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10/12/2006 Marco Aurélio Weissheimer No dia 11 de Setembro de
1973, o compositor e cantor Victor Jara foi preso na universidade onde
trabalhava, juntamente com cerca de 600 estudantes, e levado para o Estádio
Nacional do Chile, em Santiago. Neste mesmo dia, é torturado e assassinado
por militares que o retiraram de uma fila de prisioneiros que iam ser
transferidos. Dias depois, seu corpo fuzilado, com as mãos amputadas, é identificado
em um necrotério pela sua esposa, a bailarina inglesa Joan Jara. Essa é uma
das histórias que compõem o currículo do general Augusto Pinochet, que
comandou uma das ditaduras mais sangrentas da América Latina. O ex-ditador
morreu neste domingo, aos 91 anos, no Hospital Militar de Santiago. Sob o seu
regime, mais de 3 mil pessoas foram assassinadas. Adoptou a tortura e o
extermínio como método sistemático para se livrar de opositores; e a limpeza
étnica, como método para “se livrar” da pobreza extrema no país. Pesam contra
ele acusações de assassinatos, torturas, sequestros, enriquecimento ilícito e
tráfico de drogas. Entre os milhares de crimes
cometidos sob a ditadura Pinochet, um deles tem significado especial. No dia
11 de Setembro de 1973, o general comandou um golpe de Estado que derrubou o
governo socialista de Salvador Allende. O Palácio La Moneda foi atacado por
terra e bombardeado por aviões da Força Aérea chilena. Allende morreu dentro
do palácio tentando resistir ao golpe de Pinochet, apoiado directamente pelo
governo dos Estados Unidos. Pinochet também é apontado como responsável directo
pela morte de ministros e oficiais do governo Allende. Em Setembro de 1976,
Orlando Letelier, ex-embaixador chileno nos Estados Unidos e ex‑ministro
de Allende, foi assassinado em Washington, através de uma bomba deixada no
seu carro. Dois anos antes, em 1974, o general Carlos Prats, comandante do
Exército durante o governo Allende, foi assassinado em circunstâncias
similares, em Buenos Aires. Tudo isso sob o olhar complacente dos EUA. A TRISTEZA DE THATCHER Durante os anos 70, Pinochet
foi um dos principais articuladores da Operação Condor, movimento de
repressão, tortura e extermínio de militantes de esquerda, que reuniu seis
ditaduras sul-americanas, incluindo a brasileira, com o apoio político e
logístico dos EUA, especialmente através da actuação da Escola das Américas.
No auge da Guerra Fria, essa escola, criada pelo governo norte-americano,
recebia militares latino-americanos para cursos de formação, que incluíam
técnicas de tortura e assassinato. Entre os seus principais aliados e
apoiantes, aparecem nomes como o do ex-secretário de Estado dos EUA, Henry
Kissinger, do ex-presidente Ronald Reagan, do economista Milton Friedman e da
ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Ao receber a notícia da
morte do ditador, na tarde deste domingo, Thatcher disse, através do seu
porta-voz, que estava «profundamente triste» e transmitiu condolências à
família. Em 1982, Pinochet apoiou a Inglaterra contra a Argentina, na Guerra
das Malvinas. A manifestação de Thatcher
ilustra o que representou a ditadura de Pinochet. Com o apoio dos economistas
da Escola de Chicago, que teve em Milton Friedman um dos seus principais
expoentes, o governo militar chileno foi o seguidor mais ortodoxo do ideário
neoliberal que se tornou hegemónico no mundo a partir dos governos de Ronald
Reagan, nos EUA, e de Thatcher, na Inglaterra. Os governos destes dois
países, entre outros, não hesitaram em apoiar a ditadura chilena e em fechar
os olhos para os crimes de Pinochet sob o pretexto de garantir a “vitória do
mundo livre” na região. Vitoriosa “a liberdade”, o próximo passo foi
implementar um radical processo de privatizações no país e apontá-lo como
modelo que deveria ser seguido pelos demais países da região. Pinochet foi a
expressão mais clara do cinismo e da hipocrisia de um modelo que falava em
liberdade, durante o dia, e apoiava torturas e assassinatos à noite. O ENTERRO DE PINOCHET No final da vida, Pinochet
conseguiu livrar‑se da cadeia. Na lista dos inúmeros processos movidos
contra o ditador no Chile e na Europa estão 3.197 casos de assassinatos,
mortes que permanecem vivas na memória do povo chileno. A actual presidente
do Chile, Michelle Bachelet, foi detida junto com a mãe durante a ditadura,
enquanto o seu pai, um oficial da Força Aérea, morreu torturado pelos
militares. Os crimes do general Pinochet não se limitam ao campo político.
