Informação Alternativa

América Latina

Maio 2002

 

Hugo Chávez salvo pelo povo

 

Maurice Lemoine

Le Monde Diplomatique

 

Apontadas para o apresentador, as câmaras de televisão enquadram ao mesmo tempo a cidade de Caracas, estendendo-se no sopé da El Avila, montanha na vertente da qual foi instalado o estúdio improvisado. O apresentador do show acaba de arrancar uma gargalhada dos espectadores ao lembrar como conseguiu fazer cantar – «Não é verdade, ele canta bastante mal!» – Fidel Castro num dos seus programas precedentes. Poético, ele evoca a Guatemala, depois o Libertador, Simón Bolivar, Cantarola, faz perguntas aos seus convidados – entre os quais um ramalhete de ministros –, dialoga simultaneamente com uma telespectadora humilde de quem se despede com um «Hola, minha vida, mando­‑te um beijo»... A sua desenvoltura faria corar de inveja qualquer vedeta do pequeno ecrã. No entanto, não se trata de um profissional. Chama­‑se Hugo Chávez, presidente da República Bolivariana da Venezuela.

 

Nesse dia 17 de Março, por ocasião do seu 100º programa dominical “Alô, Presidente!”, ele superou­‑se: comunicações por satélite com os presidentes guatemalteco, dominicano e cubano – «Bem, Fidel, se a gente não se encontrar por estes dias, conversamos por telefone... Hasta la victoria, siempre!» –, distribuição de críticas aos jornalistas, antes de terminar por um ameaçador: «E dou um conselho aos que me querem desestabilizar: sei quantos são e quanto pesam depois do almoço!» Das fileiras de uma assistência totalmente conquistada eleva-se uma ovação: «Não voltarão! Viva o nosso comandante!”

 

O «comandante» não deixa por menos: 6 horas e 35 minutos no ar, sem parar. Mas avalia que essas grandes missas são necessárias para manter um contacto directo com os excluídos, os pobres e as forças de esquerda que constituem a sua maioria.

 

Nos bairros de La Castellana, Altamira, Palos Grandes e Las Mercedes – zona nobre de Caracas – os escuálidos [1] desesperam: «Esse tipo é um demagogo, um populista, um louco furioso!» Na melhor das hipóteses, concordam que, certamente, aqueles que o precederam não eram melhores. «Mas ele leva o país à ruína». Antes de o executarem sumariamente: «De qualquer maneira, o seu lugar não é na presidência. Um militar só sabe fazer duas coisas: obedecer e comandar!» No seio da casta constituída pela oligarquia, pelas finanças e pelas classes médias, odeia­‑se esse intruso. Com a sua pele escura e a sua insolência, ele parece um motorista de táxi, um porteiro de hotel, um deserdado dos ranchos, um buhonero [2]. Só que é justamente por se parecer com o povo profundo que ele ocupa Miraflores (o palácio presidencial).

 

Em Fevereiro de 1992, esse tenente-coronel dos pára-quedistas tentou, por meio de um golpe de Estado, pôr fim a trinta anos de hegemonia dos partidos Acção Democrática (AD, social-democrata) e Copei (democrata­‑cristão). Estes tinham então, neste país produtor de petróleo, arrastado 80% dos venezuelanos para um patamar abaixo do limiar da pobreza. Preso, e depois solto, o rebelde acedeu democraticamente ao poder em Dezembro de 1998. Aprovada por um referendo em Dezembro de 1999, uma profunda reforma da Constituição precedeu a sua reeleição, no dia 30 de Julho de 2000 [3]. Resumindo, Chávez venceu e a Venezuela, pacificamente, mudou de mãos.

 

A partir de então, o governo vem empreendendo uma revolução atípica: «Ela não é socialista, nem comunista, pois se dá no contexto capitalista, mas radical e indutora de mudanças profundas de estrutura económica», explica Rafael Vargas, o ministro da presidência. Numa iniciativa que provoca fortes surtos de febre em Washington, Caracas também pretende promover uma política petrolífera que permita manter o preço do petróleo bruto acima de 22 dólares/barril, por meio da revitalização da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). E multiplica declarações contra a globalização neoliberal e em favor de um mundo multipolar, em oposição à pretensão hegemónica dos Estados Unidos.

