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20/11/2005 Miguel Urbano Rodrigues
Não são já somente os
cérebros da Casa Branca e do Pentágono que se esforçam por compreender as
causas do crescente prestígio internacional do presidente da Venezuela.
Cientistas sociais das grandes universidades dos EUA estão a dedicar uma
atenção especial ao estudo daquilo que nos meios académicos é chamado “o
fenómeno Chávez”. A fulgurante ascensão do
líder caribenho como personalidade mundial perturba sobretudo os intelectuais
do establishment. Não encontram para ela explicação satisfatória. Nos últimos meses, Hugo Chávez
adquiriu uma projecção que transcende amplamente o quadro da revolução
bolivariana. As suas tomadas de posição projectaram-no como um líder aclamado
pelas grandes maiorias na América Latina e respeitado e admirado em todo o
Terceiro Mundo e pelas forças progressistas dos países desenvolvidos. O escritor australiano John
Pilger, em lúcido artigo divulgado por resistir.info [1], atribui a
influência e o fascínio exercido por Chávez à coragem e imaginação com que
tem assumido a defesa de grandes causas humanistas. Enunciou uma evidência. Num mundo caótico submetido a
um sistema de poder imperial que promove a violência e o terrorismo de Estado
na tentativa desesperada de encontrar solução para a crise estrutural do
capitalismo, Hugo Chávez, como presidente de um país rico em petróleo, mas cujo
povo tem vivido mergulhado na pobreza, emerge como um revolucionário puro,
desafiador, de uma autenticidade que comove e surpreende. O seu carisma desconcerta os
inimigos. Não conseguem incluir aquele ex-oficial pára-quedista em qualquer
modelo tradicional. Pela personalidade, formação, estilo de actuar e ideário,
Chávez é um líder atípico. De origem social modesta, muito religioso,
preconiza a transformação da sociedade no âmbito do funcionamento e rigoroso
respeito das instituições existentes. Como arma, exibe nos seus comícios a
Constituição bolivariana. Ao assumir a Presidência citava sobretudo Cristo e
Bolívar, o seu herói tutelar. Para frustração do império e
da oligarquia crioula, as manobras e intentonas contra-revolucionárias, em
vez de o levarem a concessões, contribuíram para o fazer avançar. Dele se pode
dizer que caminhou com a História. Grande tribuno – desde o
jovem Fidel Castro que a América Latina não produziu orador comparável – Chávez
radicalizou o programa e o discurso após cada derrota infligida às forças da
direita que a tudo recorreram – desde o golpe militar ao lock out petrolífero
– na tentativa de o derrubar, incluindo o referendo revogatório cujo
resultado confirmou um apoio popular sem precedentes. Como Bolívar, Chávez proclama
que o Exército deve ser o povo em armas e que estas jamais devem ser usadas
contra o povo mas sim em defesa dos seus direitos. Foi sem surpresa que no final
do último ano, cristão mas bolivariano, sempre muito cauteloso quando
esboçava os objectivos da revolução, imprimiu uma dimensão continental ao seu
discurso. De repente, lançou uma ponte entre as bandeiras da unidade latino‑americana
e objectivos concretos que a pudessem concretizar. Foi assim que surgiram a
Petrocaribe e a Telesur e adquiriu forma e ressonância o projecto da ALBA
como alternativa à ALCA, anexionista e imperial. Como era inevitável, a
campanha anti-Chávez adquiriu maior agressividade e amplitude. O dirigente
venezuelano, satanizado, recebe de Washington o tratamento de inimigo número
1 na América Latina e sobre ele chovem calúnias e ameaças. Não funciona essa artilharia
intimidatória. Mar del Plata configurou uma
humilhante derrota imperial. Bush chegou com modos de cônsul romano
preparando o triunfo. Contava impor ali a ALCA. O desfecho foi para ele uma
decepção. Regressou de mãos vazias. Não conseguiu sequer que o tema fosse
incluído na Agenda. Na Cimeira dos Povos
latino-americanos, paralela à dita das Américas, Chávez, com a sua empolgante
e desafiadora intervenção destruiu o sonho imperial. Os governos do Mercosul,
sentindo a pressão dos povos, disseram Não a Bush. O argentino Kirchner,
conseguiu que um Lula, sempre cinzento e contraditório, o uruguaio Tabaré e o
paraguaio Duarte alinhassem com a posição de Chávez. Em Washington a inquietação
aumenta. A hipótese de uma intervenção
militar parece remota, não obstante o Pentágono ter elaborado planos já
denunciados por Chávez no seu programa semanal “Alô Presidente!”. Os EUA
estão demasiado atolados em guerras perdidas no Iraque e no Afeganistão para
se lançarem numa agressão à Venezuela que levantaria contra eles os povos da
América Latina. O facto de Chávez ter
principado a levantar a bandeira do socialismo como alternativa à
globalização capitalista reforça os temores de Washington. Na Casa Branca e
no Departamento de Estado chegaram à conclusão de que o venezuelano é
imprevisível. Chávez não é marxista. Nele
são movediças as pontes entre o discurso, a ideologia e a práxis. Mistura
concepções idealistas com citações de Marx, Lenine, Mao e Trotski. Admira
Fidel Castro a quem o liga uma sólida amizade. Mas é transparente que o seu
projecto de transformação da sociedade não se inspira no cubano. O que define bem a
excepcionalidade da revolução bolivariana é precisamente a sua originalidade.
