Informação Alternativa

América Latina

18/12/2005

 

O MAS prepara­‑se para começar a governar na Bolívia

 

Emir Sader

Carta Maior

 

Que importância pode ter a vitória de Evo Morales na eleição deste Domingo? Neste momento circulam pesquisas que não podem ser divulgadas localmente, mas que correm de boca em boca, multiplicadas pela casa que funciona como coordenação central da campanha do MAS, que indicam que o candidato do partido se aproxima dos 50. Algumas pesquisas indicam 45% contra 22% de Quiroga, outros dizem que a proximidade da metade mais um dos votos é maior ainda.

 

Considerando que, nas eleições anteriores, Evo Morales subiu extraordinariamente na fase final – “ajudado” pelas declarações desastradas do então embaixador dos EUA na Bolívia, é certo – e que a margem de indecisos e dos que até aqui afirmaram que votariam em branco ou nulo é significativa, de cerca de 20%, e que o favoritismo do candidato do MAS é reiterado por toda a imprensa, podendo assim atrair votos, não é impossível que Evo seja eleito no primeiro turno.

 

Estranhamente as pesquisas mantiveram quase que os mesmos resultados nas últimas semanas, num país não tão acostumado a esse tipo de investigação. Pode-se imaginar que houve mudanças nesta fase final, ainda que fosse o debilitamento do candidato do MNR, situado em terceiro lugar, e dos outros candidatos sem possibilidade de chegar ao segundo turno. As pesquisas paralelas indicam uma subida de Evo da casa dos 34% para a dos 45%, com Quiroga diminuindo e os outros estacionados. A expectativa é grande, mas tende a frustrar­‑se, em parte porque a apuração demorará várias semanas, especialmente se faltarem alguns pontos para que Evo chegue ao objectivo de triunfar no primeiro turno. Poderia dar-se a desistência dos outros candidatos, diante de uma diferença clara a favor do candidato do MAS.

 

Evo Morales nasceu em 27 de Outubro de 1959 – tem 46 anos – em Isallavi, no cantão de Orinoca, no departamento de Orugo, com o nome de Evo Morales Ayma, como um de sete irmãos de uma família aymara. Na comunidade em que nasceu, não havia serviços fundamentais como luz, água, esgoto; os seus pais, Dionísio Morales Choque e Maria Ayma Mamani, viviam da agricultura e da criação de lhamas. Quatro dos irmãos de Evo morreram, sobrevivendo até aqui 3 deles.

 

Evo estudou, jogou futebol e aprendeu música. Formou-se no colégio Béltran Ávila, de Oruro, fez o serviço militar e depois foi viver na região do Chapare, juntamente com os seus pais, onde trabalhavam na produção de frutas. As duras condições de vida da sua família e do seu meio foram levando Evo a tomar consciência social da situação dos indígenas, sendo ele mesmo vítima da discriminação e da repressão, por ser cocaleiro. Começou a participar da actividade sindical em 1983, quando foi nomeado secretário de desportos do seu sindicato, em Porto São Francisco. Em 1988 assume a secretaria executiva da Federação do Trópico, envolvendo-se cada vez mais na actividade sindical. Defende a defesa dos recursos naturais, a defesa dos direitos humanos e a luta pela justiça social, como referenciais da sua actividade política, ascendendo do sindicato à federação e à presidência das 6 federações de Cochabamba, onde conhece grande parte dos trabalhadores mineiros da década de 1970­‑80, que buscavam refúgio e trabalho na região do Chapare, de quem apreende a experiência histórica do movimento mineiro boliviano.

 

A partir de 1990, Evo participa da Central Operária Boliviana, passando a incorporar as posições estratégicas da direcção da COB, de tomada do poder pela aliança operário-camponesa. Aproxima­‑se mais dos dirigentes dos sindicatos cocaleiros, quando começa a colocar­‑se, junto a outros militantes, a necessidade de criação de uma organização directamente política, quando fundam o Instrumento Político pela Soberania dos Povos – IPSP. Não conseguem registrar legalmente a organização, mas Evo entra no Movimento ao Socialismo (MAS) e em 1997 é eleito para o Parlamento, onde se enfrenta aos partidos tradicionais – MNR, MIR, ADN e outros – que terminam expulsando-o do Congresso.

