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Outubro 2003 – Longe de Caracas, os avanços da reforma agrária – Maurice Lemoine Uma planície imensa, como um oceano semeado de ilhas cheias de
arbustos. A dez minutos de carro de San Carlos, capital do Estado de Cojedes,
a poucos quilômetros da pequena praça onde, no dia 10 de Janeiro de 1860,
mataram o general Ezequiel Zamora [1], começa o latifúndio. Por trás de
intermináveis cercas de arame farpado, estendem‑se os 20.000 hectares
de hatos (fazendas de gado) da família Boulton, uma das mais ricas do
país. Vêm seguidamente os 14.000 hectares do Hato El Charcote, pertencentes à
Flora S. A.. Terras sobre as quais, por caminhos, algumas dezenas de novillos
(bois) marcam passo, perdidos na imensidade. Mais longe, encontram-se as
vastas as extensões da família Branger (125.000 hectares no município Pao),
as de outros terratenientes, proprietários de terra que possuem 80.000
hectares de um lado, 30.000 hectares do outro, dos quais, frequentemente, não
mais de 3.000 ou de 4.000 hectares são explorados. «Sou um camponês sem terra. Terra, tenho, mas no cemitério». É a
época em que o camponês que viola estes espaços incultos é apanhado,
encarcerado, expulso com chumbo. É o tempo em que o peón, o
trabalhador agrícola, trabalha «pelo miserável salário diário de 3.000 bolos»
[2]. Sobre exíguas parcelas de um hectare, camponeses plantam um milho
anémico e vivem do Espírito Santo. Aquele que não tem com que comprar ou
alugar um pedaço de terra vegeta, prisioneiro dos seus quatro muros, nos
medonhos ranchitos das periferias citadinas. Mas a fome não espera. Pelo menos, não eternamente. No dia 14 de
Outubro de 2000, em companhia de 25 homens e de uma mulher, Jesús Vásquez
ocupou uma parte do hato El Charcote. A suposta proprietária, por intermédio
da Flora S. A., é a coroa britânica! «O governo pediu‑lhes que
apresentassem os seus títulos de propriedade. Nunca o fizeram. Na verdade,
trata‑se de terras do Estado». A pesquisa efectuada pelo Instituto
Nacional de Terras (INTI), criado em 8 de Janeiro de 2002 para fazer cumprir
a Lei das Terras promulgada pelo presidente Hugo Chávez, confirma os factos.
Desde então, 800 famílias, agrupadas em 24 cooperativas, ganharam o direito a
uma parte da propriedade e cultivaram ali 7.000 hectares. Milho, papaias,
feijão, legumes e mandioca rodeiam, actualmente, os ranchos com tectos de
folhas de palmeira e a escola de madeira erigida pelos camponeses. Eles
próprios construíram as pontes que permitem o acesso à zona e olham
orgulhosamente os tractores e camiões que passam, adquiridos graças ao
crédito concedido pelo governo. «No ano passado, colhemos 2 toneladas de
milho; este ano, pensamos chegar a 6 toneladas e, depois, bem mais», jubila
Vásquez. «As pessoas produzem e têm o que comer. Sinceramente, é uma mudança
magnífica». Enquanto, com a cumplicidade dos governos precedentes, os terratenientes
se apropriaram indevidamente de milhões de hectares, a Venezuela importa 70%
dos seus alimentos [3]. Para citar apenas estes, os proprietários da cerveja
Polar, segunda indústria do país depois do petróleo, importam todo o seu
lúpulo dos Estados Unidos. Colhe-se grande parte do milho consumido no país,
mas o milho enlatado vem do estrangeiro! Se esta situação beneficia os
gigantes da importação e da distribuição, ela afectou os sectores mais
pobres, particularmente os pequenos produtores, e deixou à beira da estrada
centenas de milhares de camponeses. No dia 13 de Novembro de 2001, no quadro de um pacote de quarenta e
nove decretos-leis, o presidente Chávez anunciou uma Lei das Terras destinada
a remediar a abissal injustiça social e, relançando a produção, garantir a
segurança alimentar da Venezuela. Não tocando, de modo algum, nas explorações
em actividade, mas procurando acabar com o latifúndio, essa lei estabelece um
imposto sobre as terras não produtivas, e mesmo a sua expropriação, e proíbe
que uma única pessoa possua uma superfície superior a 5.000 hectares. Prevê,
além disso, a recuperação de inúmeras terras do estado ilegalmente ocupadas.
