Informação Alternativa

América Latina

01/05/2008

 

Contra­‑insurgência e golpismo

 

Stella Calloni

Rebelión

 

Nos próximos dias, a Bolívia estará a viver a tentativa de um “golpe suave” ou de um “golpe forte”, se os seus inspiradores precisarem de uma acção superior no esquema contra­‑insurgente que os Estados Unidos vêm aplicando quotidianamente sobre o governo de Evo Morales, com o apoio da poderosa direita fascista desse país.

 

O prefeito de Santa Cruz, Bolívia, Rubén Costa realizará um referendo pela autonomia, que é ilegal e inconstitucional, o que colocou esse país e a América Latina num dos seus momentos mais perigosos e ameaçadores.

 

Nesse cenário, está a jogar-se a única possibilidade que o povo boliviano – maioritariamente indígena – teve para sair de séculos de dominação, terror, discriminação, pobreza e abandono, e recuperar os seus direitos e a sua dignidade. Mas também se joga o futuro da América Latina no seu conjunto, num tempo novo onde se vislumbra que “sim pode­‑se” desafiar os mandatos da ditadura mundial.

 

No dia 26 de Abril passado a Organização de Estados Americanos (OEA) convocou uma sessão extraordinária em Washington, onde se reconheceu de forma unânime que existe uma institucionalidade democrática na Bolívia, e se reclamou diálogo aos prefeitos da Meia Lua (Santa Cruz, Pando, Tarija e Beni) que não escutam vozes, leis ou constituições. Mas isto deve converter-se numa acção concreta contra todo o golpismo.

 

O chanceler boliviano, David Choquehuanca, expôs abertamente as ameaças sobre o seu país, que persistem desde a chegada de Evo Morales ao governo, que assumiu em Janeiro de 2006.

 

A acção dos Estados Unidos, que manobra todos os fios da guerra suja e da desestabilização, é permanente, sem trégua. Isso agravou­‑se ainda mais com o envio para esse país do embaixador Philip Goldberg, um reconhecido atiçador de fogos para separatismos e guerras fratricidas. Tinha o terreno lavrado pelo seu antecessor, o antigo embaixador David. N. Greenlee, cuja história em dois períodos na Bolívia é um tratado de ingerências, impunidades e crimes.

 

Goldberg, reconhecido como especialista em agudizar conflitos étnicos ou raciais e pela sua intervenção e experiência nas lutas étnicas desde a Bósnia até depois do desmembramento da antiga Jugoslávia, ia ser chave para a Bolívia. Ninguém duvidou que a sua mão estaria por detrás do intenso processo separatista de Santa Cruz de la Sierra, cenário propício para os planos do seu governo, exacerbando os elementos de racismo e ódio contra a população indígena, o esclavagismo imperante, e que estiveram na origem das ditaduras e das imposições neoliberais, finalmente derrotadas pelo povo boliviano numa luta heróica nos últimos anos.

 

No passado diplomático do embaixador figuram as suas assessorias no departamento de Estado, entre outras no caso Haiti, e a sua passagem pela África do Sul, pela Colômbia e pelo Paraguai. Após ser Ministro Conselheiro da Embaixada em Santiago do Chile de 2001 a 2004, Goldberg foi outra vez para os Balcãs à cabeça da missão no Kosovo, onde trabalhou para a separação dos Estados da Sérvia e Montenegro até 2006.

 

Quando chegou à Bolívia, em Santa Cruz os empresários croatas ali estabelecidos (seus amigos) já tinham formado o movimento “Nação Camba”, um de cujos principais dirigentes – com laços empresariais no Chile e noutros países –, Branco Marinkovic, acabou a dirigir o Comité Cívico local, o maior promotor da desestabilização, com forte influência no resto da Meia Lua, onde se concentram as maiores riquezas do país.

 

Que o terreno estava bem lavrado no interior da Bolívia e seus arredores indicam­‑no as denúncias prévias à assunção de Morales.

 

Já em meados de 2004 a agência de notícias Bolpress denunciou que, perante a perspectiva do triunfo de Morales, funcionários da embaixada estadunidense em La Paz advertiram membros das Forças Armadas e civis bolivianos que Washington via como «uma ameaça à sua segurança» a possível chegada ao governo da Bolívia de «um populismo radical», que podia violentar a América do Sul, e especialmente a Região Andina.

