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Novembro 2005 O movimento social na Bolívia, poderoso e fragmentado Maurice Lemoine Se as manobras de última hora dos sectores mais conservadores não
conseguirem adiá-las, as eleições gerais de 4 de Dezembro na Bolívia poderão
ser “históricas”. Neste momento, e apesar das divisões que os atingem, os
movimentos sociais estão prestes a aceder ao poder político levando pela primeira
vez um indígena, no caso Evo Morales, à presidência da República. Aqui, em Huanuni, nos recessos caóticos do Altiplano [1], existe uma
mina de estanho. Noutros lados, há ouro, cobre, antimónio, prata, zinco. Ou
petróleo e gás natural, matérias-primas que incendeiam os ânimos, se assim
podemos dizer... Mas aqui, em Huanuni, se se esburaca as entranhas da terra
até 240 metros de profundidade, na escuridão opressiva de quilómetros e
quilómetros de galerias, é para lhe arrancar o estanho. Vinte e quatro sobre
vinte e quatro horas, 850 mineiros esfalfam-se em troca de 1000 bolivianos
por mês – cerca de 125 euros. «Trabalhamos mesmo ao domingo», admite um
deles, «para ganhar três mitas». A mita corresponde a um dia de
trabalho; se sacrificar o seu repouso semanal, o mineiro recebe o triplo do
que receberia num dia vulgar. Quer isto dizer que as pessoas, aqui, nada têm a perder. Se for
preciso, quando for preciso, desembarcarão em La Paz, com dinamite nas mãos.
«Tivemos mortos, mas o nosso papel foi fundamental na queda de “Goni” e de
Mesa». “Goni” é Gonzalo Sánchez de Lozada, presidente ultraliberal oriundo
do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), derrubado por uma revolta
popular e sangrenta – 67 mortos –, a 17 de Outubro de 2003. Mesa é Carlos
Mesa, o seu vice-presidente e sucessor, que teve por sua vez que se demitir, a
6 de Junho de 2005, após três semanas de convulsões sociais. Desde 1985, fossem de direita ou pretensamente de esquerda, todos os
governos seguiram dogmaticamente as linhas da nova política económica, posta
em prática pelo Decreto 21060: privatização das minas, das telecomunicações,
dos transportes aéreos e ferroviários, da água, da electricidade, dos
sectores petrolífero e do gás. O despedimento de 25.000 mineiros, aquando da passagem para os privados
das minas de estanho, atingiu em cheio a Central Operária Boliviana (COB) de
que eles eram o coração, a carne e o sangue. Contrapoder desde a revolução de
Abril de-1952, foi ela, a COB, que combateu os militares durante todo o
período da ditadura, até 1982. O fecho de fábricas, a que se juntou o choque
ideológico provocado, em 1989, pela queda do Muro de Berlim, acabaram por
desmembrar este movimento impregnado de marxismo. O campo da luta esvaziou‑se.
