Informação Alternativa

América Latina

23/11/2004

 

A prova está nos documentos: a CIA esteve envolvida

no golpe de estado contra o presidente Chávez

 

Eva Golinger

Venezuelafoia.info

A 12 de Abril, 2002, o porta­‑voz da Casa Branca, Ari Fleischer, declarou:

«Permitam-me compartilhar convosco as ideias da administração sobre o que se está a passar na Venezuela. Continua a ser uma situação algo fluída. Mas os acontecimentos de ontem na Venezuela causaram uma mudança de governo e a assunção de uma autoridade de transição até que se possam convocar novas eleições.

Os detalhes continuam confusos. Sabemos que a acção encorajada pelo Governo de Chávez provocou esta crise. De acordo com a melhor informação disponível, o Governo de Chávez reprimiu manifestações pacíficas. Apoiantes do governo, sob ordens do Governo de Chávez, dispararam a manifestantes desarmados, manifestantes pacíficos, causando 10 mortos e 100 feridos. As Forças Armadas e a polícia venezuelanas rejeitaram ordens de disparar aos manifestantes pacíficos e rejeitaram apoiar o papel do Governo em tais violações dos direitos humanos. O Governo também tentou impedir os meios de comunicação independentes de relatar estes eventos.

O resultado destes acontecimentos são agora que o Presidente Chávez renunciou à presidência. Antes de renunciar, ele despediu o vice-presidente e os seus ministros, e um governo civil de transição foi instalado. Este governo prometeu eleições para breve.

Os Estados Unidos continuarão a monitorar os eventos. Isto é o que se passou, e o povo venezuelano expressou o seu direito à manifestação pacífica. Foi uma manifestação muito grande que resultou. E a manifestação encontrou­‑se com a violência». [1]

Nesse mesmo dia, o porta­‑vos do Departamento de Estado dos EUA, Philip T. Reeker, declarou:

«Nos últimos dias, expressamos a nossa esperança de que todas as partes na Venezuela, mas especificamente a administração de Chávez, actuassem com reserva e mostrassem respeito total para com a expressão pacífica da opinião política. Estamos muito tristes com as perdas de vidas humanas. Queremos expressar a nossa solidariedade para com o povo venezuelano e esperamos trabalhar com todas as forças democráticas na Venezuela para assegurar o exercício total dos direitos democráticos. As Forças Armadas venezuelanas rejeitaram ordens de disparar aos manifestantes pacíficos, e os meios de comunicação, de maneira muito valente, mantiveram o povo venezuelano informado.

Os eventos do dia de ontem na Venezuela resultaram num governo de transição até que se possam convocar novas eleições. Apesar de os detalhes ainda não estarem claros, acções anti-democráticas cometidas ou encorajadas pela administração de Chávez provocaram a crise de ontem na Venezuela. De acordo com a melhor informação disponível, neste momento: ontem centenas de milhares de pessoas reuniram­‑se pacificamente para obter uma resposta às suas queixas. O Governo de Chávez tentou reprimir manifestações pacíficas. Apoiantes de Chávez, sob ordens, dispararam sobre manifestantes desarmados e pacíficos, resultando em mais de 100 feridos ou mortos. As Forças Armadas venezuelanas e a policia rejeitaram ordens para disparar sobre manifestantes pacíficos e recusaram apoiar o papel do governo em tais violações dos direitos humanos. O Governo impediu cinco canais de televisão independentes de reportar os eventos. Os resultados destas provocações são: Chávez renunciou à presidência. Antes de renunciar, ele despediu o Vice Presidente e os seus ministros. Um governo civil de transição prometeu eleições para breve.

Temos todas as expectativas de que esta situação será resolvida de maneira democrática e pacífica pelo povo venezuelano sob os princípios da Carta Democrática Interamericana. Os elementos essenciais da democracia, que foram debilitados nos últimos meses, devem ser restaurados completamente. Consultaremos os nossos parceiros hemisféricos, dentro do marco da Carta Democrática, para ajudar a Venezuela». [2]

Porque cito aqui estas declarações? Estas declarações dos mais altos níveis do governo dos EUA mostram a versão preparada dos eventos que tomaram lugar durante o golpe de estado contra o Presidente Chávez a 11­‑12 de Abril de 2002. Mais, estas declarações reveladoras comprovam agora, baseando-nos em documentos recentemente obtidos da Agência Central de Inteligência (CIA) sob a Freedom of Information Act [Lei de Liberdade de Informação] (FOIA), que esta versão preparada dos eventos era consabidamente falsa e feita com a intenção de enganar a comunidade internacional em ordem a justificar o derrube violento de um governo democrático.