E a distribuição de todas essas áreas aos camponeses, privilegiando, mas sem
exclusividade, a formação de cooperativas. No dia 8 de Dezembro de 2001, empilhados em autocarros ou instalados
nas carroçarias descobertas de camiões, uns vinte mil camponeses [4] deixaram
para trás os seus labirintos de árvores e de mato, os seus pueblos
moribundos. No dia seguinte, queimados pelo sol, barbudos, sujos,
esplêndidos, desfilaram por Caracas para festejar o acontecimento. «Deslocamo‑nos
voluntariamente, não como antes, quando, para mobilizar os camponeses, lhes
ofereciam dinheiro ou alimentos», enfatiza Claudio Ditulio, em Curito
Mapurital (Estado de Barinas), onde o INTI acaba de entregar 31.700 hectares
a 500 famílias. «Fomos lá com os nossos fracos recursos, mas também com uma
imensa esperança...» A terra! Esse gigantesco clamor, enfim ouvido, daria ainda lugar a
numerosas manifestações de apoio à revolução bolivariana. «Nunca corri tanto
por uma mulher como marchei por este presidente», ri um dos companheiros de
Ditulio, com o chapéu de feltro virado para trás, enquanto o ar quente vibra
intensamente. Com esse conjunto de reformas radicais, a revolução bolivariana
entra finalmente no cerne da questão. Entra também num confronto, sem dó nem piedade, com a oposição. «A
lei tem um carácter intervencionista, estatizante, e não reconhece o direito
de propriedade, que é um direito fundamental do homem», reagiriam,
imediatamente, e entre outros, a Associação dos Criadores (Agosata) e a
Fedecámaras do Estado de Táchira, a secção local da organização patronal
venezuelana. «O imposto sobre terras incultas é anticonstitucional (...). Ela
[a lei] resulta de um fundamento comunista, forma típica de uma política
colectivista (...). Mais do que uma filosofia, parece uma orientação de tipo
totalitário» [5]. Para José Luis Betancourt, dirigente da Federação Nacional
dos Criadores (Fedenaga), a lei «vai levar numerosos produtores à falência».
Foi com os mesmos argumentos que Pedro Carmona, o patrão dos patrões, apoiado
por Carlos Ortega, dirigente da muito corrupta Confederação dos Trabalhadores
da Venezuela (CTV) – «A arbitrariedade destas leis impõe argumentos
indiscutíveis e acções inequívocas de recusa» – lançou, a partir do dia 10 de
Dezembro, a primeira greve geral, prelúdio da tentativa de golpe de Estado do
dia 11 de abril de 2002 [6]. No entanto, no mesmo dia 10 de Dezembro, em Barinas, desafiando a
greve e diante de uma multidão que se agita como uma onda, com boinas
vermelhas e as suas bandeiras, o presidente Chávez persiste e assinala,
promulgando oficialmente a lei: «Senhores grandes proprietários, preparem os
vossos papéis, porque irão ter de demonstrar que essas terras lhes
pertencem!» No mesmo momento, os representantes dos latifundiários rasgavam o
texto da lei no decurso de um acto público transmitido ao vivo pelos meios de
comunicação. «Os nossos terratenientes nem sequer se parecem a
capitalistas, os quais põem as terras a produzir», constata Ricaurte Leonete,
nomeado presidente do INTI no início de Agosto de 2003. «Na Europa, o
capitalismo venceu este tipo de comportamento parasitário há muito tempo».