Pelo menos aparentemente. Porque, como sublinha o sociólogo Alvaro García
Linera, «a sociedade cria então outros mecanismos de representação e de acção
política: os movimentos sociais, articulados através de redes territoriais». Os primeiros, organizados em comunidades agrárias (sindicatos), os cocaleros,
começaram a surgir na região de Chapare. Produtores de coca, eles resolveram,
através desta cultura, o problema vital – sobreviver! – com que estavam
confrontados. Washington não escondeu a sua cólera. Na cruzada contra o
narcotráfico, a Casa Branca só tem uma obsessão: fazer desaparecer a coca e
os cocaleros, metidos no mesmo saco que a cocaína, através de
políticas coercivas, pela erradicação forçada e pela repressão. Resistindo a
tudo isto, aparece um dirigente, um combatente, um índio aymara, chamado Evo
Morales. Em 2000, Cochabamba mobiliza-se por sua vez para expulsar a
multinacional Bechtel, escandalosamente beneficiada pela privatização da água
potável. O país agita-se, o país balança, o país sacode a era glacial do
neoliberalismo. Presidente do sindicato dos cocaleros, Evo Morales abre
para si mesmo um espaço nacional, através da criação, em 1999, do Movimento
para o Socialismo (Movimiento al Socialismo, MAS), mais uma confederação de
organizações sociais do que um partido. Deputado de Cochabamba desde 1997,
batido claramente nas eleições presidenciais de Junho de 2002, coloca então
36 deputados (entre os quais ele próprio) e senadores no Congresso (a partir
das eleições municipais de 2004, o MAS tornou-se a principal força política
do país). Paralelamente, múltiplas organizações entregam-se à luta: a poderosa
Confederação Sindical Unitária dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia
(CSUTCB), base social do muito radical Movimento Indigenista Pachakuti (MIP);
o Movimento dos Sem Terra da Bolívia (MST-B); o que resta da COB – os seus
filiados, os Sindicatos Operários Regionais (SOR) –; os cooperativistas e os
coordenadores da água; e ainda os comités de bairro, sobretudo os de El Alto,
impressionante cidade-dormitório de 800.000 ex-camponeses ou mineiros,
maioritariamente indígenas, pousada, quinze minutos acima de La Paz, sobre a
poeira ocre do Altiplano. Unidos no seio da Federação dos Comités de
Vizinhança (Fejuves), foram eles que negociaram com a multinacional Aguas de
Illimani (Suez-Lyonnaise des eaux). Da luta pela água à luta pelo gás, vai um
passo... Produtora de petróleo, a Bolívia possui as segundas maiores reservas
de gás da América Latina, depois da Venezuela. A Constituição consagra a
propriedade inalienável do Estado sobre os recursos naturais presentes «no
subsolo». A 30 de Abril de 1996, num espantoso passe de magia, a Lei n.º 1689
concedeu às companhias privadas a propriedade dos hidrocarbonetos a partir do
momento em que estes, emergindo embora do “inalienável” subsolo... afloram à
superfície do poço. Exploração, produção, transporte, refinarias,
distribuição e comercialização caem assim nas garras das multinacionais. Considerados
como “novos”, os campos petrolíferos e de gás natural descobertos a partir da
lei de 1996, assim como as jazidas não exploradas até essa data, passam a ser
taxados a 18 por cento, quando os “antigos” (muitas vezes rebaptizados como “novos”
depois de artifícios grosseiros) o eram a 50 %.
Para tentar fazer saltar os
ferrolhos que mantêm a Bolívia fechada num modelo excludente, aliança
“da gravata e do poncho”: os candidatos do Movimento para o Socialismo
(MAS) à presidência, o sindicalista aymara Evo Morales
(ao centro), e à vice-presidência, o intelectual Alvaro García Linera (à
sua direita), desfilando nas ruas de La Paz. Fingindo não reparar na exasperação do povo, o presidente Sánchez de
Lozada montou um gigantesco projecto de exportação de gás natural liquefeito
para a Califórnia. Um chorudo negócio para o consórcio Pacific LNG, uma
verdadeira pilhagem do país. Pior ainda, o gasoduto planeado atravessaria o
Chile, “inimigo hereditário” desde a desastrosa guerra de 1879. A população
subleva-se. “Goni” ordena às tropas que disparem sobre as multidões. Confrontado
com a tenacidade destas, decide afastar-se para longe da Bolívia. Quem lhe
sucede é o seu vice-presidente, Carlos Mesa. Recuperação dos recursos naturais, “nacionalização” dos hidrocarbonetos
e convocação de uma Assembleia constituinte figuram na ordem do dia de todas
as facções das forças populares. Submetido a esta pressão, mas apoiado
circunstancialmente por Evo Morales, o chefe de Estado organiza um referendo
sobre os hidrocarbonetos, a 18 de Julho de 2004. A população participa e, por
uma larga maioria (70 por cento), pronuncia-se a favor da «recuperação» da
sua propriedade pelo Estado. A 21 de Outubro, para grande prejuízo do presidente Mesa, que a
considera «abusiva» e «confiscatória» para as multinacionais, o Congresso
aprova uma nova lei que aumenta a intervenção do Estado nos negócios
