|
Informação Alternativa |
|
América
Latina |
|
Abril 2006 Maurice Lemoine Secretamente apoiados
pelos paramilitares de extrema-direita, os partidos políticos que sustentam o
presidente colombiano Álvaro Uribe obtiveram a maioria nas eleições legislativas
de 12 de Março. Apesar de uma taxa de abstenção próxima dos 60 por cento, esta
vitória dá mais força às hipóteses de reeleição de Uribe no escrutínio
presidencial de 28 de Maio. O prosseguimento da “guerra total” contra as
guerrilhas tornará mais difícil a “troca humanitária” reclamada pelas Forças
Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) para libertarem os “prisioneiros
políticos” em seu poder, entre os quais a franco‑colombiana Ingrid
Betancourt, sequestrada há mais de quatro anos. Nesta selva densa, “algures
na Colômbia”, a chuva cai, volta a cair, desabando depois num dilúvio. Quando
a catarata se acalma, é para dar lugar a uma incomodativa chuva miudinha. As
folhas gotejam, a vegetação escorre, a lama volta a cobrir a lama. Pequenos
grupos de guerrilheiros, protegidos pelos compridos impermeáveis que a arma
sempre levada a tiracolo deforma, ocupam-se nos seus afazeres. O comandante Raúl Reyes,
porta-voz das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), responde sem
a mais leve hesitação à nossa pergunta: «Posso afirmar-lhe que Ingrid
Betancourt está viva e de boa saúde. É uma mulher muito inteligente e de
grandes capacidades, e, como todos os prisioneiros, deseja que seja assinado
um acordo humanitário». Acrescentando, com um sorriso desprovido de cinismo:
«É perfeitamente natural que ela deseje ser libertada». A franco‑colombiana
Ingrid Betancourt tornou-se o símbolo dos reféns na guerra que dilacera este
país. Eleita deputada e depois senadora, depressa viu afastar-se de si uma
grande parte da classe política, por denunciar, corajosamente, as suas
traficâncias e corrupção. Muito crítica para com os movimentos de oposição
armada, defende, apesar disso, uma solução negociada do conflito. Foi com as
cores do seu pequeno partido, Oxigénio Verde, que se lançou na campanha para
a eleição presidencial de 26 de Maio de 2002. A 20 de Fevereiro, a poucos
meses dessa data, o governo rompeu as conversações de paz encetadas com as
FARC nas imediações de San Vicente del Caguán, numa vasta zona
desmilitarizada. Levando a cabo uma violenta ofensiva, as forças
governamentais reocuparam a vila e os seus arrabaldes. Ingrid Betancourt, na
sua qualidade de candidato à presidência, solicitou então deslocar-se àquela
região, por via aérea, juntamente com os jornalistas que acompanhavam o chefe
de Estado, Andrés Pastrana; as autoridades, porém, responderam pela negativa.
