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Junho 2005 Anne Vigna A aliança firmada entre o Partido de Acção Nacional (PAN) e o Partido
Revolucionário Institucional (PRI) para destituir do seu cargo o autarca da
Cidade do México, Andrés Manuel López Obrador, dirigente do Partido da
Revolução Democrática (PRD), significou para muitos mexicanos o regresso à
utilização partidária das leis numa batalha eleitoral. E não o aceitaram. O
homem ameaçado de prisão e, por esse motivo, afastado da próxima eleição
presidencial de 2006 quando as sondagens o dão como favorito – foi recolocado
em cena pela população quando, a 24 de Abril, um milhão de mexicanos saiu à
rua. Perante a amplitude da reacção, o poder foi obrigado a recuar: o
procurador-geral da República, Rafael Macedo de la Concha – que acusava López
Obrador de não ter aplicado uma decisão judicial que ordenava a suspensão das
obras num terreno expropriado para construir uma estrada de acesso a um
hospital –, foi destituído a 27 de Abril pelo presidente Vicente Fox. Este
último, que inicialmente, aquando da destituição do autarca por votação no Congresso,
se congratulara com «o funcionamento exemplar da justiça», foi obrigado a
anunciar a revisão judiciária do caso e a tranquilizar a população quanto à «realização
de eleições presidenciais livres e democráticas em 2006». Três dias antes do volte-face do presidente, um juiz havia recusado
emitir uma ordem de prisão contra López Obrador, pois não era possível provar
a responsabilidade do autarca. A inconsistência do processo judicial era
notória e vários juristas tinham alertado contra a “acrobacia” legal que
procurava eliminá-lo, tanto mais que 80 por cento dos mexicanos a desaprovam.
A balança da justiça pendeu definitivamente com a sublevação da sociedade. Os promotores do afastamento do autarca haviam contado com um “fogo
de palha” na Cidade do México, mas com uma fraca reacção nacional e, por
maioria de razão, internacional. Fosse como fosse, não imaginavam que pudesse
ter lugar no Parlamento Europeu uma sessão sobre esta situação, nem protestos
nas capitais estrangeiras ou uma denúncia da manobra na comunicação social
internacional [1]. Aparentemente, Fox também não previra que ele próprio,
presidente do “governo de mudança”, deixaria de poder deslocar‑se,
mesmo no fim-de-semana, ao seu rancho de Guanajuato sem esbarrar com anónimos
ostentando cartazes («Fox, traidor à democracia»). «Este episódio político-judiciário revelou que o PAN é mais dotado de
uma ética de direita do que de valores democráticos», analisa Lorenzo Meyer,
professor de história política no Colégio do México. «Ele acaba de perder
todo o crédito que adquirira em 2000. Quanto ao PRI, não há nada de novo: o
partido nunca foi democrático e está um pouco mais desacreditado por não ter
mudado». A “farsa”, como a designam os mexicanos, acabou por se virar contra
os seus autores. Para os dois grandes partidos, era necessário evitar que os
seus muito prováveis candidatos à eleição presidencial, o actual ministro do
Interior Santiago Creel pelo PAN e Roberto Madrazo, presidente do PRI, ambos
fortemente implicados na tentativa de afastamento do autarca, não se
tornassem vítimas da manobra. Em vão. No PRI, os opositores a Roberto Madrazo
atacaram-no violentamente: «Querer eliminar um candidato incómodo revela
falta de coragem política», comentou a senadora Maria Dulce, antiga
presidente do partido. Do lado do PAN, ainda que se cerrem fileiras em torno
do presidente, intensificaram-se também as críticas. Em contrapartida, o político hábil que é López Obrador revelou todo o
seu talento e conseguiu que esta manobra acabasse por beneficiar a sua imagem
e a sua divisa: «Para bem de todos, em primeiro lugar os pobres». Obrador
sempre repetiu que não se oporia a ser preso, recusando pagar qualquer caução
[2]. «Deu a imagem de um homem que enfrenta os “poderosos”», considera o
jornalista Homero Campa. «Com tudo isto adquiriu um prestígio considerável junto
da população desfavorecida, naturalmente, mas também junto da classe média». Obrador, que em 2006 não terá ao seu dispor os recursos do PRI ou do
PAN, “financia” já a campanha com o prestígio retirado dos seus “infortúnios”.
O seu outro ponto fraco – o desconhecimento das questões diplomáticas e do
mundo – acaba de ser compensado por uma entrada assinalável nas páginas
internacionais dos jornais. Em suma, reforçou a popularidade face a
adversários que acreditaram ver numa irrisória “estrada do hospital” a sua
salvação. ______ * Jornalista, México. [1] Entre os quais um editorial mordaz do New York Times,
intitulado “Deixem os mexicanos votar”, de 7 de Abril de 2005. [2] Apesar de López Obrador sempre se ter oposto ao pagamento de uma caução fosse por quem fosse, dois deputados do PAN, Gabriela Cuevas e Jorge Lara, pagaram-na para «evitar que ele fosse para a prisão e se tornasse um mártir». Recusando o compromisso, López Obrador revelou o montante do caso que envenena o México: «Sabem, o delito que eu não cometi, a estrada do hospital, mal vale 2000 pesos» [150 euros]. |