha mediática do Comando Sul do exército norte-americano, da CIA e do FBI.

 

– Aji Mohamad, Qual é a história da comunidade árabe de Margarita?

 

A emigração geral para a Venezuela começou no final do século XIX. Inclusive muitos libaneses chegaram com passaporte turco, porque ainda não existia a identidade libanesa. Os primeiros chegaram nos anos 70, quando decretaram a ilha como zona livre de impostos. Muitos imigrantes que estavam em Caracas, Colômbia ou Panamá vieram e começaram a trabalhar. O trabalho cá é mais fácil que em terra firme. Tens que criar uma loja mais ou menos visível, bem decorada, ir ao Panamá, a Hong Kong ou aos EUA, comprar a tua mercadoria, exibi­‑la e trabalho feito. Os árabes são por natureza comerciantes, aventureiros e aqui ou nas zonas livres do Brasil, Paraguai ou Uruguai, há muitos. Mas os EUA chamam-nos “eixo do mal”. Diz que financiamos o terrorismo, tanto aqui em Margarita como em Fortaleza.

 

– O que se está a passar com Chávez é insólito. Que sentem os árabes da Venezuela com tudo isto?

 

É um presente de Deus, que nos mandou Chávez para presidir à Venezuela. Ninguém imaginava que Chávez ia ser assim, tão humano, tão democrático e tão justo. Ao mundo fazia falta um homem justo, porque não há justiça no planeta. Dos EUA dizem que é a primeira potência mundial, mas falta­‑lhe justiça. Os árabes, e sobretudo os muçulmanos, sempre foram um ponto de ataque e nós sentíamo­‑nos humilhados, sem ter a defesa apropriada nem os meios para nos defender. Não tínhamos experiência em imprensa, nem rádio... Somos emigrantes por natureza, saídos dos nossos países para melhorar a vida. Os nossos pais saíram de lá para nos dar educação e viver melhor do que eles o fizeram. Quando o meu pai chegou cá, não sabia ler nem escrever. Na Venezuela aprendeu a falar castelhano e pareceu-lhe um milagre de Deus poder ler o jornal. Aprendeu por sua conta tal como muitos outros que chegaram analfabetos e cá aprenderam. Mas não conheceram Chávez...

 

– Essa sensibilidade de Chávez com o mundo árabe não é usada pelos seus inimigos contra ele?

 

Com Chávez ou sem Chávez íamos ser atacados. Aqui, durante 3 anos, saíamos em primeira página com manchetes como “Terroristas árabes na Ilha Margarita”; “Campos de treino terrorista na Ilha Margarita”; “O presidente Bush acusa a comunidade árabe de Ilha Margarita”. Uma vez veio o correspondente do Washington Post, para me entrevistar, e eu disse­‑lhe que primeiro desse uma volta pela ilha, para conhecer as pessoas, a comunidade, e que depois falaríamos. Assim o fez. Deu uma volta pelo centro e arredores de Porlamar e deu­‑se conta de que havia uma grande comunidade árabe. Ele publicou depois: «não é estranho ver uma mulher com véu, por trás da caixa registradora, numa loja da Ilha Margarita»; «não é estranho ver um comerciante árabe vendo a Al Jazeera na sua televisão por cabo»; «Há uma grande comunidade árabe na Ilha Margarita, mas aqui todos vivem em paz». Não há campos de treino, não há nenhum acto terrorista, aqui os árabes praticam diariamente a sua religião sem incomodar ninguém. Saiu a entrevista assim no Washington Post, e no entanto, no dia seguinte, a Globovisión anunciou: «O presidente Bush acusa comunidade árabe da Ilha Margarita segundo o Washington Post...».

 

– Os ataques mais importantes chegaram da CIA e do governo norte-americano…

 

James Hill dizia sempre: “na Ilha Margarita há terroristas árabes”, “os comerciantes árabes financiam terroristas”. E com origem nisso veio a DEA. Aqui há um banco de um libanês, com o qual todos os comerciantes trabalham pois dá­‑nos facilidades. A DEA veio e pesquisou o banco por 3 meses. Pesquisaram todas as contas. Cliente por cliente e nada. Foram-se sem encontrar nada estranho. Mas continuavam a dizer que se terroristas, que se campos de treino em Macanao... Macanao é desértico, não há nada, só muitos coelhos e uns comerciantes libaneses que aos domingos iam caçar. Será que confundiram os coelhos com terroristas? Vieram de Caracas, do governo venezuelano. Fotografaram toda a ilha, mas continuava a campanha. Que se o Centro Islâmico de Porlamar terrorista...que se actividades terroristas… Nós cansámo­‑nos de responder, mas no final decidimos entregar­‑nos nas mãos de Deus.

 

– Mas, Aji Mohamad, na ilha, o partido no poder não é o MVR de Chávez, mas os adecos [do partido AD], partidários dos norte­‑americanos, não?

 

Pessoas daqui diziam de nós que éramos terroristas. Quando saímos numa manifestação, para protestar pela guerra do Iraque, assinalavam­‑nos dizendo “aí vão os terroristas”. E o incrível é que o próprio presidente do partido adeco é de origem libanesa e sempre foi financiado por políticos árabes. Ao voltar­‑nos as costas, fomos apoiados pelo ex governador, que era chavista. Talvez por isso nos diziam terroristas.

