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02/12/2005 Ernesto Carmona * Os EUA culminaram uma
cuidadosa arremetida procurando deslegitimar uma vez mais o governo da
Venezuela com a retirada de quase todas as forças políticas opositoras que
participariam nas eleições legislativas a realizar-se este domingo. O bloco regional Zulianidad,
do governador de Maracaibo Manuel Rosales, com 15 aspirantes a deputados, foi
o último a imitar os partidos Acção Democrática, Social‑cristão
COPEI, Projecto Venezuela e Primeiro Justiça, todos de escassa significação
eleitoral. A única organização opositora que até sexta-feira continuava na
contenda era o Movimento ao Socialismo (MAS). A nova estratégia opositora,
improvisada a poucas horas das eleições, aponta a demonstrar que as eleições
não oferecem garantias porque o governo de Hugo Chávez seria uma ditadura que
maneja a seu bel‑prazer o organismo eleitoral do Estado. Deixar o
Movimento V República (MVR) a competir sozinho engendraria, além disso, uma
Assembleia Nacional de “partido único, como em Cuba”. Os media internacionais estão
rapidamente a encarregar‑se de esboçar uma democracia em crise
terminal. Por exemplo, todos os diários latino‑americanos reproduzem
hoje a agência de notícias Associated Press, dos EUA, “informando” de
Caracas que a retirada «provocou uma crise política por pôr em causa o poder
eleitoral e deixar a democracia, pela primeira vez em 46 anos, sem contrapeso
de oposição numas eleições». “A HISTÓRIA VOLTA A
REPETIR-SE”... Precisamente, esse mesmo
modelo estado‑unidense foi aplicado na Nicarágua sandinista dos anos
80, onde o passo seguinte foi iniciar a guerra suja que o governo de Ronald
Reagan financiou com as operações ilegais do episódio Irão-Contras do coronel
Oliver North. Há apenas dois anos, a
estratégia de criar vazios de poder e crises políticas artificiais justificou
a invasão do Haiti. O trabalho sujo dos bandos armados que desestabilizaram o
governo de Jean Bertrand Aristide foi pago pela NED, o fundo nacional de
dinheiros públicos estado‑unidenses de “fomento” à “democracia” em
todo o continente e que financia a oposição na Venezuela. Uma diferença importante radica
em que as forças armadas da Venezuela apoiam solidamente o governo, num país
estável, onde não existe a “oferta de mão de obra” que abunda noutros lados para
integrar grupos armados. E antes fracassaram as
experiências de importar paramilitares colombianos desempregados, como o
grupo de 130 homens disfarçados de militares venezuelanos descoberto em Maio de
2004, quando se preparava para assaltar a residência presidencial. ESTRATÉGIA DOS EUA Os EUA já não cultivam “acções
encobertas”, mas descaradas e às claras, como no Iraque e no Haiti. Basta ler
entre linhas o que diz a grande imprensa, ao mesmo tempo que abundam os documentos
secretos desclassificados sobre novas técnicas imperiais de ingerência em
todas as partes do mundo, não só na região latino‑americana. O império já não deseja que a
oposição na Venezuela se resigne a desempenhar o seu papel em democracia,
participando em eleições, porque o eleitorado a adversa, segundo as sondagens
e os resultados de todas as eleições dos últimos sete anos. Por outro lado, também
não prosperaram o golpe de estado de 2002 nem a greve patronal-petrolífera de
2003 ou a chamada guarimba de 2004. A globalização da política
imperial para a região latino‑americana, com líderes locais pagos pela
NED, converteu a maioria da classe política venezuelana em simples marionetas
de Washington. Hoje adoptaram a técnica do harakiri, ou do “auto-suicídio”,
como dizia um ex mandatário pouco letrado, sabendo‑se que também
perderão legitimidade ante os seus seguidores, em detrimento do pouco volume
eleitoral que ainda conservam. A estratégia de 2005 polariza
mais a sociedade, agride abertamente a maioria pobre da população que elegeu
e apoia o governo de Hugo Chávez, não só porque está a receber – pela
primeira vez – benefícios do Estado –desqualificados como “populismo” – e, no
fundo, os EUA fomentam e exacerbam a luta de classes. E tudo isso, para quê?
Provavelmente para lançar sobre o centro da mesa a última cartada do magnicídio,
o assassinato de Hugo Chávez, mais do que uma possível invasão “para restabelecer
a democracia” ao estilo do Iraque. NOVOS PERIGOS, NOVOS DESAFIOS A retirada em massa das
eleições não pode ver-se só como um gesto desesperado de soberba dos ex donos
do país, das cúpulas dos partidos políticos que controlaram o poder desde a
queda do ditador Marcos Pérez Jiménez, entre 1958 e 1998. Provavelmente, este é o
prelúdio de uma etapa superior de intervencionismo e desestabilização, ainda
que esses partidos careçam de apoio popular. A política imperial do século 21
fabrica‑se nas cúpulas políticas e nos desodorizados centros de
controle do Pentágono, enquanto a juventude empobrecida dos EUA e de aliados
como a Polónia e El Salvador contribuem com a carne de canhão para as
guerras. A vitória terminante do
chavismo nas eleições do domingo será utilizada pelos EUA, pelos grandes
media e pela classe política local para “demonstrar” que existe um parlamento
ilegítimo, surgido de umas eleições sem concorrência no contexto provável de
uma abstenção significativa, para alimentar assim novas campanhas mediáticas
e ideológicas desestabilizadoras, a nível interno e continental. «Agora tramaram‑se»,
disse o vice-presidente José Vicente Rangel ao comentar a decisão da
concorrência de se retirar. Chamou à oposição «tribo de selvagens» e «cadáver
insepulto», assegurou que o chavismo obterá uma «vitória terminante» e
assinalou com lucidez que o único inimigo «é a abstenção». Enquanto os meios de
comunicação da oposição fazem “propaganda informativa” para que este domingo
os fiéis vão em massa rezar às igrejas, em vez de acudir aos centros de
votação, os grandes media internacionais falam de “caos político”, “perigoso
adeus opositor às urnas”, “agrava‑se conflito político”, “boicote
eleitoral opositor” e outras frases alarmantes que preparam os estados de
alma para uma ingerência futura de maior envergadura. A nova estratégia também
aponta para a contraditória debilidade do círculo da sólida liderança de Hugo
Chávez. O líder está em simbiose permanente com o seu povo mas ambos devem
atravessar o escudo de uma nova classe política chavista que parece mais
preocupada em fortalecer o seu próprio poder nos cargos públicos do que em consolidar
o MVR como uma sólida organização democrática de massas, capaz de formar
quadros que garantam o desenvolvimento futuro da revolução bolivariana
simultaneamente com o “partido militar” que muitos percebem no sector
castrense. Depois da incursão dos
paramilitares colombianos, a Venezuela adoptou medidas militares para
contrariar prováveis invasões estabelecendo um sistema de reservistas massivo,
preparado para funcionar como um relógio ante uma ameaça externa, mas ainda
há vazios civis. Por exemplo, ainda falta consolidar uma organização política
real do povo, ainda que hoje existem imelhoráveis condições para conduzir o “populismo”
da distribuição de benefícios sociais do Estado – alimentação, saúde,
educação – a uma etapa superior de consciência e militância política
seriamente organizada com a diversidade de sectores que apoiam o processo
bolivariano. Pelo menos para derrotar a abstenção que se faz presente em
todas as eleições não‑presidenciais. _______ * Ernesto Carmona é um jornalista e escritor chileno-venezuelano. |