«Castrocomunismo!», acusa a oposição. Os tambores da guerra ressoam na
Venezuela. E entoam no Estado de Yaracuy. Nesta região, os camponeses recitam
poesias e chamam‑se facilmente camaradas. Há décadas que se
luta contra «o monstro de mil cabeças dos “devoradores de terras”». Ali,
liderados por Braulio Álvarez, carismático dirigente da Coordenação Agrária
Nacional Ezequiel Zamora (CANEZ), os comités das terras de Camunare Rojo e de
Urachiche solicitaram, e conseguiram, no dia 4 de Maio de 2002, 665 hectares
de terras incultas das famílias Bolmer e Azleca, muito ligadas à do
governador da oposição, Eduardo Lapi. De acordo com o INTI, essas terras
pertencem ao antigo Instituto Agrário Nacional (IAN). No dia 12 de Julho seguinte, por ordem do governador, a brigada de
choque da polícia regional, os pantaneros, atacou violentamente cerca
de 850 pessoas legalmente instaladas naquele local e expulsou‑as com
gás lacrimogéneo e balas de todos os calibres até Camunare Rojo. Mais de
vinte feridos, oito pessoas hospitalizadas. «No Yaracuy, brinca‑se à
anarquia e não vou permiti-lo», declarou Lapi, enquanto o presidente do
Conselho Legislativo do Estado, Victor Pérez, denunciava o «plano de terror»,
fomentado pelos camponeses em Camunare Rojo. No sector Santa Lucía da fazenda Santa Catalina (“pertencente” à
Central Matilde, um consórcio açucareiro), 600 pessoas receberam 540 hectares
no dia 3 de Maio de 2003, mais um financiamento de 170 milhões de bolívares
(96.000 euros) e um tractor chinês que lhes permitiu semear os seus 170
primeiros hectares. «No dia 20 de Julho, fomos atacados por jagunços que
incendiaram um camião e um automóvel e maltrataram duas pessoas, sobre as
quais lançaram gasolina», testemunha “Zapata”, um dos líderes da cooperativa.
Em torno dele, caras magras e pálidas mostram uma grande felicidade um pouco
lassa. Embora o tribunal tenha emitido uma medida de protecção, que consiste
em patrulhas da Guarda Nacional, «podemos ver os pantaneros de Lapi ali
instalados», diz “Zapata”, apontando para os velhos acampamentos. «Eles
atiram para o ar, ameaçando‑nos e provocando‑nos para que
respondamos, de maneira a poderem justificar uma violenta repressão». Ainda passa quando o “inimigo” é um governador de oposição, como nos
Estados de Yaracuy, Apure e Carabobo ou politiqueros do antigo regime.
Mas, em Janeiro de 2002, em El Robal, no Estado de Cojedes, foi Jhonny (sic)
Yanez Rangel, eleito sob as cores do Movimento pela V República (MVR, partido
do presidente) que soltou os cães. «Ele expulsou os camponeses, destruiu os
seus ranchos e o material, tudo se perdeu», diz Vásquez, enfurecido,
parado perto da corrente escura de um rio. Um governador revolucionário contra
a revolução? Não é bem assim... Muitos oportunistas se juntaram ao campo do
candidato Chávez, quando ficou claro que era certa a sua vitória nas eleições
presidenciais. No dia 12 de Abril de 2002, Rangel juntou‑se sem
estados de alma ao governo resultante do golpe de Estado, antes de hesitar
muito oportunamente dois dias depois, quando Chávez retomou o poder [7]. A situação tornou-se tão grave, neste Estado de Cojedes, que a equipe
regional do INTI se mostrou totalmente ineficaz a princípio. «Apareceram por
ali mãos obscuras, os latifundiários, o poder económico, e tudo se atrasava»,
lembra José Pimentel, o homem encarregado de encher os autocarros sempre que
há um deslocamento a Caracas para apoiar o presidente. «A pedido nosso, Adán
Chávez [irmão do presidente, então director do INTI] fez uma auditoria e deu‑se
conta que, durante nove meses, os dirigentes locais não tinham feito nada».