Mas apesar dos insistentes conselhos que tentaram dissuadi-la, a candidata
presidencial decidiu viajar de carro até àquela zona. A 23 de Fevereiro, em
companhia da sua assessora de imprensa, Clara Rojas, e de dois jornalistas,
Ingrid Betancourt penetrou na zona onde os combates entre o exército e a
guerrilha tinham atingido o ponto de maior violência, recusando fazer marcha‑atrás
quando o motorista, de longe, se apercebeu da barragem estabelecida pelos
insurrectos. Em 28 de Junho de 2001, as
FARC tinham libertado unilateralmente, em La Macarena (província de Meta),
242 soldados e polícias, ficando apenas em seu poder com os oficiais. Mas a
oligarquia não libertou em troca nenhum guerrilheiro. «Durante uma conversa»,
conta o comandante Raúl Reyes, «o Alto Comissário para a Paz dessa altura,
Camilo Gómez, disse na minha presença a Marulanda [chefe histórico da
guerrilha] que nem o governo de Pastrana nem o que se lhe seguisse aceitariam
um acordo de troca humanitária de prisioneiros. Que no caso de as FARC não se
submeterem às condições de Pastrana, isso era para esquecer. Acolhemos essas
declarações como uma chantagem e dissemos: “Se não as aceitarem, a
responsabilidade será vossa”». Ressentidos, os guerrilheiros
advertiram que sequestrariam membros da classe política, considerados «tão
escandalosamente indiferentes ao drama da guerra vivida pelo povo como à
situação dos soldados que combatem nas fileiras do exército». E desde então,
para pressionarem o governo, procuraram sequestrar o maior número possível de
personalidades, com vista a obterem em troca a libertação de quinhentos dos
seus combatentes encarcerados. Com a chegada ao poder de Álvaro
Uribe, em 7 de Agosto de 2002, deu-se uma escalada na confrontação militar. Curiosamente,
o poder tentou por todos os meios convencer a “comunidade internacional” de
que não havia nenhum conflito armado na Colômbia; de que aquilo não passava
duma «ameaça terrorista». Mas ao longo dos últimos vinte anos, este “conflito
inexistente” já custou a vida a mais de 70.000 pessoas, tendo provocado a
deslocação interna de 3 milhões de pessoas... Na Colômbia há de facto uma
conflagração de carácter social, económico e político no contexto duma guerra
civil que dura há décadas. As FARC, bem como o ELN
(Exército de Libertação Nacional), colocados em Setembro de 2001 na lista
norte‑americana das organizações terroristas e, posteriormente, na da
União Europeia, ficaram assim, na prática, sem estatuto de beligerantes. No
entanto, segundo reza a definição do Protocolo II adicional às quatro
Convenções de Genebra, ratificado por Bogotá em 18 de Maio de 1995, há na
Colômbia um «conflito armado interno sem carácter internacional: um conflito
em que se confrontam as forças armadas do Estado com outras forças, também
armadas e identificáveis, que se opõem ao Estado, envergam uniformes reconhecidos,
usam abertamente as armas, dependem de um comando e são, ou foram em dado
momento, reconhecidas como tais pelo Estado». Testemunham-no as conversações
de paz levadas a cabo em 1984 pelo governo de Belisario Betancur e, mais tarde,
as ocorridas de 7 de Novembro de 1998 a 20 de Fevereiro de 2002 sob a égide
de Andrés Pastrana. RAPTOS E DESAPARECIMENTOS De uma forma ou outra, este
afrontamento complexo implica toda a população. Enquanto os paramilitares das
AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia) e seus cúmplices das forças de segurança
são responsáveis pela imensa maioria dos homicídios, “desaparecimentos” e
actos de tortura, às guerrilhas é atribuída a maior parte dos sequestros. Estima‑se
em cerca de 3000 por ano (número actualmente em diminuição) o número de
pessoas vítimas deste flagelo. Em 2003, as FARC foram
responsáveis por 30,55 por cento dos sequestros, o ELN por 15,5 por cento, os
paramilitares por 7,86 por cento, sendo a parte restante obra da delinquência
comum [1]. É um número muito diferente daquele que os media amiúde repetem,
tipificado na página publicitária dum cantor de variedades, com o título «Renaud