 

Também se assegurou que isto poderia dar lugar a uma intervenção «por convite», como avisou o então director da instituição Segurança e Democracia, Juan Ramón Quintana, que sustentou que poderia suceder uma «intervenção, mediada pela cobertura das Nações Unidas e da OEA no cenário boliviano».

 

Outro sinal externo ameaçador foi a imposição da imunidade absoluta para as tropas dos Estados Unidos, em meados de Maio de 2005, no Paraguai.

 

Essas tropas estiveram a trasfegar em manobras pelas fronteiras do Paraguai, onde estão localizados – como uma rede – os quartéis militares desse país, no preciso momento em que Evo Morales levava avante as suas fortes medidas, anunciadas no programa de governo.

 

As forças especiais dos Estados Unidos deslocam-se na fronteira comum com o Paraguai em manobras dissimuladas em suposta “Acção Cívica”, que é uma velha táctica contra­‑insurgente para assegurar o controle de populações, enquanto se vai deixando uma inquietante infra-estrutura.

 

O traçado no Paraguai está preparado para qualquer aventura militar na zona, com as chamadas “Localizações Operativas Avançadas” (EOA) em lugares geopoliticamente chaves, entre os quais se inclui uma enorme pista de mais de três mil 800 metros de comprimento no quartel militar paraguaio de Mariscal Estigarribia.

 

Esta pista foi construída pelos Estados Unidos desde a época do ditador Alfredo Stroessner (1954­‑1989) e modernizada nos últimos tempos, assegurando a possibilidade de que nesse lugar estratégico – a apenas 250 Km da fronteira com a Bolívia – possam aterrar os maiores aviões de transporte com tropas, equipas de todo o tipo e armamentos de guerra.

 

Em Agosto de 2005 o especialista brasileiro em geopolítica Leonel Almeida Mello avisava que não podia se descartar que «esse “cerco” [a presença militar no Paraguai] seja um sinal para fazer notar ao Brasil que os Estados Unidos não compartilham a sua estratégia de liderar e fomentar a coesão sul­‑americana incluindo líderes como Hugo Chávez ou dialogando com Evo Morales».

 

De acordo com a sua hipótese, «ao estabelecer-se no Paraguai, o Pentágono pensa mais no quadro imprevisível que hoje é apresentado pela Bolívia, que é o centro do território sul-americano, o centro do equilibro do poder do subcontinente, faz fronteira com o Brasil, a Argentina, o Chile e o Peru. Qualquer conflito na Bolívia ameaça a América Latina [...]. Por isso, acho que as denúncias de [Donald] Rumsfeld sobre a infiltração chavista na Bolívia só conseguem inflamar mais a situação. É uma lógica de guerra».

 

Referia-se a declarações do ex­‑secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, num giro pela região, quando denunciou a «penetração venezuelana e cubana» na Bolívia e sustentou que o então candidato Evo Morales «seguia instruções dos governos da Venezuela e de Cuba» e portanto ficava na «lista negra» regional.

 

Para Goldberg também não era difícil “acicatar” as tensões sociais agudizadas, porque a oligarquia medieval boliviana sentia como uma afronta que um indígena chegasse ao governo e negava­‑se a aceitar que não tinham sido suficientes os mais de 500 anos de dominação para acabar com aquela presença de profundas raízes culturais próprias e não contaminadas.

 

A influência dos dirigentes da “Nação Camba” (a Meia Lua) estendeu-se e ateou fogos também em Cochabamba, onde a acção popular fez fracassar as tentativas de Manfred Reyes Villas, o qual tentou ilegalmente forçar um referendo autonómico para unir Cochabamba com Santa Cruz.

 

Este antigo capitão, ligado às ditaduras de Hugo Bánzer e García Meza, promoveu a organização de grupos de jovens fascistas ao estilo santa­‑cruzenho e produziram-se trágicos incidentes com mortos e feridos, para acabar “refugiado” em Santa Cruz auxiliado por Goldberg e pela CIA.

 

No dia 24 de Novembro de 2006, a Erbol-Agencias denunciou que um grupo de empresários e proprietários de terras de Santa Cruz enviou uma comissão a Espanha para contratar mercenários que têm várias agências nesse país.

 

Isto foi confirmado por investigações de El Confidencial Digital, página de Internet, mediante entrevistas às próprias empresas de mercenários em Espanha que foram contactados por dois emissários enviados por empresários e proprietários de terras de Santa Cruz para desenvolver uma “opção de força” na Bolívia.

