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Abril 2005 José Maldavsky Era conhecida a
responsabilidade do general Augusto Pinochet nas ordens dadas para
identificar, prender e executar os seus opositores. A 28 de Novembro de 2004,
o governo chileno fez crescer o horror ao tornar público um documento esmagador
que revela a dimensão do recurso à tortura – 35.000 casos – durante a
ditadura. Em contrapartida, ignorou-se por muito tempo que, durante vinte e cinco
anos, o “probo” ditador urdiu uma complexa rede financeira que lhe permitiu
pôr a salvo, em contas secretas, pelo menos 13 milhões de dólares. «Cada qual luta ferozmente
pela vida, pela sua pobre vida desesperada e animal, e a seus olhos esta
merece que seja sacrificada a vida de todos os demais. Esta morte moral, esta
irrisão de todo o sentido de solidariedade, este esquecimento da dignidade
humana são muito mais tristes do que a morte física...» Luciana Nissim Momigliano Nós. A voz dos nossos carrascos,
nas instalações da polícia secreta do general Pinochet. O seu tom peremptório
e grosseiro. A vergonha de termos de despir a roupa e de ficar nus várias
horas por dia, de olhos vendados, diante dum grupo de desconhecidos que se
encarniçam contra nós, insultando‑nos, moendo‑nos com pancada,
martirizando‑nos os testículos com múltiplas descargas eléctricas. E a mim... De que me acusavam
aqueles desconhecidos? Acusavam-me de ter escrito que a repressão atingia os
jornalistas, os juristas, os políticos, os estudantes, as crianças da rua e
os camponeses. Que o carácter sistemático das violações dos direitos humanos
impedia o desenvolvimento de qualquer vida comunitária ou cooperativa nas
cidades e na zonas rurais. Que as pessoas presas, às mãos de soldados sem
formação e incapazes de levarem a cabo uma investigação, eram com frequência
submetidas a torturas. Que se banalizavam as bofetadas violentas nas orelhas,
podendo provocar a perfuração dos tímpanos, as bastonadas, os tornozelos
atados a um pau, outros horrores. E sobretudo censuravam-me por eu ter
revelado «uma vala comum onde cadáveres de pessoas mortas a tiro tinham as
mãos atadas atrás das costas». Ter a sorte de sobreviver. Pode
parecer uma oferenda uma pessoa respirar o cheiro nauseabundo duma prisão
depois de ter suportado tanta violência. Mais tarde, ter ficado vivo há-de
parecer aberrante, e sobretudo injusto para todos os camaradas mortos na
resistência... Durante muito tempo, os
chefes do exército afirmaram que as torturas, desaparecimentos e assassinatos
cometidos durante a ditadura tinham uma explicação: os «excessos» decorrentes
de «responsabilidades individuais». O general Ricardo Izurieta, que assumiu o
comando das forças armadas a seguir ao general Augusto Pinochet, declarou
assim em 1999: «Seria errado dizer que durante o regime militar ninguém
cometeu erros, mas é alterar os factos pensar que houve uma política
institucionalizada de violações dos direitos humanos». Só no dia 5 de Novembro de
2004, mais de trinta e um anos após o golpe de Estado que derrubou Salvador
Allende, se deu em tudo isto uma viragem espectacular [1]. Num documento
oficial, intitulado “Exército chileno: o fim de uma visão”, o
comandante-chefe do exército, general Juan Emilio Cheyre, anunciou: «O exército
chileno tomou a dura mas irreversível decisão de assumir as responsabilidades
que lhe incumbem como instituição nos factos puníveis e moralmente
inaceitáveis do passado». A 28 de Novembro, o governo
do presidente socialista Ricardo Lagos tornou público, por seu turno, o
relatório da “Comissão Prisão Política e Tortura”, instaurada por solicitação
sua. O intolerável documento sobre as prisões ilegais e as torturas
selváticas praticadas pelos agentes do regime militar durante os dezassete anos
de ditadura (1973-1990) confirma a culpabilidade do general Pinochet em 3000
assassinatos e desaparecimentos, bem como em 35.000 casos de tortura – tendo
sido publicados em todos os jornais do Chile os nomes de 28.000 vítimas
autentificadas. Por outro lado, foram inventariados mais de 800 centros de
detenção e tortura e mais de 3600 algozes. Causa arrepios ver o nosso
nome inscrito, preto no branco, naquela longa lista de pessoas torturadas. Porque,
não havendo reconhecimento, não há reparação. E sem esta, é impossível viver
em paz. Não acabaram por se suicidar alguns sobreviventes do genocídio nazi,
como Primo Levi, por não terem conseguido superar esse traumatismo? Ao reconhecer
por fim os seus crimes, o “inimigo” do passado torna possível que as suas
