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Abril 2005 Regina Novaes
* Religião e política não se misturam! Esta foi uma das frases mais ouvidas
durante as eleições municipais de Outubro‑Novembro de 2004 no Brasil [1],
tendo sido repetidamente proferida por autoridades religiosas e candidatos de
todas as confissões religiosas. Mas é difícil acreditar na sua veracidade
quando se olha para algumas das manchetes de jornais e revistas das duas
maiores cidades brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro: “Evangelho segundo
os políticos” (Veja, Junho de 2004); “Política em cena com Pastor” (O
Dia, 27 de Agosto de 2004); “César, Conde e Crivella usam o nome de Deus
para manter eleitor cativo” (IG, 26 de Agosto de 2004); “Infame mistura
no púlpito evangélico” (O Globo, 18 de Agosto de 2004); “Guerra por
votos evangélicos” (O Dia, 11 de Outubro de 2004); “Bittar condena mistura
de religião com política” (O Dia, 11 de Setembro de 2004); e “Guerra
Santa na Baixada” (O Globo, 11 de Outubro de 2004). A separação entre religião e política faz parte do ideário
republicano desde o fim do século XIX. Na história do Brasil real, no
entanto, as instâncias da Igreja católica, as organizações evangélicas e os
líderes das religiões espíritas kardecistas [2] e afro‑brasileiras sempre
influenciaram a política a partir dos seus locais de culto, e sempre participaram
nos acordos eleitorais, apresentando diferenças ideológicas apesar de tudo
surpreendentes em termos de candidatos e de partidos. Mas uma condição
histórica garantia a ordem das coisas: uma vez que, até ao início do século
XX, cerca de 100 por cento dos brasileiros diziam ser fiéis ao Vaticano, a
hegemonia da Igreja católica era natural e não suscitava polémicas. Cem anos depois, o maior país católico do mundo já não é o mesmo. Segundo
as estatísticas oficiais, década após década a Igreja católica foi perdendo
uma parte considerável do seu rebanho: em 1980, 88 por cento da população
declarava-se católica, mas em 2000 eram apenas 73,9 por cento os que o afirmavam.
Operou‑se uma transferência de fiéis em benefício das correntes evangélicas,
sobretudo pentecostistas [3]. Há dez anos, os evangélicos representavam 13,5
milhões de brasileiros (9,1 por cento); hoje eles são 26,2 milhões (15,5 por
cento). Entre 1990 e 1993, foram fundados no grande Rio de Janeiro cinco
novos templos evangélicos por semana. As Igrejas pentecostais chegaram ao país no início do século XX, mas
a sua primeira vaga de crescimento correspondeu ao início da
industrialização, na década de 1950, quando a rádio era o principal meio de
transmissão de mensagens. Nas décadas de 1960 e 1970, as Igrejas beneficiaram
da dinâmica das concessões de rádio e televisão feitas durante a ditadura
militar, que desenharam a estrutura actual dos meios de comunicação no
Brasil. Cultos, testemunhos e pregações podiam ser acompanhados ao vivo pelo
rádio; transmitia‑se na televisão as emoções decorrentes da «presença
do Espírito Santo»; falava-se da Bíblia e das questões da “vida real”:
desemprego, falta de dinheiro, problemas efectivos, alcoolismo, droga e
violência. É certo que os católicos beneficiam dos mesmos meios de comunicação,
mas a segmentação e a autonomia das organizações protestantes, históricas e/ou
pentecostais, favorecem estes últimos. Mesmo sem intenção ecuménica de
cooperação ou diálogo entre as organizações, a presença de umas beneficia as
outras e, do ponto de vista dos receptores, uma vez que a mensagem parece a
mesma, todos ganham em visibilidade. As diferentes organizações evangélicas, sobretudo as de tendência
pentecostal, concentram-se nas periferias dos grandes centros e nas
fronteiras agrícolas, áreas que atraem migrantes que se desenraízam
geográfica e culturalmente em busca de melhores condições de vida e que foram
abandonados pelos poderes públicos. Apesar de uma crescente presença das
classes médias, os rendimentos e a escolaridade do rebanho pentecostal
remetem para uma religião de pobres para quem a conversão é sinónimo de
ganhos materiais (novos laços sociais) e simbólicos (um novo sentido para a
vida). Os efeitos deste processo de conversões religiosas, que mudam a vida