na selva», que anunciava, em 23 de Fevereiro de 2006, uma canção e um
concerto de apoio à libertação de Ingrid Betancourt «e dos 3000 reféns colombianos
detidos pelas FARC» [2]. É descabido lançarmo-nos numa
indecente luta de números podendo subentender que a retenção de 800 ou 900
pessoas seria menos condenável do que a de 3000, mas a verdade é que o efeito
daquele anúncio nada tem de inocente, de tal modo os sentimentos generosos
mobilizados a favor de Ingrid Betancourt são muitas vezes aproveitados, por
estupidez, ignorância ou cumplicidade, em grande benefício do governo
colombiano. Na realidade, embora o cativeiro
da senadora comova as pessoas, o barulho que se faz à volta da sua detenção
também irrita muita gente – sobretudo na Colômbia. Não porque a família, as
pessoas próximas, os amigos altamente colocados – entre os quais o primeiro‑ministro
francês, Dominique de Villepin – ou as boas vontades se mobilizem a seu
favor. «Procurámos por toda a parte», diz-nos em Bogotá, muito humana e
digna, a sua mãe, Yolanda Pulecio. «Pressionámos o presidente, tentámos que a
guerrilha nos ouvisse, procurámos apoios nos Estados Unidos, no México, na
Venezuela e, bem entendido, sobretudo em França...» Quem não faria a mesma
coisa? Mas no respeitante a outros
defensores desta refém, que passam dos concertos de apoio às câmaras da
televisão, levanta-se uma questão: acaso manifestam a mesma energia em prol
das vítimas desta tragédia que não são “franco‑colombianas”? Os 61
outros “prisioneiros políticos” que estão nas mãos das FARC interessam muito
menos – quer sejam um ex-governador da província de Meta (Alan Jara), um
antigo ministro (Fernando Araújo), um senador (Luis Eladio Pérez), deputados
(Consuelo González, Orlando Beltrán e Oscar Liscano), quer sejam militares ou
polícias... «Que diferença haverá entre a dor da mãe dum soldado e a da mãe
dum político ou política?», pergunta Marleny Orjuela, presidente da Asfamipaz
(Associação das Famílias de Membros da Força Pública detidos e libertados
pelos grupos guerrilheiros)? «Ingrid beneficia de tratamento favorável por
ter cidadania francesa e pertencer a um meio social privilegiado», insiste
Edna Margarita Salchali, irmã do alferes Elkín Hernández, aprisionado em
combate a 14 de Outubro de 1998. «Diz-se que há reféns de primeira e de
segunda. A nós esquecem-nos.» Mas, acima de tudo, porquê
este silêncio perante as violências dos paramilitares e do exército? A
Asfaddes (Associação das Famílias de Detidos Desaparecidos) recenseia quase
7000 casos documentados de pessoas sequestradas desde 1997 pelos esquadrões
da morte, cujos corpos nunca foram encontrados. Quem é que afixa os seus
retratos nas paredes exteriores das câmaras municipais? Por que motivo não
levar a cabo uma campanha, também e ao mesmo tempo, para denunciar a
política de criminalização da contestação social que atira com centenas de
colombianos, dirigentes ou militantes sindicais e associativos, para as
masmorras do Estado? Quer seja pela “retenção” de
pessoas cujos familiares e amigos se vêem obrigados a pagar um resgate (o “imposto
revolucionário”, segundo os insurrectos), ou pelos sequestros políticos, as
FARC violam o jus in bello – o conjunto de regras relativas a uma
guerra moralmente aceitável. Segundo esta doutrina, as populações civis nunca
devem ser consideradas alvos. Em conformidade com a alínea 1 (b) do artigo 3
comum às quatro Convenções de Genebra de 12 de Agosto de 1948, e com o artigo
4-2 do Protocolo II adicional, de Junho de 1977, as FARC deveriam libertar
todos os sequestrados e reféns «imediatamente, sem condições e de forma
unilateral». Mas sendo isso claramente
afirmado, dever-se-á considerar refém, com todo o rigor, qualquer pessoa que
lhes caia nas mãos? Não se deveria antes, ao evocar a situação dos 36
oficiais, alferes e polícias capturados em combate, falar de combatentes
prisioneiros [3]? Serão reféns Thomas Howes, Keith Stansell e Marc Gonçalvez?
