Informação Alternativa

América Latina

02/12/2004

 

O assassinato de Danilo Anderson: o tictac do golpe continua

 

Saul Landau *

CounterPunch

A bomba que detonou a 18 de Novembro no automóvel de Danilo Anderson em Caracas trouxe­‑me intensas recordações. Quando li que duas explosões tinham destroçado o promotor venezuelano no seu automóvel, a minha mente recuou 28 anos até um traumático acontecimento na minha vida.

Conheci Orlando Letelier em 1971 quando era embaixador do governo do presidente chileno Salvador Allende em Washington. Em 1972, passou a fazer parte do gabinete de Allende até à sua detenção, em 11 de Setembro de 1973. O ministro da Defesa Letelier conhecia o general Augusto Pinochet, que  liderou o golpe de Estado nesse dia e ordenou aos guardas de Letelier que o detivessem. «Um personagem servil e pouco digno de confiança», Letelier descreveu Pinochet, «o tipo que ganha umas gorjetas no barbeiro ajudando os clientes a pôr o casaco e escovando os cabelos soltos».

Não conheci Danilo Anderson. Mas, tal como Orlando Letelier, ele tinha informação sobre os instigadores do golpe, aqueles que tentaram destituir o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em Abril de 2002. Nem o assassinato de Danilo Anderson nem o de Orlando Letelier requeriam um Sherlock Holmes para guiar a investigação da polícia.

No exílio, Orlando Letelier representava o governo eleito e reconhecido do Chile. Para Pinochet, o ilegítimo perpetrador do golpe, Letelier agigantava­‑se como o comandante de um massivo exército no exílio, não como uma única pessoa que tentava informar o Congresso e o público estado­‑unidenses sobre as generalizadas violações dos direitos humanos no Chile.

Depois do assassinato de Orlando Letelier, a CIA tentou cobrir o golpe com o fim de proteger a sua ilegítima prole. No entanto, um informador contou a agentes do FBI que um agente secreto chileno, oficial da polícia desse país, tinha estabelecido um contrato com um grupo de anticastristas de New Jersey para assassinar Orlando Letelier. Os cubanos fizeram detonar por controlo remoto uma bomba instalada no carro de Letelier; trata-se da mesma técnica utilizada no atentado que acabou com a vida de Danilo Anderson, 28 anos mais tarde.

Os assassinos de Danilo Anderson devem ter tido “experiência” na fabricação de tais dispositivos, confiou-me um agente do FBI retirado. O ministro do Interior e de Justiça venezuelano, Jesse Chacon, declarou que os assassinos utilizaram explosivos plásticos de uso militar C-4 e um mecanismo de controle remoto. As explosões destroçaram janelas de edifícios próximos.

Recordo em 21 de Setembro de 1976 o FBI recolhendo os vidros partidos de Sheridan Circle, no bairro de embaixadas de Washington DC, depois de a bomba destroçar o carro de Letelier. «Estas pessoas são profissionais», comentou um agente do FBI.

O FBI prendeu dois dos assassinos de Orlando Letelier e do seu acompanhante Ronnie Moffit, anos depois do assassinato. Declararam­‑se culpados, receberam uma sentença de 12 anos, passaram sete na prisão e foram postos em liberdade provisória. O Serviço Federal de Imigração, INS, voltou a prendê-los como indesejáveis, mas em Agosto de 2001 George W. Bush insistiu, apesar das fortes objecções do INS e do FBI, que estes «patriotas cubanos» mereciam voltar à vida civil na Florida.

Os bons terroristas gozam da hospitalidade dos Estados Unidos. Os maus terroristas, os que têm nomes árabes, sofrem a ira dos bombardeios, dos soldados e dos guardas prisionais dos EUA em Guantánamo e em Abu Ghraib, quer tenham ou não cometido algum crime.