 

No entanto, uma coisa é anunciar o nascimento de um novo país, uma outra é proceder às mudanças. «Não há trabalho, não há progresso», lamenta-se, em Valencia, um desfavorecido, observando que o desemprego não diminuiu. Num bairro­ de­ lata baptizado Marizabel de Chávez (nome da mulher do presidente), um tipo corpulento desabafa: «A única coisa que eu sei fazer é roubar. Mas aqui, sinceramente, não vejo quem poderia depenar...»

 

No barrio Alicia Pietri de Caldera (do nome da mulher do presidente anterior!): os privilegiados ganham 84 mil bolívares por quinzena (84 euros) como seguranças privados, a única actividade económica em expansão. Como em tantos outros lugares, o salário mínimo ficou estagnado em 158 euros, quando são necessários 240 para alimentar uma família de cinco pessoas [4] . E mesmo as iniciativas mais generosas do governo parecem patinar. «A escola bolivariana funciona», testemunha uma mãe de família. «há até uma cantina gratuita, como previsto, para as três refeições das crianças. Mas acabam de fechá-la porque não têm mais dinheiro para pagar aos fornecedores.»

 

Muitas vezes, o rei Chávez fica nu. Forjado à pressa para ganhar as eleições, o seu Movimento pela Vª República (MVR) não dispõe de estruturas fortes. Com a perspectiva de vitória, vieram aglutinar-se “chavistas” convictos, revolucionários, mas também, na mira de sinecuras e benefícios, pessoas dos antigos partidos políticos, oportunistas de todo tipo. Idem para os partidos aliados – Movimento ao Socialismo (MAS), Causa R, Movimento 1º de Maio, os maoístas de Bandeira Vermelha ou o líder de Pátria Para Todos (PPT), Pablo Medina [5]. Mais dia, menos dia, como preço da sua colaboração, apresentam a factura ao presidente. Daí as inúmeras dissidências, rupturas, demissões, destituições de altos dirigentes seguidas de passagem ao inimigo, dando a impressão de um poder que funciona numa improvisação permanente.       

 

O mesmo tipo de obstáculos existe no aparelho do Estado e na administração, gangrenados por 40 anos de clientelismo. Os ministros, e os 14 governadores “chavistas”, só podem contar, no seio das suas instituições, para empreender as reformas, com uns poucos funcionários do alto escalão. «Não fizemos uma caça às bruxas, asseguramos  a transição com as pessoas do passado, na sua maioria militantes da AD ou do Copei». Esse exército de quadros intermediários e de funcionários trava os programas, sabota os projectos e paralisa a transferência de recursos para os municípios. «Modificar essas estrutura é lento, não podemos demitir todo o mundo», diz, com má cara, no calor tórrido de Puerto Ayacucho (Amazonas), Diogenes Palau, secretário-geral do governo local, que enfrenta o mesmo tipo de dificuldades. «Só é possível fazer isso passo a passo».

 

É, pois, sobre dois pilares que Chávez se deve apoiar para contornar as estruturas que lhe são hostis: o exército, de onde veio e que é a coluna vertebral do Estado, e a população não organizada que o levou ao poder. Em abril de 2001, quando apelou à formação de «um milhão de Círculos Bolivarianos» para o apoiar, dezenas de milhares de venezuelanos, cada um na sua rua, no seu bairro, na sua barriada [6], responderam com entusiasmo. Reunidos em grupos de sete a quinze pessoas, discutem a definição do futuro, da suas vida, das necessidades mais essenciais, imediatamente repercutidas junto das autoridades responsáveis. «É o único meio de conseguir que os recursos cheguem ao sector», explicam na coordenação dos Círculos Bolivarianos do município de Sucre, a leste de Caracas, «enquanto antes era uma minoria de políticos que dirigia, como bem entendia, o destino da comunidade».