privada, chegaram assim ao espaço público. A visibilidade dos evangélicos na política surgiu após a ditadura
militar, no momento da reformulação da Constituição brasileira (1988). As
diversas organizações uniram esforços para que a nova Constituição não
privilegiasse os católicos no que tange ao calendário, ao uso dos espaços
públicos e à legislação que regula a filantropia. Nessa ocasião, elegeram 32
deputados federais que, a partir de um espectro amplo de diferentes partidos
políticos, formaram a “bancada evangélica”. Na legislatura de 1990 tiveram menor êxito, mas nas seguintes viram
crescer os seus congressistas. Em 1998 foram eleitos 43 parlamentares
evangélicos. A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) elegeu, por si só, 15
representantes federais, além de 26 deputados estaduais em dezassete estados
e no distrito federal. Hoje existem 62 deputados federais evangélicos, 18 dos
quais da IURD. A chamada “bancada evangélica” não tem unidade partidária ou
ideológica, tendo vindo a funcionar apenas na altura da votação de questões
consideradas “de interesse evangélico” ou morais (aborto e casamento homossexual,
principalmente), momento em que se alia com uma parte de deputados católicos
ou com adeptos do espiritismo de Allan Kardec. Se para uma eleição para
deputado estadual ou federal se pode falar, com base em referências bíblicas,
nos interesses das Igrejas evangélicas que são “perseguidas” pelas autoridades
maioritariamente católicas, este argumento perde a sua eficácia no caso de
uma eleição majoritária para cargos executivos. Afinal, os prefeitos, os
governadores e os presidentes devem governar para todos. Neste contexto, o
peso deste atributo – “ser evangélico” – só pode ser avaliado em relação com
outras variáveis do jogo político na conjuntura eleitoral. Neste sentido,
cada eleição é inédita, pois apresenta uma nova configuração de alianças e
oposições determinantes na disputa em questão. Vejamos um exemplo. Quando se fala no assunto, o evangélico Anthony
Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro e ex-candidato a presidente da
República em 2002, é sempre citado. Em 1998, foi eleito para o governo do
estado do Rio de Janeiro, pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT), tendo
como vice‑governadora Benedita da Silva, também evangélica, do Partido
dos Trabalhadores (PT). Para além da sua filiação política e do perfil dos
adversários naquele momento, é possível que os votos evangélicos tenham sido
o “diferencial” que na ocasião garantiu a Garotinho a vitória eleitoral. No escrutínio de 2002 para a Presidência da República, Anthony
Garotinho teve uma votação expressiva. Os votos a seu favor (Garotinho estava
nessa altura filiado no Partido Socialista Brasileiro, PSB) vieram de lugares
onde a Rede Record – controlada pelo bispo Edir Macedo, da IURD – tem mais retransmissoras
de rádio e televisão, bem como de regiões onde há maiores concentrações de
pentecostais. Dito de outro modo, o candidato Garotinho teve menor votação
nos locais onde o Brasil é mais católico. Dois anos mais tarde, Luiz Paulo Conde, o candidato à Prefeitura do
Rio de Janeiro apoiado por Anthony Garotinho, agora filiado no Partido do
Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), ficou em terceiro lugar – mesmo
tendo um adjunto evangélico da Assembleia de Deus –, sendo o vencedor César
Maia, que accionou as suas raízes católicas e foi reeleito autarca da cidade,
e cabendo o segundo lugar ao bispo Marcelo Crivella, da IURD, que pôde contar
com uma legião de fiéis voluntários na campanha pelas ruas da cidade. A trajectória de Garotinho e o exemplo do Rio de Janeiro demonstram a
importância do fenómeno religioso no contexto eleitoral, mas relativizam as
afirmações dos que apontam apenas para um crescimento (sempre espectacular,
linear e cumulativo) do peso do voto evangélico. Outro exemplo, no mesmo sentido relativizador, vem da IURD, que
inaugurou entre os evangélicos a valorização, sem subterfúgios, da disputa
política. Esta organização teve uma perda considerável no número de
vereadores: há quatro anos atrás eram 350, mas em 2005 serão apenas 70 os que
