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04/11/2004 Pedro Campos Se bem que ainda não estejam
apurados os números finais, tudo indica, sem qualquer surpresa, que as forças
políticas que apoiam as transformações democráticas na Venezuela obtiveram
importantes vitórias nas eleições regionais de 31 de Outubro. Uma olhadela ao mapa político
da Venezuela mostra uma mancha vermelha praticamente de ponta a ponta do
país, se exceptuarmos duas manchas discordantes, correspondentes a estados
onde a oposição, de acordo com os números, ainda parciais, parece ter
conseguido duas vitórias, ainda que num dos casos se esteja, por agora, mais
perto de um empate virtual. É o caso de Zulia, estado fronteiriço com a
Colômbia, rico em petróleo e gado, que, a continuar nas mãos da oposição, representa
um perigo, devido ao Plano Colômbia e às provocações internas e externas, que
podem levar a novas veleidades secessionistas. No outro extremo do país, no
meio das Caraíbas, o estado Nova Esparta, o destino turístico mais importante
da Venezuela, passou para o lado opositor, confirmando uma tendência que já
se tinha verificado durante o referendo presidencial. Estas duas situações
são claramente compensadas pelos ganhos bolivarianos em outros estados
fundamentais para o aprofundamento da transformação política do país. Em
Miranda, estado parcialmente articulado com a capital, vence Diosdado Cabello
com uma diferença de 4%. Em Carabobo, sede da indústria ligeira do país,
desde há vários anos sob controlo da família Salas Römer, o triunfo
inclina-se para o lado de Acosta Carles. Em Trujillo, o candidato bolivariano
vence numa região tradicionalmente dominada pelos democrata-cristãos. Em
Monagas, rico em petróleo e feudo do partido social-democrata desde há perto
de meio século, Gregorio Briceño vence com comodidade. O mesmo sucede em Yaracuy.
Anzoátegui, também rico em petróleo, volta ao controlo bolivariano na pessoa
do poeta Tarek W. Saad. Em síntese, tudo indica que
esta esmagadora vitória das forças bolivarianas aponta para que, no futuro,
se possam articular devidamente os esforços de governabilidade entre o
governo central e 20 dos 22 estados da Venezuela que foram a consulta. Neste breve apontamento não
podemos deixar de mencionar a situação do distrito Capital. A oposição
conservou os três municípios que tinha nas mãos e os bolivarianos mantiveram
os dois mais povoados. A grande derrotada foi a reacção, que perdeu o alcaide
principal. Nas eleições de 2000, os partidos democráticos impuseram um
vencedor: Alfredo Peña, que, pouco depois, se passaria para a oposição, numa
das traições que mais negativamente marcaram o processo bolivariano. Ao
saltar com armas e bagagens para a oposição, Peña nunca deixou de conspirar e
fica para a história a sua participação nos acontecimentos de Abril, onde a
sua polícia, a mais importante do país, actuou como força de choque dos
golpistas. Poucas semanas antes destas eleições e como resultado das
sondagens que lhe eram claramente adversas, Peña fugiu à derrota e optou por
renunciar alegando fraude. Outros opositores seguiram na batalha eleitoral,
mas a vitória do candidato Juan Barreto é indiscutível e aponta para um total
de 62% dos votos. OPOSIÇÃO NÃO APRENDE A PERDER Derrotada em várias frentes
de batalha, a reacção nega-se a reconhecer o voto popular como já o fez com
os resultados do referendo presidencial. Nove derrotas seguidas não são nada…
e agora ameaça não entregar as regiões onde perdeu. A desculpa é a de sempre
e peca por falta de originalidade: fraude. Houve fraude em todos os estados e
distritos onde perdeu. Nos restantes, não. Enfeudada ao poder mediático,
manipuladora descarada dos seus seguidores – que representam um número
importante da população mas estão longe da maioria – e enganada pelas suas
próprias mentiras, é incapaz de ver que o «país» onde vive, as urbanizações
de classe média, não é o país real, que vai muito mais para além do seu nariz
arrebitado. Uma vez mais vencedoras, as
forças progressistas da Venezuela têm pela frente novos reptos que as obrigam
a manter-se atentas aos perigos que espreitam dentro e fora do país e também
no seu seio, como já foi apontado pelo próprio presidente Chávez, que
identificou a corrupção, o burocratismo e a incompetência como inimigos a
bater no que definiu como «a revolução dentro da revolução». |