Nomeado em Julho de 2003, trabalhando «sem sábados nem domingos», Gustavo
Gutiérrez, coordenador de uma nova equipa, começou a «corrigir os erros e a
reorganizar a instituição». Para facilitar o seu trabalho, o INTI, uma instituição nova que
substituiu o Instituto Agrário Nacional, tão ineficaz quanto corrupto, teve
que reinventar tudo em muito pouco tempo. «Tratava-se de novos funcionários»,
testemunha o seu actual presidente, Ricaurte Leonel, que tiveram de aprender
a lei e como aplicá-la». Num país com arquivos e cadastros muitas vezes
inexistentes, sem falar da obstrução por parte de pseudo-proprietários, o começo
foi difícil. Quando, em Setembro de 2002, o presidente Chávez descobriu que o
novo organismo não tinha entregue sequer 1.000 hectares, «ele ficou furioso»:
«Quero que, no dia 30 de Agosto de 2003, vocês tenham distribuído 1,5 milhões
de hectares, senão demito todo o mundo, do presidente [na época, o seu irmão
Adán] até ao último dos funcionários». A partir de então, os procedimentos
avançaram «com uma rapidez gigantesca». No final de Agosto de 2003, 1.340.000
hectares de terra tinham sido distribuídos a 62.800 famílias (o objectivo
fixado é de resto atingir 2 milhões de hectares para 500 mil camponeses) [8]. Alguns pontos obscuros persistem todavia, nomeadamente na região de
Apure, “zona quente” situada ao longo da fronteira colombiana. «Aqui,
sofremos, compañero. A revolução agrária não chegou». Basta julgar os
factos. Flora S.A. (pertencente à coroa britânica, como no Estado de
Cojedes): 350.000 hectares; Hato La Victoria: 100.000 hectares; Hato El
Cedral: 150.000 hectares; La Caña Vilena: 30.000 hectares; Matebanco: 25.000
hectares... Nesses llanos [9] lendários, essas imensas extensões de pasto
alto e abundante, atravessadas pelos mesmos rios que serpenteiam nos mesmos
meandros e nas mesmas galerias cobertas de florestas, na monotonia das
planícies inundadas, o movimento camponês, acusado de ser composto por
“guerrilheiros”, sempre foi submetido a uma feroz repressão. E na memória,
retém-se um período muito particular: aquele em que o general Enrique Medina
Gómez comandou o “teatro de operações n.º 1” (TO‑1), dispositivo do
exército venezuelano destinado a lutar contra a penetração de grupos
paramilitares colombianos. No dia 23 de Janeiro de 1997, ele libertou sete
paramilitares colombianos presos, com o seu arsenal, desde o dia 22 de
Dezembro anterior. Esses homens obrigavam os criadores da fronteira a pagar‑lhes
entre 2 milhões e 3 milhões de bolívares «em troca de segurança». Explicação
do general: «Eles realizavam uma operação de informações» e possuíam uma
autorização do TO‑1 «totalmente legal» [10]. Posteriormente afastado pelo presidente Chávez e (imprudentemente)
nomeado adido militar na Embaixada venezuelana em Washington, o general
Medina Gómez será um dos actores chave do golpe de Estado do dia 11 de Abril
de 2002. Entretanto, em 1998, representantes da população civil de
Guasdualito tinham acusado membros da Disip (a polícia política) de
colaborarem com os paramilitares que operavam na fronteira. Precisamente em Guasdualito, Santo Durán, o responsável técnico da
delegação subregional (Alto Apure) do INTI, mostra com abatimento o velho
mobiliário da década de 70 que equipa o seu escritório, um único computador
disponível para três pessoas e, diante de uma pilha de dossiês
impressionante, queixa-se da falta de meios. «Trabalhamos com as unhas»,
precisa com amargura. A situação não tem nada de excepcional. As delegações
do INTI aparecem, em toda a parte, sub‑equipadas. Interrogado, Durán
mostra‑se todavia confiante. Apesar de vários conflitos e da
resistência de alguns grandes proprietários, «em geral, as coisas resolveram‑se
amigavelmente». A opinião dos principais interessados, os camponeses, é outra. «Aqui,
há setenta ocupações pelas quais o INTI nada fez. Nem um único título agrário
[documento que permite aos camponeses ocupar a terra] foi emitido até hoje no
Alto Apure», explode Domingo Santana, da Frente Revolucionária Simón Bolivar.