Estes três empregados da empresa californiana Microwave Systems,
subcontratada pelo Pentágono, caíram nas mãos dos rebeldes quando o seu avião
de espionagem Cessna 208 Caravan, pertencente ao governo dos Estados Unidos,
se despenhou, a 12 de Fevereiro de 2003, numa zona de guerra, em Santana de las
Hermosas (província de Caquetá). Chamar-lhes “mercenários” seria mais exacto;
o deslize semântico nada tem de banal. Os “sentimentos de injustiça”
tiveram um certo papel na adopção da via armada pelos insurrectos. E têm
também algum na sua brutalidade. Em Agosto de 2001, encontrámos, no Sul
Bolívar, próximo do rio Madalena – vermelho do sangue espalhado pelos
paramilitares –, o comandante de um grupo do ELN. Durante duas horas, na
fresquidão duma noite desolada, desfiou o rosário desta guerra desumana. Numa
voz cava, com as palavras a saírem‑lhe aos borbotões, este homem teve
necessidade de falar. Após um longo silêncio, aludiu a certa altura a um
senador, sequestrado pela sua organização, de cuja guarda se ocupou enquanto
esperavam pelo resgate pedido [4]. «Ele gritava, chorava: “Porquê fazerem‑me
isto a mim, que vai ser da minha família, o que é que eu vos fiz?” E eu respondi-lhe:
“Você faz parte da classe política. Por sua causa, passei uma infância sem
escola, sem médico, na mais completa pobreza. Por sua causa, a minha família
só conheceu a miséria. Por sua causa, a minha única opção foi pegar em armas.
Por sua causa, hei‑de morrer aqui nestas montanhas. Não se lamente,
vai apenas passar uns meses desconfortáveis, não paga caro pelo que fez.”» No fim de contas, um antigo
presidente da República, Alfonso López Michelsen, disse a mesma coisa quando
interpelou a sociedade colombiana sobre o tema “dos bons e dos maus”: «Tal
como é abominável aos olhos do establishment aquele que pegou em armas
e pratica a extorsão, também é abominável, aos olhos dos que combatem no
campo adverso, aquele que luta por manter o statu quo apoiando‑se
nas armas oficiais, graças às vantagens da sua posição social, económica e
política.» [5] A 28 de Março de 1984, ao
assinarem os Acordos de La Uribe, as FARC condenaram a prática dos sequestros
e comprometeram‑se a pôr‑lhe fim. As negociações com o
presidente Belisario Betancur tinham então em vista a primeira inserção
política das FARC, através da criação de um partido, a União Patriótica (UP),
e de um cessar‑fogo. Mas os militares e os paramilitares decidiram
outra coisa. A experiência da UP – 3000 mortos – acabou num banho de sangue [6].
À semelhança da sua organização, Iván Rios, comandante das FARC, tirou as
suas próprias conclusões: «Temos as nossas normas, que às vezes coincidem com
as do Direito Internacional Humanitário (DIH). Mas a realidade da
confrontação na Colômbia não é inteiramente levada em conta por este último. O
DIH não se adapta à nossa realidade.» [7] Esta guerra, como qualquer
outra guerra, pouco tem a ver com a moral. Embora se possa tentar atenuar os
seus mais dolorosos efeitos. «As FARC têm, têm tido e continuarão a ter como
objectivo político a troca de prisioneiros», reafirma‑nos o comandante
Reyes. Uma “troca humanitária” que o poder rejeita obstinadamente. Do ponto
de vista da guerrilha – e para além da libertação dos seus combatentes –, discutir
em pé de igualdade com o governo atribuir‑lhe-ia um estatuto político
que acabaria com a actual qualificação de organização terrorista, que
lhe foi conferido e que ela contesta com virulência. É isso, por definição, o que
pretende evitar Álvaro Uribe, obcecado com uma vitória militar sobre o seu “eixo
do mal” e obstinado na sua pretensão de libertar os cativos através de
operações militares. Com as desastrosas consequências que isso pode implicar.