Investigadores internacionais descobriram contas abertas em seu nome no
exterior, com pelo menos 27 milhões de dólares em depósitos, sem origem
determinada. Agora, em 2006, o general Manuel Contreras, que chefiou a Dina,
polícia secreta chilena, durante a ditadura militar, acusou Pinochet e o
filho deste, Marco Antonio, de envolvimento na produção clandestina de armas
químicas e biológicas e no tráfico de cocaína. Segundo Contreras, boa parte
da fortuna de Pinochet veio daí. A morte de Pinochet
representa um problema político para o governo de Michelle Bachelet. Entre
outras questões, ela terá de resolver como será o enterro do ex-ditador.
Segundo uma pesquisa divulgada neste domingo pelo jornal La Tercera, a
maioria da população chilena (55%) rejeita que o enterro seja acompanhado por
honras de Estado. Apenas 27% dos consultados se manifestaram favoráveis a
honras de Estado para o general. Por outro lado, 51% dos chilenos aprovaram a
ideia de que Pinochet recebesse honras como ex‑comandante do Exército,
contra 32% que rejeitaram a proposta. Também foi perguntado aos chilenos se
eles aprovavam ou não a declaração de luto oficial de três dias após a morte
de Pinochet. 72% responderam não, contra apenas 18% que se manifestaram a
favor do luto oficial. Já a família do ditador disse preferir um funeral
privado. As feridas da ditadura permanecem abertas no Chile. O tratamento que
será dado à morte de Pinochet indicará como anda o seu processo de
cicatrização. A LUTA DOS MORTOS Em Madrid, ao tomar
conhecimento da morte de Pinochet, a deputada Isabel Allende, filha de
Salvador Allende, defendeu que os julgamentos devem continuar mesmo com a
morte do ditador. Ela disse que dói o facto de nunca terem concluído nenhum
julgamento contra Pinochet. «Os julgamentos têm que continuar. Com a sua
morte, não se fecha nenhum capítulo, nem o da verdade, nem o da justiça, nem
o da responsabilidade», declarou a jornalistas. Isabel Allende também rejeitou
qualquer tipo de homenagem de Estado a Pinochet, observando que ele foi «a
pessoa que liderou a pior ditadura na história do Chile». A história do que
aconteceu no Chile ainda está para ser contada. A ditadura Pinochet não foi
uma aberração isolada, típica de uma república sul-americana como querem
alguns. Os aliados que teve em vida, nomes como Kissinger, Reagan, Thatcher e
Milton Friedman, indicam em que contexto a sua figura e os seus actos foram
possíveis. Quando Isabel Allende diz que a morte de Pinochet não fecha nenhum capítulo, indica que há contas que ainda estão em aberto, contas relativas à história e à memória do povo chileno. As suas palavras lembram uma das Teses Sobre o Conceito de História, de Walter Benjamin, escritas em 1940. Na tese VI Benjamin afirma: «O dom de atear ao passado a centelha da esperança pertence somente àquele historiador que está perpassado pela convicção de que também os mortos não estarão seguros diante do inimigo, se ele for vitorioso. E esse inimigo não tem cessado de vencer». |