Informação Alternativa

América Latina

07/03/2005

 

Brasil: Seis Tiros

 

Marcelo Resende *

Maria Luisa Mendonça **

ALAI

 

Os seis tiros que atingiram a irmã Dorothy Stang têm calibre maior do que podemos imaginar. Eles têm origem em diversos elementos da nossa história e da conjuntura actual, relacionados com a estrutura fundiária brasileira, com o uso e ocupação da terra e com o controle de recursos naturais.

 

A iniciativa do governo em reforçar a segurança na região de Anapú, assim como as medidas administrativas que restabelecem áreas de protecção ambiental e destinam terra para comunidades locais, têm um importante significado. Porém, é necessário combater outras causas da violência e da desigualdade social no campo.

 

Dos 4 milhões de imóveis rurais do País, 70 mil detêm 43% do total das terras registradas no cadastro do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Estes imóveis somam 200 milhões de hectares, em relação a um total de 420 milhões. Na região amazónica, por exemplo, uma só propriedade possui área superior ao estado de Sergipe. Esta grande distorção fundiária ilustra a importância de estabelecermos legislação sobre o limite da propriedade no Brasil, como é o caso em muitos países.

 

Portanto, pode-se dizer que o primeiro tiro contra a irmã Dorothy teve a sua origem na não­‑realização da reforma agrária. No governo FHC, 70% dos assentamentos foram criados na Amazónia. No governo Lula, esta cifra caiu para 51%. Entretanto, este alto índice de assentamentos na região não foi motivado por um verdadeiro compromisso com a reforma agrária. Ao contrário, o motivo tem sido o baixo preço das terras. Porém, estes assentamentos encontram­‑se em condições muito precárias em relação a infra­‑estrutura básica, como acesso a estradas, água e energia.

 

As difíceis condições de sobrevivência nestes projectos representam o principal motivo de abandono das áreas, estimulando a grilagem e o desmatamento. O fracasso da política de colonização da Amazónia, nos anos 60 e 70, bem como as dificuldades dos atuais projectos de reforma agrária na região já deveriam ter indicado a importância de mudanças neste modelo. Como a irmã Dorothy defendia, o governo deve garantir condições para a criação de projectos colectivos de assentamento, que permitam o manejo não destrutivo dos recursos naturais. As terras destinadas à reforma agrária devem ser inalienáveis, isto é, devem continuar a pertencer ao Estado.

 

O combate à grilagem e a aceleração da reforma agrária podem ser estimulados através de medidas administrativas como a inversão do ónus da prova nos processos de desapropriação. Ou seja, quem deveria ter que provar a legalidade do registro dos imóveis, sua produtividade e localização são os supostos proprietários e não o governo. Esta regra serve para todos os brasileiros que declaram imposto de renda. Serve também para qualquer pessoa que seja abordada pela Polícia Rodoviária e que tenha que apresentar os documentos do seu veículo. Seria ridículo imaginar que o policial é quem deveria procurar os documentos do motorista.

 

O segundo tiro representa o poder dos grileiros e madeireiros. A grilagem de terra no Brasil é um sinal da ausência do Estado na defesa do seu território. Ou seja, só ocorre o “grilo” das terras públicas porque há omissão (e, em alguns casos, complacência) de diferentes sectores do Executivo, Legislativo e Judiciário. Segundo dados do Incra, dos 600 milhões de hectares cultiváveis no Brasil, 250 milhões são áreas presumivelmente devolutas, a sua maior parte ocupada por “grileiros”.

 

A prática de venda irregular de lotes é comum nos estados da Amazónia legal, como é o caso do Amapá, onde a empresa estadunidense de celulose, International Paper, conseguiu adquirir 6.000 hectares. Esse mecanismo de aquisição ilegal ocorreu através da regularização de terras públicas ocupadas por posseiros, com a conivência do Incra e dos cartórios locais.

 

O terceiro tiro pode ser representado pela lentidão do governo na homologação de terras indígenas e na regulamentação de áreas quilombolas. Segundo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), somente 6,66% das terras indígenas demarcadas foram homologadas até 2004. Este é o caso de Raposa Terra do Sol, que está pronta para receber homologação desde 1998. Em relação à regularização das mais de 2000 áreas quilombolas, dados do antropólogo Alfredo Wagner demonstram que, somente 71 foram tituladas desde 1988. Se os processos seguirem no ritmo actual, a sua regularização irá demorar mais 500 anos.

 

A expansão do agronegócio, através de uma política agrícola voltada para a exportação, poderia ser comparada ao quarto tiro. Algumas das principais consequências desta política são a degradação do meio ambiente, a concentração de renda e o desemprego no campo. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazónia (INPA), a soja gera somente um emprego para cada 200 hectares, devido ao seu alto grau de mecanização.

 

Este modelo tem sido relacionado ainda com sérias denúncias de trabalho escravo e violência contra trabalhadores rurais. De 1995 a Outubro de 2004, o Grupo Móvel registrou a libertação de 13.119 trabalhadores escravizados, sendo 78% deles encontrados nos estados da Amazónia legal. De 1985 a 2003 a Comissão Pastoral da Terra registrou 429 casos de assassinatos de trabalhadores rurais na região Norte, o que representa mais de 50% das mortes em todo o País.

 

O governo tem priorizado uma política agrícola que favorece principalmente grandes empresas. Em 2000, mais de 75% do comércio mundial de grãos era controlado por cinco transnacionais. Hoje, somente três empresas (Cargill, Bungi e Dreyfus) dominam este mercado, e têm grande interesse na Amazónia. A Cargill, por exemplo, insistiu na construção de um porto graneleiro em Santarém.

 

A armazenagem de grãos requer ainda um alto consumo de energia, o que nos leva ao quinto tiro, ou seja, os grandes projectos na Amazónia. No Brasil, existem aproximadamente 2.000 barragens. A Eletrobrás prevê a construção de mais 494 grandes barragens até 2015, sendo que 64% do potencial hidroeléctrico brasileiro estão na Amazónia. Alguns dos maiores projectos previstos na região são o de Belo Monte, no Rio Xingu (Pará) e as barragens de Santo António e Jirau, no Rio Madeira (Rondónia). O faturamento das empresas geradoras e distribuidoras de energia no Brasil em 2003 foi de $48 bilhões de reais. A maior parte destes recursos foi enviada para o exterior, como remessa de lucros.

 

Por fim, o sexto tiro representa a disputa pelo controle de recursos naturais na Amazónia. A luta da irmã Dorothy na defesa da biodiversidade gerou forte oposição, com consequências dramáticas para ela e para as comunidades com as quais ela trabalhava. Esta é uma disputa histórica, que já resultou na apropriação indevida de conhecimento tradicional através da biopirataria e na destruição de milhares de hectares de floresta. Mas, principalmente, resultou na morte de centenas de pessoas que defendiam justiça económica, social e ambiental.

 

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* Marcelo Resende é membro da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos. Foi presidente do Instituto de Terras de Minas Gerais (1999-2002) e presidente do Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) em 2003.

 

** Maria Luisa Mendonça é jornalista e membro da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.