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18/05/2007 Raúl Zibechi Um novo e profundo mal-estar é palpável em Santiago. Nas paragens de autocarro e de metro, em bairros populares como La Victoria – trincheira da resistência à ditadura –, nos corredores de hospitais públicos e nas portas dos colégios expressa‑se, de viva voz, uma nova consciência sobre os problemas do Chile e sobre os responsáveis por o “modelo” – do qual ainda se gabam os políticos de direita e de esquerda – estar a dar claros sinais de esgotamento. Em 15 meses, o governo de Michelle Bachelet acumulou problemas e tem abertas várias frentes. Primeiro foi o massivo e maciço protesto dos estudantes secundários contra uma lei de educação herdada do ditador. A mobilização colocou em cima da mesa o problema do lucro no ensino, que boa parte do oficialismo resiste a questionar. Quando ainda não se tinham calado os ecos das assembleias estudantis, chamadas a converter‑se num separador de águas de uma cultura política que gira em torno da representação, a posta em marcha do Transantiago (sistema de transportes colectivos privado) provocou uma crise política que pode arruinar a Concertação Democrática, a aliança democrata cristã e socialista que administra o sistema eleitoral chileno desde que em 1990 Pinochet deixou a presidência. O mal-estar trepou vários graus a princípios de Maio com o assassinato de um operário florestal pelo corpo de Carabineiros, no sul dos indígenas mapuches, onde a ira ancestral se sente à flor de pele. Pela primeira vez em anos, os políticos mostram-se preocupados com o rumo que os acontecimentos estão a tomar. O “modelo” económico mete água. Um estudo recente de dois economistas da Universidade do Chile, Orlando Caputo e Graciela Galarce, assinala que em 2006 se produziu uma saída recorde de capitais: 25 mil milhões de dólares, cerca de 17 por cento do PIB. Asseguram que a economia chilena vive um «esgotamento» e que «só o contributo da mineira estatal Codelco permite que não aflore uma crise». No país que tem glorificado como nenhum outro o sector privado, é o sector estatal que está a salvar a situação. A maior parte dos capitais que fugiram, ou retornaram, segundo o jargão tecnocrático, pertencem à minaria que se viu beneficiada com a desnacionalização do cobre. O sindicalista Pedro Marín declarou ao diário Clarín: «A Codelco tem 30 por cento do negócio e as estrangeiras 70 por cento. Mas nos seus contributos para o fisco é ao contrário: a Codelco contribui com 70 por cento e as estrangeiras com 30 por cento, apesar dos seus lucros». A impressão é que a situação económica do “modelo” pende por um fio, mas de cobre: em 2003 cotava-se a 80 centavos de dólar a libra, este ano atingiu os três dólares. A saída de capitais em 2006 equivale a 84 por cento do orçamento do Estado e, a continuar, ameaça travar a seco o crescimento. A questão do Transantiago é mais grave ainda, porque põe a nu perante a população a perversão do “modelo”. O governo entregou a privados a remodelação do caótico sistema de transportes colectivos da capital. O Transantiago inspira-se no Transmilenio de Bogotá: grandes unidades circulam por carris separados com percursos principais e secundários. Estreou-se em Fevereiro e foi um caos. Faltam unidades porque os empresários não querem arriscar. Nos bairros mais pobres, onde é menos rentável, os autocarros não chegam ou fazem‑no com enormes lacunas. A população tem de caminhar quilómetros para chegar a uma paragem onde pode esperar até uma hora a chegada do autocarro. Milhares perderam os seus empregos por chegar tarde. E o metro está tão congestionado que não dá vazão. À bronca inicial, que gerou algumas manifestações espontâneas, seguiu‑se a indignação à medida que se conheciam os níveis de improvisação e de especulação dos empresários. Como o serviço dá prejuízo (30 milhões de dólares só em Abril) o governo decidiu auxiliar os privados. O eficiente metro estatal foi forçado a emprestar dinheiro ao Transantiago e agora o governo de Bachelet propõe ao parlamento um empréstimo de 290 milhões a uma empresa privada que não cumpriu contratos. Até deputados da democracia cristã questionam que o Estado esteja a apoiar a ineficiência empresarial. O ex presidente Eduardo Frei Ruiz‑Tagle, um democrata cristão neoliberal, pediu que se estabeleça «um sistema de transportes estatal como nas grandes cidades do mundo». Algo impensável há uns anos atrás. Um sector da Concertação difundiu há duas semanas um documento intitulado Las disyuntivas, no qual apela a «introduzir rectificações ao actual modelo de desenvolvimento, enfrentar as desigualdades e avançar na construção de um sistema integral de protecção social». O oficialismo sente o chão fugir-lhe debaixo dos pés. Vai mais longe. Critica um modelo para o qual «mais importante que a coesão social de um país é o seu nível de reservas fiscais»; denúncia «graves problemas de qualidade da educação, da saúde, da habitação, protecção do ambiente, precariedade laboral» e um longo etc.; adverte sobre «a precária qualidade da nossa democracia» e censura «as enormes injustiças e desigualdades». Quase um manifesto da oposição de esquerda. Na verdade, o problema está noutro lado. Agora o protesto social tende a ir mais além dos sectores que sempre estiveram a contrapelo do modelo neoliberal chileno, como o povo mapuche e a juventude contestatária, rodeados e isolados pela repressão. Uma longa greve no sul, onde 7 mil operários florestais dobraram o punho aos poderosos e soberbos empresários do Grupo Angelini, um dos mais fortes do Chile, é todo um sintoma dos novos tempos. Os operários usaram maquinaria pesada da empresa para resistir aos Carabineiros, com um saldo de vários feridos e um morto. Em algum momento os protestos de operários, povoadores, mapuches e estudantes podem confluir. Sabemos que quando a repressão não trava os de baixo, os de acima começam a pensar em introduzir mudanças para retocar a maquilhagem. |