antigas vítimas comecem a aquietar a dor que as consome, ou até a humilhação
a que foram sujeitas. Afirma assim o general Cheyre
que os crimes da ditadura são injustificáveis, apesar do contexto de
confrontação política que no Chile daquele tempo se vivia. Segundo ele, o
exército chileno não pôde escapar ao «inapelável turbilhão» da Guerra Fria. «Poderá
o cenário desse conflito mundial desculpar os atentados aos direitos humanos
ocorridos no Chile?», interroga o militar. «A minha resposta não tem qualquer
ambiguidade: não pode. As violações dos direitos humanos nunca podem ter
justificação para ninguém». Esta tomada de posição surgiu
quando os tribunais chilenos estavam a proceder judicialmente contra 161
militares, acusados de violações dos direitos humanos, e quando o próprio
antigo ditador Augusto Pinochet foi acusado pelas suas responsabilidades,
tendo aliás o juiz Juan Guzmán Tapia decidido processá-lo, com base na
peritagem médica e psicológica ordenada para determinar se o velho general,
que fez 89 anos no passado dia 25 de Novembro, podia ser julgado. Em 2002,
uma «demência subcortical ligeira» causada por micro‑hemorragias
permitira-lhe escapar a um primeiro processo relativo a desaparecimentos e
assassinatos de opositores políticos. Desta feita, porém, a mais alta
jurisdição chilena – o Supremo Tribunal de Justiça – ratificou as decisões do
juiz Guzmán: a inculpação de Pinochet por um homicídio e nove sequestros
perpetrados no quadro da Operação Condor [2], programa conjunto das ditaduras
militares sul-americanas, nas décadas de 1970 e 1980, organizado para
eliminar os opositores. AUGUSTO PINOCHET, GOLPISTA
E... LADRÃO Pela primeira vez, antigos
colaboradores civis e militares do general distanciaram-se daquele que foi o
seu chefe. Além disso, muito mais do que a revelação das violações dos
direitos humanos, a revelação, em Julho de 2004, da existência de fundos
secretos do ex-ditador depositados no Banco Riggs, de Washington, provocou a
debandada nas suas fileiras. Sinal de conivência ou efeito bumerangue da
história, foi do antigo aliado que veio o golpe de misericórdia, quando nos
Estados Unidos uma comissão do Senado tornou pública uma inspecção levada a
cabo pelo Secretariado de Controlo da Moeda. No contexto do Patriot Act, da
luta contra o terrorismo (não do terrorismo de Estado!) e do endurecimento da
legislação sobre o branqueamento de dinheiro duvidoso, esta instituição
investigou o Banco Riggs, tendo verificado a ausência de documentos
justificativos das quantias depositadas pelo general Pinochet, bem como as
transferências efectuadas por sua conta entre os Estados Unidos, a Espanha, o
Reino Unido e o Chile, tudo isso graças a duas empresas de fachada
estabelecidas nas Baamas [3]. As quantias em posse do
ex-ditador – que poderão atingir mais de 16 milhões de dólares, depositados
em 125 contas e investimentos financeiros (28 no Banco Riggs e 97 noutros estabelecimentos
bancários norte‑americanos) desencadearam uma outra investigação
judicial no Chile. E estas novas inculpações destruíram a imagem de probidade
de que o regime militar beneficiava junto dos seus partidários, nomeadamente
no exército. Ricardo Lagos qualificou o
documento do general Cheyre como um «passo histórico», declarando que esta
clara condenação pelo exército das violações dos direitos humanos o enchia «de
orgulho e satisfação como presidente do Chile». Mas a nova orientação do
general Cheyre não é unanimemente aprovada na instituição militar. O
comandante-chefe da marinha, almirante Miguel Ángel Vergara, o da força
aérea, general Osvaldo Saravia, e o dos carabineiros, general Alberto
Cienfuegos Becerra, recusam-se a reconhecer a responsabilidade colectiva das
suas instituições nos crimes perpetrados durante a ditadura. O antigo chefe
da Direcção Nacional de Informações (DINA, a polícia secreta de Pinochet),
general Manuel Contreras, chegou até a acusar o general Cheyre de «traição» –
mas é verdade que Contreras acaba de ser condenado, com os seus mais próximos
colaboradores, a pesadas penas de prisão pelo assassinato de opositores
políticos. Ao invés, a associação dos
ex-prisioneiros políticos denunciou o carácter «incompleto e insuficiente» do
relatório governamental sobre os direitos humanos, declarando que este «não
satisfaz as suas expectativas de verdade, justiça e reparação integral». Segundo
esta associação, as 35.000 pessoas nomeadas no dossiê «representam apenas 10
por cento das vítimas de violências», anunciando «a publicação dos nomes de