Porque, nesse caso, levando por vezes a sua lógica até ao insuportável,
certas frentes das FARC aplicam o que sempre anunciaram: não autorizar a
libertação de qualquer sequestrado. Mostra‑o a situação do governador
da província de Antioquia, Guillermo Gaviria, a do ex‑ministro da
Defesa, Gilberto Echeverri, e de oito militares, quando a 5 de Maio de 2003
um comando helitransportado se aproximou do local onde estavam detidos, nas
imediações de Frontino (Antioquia), tendo esses reféns pago com a vida a
tentativa governamental, executados por guerrilheiros, segundo o depoimento
de um sobrevivente. Caso, nas mesmas circunstâncias, da ex-ministra da
Cultura Consuelo Araújo Noguera. A este respeito, a
transmissão do segundo vídeo gravado no cativeiro por Ingrid Betancourt deu
azo a um ambíguo tratamento mediático [8]. Os excertos transmitidos ou
publicados apresentaram em geral a ex‑senadora pedindo ao governo que
negociasse a libertação dos soldados, precisando ao mesmo tempo que a
liberdade dos reféns civis não era, quanto a ela, «negociável». E acima de
tudo que ela dava, no que lhe dizia respeito, luz verde a uma operação de
resgate pelos militares. Na realidade, porém, a sua declaração integral diz o
seguinte: «Salvamento, sim, com certeza que sim, por princípio. Mas não um
salvamento qualquer. Os salvamentos, ou terminam com êxito ou não devem ser
feitos. A Colômbia não pode cair no expediente em que um salvamento é
simplesmente uma oportunidade política em que se põe em jogo a vida de muitos
cidadãos, mas de que o Estado sai sempre vencedor. Vencedor no caso de os
sequestrados serem libertados com vida, por constituírem um troféu, e também
vencedor se trouxerem cadáveres, por se poder acusar o inimigo.» Prisioneiras da angústia e da
incerteza, as famílias dos cativos rejeitam com veemência este tipo de
tentativa. «Que as forças armadas me perdoem», declara Edna Margarita
Salchali, «mas a verdade é que elas são incapazes de levar a bom termo uma
operação de resgate». O pai de um polícia, com os nervos à flor da pele ante
semelhante eventualidade, diz sem hesitar: «Há anos que lutamos pela liberdade
deles, não temos vontade nenhuma de os ver voltar embrulhados numa bandeira». Tanto mais, como objecta Ana
Caterina Heyck, advogada e especialista do DIH, que «para a libertação dos
civis e militares sequestrados pelas FARC nos podemos apoiar no artigo 3
comum às quatro Convenções de Genebra, que regulamenta os conflitos armados
internos e estabelece na sua parte final aquilo que é conhecido pelo nome de “acordos
especiais”». Por outro lado, acrescenta esta jurista, ao estabelecer que a
política de paz é uma “política de Estado” permanente e participativa, a lei
colombiana n.º 434, de Fevereiro de 1998, permite igualmente a aplicação
efectiva do DIH: «Esta lei determina o recurso prioritário ao diálogo e à
negociação». Na mesma lógica e com os
mesmos argumentos, Michael Frühling, director do secretariado do Alto
Comissariado da ONU, declarou a 26 de Agosto de 2005 que o presidente Uribe deveria
fazer da libertação dos “sequestrados” da guerrilha uma prioridade. Mas a
ONU, em Bogotá, não é propriamente bem vista. Em Fevereiro de 2005, Álvaro
Uribe pediu e obteve a exoneração de James Lemoyne, conselheiro especial do
secretariado‑geral da ONU para a Colômbia. No passado, Lemoyne
esforçara-se muito para aproximar as partes nos momentos difíceis por que
passaram as negociações de paz entre as FARC e o governo de Andrés Pastrana. Mal
chegou ao poder, a administração belicista de Uribe não lhe perdoou tais
diligências. A 3 de Agosto de 2004, no Senado colombiano, ao evocar esse
período, o Alto-Comissário para a Paz Luis Carlos Restrepo não se coibiu de
declarar: «Os comissários iam beber uísque com os guerrilheiros e os
embaixadores entusiasmavam‑se até ao delírio para se fazerem fotografar
em companhia dum homem em camuflado e de espingarda em punho». Além disso, a linguagem
franca de James Lemoyne exasperava. Pois não considerava ele as FARC uma organização
“de carácter político”? Diplomata de eloquência abrupta, não hesitou em pôr
publicamente em causa o governo colombiano: «Se não quiser sentar-se à mesa
com as FARC, que o diga... Há muitas vozes oficiais que dizem sim, que dizem
não, que dizem talvez, impossível, possível. Isso não dá confiança às FARC» [9].
