Informação Alternativa

América Latina

Agosto 2002

 

Nos laboratórios da mentira na Venezuela

 

Maurice Lemoine

Le Monde Diplomatique

 

«Tivemos uma arma de importância capital: os media. E como se apresenta a ocasião, aproveito para felicitá­‑la por isso». Ainda não é meia-noite em Caracas neste 11 de Abril de 2002 que desembocará, algumas horas mais tarde, com a queda do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, quando o vice-almirante Victor Ramírez Pérez congratula, ao vivo, a jornalista Ibéyise Pacheco nos ecrãs do canal Venevisión. Vinte minutos antes, entrevistando o punhado de oficiais golpistas que estão à sua frente, ela não pôde esconder, com um ar de conspiradora satisfeita, que mantinha há muito ligações privilegiadas com eles. Mais ou menos à mesma hora, ao ser interrogada ao vivo, de Madrid, uma outra jornalista-vedeta, Patricia Poleo, estranhamente bem informada sobre o futuro desenrolar de “acontecimentos espontâneos”, anunciava no canal de televisão espanhola TVE: «Creio que o próximo presidente será Pedro Carmona». No mesmo instante, entrincheirado no palácio presidencial, o chefe de Estado em exercício, Hugo Chávez, ainda se recusava a renunciar.

 

Desde a sua chegada ao poder em 1998, os cinco principais canais de televisão privados – Venevisión, Radio Caracas Televisión (RCTV), Globovisión, Televen e CMT – e nove dos dez grandes jornais nacionais – El Universal, El Nacional, Tal Cual, El Impulso, El Nuevo País, El Mundo, etc. – substituíram­‑se aos partidos políticos tradicionais, reduzidos à insignificância pelas vitórias eleitorais do presidente. Com o monopólio absoluto da informação, apoiam todas as acções da oposição, divulgando apenas muito raramente as declarações governamentais, nunca falando da ampla maioria que, no entanto, fora confirmada nas urnas. Desde sempre, eles fazem dos bairros populares uma “zona vermelha” povoada de “classes perigosas”, de «ignorantes», de «delinquentes» e, achando-os sem dúvida pouco fotogénicos, ignoram com desdém os líderes populares e as organizações.

 

Sondagens, entrevistas, relatórios, comentários, vão todos no mesmo sentido e com um mesmo objectivo: deslegitimar o poder constituído e destruir o apoio popular do presidente. «Este governo revolucionário é esteticamente uma latrina», escreve com delicadeza (a 22 de Março de 2001), o diário Tal Cual, cujo director, Teodoro Petkoff (antigo guerrilheiro marxista que se tornou histericamente neoliberal e antigo ministro privatizador do presidente de direita Rafael Caldera), faz parte dos opositores furibundos. Não que o governo em questão esteja acima de qualquer crítica. Comete erros e demasiado numerosos casos de corrupção mancham funcionários, civis ou militares, que gravitam em torno dele. Mas, além de ter sido democraticamente eleito e de conservar o apoio de uma maioria da população, podemos creditar­‑lhe, tanto no plano nacional como internacional, um certo número de sucessos [1].

 

Nenhum meio é descartado para desacreditar o presidente. Prova disso foi o escândalo suscitado em Caracas, no início de Março, pela divulgação de uma falsa entrevista de Ignacio Ramonet. Numa declaração supostamente feita a um certo Emiliano Payares Guzmán, investigador mexicano na Universidade de Princeton (Estados Unidos), totalmente desconhecido, o director do Monde diplomatique criticava vivamente o chefe de Estado venezuelano: «Ao presidente Hugo Chávez falta uma assessoria intelectual respeitável, o que faz com que o seu navio ande permanentemente à deriva. Quando ganhou as eleições, pareceu-me que se delineava alguma coisa de realmente importante. Mas (...) o populismo venceu­‑o, como acontece tão frequentemente nestes casos. (...) Vi vídeos onde ele canta boleros santiagueros explicando o seu programa económico, se é que chega a ter algum. Creio que estes factos, verdadeiros e verificáveis, me pouparão de dar a minha opinião sobre tal personagem».