A raiva ruge nos ranchos miseráveis disseminados ao longo das águas
barrentas do Apure e concentrados numa faixa de 200 metros na proximidade da
margem. «Para lá, não se pode passar», explica uma mulher humilde afastando
os insectos que voam sobre o seu prato, «é propriedade privada». Nestas
paisagens de dilúvio onde as pernas se ensopam na lama, o furacão anuncia‑se
sério para os «burocratas» locais do INTI. «São pessoas que, definitivamente,
não estão engajadas no processo revolucionário e que utilizam a Lei das
Terras para viverem e receberem um bom salário». Observando que Durán foi, anteriormente, administrador de uma das
propriedades visadas pelos camponeses, o hato La Miel, estes encaram muito
seriamente uma operação musculada «de tomada das instalações do INTI».
Felicitando‑se completamente que um «grande amigo em quem depositamos
muitas esperanças», acompanhador de sempre do movimento camponês, e que
conhece bem o Alto Apure (Ricaurte Leonel), tenha sido nomeado, em Caracas,
para a direcção da instituição. A revolução bolivariana quer ser, e é, democrática. Não cortou
cabeças nem praticou a caça às bruxas. É a sua grandeza. Paradoxalmente, é também
sua fraqueza. No dia 6 de Fevereiro de 2003, Chávez andava pelas terras da
cooperativa Jacoa (Estado de Barinas). Uma nova estrada, magnífica, foi
traçada para tirá-la do isolamento. Além dos títulos agrários, ele enviou
para as 500 pessoas que ocupam essas terras deixadas ao abandono por dois terratenientes,
três tractores e um crédito de 690 milhões de bolívares (390.000 euros). Sete
meses mais tarde, semi‑fracasso para esse projecto emblemático do
presidente. «O nosso comandante acredita que tudo funciona bem!
Escondem‑lhe as cifras reais, ninguém lhe diz a verdade. Aqui, não
foram cultivados 500 hectares, mas apenas 15!» O Ministério das Infra‑estruturas
(Minfra) já deveria ter desmatado 400 hectares. Não o fez. Apesar dos
múltiplos pedidos, os funcionários do Instituto de Desenvolvimento Rural
(Inder), encarregado da drenagem e do sistema de irrigação, ainda não
apareceram. Os do Ministério do Ambiente, também envolvidos, estão ausentes
para os associados. «As instituições do governo não me recebem», queixa-se
Richard Vivas, um dos dirigentes da cooperativa, «só o INTI me apoia». Trabalhando no INTI, em Caracas, Gladys Vivas confirma essas
dificuldades. O governo não pretende apenas distribuir as terras, mas também
máquinas, créditos. Quer também que a população disponha de infra‑estruturas,
de casas, de escolas, de centros de saúde. Para fazer isso, o INTI deve
trabalhar com os ministérios e administrações envolvidos. Estruturas muito
burocráticas, onde muitos funcionários, quadros médios e empregados, são
membros dos antigos partidos, ali enquistados às vezes há quinze ou vinte
anos. «Fazem tudo o que podem para contrariar este tipo de desenvolvimento.