 

El Confidencial documentou pelo menos três reuniões dos directores de uma empresa de segurança com os clientes “golpistas”. Segundo esses dados, dispunha-se então de 650 combatentes, «antigos membros de unidades de elite, que estão repartidos em zonas limítrofes à Bolívia».

 

Foi também dito que «as hipóteses mais prováveis sobre a identidade dos promotores dessa iniciativa conduzem a industriais e proprietários de terras que actuariam com o apoio de alguns políticos dos departamentos de Santa Cruz, Beni e Pando». Ficaram a nu as circunstâncias de encontros dos líderes golpistas da Bolívia com o Partido Popular de Espanha para apoiar a “guerra suja”.

 

Também houve sérias denúncias, com dados concretos, sobre a participação da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e da National Endowment Foundation (NED), segundo dados dos serviços de inteligência do Estado Boliviano e de outros analistas, nos planos golpistas, o que significou a repartição de milhões de dólares por organizações de todo o tipo, incluindo estudantis, jornalísticas, partidos políticos, intelectuais, empresários e outros, com objectivos precisos para fazer fracassar a Assembleia Constituinte, utilizando inclusive forças de choque, a propiciação de confrontos, movimentos pelas autonomias, greves “cívicas”, mobilizações permanentes nas sete regiões do país, “violência de rua” e outros até levar à queda do governo.

 

Isto é assinalável na maioria dos meios de comunicação de massas, activos protagonistas das novas contra­‑insurgências, que impulsionam um confronto interno e uma intervenção externa.

 

O ano de 2007 foi muito difícil e inclusive produziram-se os atentados com dinamite contra o consulado da Venezuela e uma residência de médicos cubanos em Santa Cruz ou a tentativa de atacar um avião venezuelano no aeroporto dessa cidade, entre outros graves acontecimentos aos quais se juntaram outros atentados realizados por um casal de estadunidenses e a detenção de uma funcionária dos Estados Unidos que trazia do seu país nada menos que caixas de munições para a sua “sede” diplomática, segundo disseram os seus chefes.

 

Agora estamos no cenário mais próximo àquelas denúncias, e do sucedido com as greves empresariais, greves de transporte e acções que reproduziam as acções empreendidas contra o governo da Unidade Popular do presidente Salvador Allende no Chile antes do golpe decidido pelos Estados Unidos e executado pelo antigo ditador Augusto Pinochet, em Setembro de 1973.

 

No ano passado, durante a XVII Cimeira Ibero­‑americana de Santiago do Chile, o presidente Morales denunciou as conspirações dos Estados Unidos e da oligarquia do seu país contra o seu governo, e exibiu perante os presidentes e chefes de Estado fotografas que mostravam o embaixador Goldberg sorrindo numa fotografia junto a um “mafioso” e mercenário paramilitar colombiano, Jhon Jairo Vanegas, e ao presidente da Câmara de Indústria e Comércio de Santa Cruz (Cainco), Gabriel Dabdoub.

 

Também foi denunciado o apoio a esta conspiração de fascistas espanhóis e outros europeus, sob o impulso muito evidente do ex­‑primeiro­‑ministro José María Aznar.

 

A greve do transporte rodoviário de Federações filiadas na Confederação Nacional de Condutoras da Bolívia, no final de 2007, com apoio empresarial de Santa Cruz, foi uma das fortes tentativas, assim como a chamada “rebelião” dos produtores do campo nestes últimos meses, que também tentaram parar o país, desabastecer e criar condições para o caos e o golpe.

 

Isto é apenas uma síntese de todas as acções a que o governo e o povo da Bolívia resistiram nestes dois últimos anos, destinadas a criar um conflito que poderia culminar num golpe e inclusive numa intervenção para a qual se criaram as condições.

 

Golpear a Bolívia é crucial para o governo de George W. Bush, quando é visível a sua derrota no Iraque, após cinco anos a semear o terror (mais de um milhão de mortos) nesse país e quando a situação económica nos Estados Unidos é de extrema gravidade num ano eleitoral.

 

Por isso acirra todos os conflitos, como o que Washington criou entre o Equador e a Colômbia. Agora acrescenta­‑se outro factor, que é o triunfo do antigo bispo Fernando Lugo no Paraguai, um país que os Estados Unidos sempre consideraram como um território próprio.

 

É a América Latina, através dos seus governos e dos seus povos, que deverá actuar e impor a organizações como a OEA, a defesa do governo da Bolívia, eleito pelo povo desse país num acontecimento histórico.

 

A Bolívia precisa de todos nós unidos, para além de miserabilidades políticas ou confusões mediáticas.