 

«O TERRORISMO ESTÁ ENTRE NÓS»

 

Divulgada na Internet por Venezuela Analítica [2], a “declaração” foi imediatamente retomada na primeira página, sem nenhuma verificação junto do suposto entrevistado, pelo diário El Nacional, radiante por dar crédito à ideia de um chefe de Estado cada vez mais isolado internacionalmente. Quando Ignacio Ramonet desmentiu ter pronunciado as palavras que lhe eram atribuídas, El Nacional criticou enfaticamente o mistificador mexicano [3] e, mais dissimuladamente, sem mesmo lhe pedir desculpas, o director do Monde diplomatique.

 

Num fluxo incessante, multiplicam-se “informações” beirando o absurdo ou o surrealismo. Assim: «Fontes dos serviços secretos revelaram acordos feitos com elementos ligados ao Hezbollah da [ilha venezuelana de] Margarita, que são controlados pela embaixada do Irão. Lembremos que, durante a campanha de Chávez, um tal de Moukhdad teria sido muito generoso com o actual presidente. Isso merece retribuição e agora o Irão quer fazer da Venezuela uma base de operação em troca do treinamento de venezuelanos em organizações iranianas de defesa da revolução islâmica. O terrorismo está entre nós» [4].

 

«Hugo Chávez admitiu ser o chefe de uma rede de delinquentes», é o título de El Nacional no dia 21 de Março. No dia seguinte, Tal Cual evoca «o vómito repugnante provocado pelas palavras coléricas com que ele pretende amedrontar o país». Insultado, comparado a Fujimori, Idi Amin Dada, Mussolini e Hitler, tratado como fascista, ditador e tirano, o presidente “bolivariano” sofre ataques que, em qualquer país, dariam lugar à apresentação de queixas legítimas. «Uma agressão permanente e desrespeitosa», indignava-se, em Março passado, a ministra do Comércio, Adina Bastidas. «A mim, acusam­‑me de financiar a colocação de bombas nas ruas. E não posso me defender. Se os atacamos, eles vão queixar­‑se aos Estados-Unidos!» Sem papas na língua, Chávez responde a este bombardeio mediático, às vezes com alguns desatinos verbais, em particular durante o seu programa semanal no canal de televisão controlado pelo Estado, “Alô Presidente!”. Mas as suas diatribes não são seguidas de acções visando controlar a informação. Desde a sua chegada ao poder, não houve um único jornalista preso, nenhum meio de comunicação foi fechado pelo governo. Este não é menos acusado de «achincalhar a liberdade de informação» e de «agredir os comunicadores sociais».

 

No dia 7 de Janeiro de 2002, uma centena de simpatizantes do presidente cercaram durante várias horas a sede do El Nacional, cantando palavras de ordem hostis, gritando: «Digam a verdade!», crivando a sua fachada de projécteis. «Observa-se efectivamente um aumento dos incidentes contra jornalistas», constata Carlos Correa, coordenador-geral da organização de defesa dos direitos humanos Provea [5], «e uma espécie de criminalização destes. Alguns foram atacados pessoalmente. Embora não tenha havido mortos, ainda assim é grave. Mas como os proprietários dos meios de comunicação tomaram posições políticas contra Chávez, o que acontece – e já não se sabe quem começou, o ovo ou a galinha – é um confronto no qual não é mais possível discutir racionalmente os problemas do país. Agora, dizer que não há liberdade de expressão na Venezuela é um absurdo».

 

«Você lê as notícias, vê os telejornais», lamenta-se o jesuíta Francisco José Virtuoso «e tem a impressão que o país está em pleno conflito. Evidentemente, isso aumenta o clima de tensão». Já que a guerra existe, e que ela foi a vítima escolhida, a maioria popular revolta-se. Não suporta mais certos jornalistas que se acreditam acima de Deus e do Diabo, nem este tratamento unilateral e antidemocrático da informação.