Ironicamente, o empertigado John Ashcroft ordenou a detenção e o confinamento de milhares de pessoas inocentes. Elas não conhecem a natureza das acusações contra elas, e muito menos têm acesso a um advogado. Contudo, John Ashcroft negou­‑se a assinar o auto de processamento do general Pinochet, instigador do atentado à bomba de 1976 em Washington. Se existissem dúvidas, os promotores e os investigadores do FBI afirmaram publicamente: era inconcebível que o assassinato de Orlando Letelier pudesse ter sucedido sem a autorização de Pinochet. Um memorando de inteligência dos EUA cita Pinochet jactando­‑se em 1981 que «Não há uma única folha neste país que eu não mova».

Os atentados de alto nível só têm lugar quando oficiais de alto nível os autorizam. Quem queria a eliminação de Danilo Anderson? Os expedientes que Anderson estava a investigar incluíam umas 400 pessoas que durante o golpe assinaram uma declaração em apoio do auto­‑­proclamado presidente Pedro Carmona, o presidente da Câmara de Comércio. Os opositores de Chávez afirmavam que as investigações de Anderson equivaliam a uma perseguição política. O gabinete do procurador apontava as 19 pessoas que tinham morrido e 300 que tinham ficado feridas durante o golpe: actos criminosos. A lista de supostos culpados incluía o anterior prefeito de Caracas, Alfredo Peña, que continua fugido, e uns 60 oficiais do exército implicados tanto no golpe como nas bombas colocadas o ano passado no consulado da Colômbia e na embaixada espanhola.

Aparentemente, Anderson tinha também desenvolvido um caso que conectava agências dos EUA com o golpe. Otto Reich, então secretário de Estado adjunto para os Assuntos Interamericanos, tinha-se reunido repetidas vezes com os conspiradores antes do frustrado golpe contra Chávez, tal como Elliot Abrams, do Conselho de Segurança Nacional (NSC). Tal como Reich, Abrams liderou a ofensiva ideológica nas “guerras sujas” da década de 1980, em que a política dos EUA acabou ligada aos esquadrões da morte da América Central. Um artigo do Observer, de 21 de Abril de 2002, citando fontes da Organização de Estados Americanos, afirma que Abrams e Reich discutiram o golpe «com algum detalhe, incluindo o calendário e as possibilidades de sucesso, que foram consideradas excelentes».

Reich tinha convidado opositores de Chávez para a Casa Branca, incluindo Carmona, que mais tarde se nomeou a si próprio como a cabeça visível de uma junta golpista. O general Lucas Romero Rincon, chefe do exército venezuelano, entrevistou-se com oficiais do Pentágono nos meses anteriores ao golpe. Além disso, grupos anti­‑Chávez financiados por agências do National Endowment for Democracy (NED) também viajaram para Washington durante as semanas anteriores ao golpe. Na semana passada, documentos revelaram que a CIA estava a par do golpe planejado e não informou o governo de Chávez. Chocante! [1]

A lista de Anderson incluía pessoas que tinham recebido fundos da NED. O Congresso dos EUA financia a NED para promover a democracia: assim, Carl Gershman, o chefe da NED, pôde declarar que a sua organização só promove a democracia na Venezuela. Como é que a organização de golpes militares caía dentro da visão de democracia da NED permaneceu um mistério. Anderson investigou também contas bancárias da NED, com o fim de verificar se a agência dos EUA tinha realmente financiado os conspiradores.

O golpe de Abril levou Reich a convocar uma reunião de embaixadores latino­‑americanos e do Caribe. O afastamento de Chávez, informou, não significava uma ruptura da ordem democrática. Como Chávez se tinha supostamente demitido, era consequentemente «responsável pelo seu destino». Reich ofereceu apoio imediato ao governo de Carmona. Nunca se interrogou sobre porque é que o vice­‑presidente eleito não assumiu o poder, o que deveria ter feito de acordo com a Constituição da Venezuela se o presidente se tivesse demitido.

Reich foi incapaz de apagar a etiqueta de marca “Apoiado por Washington” do golpe de Caracas. O próprio Chávez informou que um avião com matrícula dos EUA aterrissou numa das localidades para onde os seus captores o levaram durante o golpe. O porta-voz da Casa Branca à época, Ari Fleischer, «não sabia» se Washington tinha proporcionado um avião para transladar o presidente venezuelano para o exílio.