Temos que trabalhar conspirando, como o fazem os próprios ministros!,
procurando aliados, infiltrando‑nos. Consequentemente, as respostas
são frequentemente muito lentas». Um enorme desperdício de energia e de
tempo. Nas casas de barro [11], nesse universo de selas de couro,
lâminas, bolsas, lampiões, peles, botas e pilhas de roupas, pela primeira vez
os camponeses organizam‑se e conhecem a lei. Eles a lêem. Sabem que
têm direitos. Face às dificuldades e aos atrasos, reagem de maneira muito
política. «Não caiam na provocação», ouvimos no hato El Miedo (Estado de
Barinas), durante uma reunião. «É preciso lutar com a cabeça. A nossa arma é
a lei». Em Jacoa, onde se preparam para sacudir as instituições vacilantes,
um dirigente define as modalidades da acção: «É preciso abrir as portas. Mas,
atenção. Com um cartaz que diga: “Somos revolucionários, estamos com o
presidente”. O problema é “este” funcionário. Senão, a imprensa apropria‑se
e a oposição faz a festa». Pois a oposição fica na tocaia. Graças ao Supremo Tribunal de
Justiça, que ela controla, conseguiu, no dia 20 de Novembro de 2002, revogar
os artigos 89 e 90 da lei. O artigo 89 permitia ao INTI decretar a ocupação
preventiva das terras pelos camponeses durante a acção judicial destinada a
provar que os seus “proprietários” não o eram. Doravante, a ocupação só pode
ser feita através de um julgamento (no âmbito de um sistema judiciário lento,
jamais melhorado, e frequentemente em conivência com a oposição). O artigo 90
proibia qualquer tipo de indemnização a um “proprietário” que tivesse
construído instalações, casas ou prédios em terras da nação ilicitamente
ocupadas. «Imaginem!», indigna‑se Leonel no seu escritório do Parque
Central, em Caracas: «roubam o meu carro, o ladrão coloca nele pneus novos,
um novo motor, e quando recupero o meu veículo, tenho que reembolsá-lo pelo
motor e pelos pneus!» Enquanto espera que a Assembleia Nacional reformule os dois artigos
em questão, o decreto presidencial n.º 2292, de 4 de Fevereiro de 2003, e a
resolução 177 do INTI deram vida aos títulos agrários. Sem constituir um
título de propriedade, estes permitem a ocupação de terras em litígio e a
obtenção de créditos para valorizá‑las. Contudo, a resistência a esta revolução conduzida no campo encontrou
formas de expressão mais violentas. Saindo de Guanare (capital do Estado de Portuguesa),
ao volante do seu veículo com vidros opacos, Richard Vivas, coordenador
regional do INTI, dirigia‑se a toda velocidade para Zoropo. Acabavam
de adverti-lo, por telemóvel, que uma discussão tensa opunha um grupo de
camponeses a três campos volantes [12]. No local, numa zona cheia de
mato e de bosques, reinava uma atmosfera eléctrica, uma certa confusão. «Eles
não nos deixam passar», indigna‑se um camponês, apontando com o dedo
três homens agarrados às suas espingardas. «Eles ameaçam‑nos, queimam
os nossos ranchos, destroem as nossas colheitas», acrescenta, com
raiva, um dos seus companheiros. Vivas acalma o seu pessoal. Na mira do olhar
negro e inquieto dos esbirros, tira o seu telemóvel. «Vou pedir à Disip para
indagar e tomar nota da identidade daquelas pessoas». De volta a Guanare,
onde se expõem graffiti nos muros «Viva Jesus Cristo, Bolivar e Chávez!», ele
confidencia: «Recebi várias ameaças de morte. Levo‑as a sério. Esta
oposição mata». Doze pessoas foram assassinadas no Estado de Portuguesa, entre as
quais Jacinto Mendoza, executado em frente aos escritórios do INTI.