 

Mediante a apresentação de projectos, e por meio dos organismos apropriados – Banco do Povo, Banco das Mulheres, Fundo de Desenvolvimento da Micro-empresa, Fundo Intergovernamental para a Descentralização (Fides) etc. –, o Estado começa a dotar essas estruturas de verbas significativas. A oposição irrita-se, acusando-os de serem uma “tropa de choque” ao serviço de um projecto totalitário, ninhos de “Taliban” que incessantes bolas (boatos) dizem estar armados até aos dentes pelo governo. Entre os interessados encolhe­‑se os ombros: «Olhe à sua volta, aqui só há pessoas pacíficas que trabalham pelo benefício da comunidade». Estando entendido que alguns militantes radicais se mostram menos acomodados: “Vamos ser claros. Os homens e as mulheres que participam deste processo estão dispostos a defendê­‑lo. Pacificamente. Mas também doutra forma, se for necessário».

 

Concentrados nas suas continhas, nos seus interesses mesquinhos, os escuálidos ficaram perplexos quando, em 13 de Novembro de 2001, radicalizando a revolução, Hugo Chávez assinou a Lei das Terras, a Lei da Pesca e a Lei sobre Hidrocarbonetos. No dia 10 de Dezembro, para protestar contra estes «atentados ao livre mercado», a organização patronal Fedecámaras, dirigida por Pedro Carmona, lançou uma greve geral apoiada pelos... meios de comunicação e pela Confederação dos Trabalhadores da Venezuela (CTV). Organização corrupta e correia de transmissão da Acção Democrática, a CTV negociou durante anos contratos colectivos com os patrões, vendendo a sua alma e os seus afiliados em troca de algumas significativas gratificações para os seus dirigentes. O governo nega qualquer representatividade ao seu secretário-geral, o social­‑democrata Carlos Ortega que, em 25 de Outubro de 2001, foi proclamado vencedor das eleições destinadas a renovar a direcção sindical, no termo de um escrutínio pela violência e por irregularidades.

 

No dia 5 de Março de 2002, esse “dirigente operário” apertaria a mão de Carmona e, com a Igreja Católica por testemunha, assinaria um Pacto Nacional de Governabilidade tendo por objectivo «a saída democrática e constitucional» do presidente.

 

Sem programa, sem projecto, auto-proclamando-se “a sociedade civil” e omitindo cinicamente a maioria que continuava a apoiar o chefe de Estado, os quatro protagonistas – a Fedecámaras, a CTV, a Igreja e as classes médias –, aos quais se juntariam os meios de comunicação, reconvertidos em partido político, tentaram criar artificialmente uma situação de ingovernabilidade. Esta intolerância totalitária fez explodir de raiva toda uma população reagrupada em torno da “sua” revolução: «Eles excluem­‑nos e fingem representar, sozinhos, a sociedade civil. Muito bem... Mas nós, nós somos o povo! E se, por um ou outro motivo, a legalidade constitucional for posta em causa pela campanha de desestabilização, nós a defenderemos com a nossa vida, com o nosso sangue!»

 

O gotejar das declarações incendiárias e das manifestações de protesto (seguidas por contramanifestações ainda mais massivas dos partidários do governo), o surgimento de quatro militares dissidentes que rejeitaram publicamente o chefe de Estado [7] não abalaram o poder. Mas quando jogaram a cartada da desestabilização económica, a tensão aumentou sensivelmente. O petróleo representa 70% das exportações e 50% da receita do Estado. Após a derrocada do seu preço devido aos atentados do 11 de Setembro de 2001, tanto as viagens de Chávez à Europa, à Argélia, à Líbia, à Arábia Saudita, ao Irão, à Rússia, e mesmo ao Iraque, como a actuação de Alí Rodríguez, secretário-geral venezuelano da OPEP, permitiram estabilizar as cotações através de uma baixa concertada da produção [8].

 

Sociedade anónima que tem o Estado como único accionista, a Petróleos de Venezuela (PDVSA) é controlada por um grupo de quarenta quadros superiores. Esses “generais do petróleo” fazem aí a sua lei, aplicam a “sua” política, privilegiam os interesses estrangeiros, violam as normas da OPEP aumentando a produção, vendendo com prejuízo, enfraquecendo a empresa e preparando activamente a sua privatização. Cioso de colocar a PDVSA ao serviço de um projecto colectivo, o executivo quer retomar o controle desse sector estratégico cuja contribuição fiscal evidencia os descaminhos: dos 75% do lucro total que eram repassados para o Estado há uma vintena de anos (25% permaneciam na empresa), passou­‑se a 70% para a empresa (e 30% para o fisco). O chefe de Estado nomeou um novo presidente para a empresa, Gastón Parra, e uma equipa de direcção. Em nome da promessa de carreira para os melhores, da eficiência na gestão, da produtividade e da rentabilidade, da independência face à “politização”, os tecnocratas argumentaram com uma “meritocracia” que acabavam de inventar para recusar as nomeações e convocar à rebelião.