petrolíferos e cria um imposto directo sobre os hidrocarbonetos (IDH) de 32
por cento sobre a produção (o que, juntando aos 18 por cento em vigor, eleva
a taxa cobrada pelo Estado a 50 por cento). Um avanço para alguns, entre os
quais o MAS. Uma traição para os radicais da COR e da Fejuves de El Alto, da
COB e do MIP, defensores de uma nacionalização pura e dura, que se traduziria
por uma expulsão das multinacionais, sem indemnização... É que, capaz de unir-se em tempo de crise, esta vasta torrente
contestatária caracteriza-se por uma enorme fragmentação. «Divisões
territoriais, ideológicas, religiosas e de classe», precisa García Linera,
considerado por muitos como o “ideólogo do movimento social”. Ele sorri – «É
muito generoso... » –, mas o detalhe tem a sua importância, como se verá mais
adiante. «Em certos momentos», retoma, «este movimento construiu unidades
territoriais, locais, em torno de temas muito quotidianos – água,
electricidade, energia. Em período de tensão, isto transforma‑se em
força e em acções colectivas, que, no momento mais forte da confrontação, se
articulavam em movimentos de massas. Antes de voltar a mergulhar na divisão,
uma vez atingido o objectivo comum.» Aquando das eleições de 2002, Evo Morales tivera que sofrer os golpes
da direita e de Washington: «narco‑cocalero», «instrumento de Chávez e
de Castro», «amigo das FARC [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia]». Invertida
a situação, são agora os “duros” do movimento popular que o atacam. «Evo é um
traidor», fulmina Jaime Solares, dirigente da COB. «Comprometeu-se a lutar
pelas nacionalizações e, cúmplice do governo, não o fez». Os libelos
circulam, evocando «o papel de Evo Morales na estratégia e nos planos da CIA
e do Departamento de Estado americano para quebrar os protestos sociais». O líder do MAS não se deixa perturbar com isto: «Não houve pacto com
Mesa, não houve nenhuma aliança. Se houver medidas más, nós rejeitamo-las. Mas
quando são boas, como a convocação do referendo, nós apoiamo‑las». Efectivamente,
o MAS volta à ofensiva desde que se torna claro que Mesa, apostando no
esvaziamento da contestação, leva à prática um imobilismo despropositado. Subitamente,
a Bolívia volta a ser tomada por uma agitação que ninguém pode acalmar. Radicais,
moderados, rurais, urbanos, todos relançam a luta com tanto mais ardor que a
direita neoliberal começa a reorganizar-se em torno das elites brancas das
províncias ricas a leste do país, Santa Cruz e Tarija. Os seus Comités
cívicos reclamam autonomia e pretendem que cada departamento disponha
livremente dos seus recursos financeiros e naturais. Ou seja, o gás e o
petróleo, cujas principais jazidas se encontram sob os seus pés, e que eles
tudo fazem para vender nas condições anteriores, de forma a não penalizar as
multinacionais, suas fiéis aliadas. El Alto desce sobre La Paz, o território dos brancos, a classe
dominante, o poder de Estado. Fala-se de pôr em marcha uma Assembleia Popular
Revolucionária, embrião de um “Estado operário e camponês”, sob a direcção da
COB. Um “soviete” destinado a fazer cair o “conciliante” Evo Morales. Para os
moderados., uma “provocação de extrema‑esquerda”, que faz o jogo da
extrema-direita. Isto porque se a COB recusa a mediação da Igreja, o seu
chefe, Solares, esquecendo os anos da ditadura, apela à... intervenção do
exército! Enquanto circulam rumores de golpe de Estado, Morales denuncia as
pretensões da “nação camba” (os autonomistas de Santa Cruz), ao mesmo
tempo que apoia uma saída constitucional. Embora assente numa miríade de organizações instáveis, oportunistas,
que fazem pactos e acordos umas com as outras, que se opõem entre elas, que
lutam ferozmente, que se traem.... a oposição não deixou de conseguir, ainda
assim, paralisar o país, em Maio e Junho de 2005, levando Mesa à demissão, a
6 de Junho. Constitucionalmente, Hormando Vaca Diez, senador do MIR (Movimento da
Esquerda... Revolucionária [2]!) de Santa Cruz, e presidente do Senado,
deveria assumir a sucessão. A fim de conservar o poder, os outros partidos
tradicionais – Nova Força Republicana (NFR), Aliança Democrática Nacional
(ADN) e Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR, partido de Sánchez de
Lozada) – apoiam-no. A agitação atinge o paroxismo. Ninguém aceita esse
proprietário de terras, perfeito supletivo do lóbi petrolífero. A revolta prossegue
quando o nome de Mario Cossío (MNR), presidente da Câmara dos Deputados, ele
próprio um ex-aliado de “Goni”, é evocado. Acaba por ser Eduardo Rodríguez,
presidente do Supremo Tribunal (o único habilitado a convocar novas eleições)
que o Congresso, aterrorizado com a ameaça de uma guerra civil, instala na
presidência, a 10 de Junho. É também ele que, depois de um acordo político
nacional destinado a tirar o país do caos, e depois de o Congresso ter
aprovado uma reforma da Constituição (artigo 93), convoca efectivamente
eleições gerais para 4 de Dezembro de 2005.