A Casa Branca e o Departamento de Estado alegaram que o governo de Chávez tinha provocado a violência e as acções que resultaram na suposta renúncia do presidente. Eles também afirmaram que o governo de Chávez tinha disparado contra manifestantes desarmados e pacíficos, e que as Forças Armadas venezuelanas e a polícia tinham rejeitado ordens para «apoiar o papel do governo em violações de direitos humanos». O governo dos EUA mencionou as manifestações e acções desse dia como se fossem espontâneas e não planificadas. O governo dos EUA também negou até ao dia de hoje qualquer envolvimento no golpe de estado de Abril de 2002.

Contudo, há uma quantidade vasta de provas que viram a superfície desde o golpe, que demonstram que os acontecimentos de 11 de Abril, 2002 foram inteiramente premeditados por um sector da oposição determinado em derrocar o governo de Chávez. Mais, as minhas próprias investigações providenciaram uma pletora de provas que demonstram o envolvimento dos EUA no golpe a vários níveis. O mais revelador na frente venezuelana foi um programa de notícias no Sábado de manhã, 12 de Abril, 2002, “24 Horas”, com o apresentador Napoleon Bravo. Nesse programa, Bravo entrevistou o Vice-Almirante Carlos Molina Tamayo, um dos professos líderes golpistas, e Victor Manuel Garcia, director da companhia de sondagens CIFRA, que reclamava representar a “sociedade civil” durante o golpe. Tanto Molina Tamayo como Garcia fizeram um relato detalhado, de fazer cair o queixo, dos acontecimentos que levaram ao golpe e dos venezuelanos chave envolvidos, incluindo creditar as estações de televisão privadas pela sua cumplicidade e ajuda. Os seus depoimentos, juntamente com as próprias admissões de cumplicidade no golpe do prefeito municipal  de Chacao Leopoldo López, do partido Primeiro Justiça, e de Napoleon Bravo, providenciaram suficientes provas de que o derrube de Chávez foi um evento premeditado.

Posteriormente, um documentário extraordinário realizado pelo cineasta Angel Palacios, “Puente Llaguno: Claves de um Massacre”, revelou como os meios privados venezuelanos tinham manipulado e distorcido os acontecimentos que se desenrolaram em 11 de Abril de 2002 durante a marcha da oposição, que resultou em violência disseminada e morte. O documentário também forneceu suficientes provas de que franco­‑atiradores não relacionados com o governo de Chávez tinham provocado a violência na marcha da oposição que justificou a remoção forçada de Chávez do seu cargo. Mais, o documentário conseguiu provar que um golpe de Estado bem planeado liderado por militares e civis tinha ocorrido nesse dia e que os envolvidos tinham laços com os mais altos níveis do governo dos EUA.

Mas a evidência da participação de facto dos EUA no próprio golpe de Estado permaneceu escassa até recentemente. Em www.venezuelafoia.info, coloquei centenas de documentos que evidenciam o esquema intrincado de financiamento que o governo dos EUA tem levado a cabo na Venezuela desde 2001, o qual inclui financiar com bem mais do que vinte milhões de dólares sectores da oposição. O financiamento do National Endowment for Democracy (NED), uma entidade quasi­‑governamental nos EUA financiada inteiramente pelo Congresso e estabelecida sob uma lei do Congresso no ano de 1983, outorgou mais de três milhões de dólares desde finais de 2001 a grupos da oposição, muitos dos quais foram participantes chave no golpe de estado de Abril de 2002. E em Junho de 2002, a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) estabeleceu um Gabinete de Iniciativas de Transição (OTI) na embaixada dos EUA em Caracas, alegadamente com o propósito de ajudar a Venezuela a resolver a sua crise política. A OTI em Caracas recebeu mais de quinze milhões de dólares de fundos do Congresso desde Junho de 2002, e recentemente solicitou mais cinco milhões para 2005, apesar do facto de que apenas era suposto ser um esforço de dois anos. Toda a evidência até à data demonstra que a OTI outorgou fundos principalmente a grupos e projectos da oposição na Venezuela, particularmente aos que estavam concentrados no referendo revogatório contra o presidente Chávez a 15 de Agosto de 2004.