Colaborando na organização de um comité de terras, reclamava para 50 famílias
títulos de propriedade de terras incultas pertencentes ao Estado. Detido, o
intermediário encarregado de contratar os sicarios (assassinos a
soldo) confessou ter recebido 8 milhões de bolívares (4.500 euros) das mãos
de Omar Contreras Barboza, antigo ministro da agricultura de Carlos Andrés
Pérez, ex‑presidente destituído por corrupção, que reivindica a
propriedade das terras. Não houve nenhuma reacção por parte da justiça até ao
presente. Existem grupos de extermínio, bandos organizados, pagos pelos terratenientes,
principalmente nos Estados de Zulia, Barinas, Tachira e Apure. Por vezes, os sicarios
mediáticos associam‑se. No dia 24 de Março último, numa pseudo‑reportagem
publicada pelo diário El Universal, Roberto Giusti acusou Jorge
Nieves, dirigente camponês e líder comunitário, de ser um dos comandantes,
no Apure, de uma suposta Frente Bolivariana de Libertação (FBL), «braço
armado da revolução bolivariana» operando em conjunto com as guerrilhas
colombianas [13]. Um mês mais tarde, nessa zona efervescente de paramilitares
(colombianos), o alvo designado foi morto a tiros, em pleno Guasdualito. A federação dos criadores garante que as forças armadas apoiam as
invasões de terras produtivas e que os títulos agrários são entregues a
grupos guerrilheiros. A oposição grita à ditadura. Na realidade, na
Venezuela, são os partidários de um presidente democraticamente eleito que
fornecem as vítimas: no âmbito desta guerra esquecida pelos meios de
comunicação, 74 camponeses foram assassinados em dois anos (mais de 120 desde
1999). Apesar destes crimes, apesar do sangue, nessas imensas extensões em
que o céu se encontra com a terra e onde se proclama um apoio indefectível
«ao nosso comandante, o presidente Hugo Chávez», o entusiasmo
ultrapassa a imaginação. Por toda a parte, as pessoas saúdam‑se com
vibrantes «Epa chámo, como está la lucha?» («Olá, amigo, como vai a
luta?»). Por toda a parte, milho, sorgo, legumes, frutas, gado, piscicultura
e produção, novas escolas e novas casas. Certamente, ninguém se esqueceu que
a primeira medida da breve ditadura nascida do golpe de Estado do dia 11 de Abril
de 2002 foi suprimir a Lei das Terras. Acompanha‑se atentamente a
crise política que se eterniza em Caracas onde, por todos os meios, a
oposição tenta tirar Chávez do poder antes que ele possa executar as suas
reformas. Com palavras medidas ou mais francamente, adverte-se, no caso de...
«se eles nos retiram tudo isso, aqui, haverá uma guerra civil». _______ [1] À cabeça de um exército de camponeses, o general Ezequiel Zamora
derrotou a oligarquia antibolivariana, no dia 10 de Dezembro de 1859, por ocasião
da Guerra Federal. [2] 3.000 bolívares: 1,69 euros. [3] De acordo com o último recenseamento agrícola (1998), 70% das
terras produtivas de boa qualidade estão nas mãos de 20% de proprietários que
possuem mais de 500 hectares, enquanto 75% possuem apenas 6%; 60% dos
produtores rurais não possuem título algum de propriedade das terras que
ocupam. [4] Camponeses. [5] “Frente a la Ley de tierras”, Ultima Hora, Centro de
Estudios Ganaderos, Maracay, 15 de Dezembro de 2001. [6] Maurice Lemoine, Hugo
Chávez salvo pelo povo,
Le Monde diplomatique, Maio de 2002. [7] Sob intervenção do presidente, Yanez Rangel teve de devolver 55
milhões de bolívares aos camponeses que tinha mandado expulsar. [8] Essa pressa acarretou alguns erros, seja relativos aos
proprietários no seu pleno direito, seja em zonas protegidas dependentes, por
exemplo, do Ministério do Ambiente. [9] Zona de planícies que ocupam uma grande parte do território
venezuelano (e da vizinha Colômbia). [10] http://impresodigital.el-nacional.com/ [11] Mistura de lama aplainada sobre uma rede metálica de madeira. [12] Figuras tradicionais das zonas rurais encarregadas de
supervisionar as tropas, os campos volantes tornaram‑se
homens armados a soldo dos terratenientes. [13] Roberto
Giusti, “El brazo armado de la revolución”, El Universal, Caracas, 24 de
Março de 2003. |