Perante os entraves que o poder pôs ao seu trabalho, a missão de mediação das
Nações Unidas, convidada pelas FARC, retirou-se em Abril de 2005. Muito implicada na busca duma
solução, a Igreja não se viu mais bem servida. A 31 de Janeiro de 2003, um membro
duma comissão de facilitação (de que faziam também parte o padre Dario
Echeverri e o antigo ministro do Trabalho Angelino Garzón), monsenhor Luis
Augusto Castro, presidente da Conferência Episcopal, preparava‑se para
se encontrar com o secretariado das FARC. Embora em palavras comedidas, por
força da sua função diplomática, não mostrou indulgência nenhuma para com a
organização guerrilheira. «Eles revelam uma insensibilidade terrível»,
confessou‑nos recentemente. «Não podem dizer que a situação dos seus
prisioneiros é igual à dos guerrilheiros detidos. Estes foram julgados, têm
direito a visitas. Os sequestrados não têm esse direito. Podem passar‑se
três anos sem nos chegar um sinal de que estão vivos». Na sua qualidade de
homem de paz, nem por isso deixa de privilegiar o caminho das negociações. Tanto
mais, conforme conta, que «há alguns anos pude trabalhar e dialogar com as
FARC, obtendo assim a libertação de oitenta soldados. Já nos conhecíamos, era
fácil falarmos...» Ora, no preciso momento em
que monsenhor Luis Augusto Castro procurava encontrar-se com o secretariado
das FARC, o presidente Uribe lançou uma gigantesca operação militar, o Plano
Patriota. Mas o bispo, decidido a desafiar o perigo e a levar a sua missão a
bom termo, custasse o que custasse, acabou por ser dissuadido pelas FARC: «Não
venha cá, aqui só há sangue». «O Plano Patriota», lamenta monsenhor Castro, «criou
um muro entre eles e nós. Impediu-nos de prosseguir esses encontros. Os
nossos contactos já só se fazem por correspondência ou através de correio
electrónico». A 2 de Janeiro de 2004 – numa
operação dos serviços secretos colombianos e norte-americanos –, o comandante
guerrilheiro Simón Trinidad, nomeado para negociar a libertação dos reféns,
foi preso no Equador. «Encontrava‑se em Quito para estabelecer um
contacto com James Lemoyne, porque desejávamos reunir‑nos com ele», explica
o comandante Raúl Reyes. «Como isso era difícil na Colômbia, porque teria
sido necessário que Lemoyne pedisse autorização a Uribe, e nós não queremos
ficar a dever favores nenhuns a este último, tínhamos de procurar um outro
lugar para essas conversações». Entregue às autoridades colombianas, Simón
Trinidad foi extraditado em 31 de Dezembro de 2004 para os Estados Unidos,
com base num processo norte‑americano feito à pressa, treze horas após
ter terminado o prazo dado pelo governo para que as FARC libertassem 65
prisioneiros» [10]. A 13 de Dezembro de 2004, em
Caracas, Rodrigo Granda foi por seu turno sequestrado pelos serviços secretos
colombianos. Conhecido como “ministro dos Negócios Estrangeiros das FARC”,
Granda estava mandatado para dialogar com Paris a respeito duma possível
solução do “caso Betancourt”, através da Embaixada da França na Venezuela. A proximidade da eleição
presidencial de Maio, à qual Álvaro Uribe vai apresentar-se, parece vir
modificar um pouco a situação. Com motivos de sobra: tal como os antigos
presidentes Alfonso López, Ernesto Samper, Julio César Turbay e o ex‑procurador
Jaime Bernal, a maioria dos colombianos declara‑se favorável à troca
humanitária de prisioneiros. Em meados de Agosto de 2004, o poder, em troca
dos reféns políticos, propôs libertar unilateralmente cinquenta
