Informação Alternativa

América Latina

05/12/2005

 

O movimento bolivariano arrasa com a maior participação da história

– Eleições legislativas na Venezuela e manipulação da Falsimedia –

 

José Daniel Fierro

Rebelión

 

A extrema direita venezuelana está num mau momento e, apesar do apoio que recebe por parte do Império e do seu aparelho de propaganda (Falsimedia), as suas derrotas vão­‑se somando uma após outra, ainda que tente disfarçá-las sob uma chuva de manchetes.

 

“Indecente” poderia ser um bom adjectivo para qualificar as crónicas que hoje a imprensa capitalista realiza sobre as eleições legislativas na Venezuela. É como se se tivessem posto de acordo, pois todas as suas manchetes falam do mesmo: a altíssima abstenção na votação de ontem, domingo. À vista das quais, não resta outro remédio que pensar no pouco apoio que o presidente Hugo Chávez reúne ou no sucesso de uma oposição astuciosa que apelou aos cidadãos da Venezuela para secundar a abstenção.

 

Todos os meios de propaganda fazem eco dos «75% de abstenção” e de que isso significa um revés para a revolução bolivariana. O velho discurso de uma Venezuela dividida.

 

Tomemos El País – embora fosse válido qualquer outro meio de comunicação para analisar este caso – como exemplo do que é uma crónica veraz. A notícia inicia‑se assim:

 

«A elevada abstenção foi, sem dúvida, a nota dominante das eleições legislativas celebradas ontem na Venezuela, na ausência da maioria dos partidos de oposição. A retirada unilateral das forças anti­‑chavistas por considerarem que não havia garantias de limpeza eleitoral deixou os centros de votação semi­‑desertos, apesar dos esforços do Executivo. Os dados que ontem à noite manuseavam, de forma oficiosa, tanto as autoridades eleitorais como os observadores estrangeiros assinalavam uma participação de entre 20% e 25%. Nem o apelo às urnas realizado pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, nem a ampliação do prazo para votar decretada pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) tiveram efeito na população […]

A confirmar-se, estes resultados corresponderiam às aspirações das forças opositoras, que apostavam por uma abstenção próxima dos 80%».

 

O resto da crónica é empregado a confirmar que apesar dos esforços do governo de Hugo Chávez, utilizando para isso todos os instrumentos ao seu alcance, «um percurso por diferentes bairros chavistas e da oposição em Caracas permitiu comprovar a escassa presencia cidadã nos centros de votação. Nem no colégio eleitoral onde votou Chávez havia filas de eleitores. Aqueles que aguardavam o presidente eram jornalistas e apoiantes do líder venezuelano».

 

E também a utilizar o recurso do medo. A preocupação ante um Parlamento monocolor que permita a Hugo Chávez perpetuar-se no poder. Para arredondar a notícia, o diário de Polanco toma nota das declarações de Henry Ramos Allup, secretário geral da Acção Democrática (AD), a partir de hoje uma força extra­parlamentar, que no entanto se arroga o pomposo título de “oposição democrática” só porque durante 40 anos repartiu o poder, mediante eleições amanhadas, com os outros “democratas” de COPEI.

 

Basicamente essa é a informação, salvo pequenas variações, que se manuseia hoje na “grande imprensa”.

 

Conviria, não obstante, ter em conta uma pequena série de detalhes, talvez irrelevantes para a Falsimedia (pois, caso contrário, tê­‑los­‑ia recolhido nas suas crónicas) mas em qualquer caso, clarificadores.

 

Sem os dados definitivos, todos esses meios tomaram como fiáveis e quase inamovíveis os números fornecidos pela extrema direita, isto é, 25% de participação. Ninguém citou sequer os dados oficiosos que, à medida que avançava o escrutínio, falavam de uma participação de 33%.

 

Também não houve interesse pelos resultados (também oficiosos) da votação. Sem lugar a dúvidas, o maior foco de importância informativa. O Movimento V República contaria com 114 dos 167 deputados (quase 70%).

 

Quase nenhum meio de comunicação recolheu as declarações do ministro do Interior, Jesse Chacón, e aqueles que o fizeram tomaram apenas um par de frases e dissimularam­‑nas na parte final das suas longas crónicas.

 

Se o tivessem feito teriam sabido que, inclusive com os dados da oposição, essas eleições legislativas estavam a ser as que maior participação tinham registado na história recente da Venezuela.

 

Chacón recordou que a última maioria parlamentar no país, em eleições legislativas que pela primeira vez se realizaram de forma separada das presidenciais em 1998, obteve-se apenas com 11,24% do total do eleitorado, «essa maioria obteve­‑a a AD com 1.235.473 votos, 11,24% do total do eleitorado, que eram então 10.991.482 venezuelanos».

 

Assim mesmo, recordou que a primeira maioria parlamentar do período bolivariano, eleita a 30 de Julho de 2000, obteve-a o MVR com um total de 1 .980.275 votos de um universo de 11.705.702 venezuelanos com direito a voto. Isto é, com 17% do universo eleitoral. Também explicou que, em 2005, o universo eleitoral está acima dos 14 milhões de eleitores. E que com os dados oficiais «compararemos se esta Assembleia é mais ou menos legítima do que a que foi eleita em 1998, quando todos a reconhecemos como legítima. Repito: qualquer número acima de 11,24% e de 17% converte a Assembleia Nacional numa instituição bem mais legítima do que a Assembleia de 1998 e a de 2000».

 

Mas o ministro do Interior foi além, e para falar de legitimidade democrática citou alguns outros dados. Por exemplo, o golpista Antonio Ledezma foi eleito como Prefeito de Caracas com apenas 11% dos eleitores da capital e o último presidente eleito da Quarta República, Rafael Caldera, não obteve sequer 15% do universo eleitoral nas eleições de 1993.

 

Em referência à oposição, o ministro de Relações Externas, Alí Rodríguez, considerou que estes partidos «viram reduzir os seus votos de quatro milhões no referendo (Agosto de 2004), para um milhão na última eleição (municipais de Outubro de 2005), o que explicaria a sua retirada de última hora, quando o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) tinha aceite as suas exigências, tal como o testemunharam os observadores internacionais».

 

William Lara, ex presidente do Parlamento e dirigente do MVR, o partido do presidente Hugo Chávez, expressou a meio da contagem que «a participação está a ser muito superior à registrada nas regionais de Outubro de 2004 e nas municipais de Agosto de 2005».

 

O vice-presidente do Governo venezuelano, José Vicente Rangel, também se referiu ao assunto e argumentou que «há países, como os EUA, nos quais só 25% participam nas eleições para o Congresso e nas últimas do Quebeque, no Canadá, só votaram 9%», sem que se chegue a questionar a legitimidade, não já do Congresso, mas inclusive do modelo político adoptado.

 

Alguém recorda o índice de participação no referendo à Constituição Europeia no estado espanhol e as manchetes da imprensa do regime?