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15/09/2005
Telepregador apela ao assassínio de Chávez
Pedro Campos
Avante!
«... Eu não sei sobre essa
doutrina do assassinato, mas se (Chávez) pensa que estamos tratando de o
matar, acho que deveríamos avançar e fazê-lo. É muito mais barato do que
começar uma guerra (...) Temos capacidade para tirá-lo e... chegou o momento
de que exercitemos essa capacidade (...) Não precisamos de outra guerra de
200 mil milhões para nos livrarmos de um... ditador severo. É mais fácil
fazer que alguns agentes secretos façam o trabalho e terminar com isso de uma
vez.»
Estas declarações de Pat Robertson convidando ao magnicídio do presidente
bolivariano foram ditas no programa The 700 Club, da Rede de Difusão Cristã,
que transmite o canal estado-unidense CBN, que chega a 200 países e é
escutado em 70 idiomas. Deram a volta ao mundo em poucas horas e foram
escutadas e lidas por milhões de pessoas de forma quase instantânea.
Quem é Pat Robertson? Um telepregador da extrema-direita dos Estados
Unidos, ex-candidato presidencial republicano, amigo íntimo de George W. Bush
e dono de uma fortuna que supera amplamente os 200 milhões de dólares e
poderia aproximar-se dos mil milhões, segundo o livro The Best Democracy
Money Can Buy (2002), de Greg Palast. É racista declarado e em relação
ao princípio de “um homem, um voto” diz que não é razoável. Sobre a igualdade
dos sexos, afirma: «Sei que isto é doloroso para as mulheres, mas se se
casam, devem aceitar a liderança do homem. Cristo é o chefe da casa e o
marido o chefe da mulher; é assim e mais nada». Mais: «os ateus não devem ser
considerados cidadãos, nem patriotas. Esta é uma nação sob Deus». E em termos
de educação, além de ser antidarwinista, acha que quando pública «é um
movimento anticristão».
MUNDO REAGE ESTUPEFACTO...
Como não poderia deixar de ser, as declarações de Robertson foram
imediatamente repudiadas por vários outros líderes religiosos, políticos e
média dos Estados Unidos. Em contraste, Washington – talvez por temer o poder
político do telepregador ou por não discordar do dito – limitou-se a afirmar
que era uma declaração pessoal «imprópria». Escândalo!
O Washington Post criticou o silêncio da Casa Branca e dos grupos
conservadores. Do mesmo modo opinou o New York Times, que exigiu
maior severidade do governo na condenação destas declarações. «A decência
comum, para não mencionar um sentido racional do interesse nacional, exige (a
Bush) uma condenação das declarações», escreveu, ao lembrar que o apoio de
Pat Robertson foi crucial para Bush. A revista Time afinou pelo
mesmo discurso. Nancy Pelosi, do partido Democrata, convidou o hóspede da Casa
Branca a pronunciar‑se no sentido de «responder com força às palavras
de Robertson para deixar claro que as nossas leis proíbem o assassínio».
Outros líderes religiosos, entre eles Rob Schenk, presidente do Conselho
Nacional do Clero; Richard Cizik, da Associação Nacional de Evangélicos, e
Graylan Scott, questionaram os comentários de Robertson. O último foi mais
longe e afirmou que o telepregador «não é cristão; ele e os seus aliados
utilizam a religião para fins políticos. Por outro lado, Ted Haggard,
presidente da Associação Nacional de Evangélicos, está no México para tratar
de conseguir uma reunião pessoal com Hugo Chávez, com a finalidade de
apresentar pessoalmente as suas desculpas.
Um dia depois da sua apologia do crime e da onda de repúdio universal, Pat
Robertson quis dar o dito por não dito mas a emenda foi pior do que o soneto.
«É correcto apelar ao assassínio? – perguntou-se – Não! E ofereço desculpas
pela declaração.» E depois esclareceu que «tirá-lo» (a Hugo Chávez) pode ser
muitas coisas, incluindo «sequestrá‑lo». É evidente que esta não é uma
declaração estúpida, mas o reflexo de uma política de Estado, que já foi
aplicada várias vezes em todo o mundo. Ao nível da América Latina está ainda
fresco de sangue o sequestro de Aristide, no Haiti, e o que se está a passar
no Iraque é um livro aberto onde se pode ler claramente a política de
Washington para o mundo.
Entretanto, é evidente que existe outro rosto dos Estados Unidos. O reverendo
Jesse Jackson, para quem «o modelo político da Venezuela é um exemplo para
todos os países do mundo» prova-o. O final da sua visita de três dias à
capital venezuelana coincidirá com o 30.º aniversário da famosa marcha de
Martin Luther King e do seu I have a dream, que recordará no
parlamento de Caracas. «Fala-se muito sobre o direito ao voto democrático –
lembrou – mas também deveríamos ter direito a uma boa vida, à saúde e à justa
distribuição dos recursos. É um dia novo e é hora de levantar os de menores
recursos».
Se é certo que Pat Robertson mereceu comentários editoriais de jornais como o
New York Times, o mesmo não parece ter-se passado em Caracas. A
oposição guarda um silêncio estranho, talvez porque está ocupada a esfregar
as mãos de contente. Mais que assunto do foro psiquiátrico, parece sê-lo do
ético.
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