 

Em qualquer país do mundo, o Estado accionista nomeia as directorias das empresas estatais e comunica­‑lhes as suas orientações – o que, aliás, todos os governos venezuelanos anteriores fizeram. Por outro lado, os contestatários, quadros superiores que ocupam cargos de confiança, não podem, pela natureza das suas funções, apelar à greve. A “sociedade civil” assume e defende a causa por eles. Estimulada pelos jornais, rádios e televisão, ela insta à paralisação do coração económico do país. O que acontece efectivamente, se bem que parcialmente (uma parte importante dos operários recusou-se a parar o trabalho).

 

Tudo isso enquanto aumentam os voos entre Caracas e Washington, cidade de onde o governo de George W. Bush multiplica as bandarilhas verbais contra o presidente “bolivariano”. O seu pouco empenho em abraçar a causa da “luta antiterrorista”, especialmente contra as guerrilhas colombianas, os seus acordos militares com a China e a Rússia, o seu discurso antiglobalização e a sua revolução fazem aumentar um pouco cada dia o ranger de dentes. Em 6 de Fevereiro de 2002, o secretário de Estado norte-americano, general Colin Powell, pôs em dúvida, perante o Senado, «que Chávez realmente acredite na democracia», e critica as suas visitas «a governantes hostis aos Estados Unidos e suspeitos de apoiar o terrorismo, como Saddam Hussein ou Muamar Kadhafi» [9].

 

Preocupados com os problemas que abalam seu terceiro maior fornecedor de petróleo, os Estados Unidos receavam no entanto uma suspensão das exportações se o país se tornasse ingovernável. Oficialmente, portanto, não se procurava lançar lenha na fogueira. Mas na calada da noite, no dia 25 de Março, Alfredo Peña, prefeito de Caracas e opositor ferrenho do governo, encontrou-se com autoridades norte-americanas e o muito contestado Otto Reich, subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos [10]. Alguns dias mais tarde, no gabinete deste último, poderiam ser encontrados Pedro Carmona, presidente da Fedecámaras, e Manuel Cova, secretário-geral adjunto da CTV, que também visitaria representantes do Instituto Republicano Internacional, todos eles interlocutores particularmente conhecidos pela sua defesa dos interesses dos trabalhadores!

 

O fantasma do Chile pairaria sobre a Venezuela se não fosse por uma diferença importante: o exército, que o presidente Chávez diz conhecer como a palma da sua mão e controlar por meio dos camaradas que se formaram com ele (1975). No entanto, correm boatos que por vezes põem isso em dúvida. O general que dirige o Comando Sul do exército dos Estados Unidos (o Southcom) disse, recentemente: «A Venezuela é o país que tem mais oficiais a estudar nas nossas academias do norte e, por essa razão, temos confiança neste país». Quando evocámos os quatro oficiais que, dias antes, se tinham levantado contra o presidente, Francisco Ameliach, presidente da Comissão de Defesa do Parlamento, respondeu ainda, no dia 14 de Março: «Quando um oficial se pronuncia publicamente, isso significa que ele não tem o apoio do exército. Nós, conspirámos [Ameliach participou no golpe de 1992 do tenente-coronel Chávez), e sabemos que um coronel envolvido numa operação dessas não vai anunciá­‑lo na praça pública».