guerrilheiros, que partiriam para o estrangeiro ou se integrariam num
programa de reinserção. Mas as FARC, embora aceitassem negociar com Luis
Carlos Restrepo, exigiram que as conversações ocorressem frente a frente e
não... pela Internet, como o governo propôs. Mais tarde, recusaram que esse
diálogo decorresse na sede da nunciatura apostólica ou numa embaixada – «e
porque não numa escolinha ou numa igrejinha?», ironiza Raúl Reyes –, tendo os
rebeldes insistido que esse encontro se realizasse numa «zona de segurança»
desmilitarizada, nos municípios de Pradera e Florida [11]. «Não queremos que
os prisioneiros corram riscos, bem como os negociadores, o governo, os
observadores internacionais e nós próprios», precisou Reyes. «Que Uribe
retire as tropas durante trinta dias e indique uma data precisa; se chegarmos
a acordo, procederemos então à troca de prisioneiros de uma vez por todas». As famílias de cativos
exasperaram-se, tão irritadas com o poder como com a oposição armada. «Somos
famílias do povo, como a guerrilha diz. Que ela nos entregue os nossos muchachos»,
insurgiu‑se Marleny Orjuela, enquanto Mario Enrique Murillos, pai de
um soldado, não escondia a sua fúria: «Os nossos filhos alistaram‑se
para terem um salário, por causa do desemprego, é esta também a questão! Se
ficaram presos, foi a defender a pátria. Por isso, que o chefe do Estado nos
apoie!» Em Dezembro de 2005, os
governos francês, espanhol e suíço abordaram Bogotá para tentar desbloquear a
situação. Procurando saber até onde poderá ir a aproximação entre as partes,
os diplomatas europeus desejaram operar com discrição, pedindo ao presidente
colombiano a maior confidencialidade. «E que fez então Uribe?», arrebata‑se
o comandante Reyes. «De cada vez que os franceses ou a comunidade
internacional apresentaram uma proposta, ele sabotou-a, ou então, se lhe
convinha, apropriou‑se dela, para alardear generosidade». Com efeito,
a 14 de Dezembro, “esquecendo” a requerida discrição, Uribe anunciou com
grande alarde que em resposta à iniciativa europeia aceitava estabelecer uma
zona desmilitarizada de 180 quilómetros quadrados, em El Retiro (região de
Valle del Cauca). «Uribe apareceu numa
conferência de imprensa...», prossegue o comandante Reyes. «Declarou que
aceitava a proposta e que, portanto, nós tínhamos de a aceitar. Mas nós nem
sequer ainda a conhecíamos, só depois nos chegou às mãos». Intransigência? Má
fé? Em termos prudentes, monsenhor Castro confirma implicitamente as
declarações de Raúl Reyes. «Nessa altura havia um obstáculo relativo à
segurança. Na fórmula então proposta, a segurança das FARC seria assegurada
pela comunidade internacional. Mas por quem, exactamente? Por um embaixador,
um delegado? Isso não dava às FARC, organização em guerra, garantia nenhuma. E
a sua própria segurança não era coisa que eles delegassem. Lançar a proposta
para a opinião pública antes de a terem comunicado à guerrilha foi um erro
lamentável, deviam ter começado por consultá-la.» De forma que, depois deste episódio,
os rebeldes decidiram: «Enquanto Uribe for presidente, não haverá nenhuma
troca humanitária de prisioneiros». A decisão mergulhou as famílias dos
cativos – tal como as dos guerrilheiros encarcerados – numa profunda
consternação. A falta de um verdadeiro líder da oposição e o peso que têm os
paramilitares – enganosamente desmobilizados – na campanha eleitoral, através
da ameaça e da coerção, abrem caminho a uma provável reeleição de Uribe. É certo que Carlos Gaviria, o