Mesmo após o frustrado golpe, Washington preferiu fechar os olhos a venezuelanos que treinavam na Florida com o objectivo explícito de invadir o seu país e assassinar Chávez. Os Estados Unidos rejeitaram a extradição de três oficiais intimados por tribunais venezuelanos a responder perante acusações de terem planeado atentados terroristas à bomba.

Detectives amadores concluirão disto que a lista de prováveis assassinos de Danilo Anderson deveria incluir os que iniciaram o golpe e os seus aliados em Washington, especialmente aqueles cabecilhas que temiam que o promotor possuísse provas suficientes para condená-los ante os tribunais. Funcionários venezuelanos implicitamente lançaram a rede de acusações no estrangeiro.

As autoridades venezuelanas projectaram uma fita de vídeo emitida na estação de televisão Miami TV sobre o “Commando F4”, venezuelanos e cubanos anticastristas treinando com armas na região dos Everglades. O capitão retirado Luis García da Guarda Nacional da Venezuela prometia voltar ao seu país com uma «solução violenta».

Outra fita mostrava Orlando Urdaneta, uma anterior personalidade da televisão venezuelana envolvida no golpe, afirmando ante o Canal 41 de Miami que «os problemas da Venezuela poderiam resolver-se por meio de um rifle com mira telescópica e boa pontaria».

O ministro de Informação da Venezuela, Andres Izarra, declarou: «Queremos que o governo dos Estados Unidos explique como é que estes grupos terroristas que actuam com total liberdade na Florida... fazem estas declarações nos meios de comunicação ante o nariz das autoridades».

«Chávez deve morrer como um cão, porque o merece» afirmou o outrora, por duas vezes, presidente da Venezuela Carlos Andrés Pérez numa entrevista em 25 de Julho de 2004, publicada pelo El Nacional, um diário venezuelano. «Estou a trabalhar para remover Chávez [do poder]», continuou Pérez. «A violência permitir­‑­nos­‑á removê­‑lo».

Este tipo de linguagem deveria ter sido condenado, mas em vez disso o Governo de Bush, que admitiu que conhecia os planos do golpe e não informou o presidente Chávez, simplesmente reiterou o seu compromisso com a democracia. Poucos editoriais desafiaram a contradição existente entre estar comprometido com a democracia e apoiar um golpe de Estado contra um presidente eleito por ampla maioria em 1998. De facto, depois do fracasso do golpe, a oposição a Chávez exigiu a celebração de um referendum. Chávez ganhou­‑o com 58% em Agosto de 2004.

Washington contou sempre com governos obedientes na América Latina em décadas de diplomacia de canhoneira, de diplomacia do dólar ou de políticas de boa vizinhança. Independentemente da nomenclatura, os Estados Unidos continuaram a extrair riqueza da América Latina. Depois da Segunda Guerra Mundial, Washington desfraldou a bandeira ideológica da Guerra Fria. A CIA utilizou a retórica anticomunista como pretexto para patrocinar facínoras militares e civis para derrubar governos desobedientes. Estes “agentes contratados”, num golpe apoiado pelos Estados Unidos na Guatemala em 1954, foram responsáveis pelo assassinato de mais de 100.000 vítimas, na sua maioria camponeses indígenas. Em 1964, os Estados Unidos apoiaram um golpe militar no Brasil que substituiu um governo eleito. No Chile, com luz verde dos EUA, os tanques e os aviões militares bombardearam o palácio presidencial do presidente Salvador Allende.

Quando o guarda­‑chuva da Guerra Fria desapareceu com a implosão da União Soviética, Washington introduziu um novo paradigma heróico para justificar a sua intervenção eternamente inocente: o terrorismo. O cadáver de Danilo Anderson soma­‑se à imensa massa de cadáveres produzidos pela gesta de Washington de levar a democracia à América Latina frustrando todos os esforços de democratização.

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* Saul Landau é o director de Digital Media e de International Outreach Programs, do College of Letters, Arts and Social Sciences. A sua obra mais recente é The Business of America.

 

[1] [N. do IA] Ler no IA: Eva Golinger, A prova está nos documentos: a CIA esteve envolvida no golpe de estado contra o presidente Chávez (23/11/2004).