tomarão posse nos municípios. Em São Paulo, também nas eleições municipais de 2004, o candidato que
se autoproclamava evangélico, Francisco Rossi, teve um desempenho eleitoral
apenas sofrível. Mas os dois candidatos que passaram à segunda volta, a
autarca cessante Marta Suplicy (PT) e o vencedor final, José Serra (Partido
Socialista do Brasil, PSDB, partido do ex‑presidente Fernando Henrique
Cardoso), disputaram também os eleitores evangélicos. Sendo as Igrejas
evangélicas, largamente frequentadas, vistas como “celeiros de eleitores
congregados”, os candidatos visitaram templos e beneficiaram das incitações
ao voto por parte dos pastores. Em suma, a ofensiva evangélica modificou o
padrão anterior segundo o qual se fazia política dentro das Igrejas, mas de
forma dissimulada. No entanto, isto não quer dizer que os evangélicos votem
necessariamente de acordo com a orientação do pastor, não havendo qualquer
garantia de que, divididos em centenas de organizações, votem sempre em
candidatos que partilhem a sua fé. Isto porque, em diferentes contextos
eleitorais, as lutas por influência que no plano religioso os opõem tanto
podem ser atenuadas como radicalizadas. O mesmo acontece na sociedade em geral, podendo o atributo “evangélico”
não ser sempre positivo. A imagem destes crentes, ambígua, veicula um misto
de respeito – por se submeterem ao controlo social das suas Igrejas – e de
desconfiança, alimentada pelas frequentes acusações de manipulação, charlatanismo
e extorsão de fundos. Assim sendo, como avaliar o impacte do chamado “voto evangélico” na
cultura política brasileira? Não podemos negar que hoje no Brasil existe um
certo tipo de “clientelismo religioso” que nos afasta da ideia de cidadania
pressuposta pela República laica. Contudo, é preciso lembrar que,
independentemente da questão religiosa, o sistema partidário brasileiro é
inconsistente e frágil, favorecendo migrações motivadas por interesses
pessoais (a exemplo do ex-governador Garotinho que, em menos de três anos,
passou por três partidos). No que diz respeito aos eleitores, não foram os evangélicos que, por
aparecerem, destruíram “práticas sólidas” de participação democrática. E nada
permite afirmar que este “clientelismo religioso” seja necessariamente pior
do que o que historicamente ficou conhecido como “clientelismo político”, a
saber, uma prática que pressupunha a manutenção de um “curral eleitoral”, de
um coronel que trocava o voto dos seus empregados por protecção e/ou
dinheiro, em contextos marcados por diferentes formas de pressão das quais
não estava ausente a violência física. Os vínculos propostos pelos pastores evangélicos estão ancorados em
crenças e mecanismos de convencimento religioso. Além disso, são muitas e
simultâneas as ofertas: os estudos mostram que os fiéis “não satisfeitos”
mudam com facilidade de pastor, de templo e mesmo de organização. Exigir um
voto num ou noutro candidato pode pôr em perigo a adesão a uma Igreja. A
combinação entre uma exacerbada concorrência por fiéis e (infelizmente) um
sistema partidário que favorece a rotatividade e as alianças ad hoc torna‑se,
assim, um antídoto para os perigos de intolerância religiosa e de uma
escalada do “fundamentalismo”. A religião evangélica marca por vezes a diferença
nas eleições porque agrega templos, motiva militâncias e é um “celeiro de
votos”. Mas não suplanta, em caso algum, o pragmatismo das práticas políticas
tradicionais. _______ * Professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenadora
do Instituto de Estudos da Religião (Rio de Janeiro). [1] Emir Sader, Governo Lula: uma
“terceira via” cada vez mais contestada, Le Monde diplomatique – edição
brasileira, Janeiro de 2005. [2] Allan Kardec, de seu verdadeiro nome Léon Hippolyte Rivail
(1804-1869), é considerado o pai do espiritismo. Exerce no Brasil uma
considerável influência. [3] As Igrejas pentecostistas apresentam-se como testemunhos do “Evangelho dos quatro ângulos” – Jesus salva, baptiza, cura e regressa –, integram-se na tradição protestante evangélica e baptista, e têm como referência os grandes princípios da Reforma. Apregoam um respeito absoluto da “Escritura”, num certo espírito fundamentalista. |