carrascos contra os quais uma série de queixas‑crime deverá em breve
ser apresentada aos tribunais». A associação lamenta igualmente «a
confidencialidade garantida por lei [aos carrascos] por um período de 50
anos, [o que] não contribui para estabelecer totalmente a verdade e consagra
a existência de impunidades. Isto sem falar das indemnizações atribuídas às
vítimas (112 euros por mês), que classifica como «irrisórias». «E vergonhoso»,
prossegue a declaração, «que este Estado conceda uma indemnização “anti-stresse”
aos militares algozes e (... ) que atribua 10 por cento dos rendimentos
provenientes das vendas de cobre às forças armadas [4], apesar de conhecer a
situação das vítimas e as devastações socioeconómicas que o modelo neoliberal
provoca nos sectores mais carenciados da população chilena». As ditaduras alimentam-se com
o medo que semeiam. E apesar de tudo a do general Pinochet ainda não deixou
de obcecar os chilenos, devendo estes manter-se vigilantes, pois, como afirma
Volodia Teitelboim, «os pinochetistas continuam a ambicionar reconquistar o
poder». Escritor e dirigente comunista, Teitelboim alude assim a Joaquín
Lavín, antigo alto funcionário do governo de Pinochet, que obteve quase 49
por cento dos votos nas últimas eleições presidenciais, em 2000, e que acaba
de se recandidatar à eleição de 2006. Todavia, ao desvendar o explosivo
relatório da “Comissão Prisão Política e Tortura”, levando o Chile a afrontar
o seu passado, o presidente Lagos deu provas de uma coragem política que
poderá alterar a situação na perspectiva desse próximo escrutínio. É sem dúvida ainda muito cedo
para afirmar que a reconciliação entre os chilenos já terá começado [5]. Mas
o sinal que mais aponta para o novo “clima” do Chile são os remorsos
exemplares da jornalista chilena Maria Angélica de Luigi, um dos nomes mais
famosos do diário El Mercurio – o mais obstinado adversário do regime
de Salvador Allende –, que há pouco publicou um impressionante mea culpa:
«Eu sonhava com coisas simples: com ternura, um pouco de erotismo, uma
casinha, um bom colégio para o meu filho... Os meus prazeres eram escrever
bem, fazer perguntas inteligentes, pôr os meus interlocutores em
dificuldades... Alguém terá tido a ideia, no El Mercurio, de fazer uma
reportagem nos centros de tortura da DINA? Ninguém, nem sequer eu. Não posso pôr
ninguém em causa. Nunca fui censurada. Eu era uma mulher servil. E enquanto
isso, havia chilenas a quem eles esventravam a vagina com animais, com
garrafas, com electricidade, à pancada; a quem matavam os filhos e os pais. Na
mesma altura, eu lia histórias ao meu filho, tinha um namorado, ia à praia
com os meus amigos jornalistas. Pedir perdão a todos, a ninguém? Eu prefiro
personificar: peço-te perdão a ti, jornalista Olivia Mora, que empunhavas a
bandeira de Allende, a ti a esquerdista que arriscaste a vida nessa causa sem
cair em sectarismos. Tu nunca quiseste matar ninguém, apenas quiseste
realizar a justiça social... Perdoa‑me, Olivia, porque eu nada fiz
para me opor à corrente de horrores que te arrebatou um dos teus filhos». ______ * Jornalista, co-autor de Chili: 11 septembre
1973, Le Serpent à Plumes-Arte éditions, Paris, 2003. [1] Ler Tomás Moulian, Le rêve brisé de Salvador Allende, Le Monde diplomatique, Setembro 2003. [edição
brasileira: O
sonho despedaçado de Salvador Allende] [2] O general Pinochet poderá
também ser julgado por contumácia em Paris. Segundo William Bourdon, um dos
advogados das famílias de cidadãos franceses desaparecidos no Chile – René
Chanfreau, Étienne Pesle, Georges Klein e Jean‑Yves Claudet-Fernandez –,
a sua convocação perante um tribunal criminal estará «iminente». O ministério
Público do tribunal parisiense de direito comum de primeira instância completou
o seu requisitório definitivo em 15 de Outubro de 2004. [3] Para evitar um processo
sobre as contas secretas do ex-general, o Banco Riggs aceitou pagar quase 6,9
milhões de euros às vítimas da ditadura. [4] Este dízimo de 10 por
cento foi concedido aos militares, desde o início da ditadura, pelo general
Pinochet. O Chile é o primeiro produtor mundial de cobre. [5] A 29 de Novembro de 2004, na Argentina, a pedido da Interpol chilena, foi preso Sergio Galvarino Apablaza Guerra – o “Comandante Salvador”. Dirigente da Frente Patriótica Manuel Rodríguez, é acusado de ser o “autor moral” do assassinato de Jaime Guzmán, um senador de extrema-direita que colaborou intimamente com a ditadura. A 28 de Dezembro, o Supremo Tribunal do Chile ratificou o pedido da sua extradição. |