 

E os incidentes multiplicam-se. Tomam a feição de um confronto quando a agência de notícias oficial Venpres qualifica de «narco-jornalistas» três personalidades do mundo mediático. No dia 19 de Março, os jornalistas incriminados – Ibéyise Pacheco (directora de Así es la noticia, membro do grupo El Nacional), Patricia Poleo e o apresentador de televisão José Domingo Blanco (Globovisión) – decidem dramatizar ao máximo as acusações. Depois de denunciarem a «perseguição» de que se dizem vítimas, sob as câmaras e os flashes de todos os meios de comunicação convocados à embaixada dos Estados Unidos, partem para Washington, onde são recebidos como heróis! Assinado por um certo J. Valeverde [6], o artigo, explicitamente desautorizado pelo presidente Chávez, condenado pelo ministro da Defesa, José Vicente Rangel, acarretaria a punição e demissão do director da Venpres, Oscar Navas. O que não impedirá uma virulenta campanha, tanto na Venezuela como no estrangeiro [7], contra o governo, acusado de querer «amordaçar os media».

 

Seja contra os partidários do poder ou contra este, os media souberam utilizar muito bem a estratégia da profecia auto­‑realizada. Denunciando atentados à liberdade, quando esta em nada está ameaçada, praticando a mentira e a manipulação, provocaram uma reacção, impeliram por vezes as suas vítimas a cometer um erro, erro em seguida apresentado como a causa (e não a consequência) das suas relações difíceis com o poder e com uma larga parcela da população.

 

Como não condenar a agressão de equipas de televisão ou de jornalistas por partidários do presidente Chávez? Mas como, para estes, aceitarem serem tratados o ano inteiro, nas colunas dos jornais, como «talibans», «hordas», «celerados»? Como não se indignar que profissionais, ainda que fossem de uma agressividade sem igual e totalmente identificados com a oligarquia, sejam tratados como «narco-jornalistas»? Mas como nos surpreendermos com essa deriva se esses mesmos profissionais multiplicam as acusações falsas e gratuitas contra um presidente sistematicamente apresentado como cúmplice dos «narco­‑guerrilheiros» colombianos?

 

Tendo como chefe de fila um punhado de homens poderosos e de vedetas, os grandes medias revezam os outros actores da desestabilização: a organização patronal de Pedro Carmona (Fedecámaras), a Confederação dos Trabalhadores Venezuelanos (CTV) de Carlos Ortega, os militares dissidentes, os tecnocratas da companhia petrolífera nacional (PDVSA) e alguns discretos funcionários norte-americanos [8]. Reunidos no Bloco de Imprensa Venezuelano (BPV), os meios de comunicação tiraram definitivamente a máscara quando, passando do papel de observadores ao de actores, aderiram à primeira greve geral no dia 10 de Dezembro de 2001.

 

Às “opiniões livres” escritas – «Chegou a hora de mudar o governo. De derrubá-lo» [9] – juntaram­‑se manipulações suspeitas no pequeno ecrã e na rádio. No dia 5 de Abril, dois comparsas incitavam os automobilistas, na véspera da greve de postos de gasolina, a se precipitarem sobre os postos abertos, rapidamente lotados. Provocaram assim um caos artificial, enquanto a greve foi apenas muito parcialmente seguida.

 

Quando, no dia 7 de Abril, Ortega e Carmona anunciaram o lançamento da greve geral, Miguel Enrique Otero, director do El Nacional, presente ao seu lado, manifestou-se em nome dos media: «Estamos todos nesta luta, em defesa do direito de informar!» Dois dias mais tarde, o BPV, que acabara de acolher o novo embaixador dos Estados Unidos, Charles Shapiro, decidiu apoiar a greve. A partir de então, os canais de televisão transmitiram durante horas, e ao vivo, da sede de PDVSA-Chuao, da qual a oposição fez o local de agrupamento para as suas manifestações.

