Informação Alternativa

América Latina

09/04/2006

 

«O Chile é um país que está em poder das multinacionais»

– Entrevista a Tomás Hirsch, dirigente do Partido Humanista do Chile –

 

Pedro Olavo Simões

JN

 

Tomás Hirsch concorreu à presidência do Chile sem ilusões. Diz que ajuda à construção de uma alternativa, mas admite que tal não é possível para já, num país que ainda vive com a estrutura ditatorial.

 

Há quem veja o Chile como o país que tem Pinochet numa redoma. Como se explica isso?

 

Pinochet não tem peso. É dramático que não tenha perdido o poder por causa das violações dos direitos humanos, mas quando se soube dos roubos, das 140 contas no estrangeiro... Relevantes são a direita, dura, e certos sectores militares, duros.

 

Vivem em democracia?

 

A ditadura matou, fez desaparecer pessoas, torturou e exilou, mas, também, mudou a estrutura institucional, com uma Constituição antidemocrática, e fragmentou a esquerda, ideologicamente. Recuperou­‑se a democracia, mas continua a aprofundar-se o modelo económico da ditadura e mantêm-se as instâncias de poder dos militares.

 

Tem dito que o Governo de Michelle Bachelet (socialista) está nas mãos de neoliberais...

 

Rio-me quando ela diz que é de esquerda. Tem um estilo diferente, é a primeira mulher presidente, não é do establishment, foi torturada... Mas está na mesma coligação, e os ministérios-chave foram dados aos maiores apoiantes do modelo económico: é um país em poder das multinacionais, que contratou o livre comércio com os EUA, Europa, Coreia, Japão...

 

Defende o proteccionismo?

 

A Europa tem muitas leis proteccionistas, os EUA têm milhares de barreiras... E o Chile tem de continuar totalmente aberto? O país está bem, em termos macroeconómicos, mas as famílias não comem macroeconomia. Os salários baixam e as pensões são miseráveis.

 

Bachelet foi eleita. Se representa isso, como se explica?

 

É a situação que há na Itália, Espanha e outros países da Europa. Uma social-democracia que governa para a direita, mas chantageia a população, dizendo que se não se vota neles a direita chega ao poder. Junte­‑se um sistema eleitoral binominal: nós, com quase 10% dos votos, não temos deputados.

 

Como ocorre isso?

 

É um sistema desenhado para gerar a bipolarização, em que se elegem dois e a terceira força não elege nenhum. Podemos ter 32%, a nível nacional, e não termos um só eleito. É um sistema que garante à social­‑democracia o poder eterno, porque, no Chile, a direita foi sempre a segunda força.

 

Apelou ao voto nulo, na segunda volta. Foi um risco?

 

Sou coerente. Se a direita ganhasse, era um problema da Concertación [coligação no poder]. A Concertación e a direita sempre disseram que a esquerda são pequenas formigas, que não se vêem. Por que haveremos de ser nós os responsáveis? Não se pode responsabilizar uma formiga pela luta entre os elefantes. Não tenho de apoiar alguém que, quando governa, o faz para os poderosos. Se numa segunda volta eu votasse pela Concertación, isso frustraria as pessoas que tentam construir uma alternativa, geraria confusão.

 

Acredita que essa alternativa vai mesmo emergir?

 

Estamos a construí-la, temos esperança, mas não sei quando. Na Bolívia, as pessoas escolheram a alternativa. No Chile, parece-me que o grau de hipnose e de ilusão pelo modelo é um pouco maior.

 

“Juntos Podemos Más” foi inovador. O que representa?

 

É o acordo mais amplo que a esquerda fez, no Chile, desde a União Popular e Allende, juntando partidos e organizações sociais. Comunistas, humanistas, esquerda cristã e alguns grupos socialistas, em conjunto com organizações ecologistas, indígenas, de trabalhadores...

 

Vê na eleição de Evo Morales um exemplo e defende a integração com a Bolívia. Quer explicar?

 

A América Latina não vive um momento revolucionário, mas de busca de novos caminhos. Nalguns sítios, vão elegendo presidentes que representam uma nova alternativa, como na Venezuela ou na Bolívia. Estou mais próximo da experiência boliviana, porque surge dos movimentos sociais. Evo Morales representa uma mudança importante, que precisa de muito apoio, não só na Bolívia como também no continente. Na visão dos humanistas, a única forma de combater a globalização é o fortalecimento da região, o que significa um processo de integração latino­‑americana.

 

Algo como a União Europeia?

 

É usar os elementos interessantes da União Europeia. Parece-me que há muitos aspectos positivos na União Europeia, mas o que se vê, de fora, é a integração dos grandes poderes económicos. As pessoas passam de uns países para outros, mas não sei se há uma integração dos povos.