Não há precedente para um processo de mudança social como o venezuelano que
desafia a lógica da história. Lenine afirmava que não há
revolução vitoriosa sem partido revolucionário preparado para a levar
adiante. Ora, na Venezuela, desenvolve-se há meia dúzia de anos um processo
que, tendo principiado com a eleição para a Presidência de um militar cristão
e o esmagamento dos partidos da burguesia, se encaminhou para uma
confrontação explosiva com o imperialismo. Com a peculiaridade de que não
existia partido de massas revolucionário nem foi até hoje possível
estruturá-lo apesar dos esforços empreendidos nesse sentido. A pessoa do
líder tem funcionado como o factor decisivo para a concretização das medidas
revolucionárias e a sua defesa. Essa é a fragilidade maior da
revolução bolivariana: a dependência de um dirigente carismático. Como
mobilizador das massas oprimidas pelo sistema capitalista, ele cumpre a
função do partido revolucionário inexistente. Nem o Movimento V Republica,
nem os Círculos Bolivarianos, nem as missões puderam na sociedade venezuelana
assumir harmoniosamente as tarefas da organização revolucionária. O
mobilizador colectivo é Hugo Chávez. As condições objectivas para
uma ruptura com o sistema existiam há muito. O Presidente tudo faz para criar
as subjectivas, substituindo-se à inexistente organização revolucionária. Chávez não emerge como os
tradicionais líderes messiânicos. E a sua desambição contribui para a
projecção continental alcançada. Numa América Latina efervescente, na qual os
povos recusam o neoliberalismo, o discípulo de Bolívar, empunhando o
estandarte da unidade das nações, conquista a confiança das massas,
identifica-se com as suas aspirações e angústias, e consegue o mais difícil.
Ao enfrentar o imperialismo como somente – noutro contexto – Fidel o fez,
demonstra, pela palavra e pela acção que se pode seguir, com dignidade, um caminho
próprio, resistindo às ameaças e conspirações do gigante norte-americano. Hugo Chávez tem consciência
de que caminhou muito desde que entrou no Palácio Miraflores. Assume os erros
cometidos e sabe que incidirá noutros. Já o ouvi criticar entre companheiros
por ter declarado ser amigo do emir do Qatar e afirmado que Gorbatchov foi
sincero ao dizer que pretendia com a perestroika fazer regressar a
URSS às origens do leninismo. Esses desabafos insólitos são inseparáveis da
sua personalidade fascinante mas contraditória e de lacunas transparentes na
sua formação ideológica. Terá ido, por exemplo, longe demais ao qualificar o
presidente Fox (ex presidente da Coca Cola) como «cachorro do imperialismo»
ao apresentar-se em Mar del Plata como defensor e porta-voz da ALCA. Mas os erros de Chávez não podem tapar a realidade: este soldado venezuelano, desconhecido antes do primeiro brado de rebelde que o levou às prisões de Carlos Andrés Pérez, aparece hoje no grande palco da história como o revolucionário que empolga e mobiliza milhões de latino‑americanos contra o imperialismo. Pela palavra e pela acção ele aponta o caminho da luta e da resistência. _______ [1] John Pilger, A ascensão do novo inimigo dos EUA, 10/11/2005. |