Uma maioria indígena
historicamente marginalizada Trata-se de um grande passo em frente para o MAS, pois Morales
encontra-se em excelente posição para as presidenciais. «São eleições
históricas», afirma, expressando um sentimento muito difundido, Alex
Contreras, dirigente da Escola do Povo 1.º de Maio, em Cochabamba. «Após
vinte anos de recuperação do sistema democrático, é a primeira vez que o
movimento social, popular e indígena se encontra tão perto de conquistar o
poder». É também a primeira vez que um índio tem hipóteses de aceder à
magistratura suprema na Bolívia – e no continente. Acontece que os dois grandes blocos deste movimento social, depois de
terem triunfado juntos, continuam a dilacerar‑se. Ambos possuem uma
base maioritariamente indígena, ambos têm uma composição urbana e rural. Os
radicais, agrupados em torno da COB, do MIP e da Fejuves de El Alto,
mobilizam-se na zona aymara (o Altiplano), a mais combativa do país, com um
discurso étnico muito forte. A mobilização do MAS apoias‑e igualmente
numa base agrária (camponeses de Chapare, de Yungas, de Sucre, de Potosi, de
Oruro, de Santa Cruz; camponeses sem‑terra e confederações indígenas
do leste do país) e nos sectores assalariados urbanos, tendo ainda
estabelecido ligações com as corporações, e, sem insistir na integração e na
revalorização da identidade étnica, conta com um número significativo de
mestiços, numa abordagem que poderíamos classificar de “nacional”. Na sede da COB, Solares entusiasma-se ao evocar «a revolução
operária-camponesa, ou seja, a tomada do poder pela insurreição popular». Este
homem não aceita nenhum compromisso e, sem dúvida para fazer esquecer as sombras
que sujam o seu passado [3], recuperou um vocabulário de forte carga
simbólica: «Nós, os trabalhadores, pensamos que vem aí uma guerra civil ou
uma revolução». E embora eles [a COB] não sejam numerosos, nota um atento
observador da sociedade boliviana, «disfarçam a sua fraca capacidade de
mobilização» – quem a consegue são os índios e os camponeses – «atrás de uma
retórica ultra‑radical, funcionando como uma espécie de má consciência
da esquerda. Solares sabe que o seu discurso não é realista, mas está‑se
nas tintas, porque vai encurralando o MAS, mais moderado, capitalizando esta
liberdade de dizer o que muito bem entende». O mesmo se passa com Roberto de la Cruz, dirigente da COR de El Alto,
que propõe muitas ideias, cada uma mais radical do que a outra: formar uma
Assembleia Popular, criar grupos de choque para combater os cambas e
um Exército de Libertação Nacional. É um indivíduo ideologicamente confuso,
mas muito decidido nos momentos de crise e, nesses períodos, capaz de
inflamar os seus partidários. Tal como Abel Mamani, dirigente da Fejuves de
El Alto: «Ele tem a virtude de compreender que é preciso resistir. Ao
resistir, sai a ganhar. Mas, politicamente, dispersa-se muito.» Líder do MIP e dos índios camponeses da CSUTCB, Felipe Quispe
dirigiu, nos anos 90, o exército guerrilheiro Tupac Katari (EGTK), antes de
ser detido e preso durante cinco anos. Aquele a quem chamam o malku
(condor, em aymara) defende o regresso ao Collasuyo [4]: «Nós queremos