 

«Tomemos a rua», ordenava El Nacional a 10 de Abril (editorial não assinado). «Ni un paso atrás!» («Nem um passo atrás!»), replicam painéis fixos, divulgados na Globovisión. «Todos à marcha», apoia outro canal. «Venezuelanos, todos à rua, na quinta-feira, dia 11, às 10 horas da manhã. Traz a tua bandeira. Pela liberdade e pela democracia. A Venezuela não se rende. Ninguém nos vencerá». O apelo ao derrube do chefe de Estado torna­‑se tão evidente que, nos dias 9 e 10 de Abril, o governo aplica o artigo 192 da lei de telecomunicações: por mais de 30 vezes (para o conjunto das televisões e rádios), requisita a antena, com durações de 15 a 20 minutos, a fim de fazer ouvir a sua posição. As emissoras contornam a medida, dividem o ecrã em duas partes e continuam a apelar à insurreição.

 

No dia 11 de Abril, uma série vertiginosa de conferências de imprensa de militares e de civis exigindo a demissão do presidente pontua a batalha mediática. Na RCTV, Ortega conclama a oposição a marchar sobre Miraflores (o palácio presidencial). Por volta das 16 horas, quando a conspiração aparece em toda a sua extensão, o poder dá ordem de cortar o sinal hertziano dos canais privados. A Globovisión, a CMT e a Televen desaparecem por alguns minutos dos ecrãs antes de retomarem as suas emissões graças ao satélite ou ao cabo. Em todas os ecrãs uma cena truncada, difundida incessantemente, mostrando contra­‑manifestantes armados atirando sobre «a multidão de manifestantes pacíficos» (que não se encontrava naquele local!), vai permitir atribuir as vítimas desse dia trágico aos Círculos Bolivarianos, organização social dos partidários do presidente [10].

 

Durante esse tempo, os conspiradores, entre os quais Carmona, reuniam-se na sede da... Venevisión. Permaneceriam ali até às duas horas da manhã para preparar «a sequência dos acontecimentos», em companhia de Rafal Poleo (proprietário de El Nuevo País) e de Gustavo Cisneros, homem-chave do golpe de Estado. Multimilionário de origem cubana, dono da Venevisión, este último dirige um império mediático de dimensão mundial – Organización Diego Cisneros –, presente em 39 países através de 70 empresas [11]. Tem fortes vínculos de amizade com George Bush (pai). Se jogam golfe juntos e se, em Fevereiro de 2001, o ex­‑presidente dos Estados Unidos passou uma semana de férias na sua propriedade venezuelana, os dois homens desejam sobretudo de forma ardente (e entre outras) a privatização da PDVSA [12]. Otto Reich, secretário de Estado norte-americano para Assuntos Interamericanos, admitirá ter «falado duas ou três vezes» com Cisneros nessa noite [13].

 

Às quatro horas da manhã (de 12 de Abril), e para evitar um banho de sangue, o presidente Chávez deixa­‑SE prender antes de ser levado para a longínqua ilha de Orchila. Sem apresentar texto assinado ou gravado que permitisse confirmar a informação, os meios de comunicação anunciaram em coro a sua «renúncia». O patrão dos patrões, Carmona, autoproclamou­‑se presidente, dissolveu todos os poderes constituídos, legítimos e democráticos. Desde a véspera, às 22 horas, o primeiro meio de comunicação fechado depois da sua chegada ao poder, o único meio de comunicação de que dispunha o governo, o canal estatal Venezolana de Televisión (VTV) parou de transmitir, coagido e forçado [14].

