Informação Alternativa

América Latina

20/12/2004

 

O meu caso contra Pinochet

 

Francisco Letelier

Counterpunch

Quando li que o Gen. Augusto Pinochet, o antigo líder do Chile de 89 anos de idade, tinha sido colocado em prisão domiciliária no início desta semana e declarado imputável para ser julgado pelos seus muitos crimes, não era uma questão abstracta para mim. Esse era um homem, afinal de contas, que teve uma tremenda influência na minha vida, o homem que me roubou do meu pai, que destroçou a minha família.

Conheci­‑o pela primeira vez nos dias que antecederam o golpe militar que o levaram ao poder. Ele tinha sido convidado para jantar em nossa casa em Santiago, Chile. Eu tinha 14 anos de idade. Posso vê-lo agora no estúdio do meu pai, os Andes visíveis nas janelas atrás dele. Lembro­‑me que ele parecia estranhamente desconcertado, entre as estantes e os volumes com capas de couro. Talvez já estivesse a fazer planos para o futuro.

Apenas alguns meses mais tarde, em 11 de Setembro de 1973, Pinochet tomou o poder num golpe que derrubou o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. Allende morreu durante o golpe, e a vida virou­‑se de pernas para o ar para a minha família e para meu pai, Orlando Letelier, que tinha sido embaixador de Allende nos Estados Unidos e mais tarde o seu Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Nos dias que se seguiram, nós assistimos a jactos voarem sobre as nossas cabeças, ouvimos bombas explodirem, cheirámos o fumo. Os tanques circulavam pelas ruas.

Desde o início, o governo de Pinochet contou com prisões arbitrárias e desaparecimentos obscuros; durante os seus 17 anos no poder, dezenas de milhares de pessoas foram detidas e torturadas, e milhares mortas. Nós fomos mantidos em prisão domiciliária; o meu pai passou um ano em campos de concentração, suportando as torturas da ilha Dawson, um rochedo varrido pelo vento perto da Antárctida. Os meus irmãos e eu crescemos acostumados a ser seguidos por agentes da polícia secreta no caminho para a escola e nos demais lugares.

Após a libertação do meu pai, deixámos o país e mudamos para Washington. Mas não era ir suficientemente longe para Pinochet. Por causa do contínuo trabalho do meu pai para restaurar a democracia no Chile, Pinochet estava determinado a impedi­‑lo, sem se perturbar com a distância ou com as fronteiras nacionais entre Santiago e a nossa casa no subúrbio de Maryland.

Antes do nascer do Sol numa manhã de meados de Setembro de 1976, quando eu tinha 17 anos de idade, um americano chamado Michael Townley, agindo sob ordens da polícia secreta de Pinochet, colocou um explosivo plástico no chassis do Malibu Classic estacionado na nossa rua a apenas alguns metros da janela do meu quarto.

Toda a gente na minha família usava o carro. Eu tinha­‑o dirigido na minha formatura. Em 21 de Setembro, qualquer um de nós poderia ter rodado a chave. Ocorreu que o meu pai dirigiu­‑o por Washington com os seus colegas, Ronni Karpen e Michael Moffitt, o seu marido.

Às 9:30 da manhã, a bomba despedaçou a paz da Avenida das Embaixadas. Ela seccionou as pernas do meu pai; ele sangrou até à morte nos destroços carbonizados. Ronni afogou­‑se no seu próprio sangue na calçada, um pedaço de metal alojado no seu pescoço. Somente Michael Moffitt sobreviveu. Foi na época o mais atrevido acto terrorista internacional até então cometido na capital da nação.

As investigações começaram imediatamente, mas desenvolveram­‑se a um ritmo terrivelmente lento. Townley finalmente forneceu provas, fez uma confissão detalhada e cumpriu três anos e quatro meses na prisão. Ele confirmou que a ordem para o assassinato tinha partido de Santiago.

Em 1985, a Suprema Corte do Chile declarou Manuel Contreras, o director da polícia secreta chilena, culpado por ordenar o assassinato do meu pai. Ele cumpriu sete anos e foi libertado. Documentos desclassificados mostram que Contreras recebeu um «pagamento único de 5.000 dólares» através do qual a CIA esperava conquistar influência sobre ele. Até agora, a CIA não foi directamente relacionada com o assassinato, embora muitas perguntas permaneçam sem resposta sobre o papel da agência na política chilena.

Vários outros homens conspiraram para o assassinato mas continuaram a esquivar­‑se à justiça. Um deles é Guillermo Novo, que foi condenado em Washington por conspiração nos assassinatos e sentenciado a 40 anos mas cuja condenação foi anulada por um detalhe técnico. Mais tarde ele foi preso no Panamá pelo seu papel numa trama para assassinar o líder cubano Fidel Castro, mas em Agosto, quando a eleição presidencial dos EUA se aproximava, Novo foi libertado [1]. Com outros três conhecidos terroristas, ele embarcou num avião para Miami, onde foi admitido no país por autoridades dos EUA e recebeu as boas-vindas da comunidade cubana exilada na Flórida.

E Pinochet? Em Agosto, 31 anos após o golpe, a Corte Suprema do Chile tomou uma decisão histórica para despojá-lo da sua imunidade contra processos.

Pinochet foi acusado de participar na Operação Condor, uma rede de compartilhamento de informações usada por seis ditadores sul­‑americanos daquela época para eliminar dissidentes. O assassinato do meu pai foi uma missão Condor.

Na segunda­‑feira, o juiz chileno Juan Guzman ordenou que Pinochet fosse mantido em prisão domiciliária e declarou­‑o apto para ser julgado. «Não é uma parte da história americana da qual nos orgulhamos», reconheceu o Secretário de Estado Colin L. Powell em 2003 quando lhe pediram para comentar o papel dos EUA no Chile dos anos 70.

Até à tragédia de 11 de Setembro de 2001, o terrorismo era, para muitos americanos, algo que eles assistiam na televisão. Agora há muito mais pessoas que, como eu, perderam membros das suas famílias para o terrorismo. Nós continuamos a procurar uma medida de justiça, há muito tempo esperada. Os nossos heróis saem dos tribunais, de destroços fumegantes e de torres caídas.

A justiça nestes casos deve ir além da prisão de indivíduos. O verdadeiro registro histórico deveria ser tornado público e a política externa dos EUA deveria reflectir as lições aprendidas.

Espero que um julgamento público de Augusto Pinochet sirva como um passo importante, e que leve à reanimação do há muito adormecido caso Letelier nos EUA. É aqui neste país que os factos permanecem encobertos e onde indivíduos envolvidos nos trágicos assassinatos do meu pai e de Ronni Karpen permanecem intocados.

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* Francisco Letelier é um artista radicado em Veneza. O seu pai foi assassinado em Washington quando ele tinha 17 anos de idade.

 

[1 ] Ver, no IA, Ignacio Ramonet, Terroristas soltos.