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01/12/2004 – Entrevista a Eva Golinger – Silvia Arana Eva é a advogada
venezuelano-americana que, apelando ao Freedom of Information Act, obteve
documentação do governo dos Estados Unidos que prova a conexão entre
organismos financiados pelo Congresso dos EUA e grupos golpistas
venezuelanos. Refere-se a este tema, à política dos EUA para a Venezuela e ao
assassinato do promotor venezuelano Danilo Anderson, que investigava
opositores a Chávez envolvidos no golpe de estado de Abril de 2002 e no
assalto à embaixada de Cuba, que ocorreu simultaneamente com o golpe. Que organismos oficiais e
organizações não governamentais (ONG's) dos EUA têm financiando a oposição
venezuelana? Através da minha
investigação, encontrei provas de que as duas organizações principais que
financiam a oposição são o National Endowment for Democracy (NED) e a U.S.
International Agency for Development (USAID). O NED é uma organização que foi
estabelecida por uma lei do congresso estado‑unidense no ano de 1983,
durante o governo de Ronald Reagan. Todo o financiamento provém do governo
estado‑unidense. Estabeleceram o NED para poder intervir de maneira
“democrática” ao que parece, porque já o Congresso tinha limitado bastante o
orçamento da CIA para realizar intervenções na sociedade civil, como
resultado da descoberta da sua participação no golpe de estado no Chile. O
NED foi criado para realizar esse trabalho, mas de uma maneira mais
“legítima”. Na Venezuela, o NED começou o seu trabalho realmente durante o
segundo governo de Carlos Andrés Pérez. Nesse momento, o enfoque do NED era
na Nicarágua – o seu primeiro projecto – e CAP tinha oferecido a Venezuela
como um lugar onde se poderia filtrar o dinheiro estado‑unidense
destinado à Coordenadora Democrática Nicaraguana (como se chamava a coligação
anti‑sandinista). Depois, o NED mantinha uma colaboração com a CTV
através do seu filiado, o AFL-CIO, até mais ou menos finais dos anos 90,
quando começaram a financiar mais organizações da sociedade civil. Mas
realmente foi no de 2001 que aumentou bastante o financiamento do NED a
organizações na Venezuela, todas do sector opositor. De 2000 a 2001, a
quantidade de financiamento subiu de $200.000 a $877.000 – mais 4 vezes.
Desde 2002, têm estado a dar mais de 1 milhão de dólares anuais a grupos
vinculados com a oposição. Em Abril de 2002, o Departamento de Estado
autorizou um fundo especial de um milhão de dólares para o NED somente para
os seus projectos na Venezuela, poucos dias depois do fracassado golpe de
estado. E o NED depois distribuiu este dinheiro às mesmas organizações que
tinham participado no golpe. A outra organização, a USAID, foi estabelecida
durante os anos sessenta como um fundo de intervenção “humanitária” – para
apoiar o desenvolvimento, etc. A USAID é controlado pelo Departamento de
Estado e financiada pelo Congresso. Mas na Venezuela, como em outros países
de importância para os EUA, a USAID realizou estritamente um trabalho
político. A USAID chegou à Venezuela no ano de 2002, Junho para ser exacta, e
estabeleceu um “Gabinete de Transição”, baseado na Embaixada dos EUA em
Caracas. Este gabinete criava‑se supostamente para ajudar a resolver a
crise política que o país vivia. No seu primeiro ano, o congresso estado‑unidense
destinou mais de dois milhões de dólares para esse trabalho. No ano seguinte,
2003, subiu o seu orçamento para seis milhões, e, depois, quatro milhões para
2004. Para 2005 solicitaram já cinco milhões, apesar de que, supostamente, o
gabinete só precisaria de dois anos para cumprir a sua missão. Quais são os principais
partidos, indivíduos e ONG venezuelanas que receberam financiamento do NED e
da USAID? O NED financia ao redor de 15
organizações e partidos políticos na Venezuela. Alguns são Súmate, CEDICE,
Asamblea de Educación (até 2003), Liderazgo y Visión, a CTV, Primero
Justicia, Proyecto Venezuela e Consorcio Justicia. A USAID financiou a
Súmate, Liderazgo y Visión, Fedecámaras e outros. Também, o NED e a USAID
financiam duas organizações estado‑unidenses que foram estabelecidas
para filtrar os fundos a partidos políticos noutros países: São o
International Republican Institute (IRI) e o National Democratic Institute
(NDI). Eles recebem cada um em redor de $300.000 ao ano do NED e receberam $2
milhões da USAID para apoiar a campanha do referendo revogatório. O IRI
trabalha sobretudo com o Primero Justicia. Nos documentos que tenho, destacam