candidato do Pólo Democrático alternativo (centro‑esquerda), se
pronunciou a favor da troca humanitária, mas o candidato que mais avançou
nesta matéria foi o independente Álvaro Leyva. Este electrão livre oriundo do
partido Conservador, ex-ministro e sobretudo ex‑negociador, sob
diversas presidências, com várias guerrilhas, faz campanha prometendo «a
troca humanitária imediatamente e a paz em seis meses». Ao encontrar-se, a 22
de Dezembro de 2005, com este candidato relegado nas sondagens e
marginalizado pela comunicação social, o líder histórico das FARC Manuel
Marulanda deu‑lhe, é claro, um importante empurrão. Ao anunciar, a 4
de Março, que na sequência das suas conversações as FARC estão dispostas a
libertar dois polícias – Eder Luiz Almanza e Carlos Alberto Logarda –, a
oposição armada transforma‑o implicitamente no “seu” candidato. Nem por isso Uribe deixa,
contudo, de ser o incontestável favorito. Se conservar o poder, segundo se
afirma em Bogotá, as pressões internacionais vão ter um papel a desempenhar
na ponderação da situação dos prisioneiros. Por meias palavras, monsenhor
Castro deseja essas pressões: «Estamos em sintonia com elas, apoiamo-las».
Tal como as deseja Virginia Franco, mãe do cabo Luis Alfonso Beltrán Franco,
capturado em 30 de Março de 1998 em El Billar (província de Caquetá): «Depositamos
muitas esperanças nos países que apoiam a troca humanitária de prisioneiros. A
comunidade internacional é para nós muito importante. Sentimos que podemos respirar,
sentimos algum alívio». Deste modo, paradoxalmente, a censura feita à
mobilização diplomática de Paris a favor de Ingrid Bentacourt vira-se do
avesso: «Se formos pragmáticos», sorri com amargura a advogada Ana Caterina
Heyck, «temos de concluir que foi uma “sorte” ela ter sido sequestrada. Se a
França não exercesse pressões a respeito do seu caso, o governo colombiano
não mexia uma palha, nem por ela nem pelos outros prisioneiros.» _______ [1] International crisis Group, Hostages for
prisoners: a way to peace in Colombia?, Bruxelas, 8 de Março de 2004. [2] Le Monde, Paris, 7
de Dezembro de 2005. [3] Em 16 de Fevereiro, as
FARC anunciaram que o 37.º prisioneiro, o capitão Julián Ernesto Guevara
Castro, morrera de doença a 28 de Janeiro. [4] Como esta conversa
informal não foi gravada, não temos lembrança do nome do senador em questão. [5] El Tiempo, Bogotá,
22 de Setembro de 2002. [6] Ler Iván Cepeda Castro e
Claudia Girón Ortiz, Como milhares de militantes
foram liquidados na Colômbia, Le Monde diplomatique, Maio de 2005. [7] Citado em Ferro Medina et al., El
orden de la guerra. Las FARC‑EP: entre la organización y la política,
Centro Editorial Javeriono (CEJA), Bogotá, 2002. [8] Com data de Maio de 2002,
foi transmitido a 30 de Agosto de 2003 no programa “Noticias Uno”, do Canal
7, Bogotá. [9] El Tiempo, Bogotá, 18 de Maio de
2003. [10] “Tráfico de droga” e “terrorismo”:
Simón Trinidad foi acusado pela justiça estadunidense de ter exportado 5 Kg
ou mais de cocaína (ou seja, a quantidade mínima que permitia desencadear o
processo de extradição). Uribe suspendeu a extradição do paramilitar
Salvatore Mancuso, acusado por Washington de ter exportado, quanto a ele...
4,5 toneladas! [11] Como as FARC insistiram no sentido de as eventuais negociações se realizarem em território colombiano, também declinaram a proposta de Paris que consistia em ceder um navio francês ou o território da Guiana francesa. |