 

Os meios de comunicação comemoraram o golpe de Estado (mas censurando todo o uso dessa expressão). Recebendo na Venevisión, desde as 6 horas e 45 minutos da manhã, o almirante Carlos Molina Tamayo e Victor Manuel García, director do instituto de sondagens Ceca, o apresentador Napoleón Bravo vangloria­‑se de ter emprestado a sua casa particular para gravar, alguns dias antes, um apelo à rebelião do general González González. Pelo seu lado, García evoca o seu papel no centro de operações dos militares rebeldes, em Fort Tiuna: «Num determinado momento, faltaram­‑nos as comunicações e devo agradecer aos medias pela sua solidariedade, por toda a cooperação que nos trouxeram para obter estas comunicações com o exterior e dar as ordens que o general González González me indicava».

 

«Um passo em frente», era a manchete triunfal de El Universal. O jornalista Rafael Poleo, que entregou o relatório da primeira reunião do Estado-Maior “golpista”, encarregou-se (com outros) de redigir o acto fundador do novo governo (à tarde, a sua filha, Patricia Poleo, ver­á ser­‑lhe oferecida a direcção da Agência Central de Informações pelo “presidente” Carmona,). Assinado pelo patronato, a Igreja e os representantes de uma pseudo “sociedade civil”, o decreto que ratifica o estabelecimento de uma ditadura também o é por Miguel Angel Martínez, em nome dos meios de comunicação. Foi lido por Daniel Romero, secretário particular do antigo presidente social­‑democrata Carlos Andrés Pérez e... empregado do grupo Cisneros.

 

Na embriaguez da revanche, a repressão abate-se. Entre as imagens sinistras da prisão do ministro do Interior, Ramón Rodríguez Chacín, ou do parlamentar Tarek William Saab, insultados e espancados por uma multidão em fúria proveniente dos bairros nobres, a RCTV lança “caças ao homem” publicando uma lista das personalidades mais procuradas e retransmitindo ao vivo, no ritmo ofegante dos programas à americana, as perseguições mais brutais. Em contrapartida, transmitida ao vivo para todos os canais, a conferência de imprensa do procurador-geral da República, Isaias Rodríguez, foi interrompida brutalmente ao fim de cinco minutos, quando ele mencionou os excessos do «governo provisório» e denunciou o «golpe de Estado».

 

No dia 13 de Abril, rebenta a onda avassaladora dos partidários de Chávez e oficiais leais retomam o controle da situação. No entanto, seria somente através da CNN em espanhol – recebida só pelos assinantes do cabo –, pelas páginas de Internet do diário madrileno El País e da BBC de Londres, que os venezuelanos receberiam informações. Por volta das 14 horas, anunciando a revolta da 42ª brigada de pára-quedistas de Maracay, a CNN surpreende­‑se: «Os media locais não dizem nada». De facto, à “liberdade de informação” tão intensamente reivindicada, sucedeu a lei do silêncio... Filmes de acção, receitas de culinária, telenovelas, desenhos animados e partidas de beisebol das grandes ligas norte-americanas ocupavam o pequeno ecrã (RCTV), somente entrecortados pela retransmissão da sequência em que o general Lucas Rincón anunciou a “renúncia” do presidente Chávez.

 

Além dos milhares de conexões pela Internet e dos apelos feitos de telemóveis, só a imprensa alternativa podia romper o bloqueio. Importante espaços de comunicação e informação cidadã, jornais, emissoras de televisão e rádios populares viram o dia nos barrios. Mas, experiências modestas, foram além disso os primeiros alvos da “transição democrática”. «Chávez nunca nos pediu que transmitíssemos os seus discursos ou que fizéssemos a sua propaganda», testemunharia Thierry Deronne, apresentador da Teletambores. «Em contrapartida, os golpistas não hesitaram um segundo em prender os nossos responsáveis e em confiscar o nosso material de transmissão, a fim de cortar toda a possibilidade da população se informar de maneira alternativa à dos media do golpe de Estado». Em Caracas, a Radio Perola, a TV Caricuao, a Radio Catia Libre e a Catia TV sofreram buscas, brutalidades e detenções arbitrárias. Que ninguém denunciou.