que o NDI realizou um trabalho com a Súmate para o referendo revogatório. Participaram alguns desses
partidos, indivíduos e ONG venezuelanas no golpe de estado de 11 de Abril, na
greve petrolífera empresarial e/ou em actividades desestabilizadoras contra o
governo de Chávez? Sim, certamente, uma maioria
dos financiados participaram no golpe de 11 de Abril, e na greve petrolífera
empresarial e nas outras tentativas desestabilizadoras para tentar derrocar o
Presidente Chávez. Alguns dos assinantes por Carmona e nomeados ministros por
Carmona eram e continuam a ser destinatários deste dinheiro – o caso de Rocío
Guijarro da CEDICE, Leonardo Carvajal da Asamblea de Educación, ou Leopoldo
Martínez do Primero Justicia, Maria Corina Machado da Súmate, e claro, a CTV,
Fedecamaras, etc. E há inclusive provas de financiamento da USAID e do seu
Gabinete de Transição para criar cunhas na televisão e na rádio durante a
greve petrolífera de Dezembro de 2002. E já sabemos que nessa época todas as
cunhas eram anti-Chávez. Bush acaba de ser reeleito
presidente dos EUA. Acreditas que haverá alguma mudança na política externa
dos EUA para a Venezuela? Sem dúvidas posso dizer que o
governo estado‑unidense continuará os seus esforços para derrocar
Chávez. Vão continuar a financiar a oposição (já tenho provas de $5 milhões
pela USAID para 2005 e mais de $850.000 por parte do NED para 2005) e vão
procurar fortalecer um partido político e um candidato capaz de enfrentar
Chávez nas eleições presidenciais de 2006. Ao mesmo tempo, há que vigiar as
ligações entre o novo embaixador dos EUA na Venezuela, William Brownfield, e
Manuel Rosales e o estado de Zulia. E há que tomar em conta que Brownfield
foi um dos principais autores do Plano Colômbia. Então, poderia inclusive
prever acções ou estratégias que envolvam uma extensão do Plano Colômbia à
Venezuela durante os próximos dois anos. Está em perigo o governo do
Presidente Chávez? É claro que está em perigo.
Creio que isso o reconhece o próprio Presidente Chávez. Creio que o último
editorial do jornal Washington Post, que chama a uma intervenção mais
agressiva na Venezuela, realmente reflecte os desejos da administração de
Bush. Além disso, as suas estratégias são a vários níveis: por um lado,
continuarão o financiamento da oposição e a busca de um partido e um
candidato capaz de enfrentar Chávez nas eleições, por outro lado, fomentarão
conflitos na sociedade civil, e inclusive actos violentos, como o assassinato
do promotor Danilo Anderson. Além disso, continuarão a tentar corromper as
Forças Armadas, procurando aliados que compartilhem os seus interesses. Como conseguiste os
documentos classificados sobre a ajuda financeira do NED e outros organismos
estado‑unidenses à oposição venezuelana? Solicitei‑os sob uma
lei que se chama Freedom of Information Act (FOIA) ou Lei de Liberdade de
Informação. Foi a mesma lei que usaram para descobrir a participação do
governo estado‑unidense e a CIA no golpe de estado ao governo de
Allende, no Chile no ano de 1973. É uma lei que obriga o governo estado‑unidense
e as suas agências a entregar informação solicitada por cidadãos sobre o uso
de fundos públicos, ou sobre as suas acções. Também se usa a FOIA para ver
que informação tem o governo sobre os cidadãos estado‑unidenses; tem
uma aplicação muito ampla e variada. O assassinato do Promotor
venezuelano que investigava o golpe de estado de Abril de 2002 contra o
presidente Chávez e o assalto simultâneo à embaixada de Cuba comocionou a
Venezuela. O que pensa deste crime e das versões que implicam a CIA com este
facto? Parece‑me uma tragédia de grande proporção. Tinha conhecido Danilo, que era um advogado de tremenda valentia, capacidade e compromisso. Matar um advogado por realizar o seu trabalho é uma barbaridade. São acções feitas para intimidar‑nos a todos, e posso dizer que não vão parar-me nas minhas investigações e trabalho e, inclusive, agora dão‑me mais razão para fazê-lo. Não posso dizer se a CIA esteve envolvida no seu assassinato, creio que as investigações do governo venezuelano têm que determinar quem foram os autores do acto. Além disso, há que investigar quem foram os autores intelectuais e, pelo modus operandi, parece ter traços de uma organização com experiência no assassinato político. Mas não vou adiantar informação porque neste momento não tenho provas para mostrar e, como advogada, tento não chegar a conclusões sem provas. |