construir o nosso próprio Estado confederado, o nosso próprio governo,
dirigido por um presidente indígena, o nosso próprio exército, a nossa
própria economia, enquanto descendentes de Wayna Qhapak, o governo soberano
dos incas». Analisando a situação como uma “guerra das raças”, ele
estigmatiza tanto os q’aras (não índios) de direita como de esquerda,
e comenta desta forma os últimos acontecimentos: «O povo triunfou. Deitámos
abaixo Mesa e o MAS, que tinha pactuado com ele.» Estamos perante diferenças políticas e ideológicas. Mas também, e
talvez sobretudo, trata-se de um confronto entre direcções e caudilhos. Mais
velho, Quispe tem dificuldade em ver Evo Morales, cobrizo [5] como
ele, a suplantá‑lo junto dos indígenas (a CSUTCB, que ele dirige, na
prática dividiu-se em dois) e no conjunto da oposição. Resistências similares
encontram-se nos dirigentes secundários: Mamani (Fejuves de El Alto), por
exemplo, não disputa a liderança de Morales, mas não quer ser um simples
subordinado. Testemunhas da progressão do MAS, único movimento político-social
surgido da acção colectiva popular que conseguiu passar do quadro local para
o nacional, os dirigentes da COB, do MIP, da Fejuves sonham, cada um deles,
com a formação de um novo instrumento político, sem no entanto terem para
isso os meios necessários. Daí haver neles um forte sentimento de frustração. Alguns episódios extravagantes dizem por vezes muito sobre as
ambições pessoais e a confusão ideológica. É o caso de Solares (COB) quando
ataca Morales – «Evo nunca falou pelos trabalhadores ou pelo proletariado;
ele só se interessa pela coca, pelos territórios, pela identidade [indígena]»
– antes de anunciar: «Nós vamos fazer uma grande aliança revolucionária com
Felipe Quispe». O mais intransigente dos indigenistas do continente
americano! Se a ideia fosse avante, a candidatura a vice-presidente de Solares,
para acompanhar o MIP e o malku, estaria rapidamente condenada ao
fracasso... Por seu lado, ameaçando lançar mobilizações em 2006 se as suas
pretensões não forem satisfeitas, Mamani informa que decidiu apoiar o MAS ou
o Grupo dos Seis (G6), uma coligação dos presidentes de câmara de La Paz,
Cochabamba, Potosi, Sucre, Oruro e Cobija, que pretendem representar a “esquerda
moderna”, quando tudo os separa, da prática à ideologia, muitíssimo
neoliberal para alguns deles [6]. Mesmo as organizações de segunda linha fazem subir as apostas. «As
iniciativas não estão ligadas aos problemas de fundo», assinala Contreras, «mas
às quotas de poder que cada um poderia obter, com ou contra o MAS, no
Congresso». Isto condena qualquer aliança ao insucesso ou, em todo o caso,
atrasa-a, o que leva por vezes Morales a suspirar: «Na América Latina, somos
bons a derrubar presidentes. Deveríamos mostrar‑nos igualmente bons a
substituí-los». E em seguida precisa: «A participação de todos seria
desejável. Mas é preciso analisar a situação em profundidade. Eu não tenho
uma posição maximalista que envolva o recurso à luta armada, à insurreição,
ao golpe de Estado. Eu aposto numa mudança de modelo económico e social,
baseada na consciência do povo e na democracia».