Escrevi outros artigos explicando o modelo de intervenção aplicado através do NED e da USAID na Venezuela. Este método de intervenção é muito sofisticado e complexo, porque penetra a sociedade civil e as organizações sociais de uma maneira muito subtil e é frequentemente ora indetectável ora debilmente justificado com o argumento da “promoção da democracia”, que é o que o NED professa fazer em todo o mundo, apesar da evidência que demonstra o contrário. O mero facto de que na Venezuela o NED tenha financiado exclusivamente grupos anti­‑chavistas e aquelas mesmas organizações que estiveram envolvidas no golpe de Estado em Abril de 2002, demonstra que a “democracia” está longe das intenções do NED.

Mas a intervenção da CIA na Venezuela é do tipo mais cru e simples. Documentos secretos obtidos recentemente e disponibilizados em www.venezuelafoia.info  demonstram que nas semanas anteriores ao golpe de Abril de 2002 contra o presidente Chávez, a CIA tinha total conhecimento dos eventos que ocorreriam e, na verdade, até tinha os planos detalhados na sua posse. Um informe secreto de inteligência da CIA de 6 de Abril de 2002 de título “Venezuela: Condições para um golpe de estado estão em maturação”, afirma: «Facções militares dissidentes, incluindo um grupo descontente de altos oficiais, bem como um grupo radical de oficiais de baixa casta, estão a aumentar esforços para organizar um golpe contra o Presidente Chávez, possivelmente tão cedo como neste mês, [CENSURADO]. O nível de detalhes nos planos reportados – [CENSURADO] – indica Chávez e dez altos oficiais para serem presos…» O documento declara ainda: «Para provocar a acção militar, os conspiradores podem tentar explorar distúrbios originados das demonstrações da oposição previstas para o fim deste mês…» [3]

Assim, a CIA sabia que uma tentativa de golpe de Estado ia ter lugar pouco depois de 6 de Abril, 2002, e além disso, eles sabiam que o plano incluía a prisão de Chávez e uma exploração de violência na marcha da oposição. Em outras palavras, eles sabiam dos planos antes de o golpe ter ocorrido e seguramente conheciam os actores envolvidos, muitos de cujos nomes estão provavelmente nas partes censuradas dos documentos secretos. Poderíamos assumir que, se a CIA tinha os planos detalhados na sua posse nas semanas prévias ao golpe era porque se estavam a associar e a conspirar com os planificadores do golpe. Assim, quando Ari Fleischer e Philip Reeker fizeram aquelas declarações a 12 de Abril de 2002 como porta­‑vozes do governo dos EUA, fizeram-no com o conhecimento total de que um golpe tinha ocorrido, Chávez tinha sido preso e a violência na marcha opositora tinha sido uma parte premeditada do golpe. Os documentos secretos que comprovam esta informação mostram que foram enviados ao Departamento de Estado e à Agência de Segurança Nacional, o quer dizer francamente que a Casa Branca sabia desde sempre o que estava a acontecer.

Além disso, os documentos da CIA também não fazem menção de quaisquer tentativas para forçar a renúncia de Chávez. Os avisos da CIA indicavam, tão cedo como 5 de Março de 2002 (que é a data do primeiro documento que me entregaram), que um golpe estava a ser preparado e até deram o palpite de que as perspectivas de um golpe bem sucedido eram limitadas. A CIA pensava correctamente que a oposição estava demasiada dispersa e dividida para derrubar Chávez com sucesso. Mas o conceito de que Chávez tinha “renunciado”, como “confirmaram” os porta­‑vozes da Casa Branca e do Departamento de Estado no dia 12 de Abril de 2002, era meramente uma montagem, uma falsa alegação feita com a intenção de enganar o público dos EUA e a comunidade internacional. Recordem que os EUA ficaram praticamente sós no mundo no seu reconhecimento do governo de Carmona implementado pelo golpe, que mais tarde condenou debilmente, mas apenas após o golpe se ter desmoronado e os EUA terem percebido que precisavam salvar a face rapidamente.

