Informação Alternativa

América Latina

21/12/2005

 

Contra o interesse geral

 

Javier Ortiz

 

Uma das mais graves e deploráveis renúncias que o conjunto da chamada esquerda fez na Europa foi a que a conduziu a aceitar de maneira acrítica a ideia de “interesse geral”. Ou, dito de forma inversa: a esquecer que, na maioria dos grandes problemas económicos e sociais, as grandes opções que se apresentam expressam diferentes interesses de classe.

 

Em tempos, as forças de esquerda davam por adquirido que o que era benéfico para as classes dominantes da sociedade tendia de maneira quase irresistível a ser prejudicial para as classes subordinadas, e inversamente. Eram os representantes das classes dominantes que confundiam muito a propósito os seus interesses com “o interesse geral” ou com “o interesse nacional”, e falavam constantemente do “interesse de Espanha” (ou da França, ou da Alemanha, ou de onde fosse), procedendo como se o conveniente para os seus negócios fosse, por pura lógica, conveniente para os negócios do conjunto da sociedade.

 

Agora, os partidos e sindicatos que se pretendem de esquerda adoptaram essa mesma linguagem — essa mesma concepção — como se fosse mero reflexo do óbvio.

 

Não lhes falta uma parte de razão. É claro que, nas sociedades do mundo desenvolvido, existe uma considerável cumplicidade de benefícios que une as classes trabalhadoras autóctones com os predadores do mundo empresarial e financeiro dos seus próprios países. É inegável que o volume dos seus benefícios é muito inferior, e nesse sentido as contradições saltam à vista, mas resulta igualmente inegável que, considerada a partilha da riqueza à escala mundial, as classes trabalhadoras autóctones das zonas desenvolvidas do planeta tiram também partido da desigualdade e da injustiça imperantes.

 

Vem toda esta reflexão a propósito da vitória eleitoral de Evo Morales na Bolívia e das reacções que o acontecimento suscitou em Espanha. A quase totalidade dos comentaristas e meios noticiosos por estas bandas acolheu com muita desconfiança, quando não com franca animosidade, a mudança que desponta em La Paz. Os menos hipócritas admitem­‑no directamente: temem, muito em particular, que os “interesses de Espanha”, representados neste caso concreto por Repsol-YPF, saiam prejudicados, e que isso se repercuta aqui no já por si problemático mercado dos combustíveis. Da dramática penúria da população da Bolívia, do esforço que Morales pode canalizar para que o povo boliviano se torne dono das riquezas do seu solo e do seu subsolo, dos contratos leoninos e da corrupção com os quais as multinacionais e a banca espanholas conseguiram instalar-se ali, das manobras de Washington para manter o país em posição subordinada... De tudo isso, nem se fala. Só do perigo de que apareça “outro Chávez”.

 

Pois bem, lamento. Se o triunfo eleitoral de Evo Morales cai bastante mal à Repsol-YPF, alegro­‑me. E se isso tem repercussões nocivas para a economia espanhola, para os “altos interesses da nação”, para o “bem comum”, e inclusive para mim, pois paciência.

 

Na divisão internacional entre exploradores e explorados — também entre países exploradores e países explorados —, não o oculto: estou com o inimigo.