 

– O próprio partido de oposição, usou-os para satisfazer os interesses americanos, assinalando a Margarita como foco terrorista. Que mais podiam vocês fazer?

 

Irmão Marwan, durante 3 meses não fizemos nada. Mas a campanha continuava. Até que um dia telefonaram para o Centro Islâmico, da embaixada norte-americana de Caracas. O embaixador queria vir reunir­‑se connosco. Eu fui à reunião com muito medo. Imagina, sem saber o que queria e com uma campanha tão descomunal, em todos os jornais, em todos os meios. Lembro­‑me que era o último dia do Ramadão de 2004. O embaixador Shapiro entrou com o seu adido militar e começámos a explicar-lhe as nossas actividades, a mostrar­‑lhe a biblioteca, onde rezamos, a escola que estamos a construir, etc.

 

– Ou seja, tiveram aqui Shapiro… E que queria de vocês?

 

Nós falávamos, mas ele não dizia nada. Uma hora mais ou menos... e irmão Marwan... no final da reunião Charles Shapiro só disse isto: “Vim pedir perdão pelos problemas que lhes causámos”. Este é o melhor certificado que nos deram. O sucessor de Shapiro também veio e temos boa relação com a embaixada americana. Inclusive com os vistos, pedem referências e nós sempre colaborámos com eles. O que se passa é que a ilha é muito pequena e quando chega alguém novo toda a gente se inteira. Nós somos os primeiros interessados em limpar as nossas fileiras, em ter a comunidade limpa, sã. Levamos quase um século na Venezuela e nunca tivemos problemas. Não viemos para fazer actos terroristas. Procuramos aqui um futuro melhor. Nas prisões venezuelanas é muito difícil encontrar um delinquente árabe e isso é uma prova muito boa. Nós não temos gente que pensa mal, nem gente fanática. Queremos que a nossa comunidade tenha o comportamento que O Profeta nos ensinou, nem direita nem esquerda, mas a linha média. Assim Deus no-lo mandou e assim o ensinamos às gerações vindouras.

 

– O colégio árabe que vocês construíram não tem precedentes. Têm ajudas oficiais para terminá-lo?

 

O colégio já está quase pronto. O governo prometeu-nos fazer uma via de acesso porque está numa avenida. O terreno comprámo-lo com o esforço da própria comunidade, e recebíamos doações de fora, mas após o 11­‑S os EUA puseram restrições e já não as pudemos receber. Também fomos investigados por isso.

 

– Tudo pioraria com o 11-S…

 

Nós também fomos vítimas. Na sequência do 11-S, o governo americana pressionou as autoridades venezuelanas para investigar todos os árabes que nessa época estavam fora da Venezuela e regressaram após o atentado. Os mais investigados foram os que viajaram para o mundo árabe nessas datas. Eu tinha ido ver os meus pais ao Líbano e regressei a 9 de Setembro. Uma semana após o dia 11 citaram-me na DISIP. Eles tinham uma lista de todos os que foram a algum país árabe. Interrogaram-me, tomaram as minhas impressões digitais, e tudo isso… Fui aos EUA depois e a cada 4 ou 5 passos, revisão, busca, saca os sapatos, tira o cinto, revistar­‑te… foi terrível.... Para nós o 11-S foi também terrível.

 

– Suponho que apesar da brutal campanha mediática que suportaram e dos insultos e acusações de terrorismo, sabem também que outros povos árabes, como o palestino, o iraquiano ou o libanês, sofreram a “guerra contra o terrorismo” dos americanos e judeus nestes últimos 5 anos…

 

Nós estamos sempre pendentes das notícias do Líbano, da Palestina... porque todo o emigrante tem sempre família, seus pais ou amigos. Damo-nos conta da terrível vida que levam. Na Palestina, por exemplo, até os animais têm mais direitos, porque têm permissão para viajar, mas os palestinianos não têm nem direito a passaporte. No ocidente estão sempre a falar de liberdade, democracia, mas, e os palestinos, a que têm direito? Ninguém fala disso. Graças a Deus, Chávez sim. Foi o único que teve a coragem de dizer aquilo a que ninguém se atrevia. Nem sequer os governos árabes se atrevem a dizer o que Chávez disse e isso orgulha­‑nos.

 

– Alguns analistas árabes comparam a trajectória de Chávez com a de Nasser; que opinião te merece isto?

 

«Há muita parecença entre os dois, inclusive entre as duas revoluções há semelhança no sentido da campanha anti­‑imperialista e a do socialismo; claro, com certa diferença na aplicação, mas o socialismo venezuelano é muito parecido com o egípcio no que respeita a lei de terras, ao monopólio da riqueza nacional e à força de oposição; além disso, o protagonismo da liderança é concentrado numa só pessoa. Entre Nasser e Chávez, inclusive há similitude na linguagem revolucionária, porque os dois líderes falam o idioma do povo. A nível internacional, os dois saíram­‑se bem. Após a morte de Nasser desapareceu a revolução no Egipto, por isso na Venezuela há que disciplinar a geração de jovens revolucionários para que não aconteça o mesmo. Há que fomentar uma campanha de difusão dos ideais do socialismo, porque ainda haverá gente confundida entre o que é socialismo e o que é comunismo. A tarefa é difícil, mas as metas são alcançáveis.