 

Para “defender” a PDVSA – cuja directoria, que teve sete quadros demitidos e doze outros aposentados compulsoriamente –, a greve nacional dos dias 9 e 10 de Abril, convocada pela CTV e pela Fedecámaras, teve um sucesso relativo à escala nacional. Lançada numa louca fuga para a frente (ou como parte de um plano premeditado que não é questão de parar) a oposição dobra a parada e, sob o pretexto de que o governo poderia decretar o Estado de excepção (do que jamais tivera intenção), convocou uma greve geral ilimitada a partir do dia 11 de Abril. Sinal preocupante, os militares dissidentes reapareceram através do general Nestor González (destituído em Dezembro de 2001), o qual, na televisão, acusa o presidente Chávez de traição e pede a intervenção do alto comando militar.

 

O dia 11 de Abril nasceu com mais de 300.000 opositores marchando, tranquilamente, em direcção à sede da PDVSA em Chuao, na zona Leste da capital. Foi ali que se urdiu o crime, no cerne de uma crescente efervescência que facilitava o plano. Para dar credibilidade à ideia de uma “sociedade civil” enfrentando uma ditadura, são necessários “mártires”... Às 13 horas, na zona Oeste da cidade, no palácio presidencial, Rafael Vargas, ministro da presidência, lívido, irrompe no gabinete dos seus colaboradores: «O resto do país está tranquilo, mas Carlos Ortega acaba de convocar, pela televisão, uma marcha sobre o palácio de Miraflores. É uma conspiração». Às 13h40, funcionários de segundo escalão antecipam, sem saber ainda, o desenrolar dos acontecimentos: «Eles vêm pela rodovia... É preciso deixá­‑los manifestarem­‑se, mas para‑los antes de chegarem aqui. Senão, os Círculos Bolivarianos vão­‑se mobilizar e isto vai terminar numa tragédia».

 

O pessoal fardado sabe ser maquiavélico. O alto comando da Guarda Nacional não tomou qualquer providência séria para evitar o inevitável. A oposição chegou a menos de 100 metros do palácio de Miraflores e dezenas de milhares de “chavistas”, alguns armados de paus e pedras, tinham descido rapidamente dos morros para proteger o presidente com seus corpos. Quinze guardas nacionais, nem um mais, interpõem­‑se para evitar o choque. Numa cena surrealista, o mais graduado dentre eles voltou-se para os fotógrafos e perguntou, angustiado: «Alguém me pode emprestar um telemóvel para eu pedir reforços?» Usando gás lacrimogéneo, os seus homens conseguiram estabilizar a situação.

 

Os 15 mortos e 350 feridos (157 dos quais, por armas de fogo) dessa jornada trágica serão atribuídos aos Círculos Bolivarianos, cujos militantes teriam atirado friamente sobre uma manifestação pacífica. É falso. Misteriosos franco­‑atiradores postados nos tectos de prédios de dez andares fizeram as quatro primeiras vítimas entre as suas fileiras. Em seguida, tendo feito a temperatura subir, encarniçaram­‑se sobre a oposição, com uma precisão letal. A confusão generalizou-se numa baderna total. Perto da estação de metro El Silencio, uma brigada da Guarda Nacional respondeu à chuva de pedras da “sociedade civil” com enxames de granadas lacrimogéneas, mas também com rajadas de balas. Pequenos grupos da polícia metropolitana do prefeito da oposição Alfredo Peña atiraram em tudo o que se mexia, sem discernimento (mas outros dos seus colegas comportaram­‑se decentemente).

 

A Guarda de Honra do presidente «teria prendido três franco-atiradores, sendo dois deles agentes da polícia de Chacao [bairro da zona Leste da capital] e um da polícia metropolitana» [11]. No calor dos enfrentamentos, um jovem, perplexo, testemunha: «Vimos dois deles. Estavam fardados». No dia seguinte, no ecrã da Venevisión, o vice-almirante golpista Vicente Ramírez Pérez confia: «Tínhamos o controle de todas as chamadas telefónicas do presidente aos comandantes das unidades. Reunimos às 10 horas da manhã para planear a operação». Que operação? Oficialmente, a essa hora, o fluxo da manifestação da oposição ainda não fora desviado para o palácio de Miraflores.

 

O fim procurado tinha sido atingido. Às 18 horas, «abalado pelo número de vítimas», o general Efraín Vásquez Velasco anunciou que o exército não iria obedecer ao presidente Chávez. Algumas horas antes, a quase totalidade do comando da Guarda Nacional tinha feito outro tanto. Às 3h15 da madrugada, o general Lucas Rincón leu um último comunicado: «Diante de tais acontecimentos, foi solicitada a renúncia do presidente da República. Ele aceitou». Esta mensagem seria transmitida a cada vinte minutos, pela televisão, durante as 36 horas seguintes.