 

PREPARADOS PARA UM NOVO GOLPE

 

No final da tarde, multidões que se aglomeraram diante da RCTV (e depois, da Venevisión, da Globovisión, da Televen e da CTM, bem como diante das sedes dos diários El Universal e El Nacional) atiraram pedras e obrigaram os jornalistas a difundir uma mensagem exigindo o retorno do “seu” presidente. Intolerável ataque contra os media! O episódio daria lugar à cena lamentável de jornalistas amedrontados que, num pedido de socorro lançado no ar, esqueciam o seu comportamento golpista: «Nós também fazemos parte do povo, também somos venezuelanos e cumprimos o nosso dever. Não é possível que as pessoas que apoiam o tenente­‑coronel Hugo Chávez [esquecendo, de passagem, que ele é o chefe de Estado] nos considerem como seus inimigos».

 

Seria contudo preciso esperar 20 horas e a retomada das transmissões do canal estatal Venezolana de Televisión – recolocada em serviço por militantes dos media comunitários, auxiliados por militares da guarda presidencial – para que desabasse o muro de silêncio e que os venezuelanos soubessem: a situação estava a sofrer uma reviravolta.

 

Com a excepção de Ultimas Noticias, nenhum diário saiu no dia seguinte para anunciar o retorno do presidente legítimo. As emissoras de televisão privadas não emitiram nenhum boletim de informação – só a Globovisión retomou as informações divulgadas pelas agências de notícias internacionais [15].

 

Ainda que o restabelecimento da normalidade democrática não tenha dado lugar a qualquer medida de repressão contra eles, os grandes meios de comunicação continuam a apresentar-se como vítimas, dedicando um espaço hegemónico aos «heróis do golpe de Estado», falando de «vazio de poder», pedindo a renúncia do presidente Chávez, tratado como «assassino». “Medias do ódio”, à vista e ao ouvido de todos, reivindicam simplesmente o título de “medias do golpe”.

 

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[1] Maurice Lemoine, Progressos bolivarianos, Le Monde diplomatique, Maio de 2002.

[2] Artigo suprimido. A correspondência está todavia disponível na página de Venezuela Analítica.

[3] Este declarou ter­‑se dedicado a esta duvidosa manipulação justamente para demonstrar a ausência de seriedade na imprensa venezuelana...

[4] “Entrelíneas”, El Nacional, 15 de Março de 2002.

[5] Programa Venezolano de Educación-Acción en Derechos Humanos.

[6] Posteriormente, descobrir­‑se­‑á tratar-se do pseudónimo de um indivíduo suspeito, Rafael Kries.

[7] Maurice Lemoine, Coups d’Etat sans frontières [ed. brasileira: Golpes sem fronteiras?], Le Monde diplomatique, Agosto de 2002.

[8] Maurice Lemoine, Hugo Chávez salvo pelo povo, Le Monde diplomatique, Maio de 2002.

[9] “Derrubar o governo”, El Universal, 20 de Março de 2002.

[10] Ver Le Monde diplomatique, Maio de 2002, e a série de fotos difundidas na nossa página de Internet: Ver a página.

[11] Entre elas: Univisión (80% dos programas em espanhol nos Estados Unidos), Canal 13, Chilevisión, DirectTV Latin America, Galavisión, Playboy TV Latin America, Playboy TV International, Uniseries, Vale TV, Via Digital e AOL Latin America.

[12] O primeiro desejaria ver a empresa nas mãos de uma companhia norte-americana próxima aos seus interesses; o segundo traz debaixo de olho a Citgo, filial norte-americana da PDVSA.

[13] Newsweek, Paris, 22 de Abril de 2002.

[14] Assim como a Radio Nacional de Venezuela e a agência oficial Venpres.

[15] Enojados, certos jornalistas demitir‑se­‑ão, como Andrés Izarra, da RCTV, onde a direcção impôs: «Chavismo zero no ecrã».