Um documento secreto da CIA de 14 de Abril de 2002 mostra preocupação de que os governos latino­‑americanos verão a política externa dos EUA como hipócrita por causa do seu reconhecimento isolado do governo golpista de Carmona. A CIA também demonstrou surpresa por a região da América Latina ter rejeitado tão rapidamente o golpe na Venezuela, e que o governo de Carmona «entrou em colapso de forma atordoante», o que demonstra um ponto de vista possivelmente datado do hemisfério e uma falha na recolha e análise de inteligência. Na verdade, a CIA nunca imaginou que o golpe fracassaria por causa do apoio a Chávez – as suas análises sempre mostravam um possível fracasso devido a falta de unidade da oposição e acções precipitadas. Este é um ponto importante, porque demonstra que apesar de a CIA ter estado envolvida na conspiração do golpe e ter colaborado com as facções militares dissidentes e os líderes da oposição, estava bastante afastada da realidade da sociedade venezuelana.

Os fracassos de inteligência da CIA na Venezuela foram aparentemente repetidos durante a greve na indústria petrolífera em finais de 2002 na tentativa de desestabilização pela guarimba, uma táctica da velha escola da CIA aplicada no Chile e na Nicarágua. Ambas estas duras acções fizeram dano à economia venezuelana e afectaram a imagem do governo a nível internacional, mas falharam no seu objectivo de derrocar Chávez. As dezenas de milhões de dólares do NED e da USAID que financiaram a construção e a manutenção do movimento de oposição e a campanha do referendo revogatório contra o Presidente Chávez, também fracassaram em cumprir a sua missão. De facto, todas estas tentativas trapalhonas do governo dos EUA e dos seus fantoches do movimento de oposição serviram para fortalecer o apoio de Chávez dentro da Venezuela, projectando a nível internacional uma imagem de Chávez como líder forte e sólido.

Agora que vieram à superfície alguns documentos secretos que demonstram a cumplicidade e a participação da CIA no golpe de Abril de 2002, ficamos a pensar o que vem a seguir na agenda. Em Setembro de 2001, pouco tempo depois dos ataques às Torres Gémeas em Nova York, o presidente Bush autorizou incondicionalmente a implementação da “Matriz de Ataque Mundial”, um plano do então director da CIA, George Tenet, que transforma em alvo para assassinato líderes e proeminentes figuras em 80 países em todo o mundo. A autorização da Matriz de Ataque Mundial deu uma carta branca virtual à CIA para conduzir assassinatos políticos no estrangeiro, justificados sob a “guerra contra o terrorismo”. A “Matriz de Ataque”, um documento secreto da CIA, autoriza uma variedade de acções anti­‑terroristas clandestinas por parte da CIA, que vão de «propaganda de rotina a acções letais clandestinas em preparação para ataques militares» [4]. Os planos dão à CIA a mais ampla e a mais letal autoridade na história. Alguns analistas indicaram que a Venezuela está possivelmente incluída nos planos.

O recente assassinato do promotor venezuelano Danilo Anderson, conduzido num estilo que recorda as operações da CIA, poderia estar a preparar o terreno para futuros assassinatos políticos. A história demonstra que quando a CIA fracassa em remover um alvo por meios não letais, medidas mais desesperadas são tomadas. Apesar do facto de o governo venezuelano e os seus apoiantes parecerem ter frustrado já a CIA numerosas vezes durante os últimos anos, a vigilância, a inteligência e medidas acrescidas de segurança deveriam tornar­‑se uma prioridade.

 

_____________

[1] http://www.whitehouse.gov/news/releases/2002/04/20020412-1.html

[2] http://www.state.gov/r/pa/prs/ps/2002/9316.htm

[3] http://www.venezuelafoia.info/cia.html

[4] http://www.i2osig.org/cia.html