 

Em 2002, Evo candidata­‑se à presidência da Bolívia, como primeiro líder indígena a postular esse cargo, chegando ao segundo turno, contra Sanchez de Losada, a quem o Congresso escolhe como presidente. As grandes manifestações de 2003 derrubam Sanchez de Losada e as deste ano derrubam também o seu sucessor, Carlos Meza.

 

Nestas eleições, o MAS escolheu a Álvaro Garcia Linera como candidato a vice-presidente. Álvaro nasceu em 19 de Outubro de 1962 – tem 44 anos –, estudou em Cochabamba e em La Paz, concluindo os seus estudos superiores no México, em Matemática. Ingressou na política através do Exército Guerrilheiro Tupák Katari, com um projecto de luta pelo poder através da luta guerrilheira. O movimento é reprimido e derrotado, Álvaro foi preso e condenado junto a vários dos seus companheiros, tendo ficado 5 anos na prisão. Um dos mais importantes intelectuais da nova geração na América Latina e do Caribe, Álvaro é o principal teórico da estratégia de campanha e de governo do MAS.

 

Os correspondentes da imprensa internacional centram­‑se na busca de nomes, mais em particular naquele anúncio que caracterizou presidentes de esquerda favoritos – como Lula e Tabaré Vazquez –, que anunciaram o seu comando da economia – sempre quadros moderados ou mesmo da direita –, principalmente o seu ministro da economia, para “tranquilizar o mercado”. Nem Evo Morales, nem Álvaro Garcia – este o quadro mais qualificado da equipa de governo do MAS –, se prestam a isso, pelo menos até agora. Trataram de acalmar investidores das empresas petrolíferas, mas mantendo a decisão de nacionalização das empresas de hidrocarbonetos.

 

O documento de propostas do MAS afirma, a esse respeito: «Nacionalização dos hidrocarbonetos e dos recursos naturais para a sua industrialização». Parte do que considera «a inconstitucionalidade dos contratos de risco compartilhado», para afirmar que «defenderemos frente a qualquer Tribunal Internacional a obrigatoriedade da migração de contratos e não se aceitará nenhuma posição de permanência ou prolongamento do anterior regime de concessão». Fica claro assim que «todo o gás e o petróleo que se extrai devem ser entregues em propriedade, ao Estado boliviano e o Estado boliviano será quem defina as condições soberanas de utilização dos hidrocarbonetos», incluindo «total liberdade para determinar ou fixar os preços».

 

Entre as propostas inovadoras do MAS está também a do Estado boliviano assumir a industrialização do gás natural, «um facto histórico fundamental», que permitirá dar início a um processo de «superação de uma longa história que consistiu em concentrar a actividade económica na produção e exportação de recursos naturais como matérias primas». Serão priorizados o aumento da produção, a industrialização do gás para obter o diesel ecológico, a fabricação de plásticos e projectos de industrialização geral no período de governo de 5 anos.

 

O outro pilar do programa do MAS é a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, em que «depois de 180 anos da história republicana, pela primeira vez, os povos originários, os sectores sociais e as minorias, terão a possibilidade de participar numa Assembleia que reflicta a composição multinacional e pluricultural de toda a sua territorialidade».

 

Com isso o MAS aspira a «um Estado com imagem e identidade moral e ética baseada na simbiose, na interculturalidade, no equilíbrio e no respeito pela natureza com amor à vida, à liberdade e à sabedoria, para viver bem». O MAS coloca­‑se o objectivo da «fundação do novo Estado, composto por nações milenárias e pela diversidade de culturas, recuperando a nossa herança milenária, promovendo a revitalização das identidades, valores e saberes».

 

É nesse cenário que uma indígena boliviana, com o seu chapéu coco negro na cabeça, disse aos correspondentes estrangeiros concentrados em La Paz: «Antes vocês vinham aqui porque nós derrubávamos governos. Agora vêm porque vamos eleger um novo governo».