Minas de estanho de Huanumi:
«Mantenha a porta fechada» Uma crise de características pré‑revolucionárias, mas ao mesmo
tempo desprovida de instrumentos políticos? Não exactamente. Porque a base
não segue forçosamente os que dizem representá-la. Em El Alto, conta Nestor
Guillén, dirigente da Villa el Ingenio (que faz parte da Fejuves), as
manifestações eram originariamente organizadas pelos dirigentes. «Compañeros,
é preciso ganhar a rua!» Pouco a pouco, a situação mudou. Nos bairros, são os
habitantes que decidem: «É preciso sair! É preciso marchar!» Uma exigência
vinda de baixo para cima. «A capacidade de mobilizar El Alto depende não da
Fejuves, mas do facto de que os distritos e os prédios, nas suas assembleias,
decidem que é preciso agir. Sem isso, Mamani pode convocar tudo o que quiser que
ninguém o seguirá». É assim que, apesar do apelo ao boicote do seu chefe, os
habitantes de El Alto participaram massivamente no referendo sobre os
hidrocarbonetos, dando implicitamente razão ao MAS, que eles voltarão a
apoiar, tudo o indica, nas próximas eleições. Quanto a Quispe, digamos que serrou o ramo no qual estava sentado
quando, eleito deputado do MIP (seis lugares), em 2002, rapidamente abandonou
o cargo, declarando: «Prefiro trabalhar nas campanhas e fazer o trabalho
político que sempre foi o meu». Ao perguntarem-lhe se desejava regressar ao
Parlamento, respondeu com a sua característica franqueza: «Eu não nasci para
ser deputado, nasci para ser presidente!» O episódio deixou marcas. «Esta
atitude demonstra que ele não tem capacidade para fazer política», resume
Guillén. «Don Evo [Morales], esse, assumiu o seu mandato parlamentar, sempre
mostrou que está contra o modelo e permaneceu na área da governação, a levar
adiante o seu combate». Seja como for, o MAS marca um ponto decisivo quando, a 16 de Agosto
de 2005, designa como candidato à vice‑presidência o sociólogo Alvaro
García Linera, que pegou em armas com o EGTK de Quispe e, como este último,
esteve preso até 1995. Capaz de declarar: «fiz parte de um grupo de guerrilheiros
e não me arrependo, continuo a ser o mesmo de há 15 anos, simplesmente hoje
mudei de método», ele é visto como uma referência no seio do movimento
social. De facto, a sua nomeação aproximou rapidamente do MAS seis federações
de camponeses, sectores das cooperativas mineiras, centrais sindicais
regionais importantes (Oruro, Potosi, Cochabamba), transportadores de El Alto
e até a Fejuves [7]... Como se não bastasse, García Linera, considerado um
dos intelectuais mais influentes da Bolívia, abre uma brecha no seio da
classe média, tal como junto dos universitários e dos estudantes. Isto
significou um crescimento do MAS, largamente à frente nas sondagens, em
detrimento de Jorge Quiroga, trânsfuga do ADN (o partido do falecido ditador,
depois presidente democraticamente eleito, Hugo Banzer) e candidato preferido
pela Embaixada dos Estados Unidos. Isto é suficiente para provocar o pânico no campo neoliberal que, em
desespero de causa, para ganhar tempo e um balão de oxigénio, tentou adiar as
eleições. Esquecendo que a convocação antecipada foi fruto de um acordo
político que decidiu agir para lá da letra da Constituição, devido à
profundidade da crise, os parlamentares de Santa Cruz, a 4 de Agosto,
recorreram para o Tribunal Constitucional. Denunciaram a violação do artigo
60 da dita Constituição, que define os lugares na Câmara dos Deputados a
partir do último recenseamento, no caso o de 2001. Dada a urgência da
situação, este item não foi tido em conta. Acontece que ele permite constatar
um aumento de população no eixo La Paz-Santa Cruz-Cochabamba, que deveria
aumentar a sua representação parlamentar e diminuir a do Altiplano. A 22 de
Setembro, o Tribunal Constitucional aceitou o pedido, abrindo a porta a uma
nova fase de intensa agitação. Qualquer que seja a data do próximo escrutínio, a Assembleia
Constituinte e a nacionalização dos hidrocarbonetos resumem a crise e a
esperança do país. Nesta matéria, o MAS, que não dúvida da sua vitória, não
tem a intenção de se atirar de cabeça para acções irreflectidas. «Uma
nacionalização sem indemnizações, como a proposta pelos radicais, faria com
que regressássemos aos anos 60, mas num país tão pequeno, que vive da ajuda
dos organismos internacionais, colocar-nos-ia numa situação pior do que a
sofrida por Cuba devido ao bloqueio», analisa Contreras [8]. García Linera
vai no mesmo sentido, quando avança: «É uma questão de relação de forças. Eu
sou favorável a uma solução pragmática. Que fazer com a Petrobras, ou seja,
com o governo brasileiro? Um país de 80 milhões de habitantes! Devemos ser prudentes».