 

Nomeado para a presidência no dia 12 de Abril, Pedro Carmona, o patrão dos patrões, dissolveu a Assembleia Nacional, todas as instâncias constituídas e destituiu os governadores e prefeitos saídos das urnas. Dotado de todos os poderes, depois de ouvir o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleisher, felicitar o exército e a polícia venezuelana «por se terem recusado a atirar sobre manifestantes pacíficos», Carmona concluiu, sem outra forma de processo: «Simpatizantes de Chávez atiraram contra essas pessoas e isso conduziu a uma situação que o levou a renunciar». No momento em que a Organização dos Estados Americanos se preparava para condenar o golpe de Estado, os embaixadores dos Estados Unidos e da Espanha foram cumprimentar o presidente de facto.

 

Nesse meio tempo, num país em que, nos últimos três anos, não se registraram assassinatos, desaparecimentos ou detenções por motivos políticos, a repressão baixou sobre ministros, deputados e militantes; dezenas de locais e residências foram revistados, 120 “chavistas” conheceram os tormentos da prisão. No ecrã da Venevisión, onde era entrevistado pela jornalista Ibeyssa Pacheco, o coronel Julio Rodríguez Salas, escancarando um sorriso, termina a sua intervenção: «Tivemos uma grande arma... os media! E, já que a ocasião se apresenta, gostaria de a felicitar». Em nome da democracia, a “sociedade civil” acabara de instalar uma ditadura. Caberia ao povo restaurar a democracia.

 

O que se seguiu é conhecido. Entregando-se sem resistência para evitar um banho de sangue, Hugo Chávez não tinha renunciado. No dia 13 de Abril, centenas de milhares dos seus partidários ocuparam as ruas e as praças do país inteiro. À tarde, a sua Guarda de Honra retomou Miraflores e ajudou alguns ministros a reocuparem o gabinete presidencial. Seguindo o exemplo do general Raúl Baduel, comandante da 42ª Brigada de Pára-quedistas de Maracay, comandantes fiéis à Constituição retomaram o controle de todas as guarnições. Dividido, sem uma perspectiva clara e temendo uma reacção incontrolável por parte da população e confrontos entre militares, o alto comando perde sustentação. À noite, o legítimo presidente da República Bolivariana da Venezuela seria devolvido ao seu povo. Parecendo não ter sabido tirar qualquer lição desses acontecimentos trágicos, alguns dias mais tarde a oposição já recomeçava a pressão. No entanto, evocando a vaga de fundo abala o país há três anos, uma militante previne: «Que não tenham nenhumas ilusões. Com ou sem Chávez, a Venezuela nunca mais será como antes».

        

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[1] Nome pejorativo dado pelo presidente aos seus adversários (e do qual eles se apropriaram, considerando­‑o um título de glória).

[2] Vendedor do mercado informal.

[3] Ignacio Ramonet, Chávez, e Pablo Aiquel, Un président “bolivarien” pour le Venezuela, Le Monde diplomatique, respectivamente de Outubro de 1999 e de Novembro de 2000.

[4] Datanálisis, in El Universal, Caracas, 14 de Março de 2002.

[5] Após romper os laços, mas sem nunca se ter aliado à oposição, o PPT voltou a apoiar Chávez. Uma parte do MAS também se manteve fiel a ele.

[6] Favela.

[7] O coronel Pedro Soto, o contra-almirante Carlos Molina, o capitão Pedro Flores e o comandante Hugo Sánchez.

[8] A crise do Médio Oriente também desempenhou um papel na subida do preço do petróleo.

[9] Miami Herald, 7 de Fevereiro de 2002.

[10] Implicado no escândalo do Irão­‑Contragate, nos anos 1980, e intimamente ligado ao lobby cubano­‑americano, Reich teve a sua nomeação recusada pelo Congresso durante muito tempo.

[11] El Nacional, Caracas, 13 de Abril de 2002.