Morales resume: «Muitas multinacionais operam em virtude de acordos ilegais e
anticonstitucionais, fazem contrabando e não pagam impostos. Vamos fazer respeitar
a lei, mas apostamos numa nacionalização feita através do diálogo e da
concertação». Colocado em perspectiva, isto é exactamente o que fez a
revolução bolivariana, na Venezuela. Um tipo de desenvolvimento no qual o
Estado desempenha um papel central, mas que se pode fazer com investimento
estrangeiro. Quanto à Constituinte, face a uma direita que não a deseja – «se
estivermos a falar de uma Assembleia com a capacidade de virar o país do avesso,
afectando os direitos à propriedade, particularmente os relativos aos
recursos naturais e à terra, e na qual 60 por cento dos representantes seriam
indígenas» [9] –, o MAS pretende eleger uma Constituinte maioritariamente
índia (à imagem do país), plenamente soberana, sem qualquer tipo de
limitações ou restrições prévias. Mais uma vez, como na Venezuela! Em qualquer caso, os Estados Unidos não se enganam ao fazerem do
dirigente do MAS o seu inimigo número um. «Não é segredo para ninguém que Evo
Morales é apoiado por Caracas e Havana, onde se encontram os seus maiores
aliados», acusa Roger Noriega, subsecretário de Estado americano para a
América Latina. Ao que o interessado respondeu, a 31 de Julho, aquando da sua
proclamação como candidato à presidência da República: «Chávez e Fidel não
pertencem de forma nenhuma a um qualquer Eixo do Mal. Eles são os comandantes
das forças libertadoras do continente». E assim se revelam, afinal, os
limites da sua “moderação”. Reportagem fotográfica do autor. ______ [1] Alto planalto andino, na parte oeste da Bolívia e no Sudeste do
Peru. [2] Criado nos anos 70 para lutar contra o militarismo, o MIR
transformou-se num partido neoliberal, totalmente corrompido, mas não mudou
de sigla: num país tão pobre como a Bolívia, afirmar-se de esquerda constitui
um capital político. [3] Segundo testemunhos coincidentes, Solares teria sido, nos centros
mineiros, um informador dos grupos de segurança do Estado. Ex-dirigentes
mineiros, presos durante a ditadura de Luiz García Meza, declararam
publicamente terem sido denunciados por ele. [4] Pátria ancestral do Império Inca (a metade ocidental da Bolívia,
uma parte do sul do Peru, o norte da Argentina e do Chile). [5] Cor da pele reivindicada pelos índios radicais. [6] No fim de contas, a coligação do G6 chegou ao fim, minada pelas
suas próprias contradições. [7] Resolvendo à sua maneira o problema do “líder” de El Alto, o MAS
fez de Mamani o seu candidato à prefeitura de La Paz, onde não tem a mínima
hipótese de ser eleito. [8] Desde já, a Petrobras (Brasil), a Repsol-YFP (Espanha-Argentina),
a British Gas (Grã-Bretanha) e a Total (França) anunciaram a suspensão dos
seus investimentos na Bolívia. Paralelamente, as multinacionais recorrem aos
acordos internacionais de protecção recíproca dos investimentos para
contestar a nova lei dos hidrocarbonetos, protegendo desta forma os seus
interesses. [9] Declaração do candidato à vice-presidência do partido União Nacional (UN), Carlos Dabdoub. |