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15/12/2005 O povo tem a palavra Hugo Janeiro e Jorge Cabral A primeira vez que esteve em Portugal, a força de Abril espalhava a
Reforma Agrária pelos campos alentejanos. O povo deitava as mãos à terra e
tomava partido, construindo formas de propriedade igualitárias e caminhos
fraternos nas relações sociais de produção. A experiência marcou
profundamente Marcos Domich pela demonstração de capacidade transformadora,
«sobretudo na Europa Ocidental, onde os caminhos da revolução pareciam
fechados», confessou. Quase trinta anos passados, o agora primeiro secretário
do Partido Comunista da Bolívia regressou a Vale de Vargo, no concelho de
Serpa, desta feita para uma conferência organizada pelo Resistir.info. A poucos dias das eleições no seu país, Domich explicou, em
entrevista ao Avante!, que o processo de transformação na Bolívia não
passa só pelo voto, mas pela acção das massas populares em defesa dos seus
direitos e interesses. Como é que se enquadra o processo eleitoral nesta fase de luta
popular na Bolívia, e qual vai ser a posição dos comunistas no próximo
domingo? Para nós a questão não se coloca exactamente do ponto de vista do
apoio ou do não apoio, do apelo ou da recusa em votar por Evo Morales, o candidato
que se apresenta como aglutinador das forças de esquerda. Não é linear, é uma
discussão muito ampla entre os comunistas. Alguns camaradas entendiam que devíamos apoiá-lo sem reservas.
Outros, em igual número, analisando as experiências anteriores com o
Movimento para o Socialismo (MAS) e o conjunto de relações, muitas vezes
conflituosas, que estabelecemos com Evo Morales, afirmavam que não o podíamos
apoiar, e portanto votaríamos em branco. Neste contexto, decidimos partir de outro ângulo de análise da
situação, e dissemos que o fundamental é objectivar qual é o principal
inimigo da Bolívia e do seu povo. O inimigo principal é o imperialismo norte‑americano
e a oligarquia nacional, pelo que a nossa consigna aponta no sentido da
derrota da direita. No concreto, da parte do campo popular, só existe uma opção eleitoral
que pode contribuir para tal objectivo, que é a candidatura de Evo Morales,
pelo que deixamos à nossa militância a possibilidade de, no momento, decidir
conscientemente o seu sentido de voto. Acreditamos que a maioria acabará por
votar em Evo Morales, facto que consideramos que levanta uma questão
legítima: então porque razão não o dissemos abertamente? Parece uma abstracção, mas o que devemos ter em conta é que
conhecemos em detalhe a história do MAS e sabemos que neste momento se
encontra infiltrado por oportunistas, por gente que não tem posições
verdadeiramente progressistas e lamentavelmente são a maioria no interior
daquela força política. Os que podemos indicar como gente com verdadeiros valores de esquerda
têm sido subalternizados pelos oportunistas, perderam influência, por isso
persiste o perigo do governo não ser verdadeiramente sério e independente. Então quando o MAS e Evo Morales falam no sector produtivo do Estado
ou na reforma da terra, são promessas que podem ficar esquecidas na prática
governativa? Exactamente, de tal maneira que nos costumamos referir ao actual
programa do MAS como um “papel molhado”, isto é, não tem nenhuma
consistência, faz concessões permanentes a fim de lucrar votos e agradar às
chamadas classes médias. Isto ajuda a perceber porque é que não apoiamos
directa e incondicionalmente Evo Morales. RECURSOS ENERGÉTICOS NO CENTRO DA BATALHA Mas realizou-se recentemente uma alteração legislativa sobre a posse
dos hidrocarbonetos, uma das grandes batalhas populares que Morales
subscreveu... Depois da queda do governo de Sanchez de Losada, o executivo de
Carlos Mesa – que havia sido seu vice‑presidente – aprovou uma lei de
hidrocarbonetos que aumentou os impostos directos sobre os produtos, mas tal
é insuficiente porque não restabelece algo que marca inclusivamente a actual
constituição política do Estado. No artigo 139, diz-se que não há possibilidade nenhuma de alienação
da propriedade destes bens. A nossa luta foi precisamente neste sentido, o de
restituir o direito de propriedade ao Estado boliviano sobre aqueles
recursos, independentemente do estado em que se encontrem. É esta a essência
da luta. O aumento do imposto específico traduz-se num pequeno avanço, mas não
corresponde a tudo pelo que o povo exigiu e lutou, tanto em Outubro de 2003,
como em Maio e Junho deste ano. Acrescente-se que o actual governo não quis aplicar a legislação
aprovada – a qual não contempla mais que mudanças muito tímidas – porque seria
obrigado a substituir os contratos com as várias companhias petrolíferas.
Sobre isto a direita moveu uma oposição tenaz contando inclusivamente com a
complacência deste governo. Neste processo há, todavia, uma questão que tem que ser figura
central, o ataque ao regime democrático e constitucional. Na Bolívia vivemos perigos muito sérios, inclusivamente o de um golpe
de Estado, por isso vamos lutar contra qualquer tentativa do género, mesmo
que alguns militares se apresentem com “cara de nacionalistas”. Daí também a disputa no seio da assembleia nacional pela
reconfiguração dos lugares de deputado atribuídos às várias províncias? Sim, este foi um dos motivos, mas o central é que a direita, que
domina o Oriente e o Sul do país, onde se encontram os recursos naturais mais
valiosos, são os que levantaram bandeiras autonomistas, federalistas, com
real pretensão de dividir o país. Todavia, no actual processo eleitoral, todas as candidaturas –
incluindo a da direita, de Jorge Quiroga – se apresentam sob a causa da
nacionalização dos recursos. Por exemplo, Quiroga fala da nacionalização dos recursos provenientes
da exploração dos hidrocarbonetos, o que não passa de um jogo de palavras. Doria Medina, outro candidato da direita, fala de uma nacionalização
gradual. O MAS, que representa o sector popular, fala de uma nacionalização “inteligente”.
Bom, eu não sei se existe tal coisa como uma nacionalização “tonta”, mas o
fundamental é que todos abordam a questão porque sabem que esta batalha colhe
muito no seio do povo, e este reclama a nacionalização dos hidrocarbonetos, o
que chamamos o direito proprietário dos recursos. NO CAMPO TAMBÉM SE PROTESTA Outra questão prende-se com a luta dos camponeses pela terra. Qual o
peso da luta deste sector no rumo da política boliviana? Para nós as duas lutas são centrais, até porque entendemos que se
enquadram no contexto geral da reconquista das empresas estatais, as quais
consideramos estratégicas e que foram privatizadas pelos governos
neoliberais. A Bolívia ficou sem hidrocarbonetos, sem energia, sem transportes e
sem comunicações. Estes sectores foram alienados ruinosamente, por isso a
nossa luta é para os recuperarmos, mas também pela capacidade de intervenção
financeira, impossível de realizar desde a liquidação do banco do Estado, uma
instituição muito importante que chegava a todo o país. Então, estas lutas apresentam a possibilidade de unir as forças populares
e de esquerda, incluindo o MAS, com quem sabemos que temos de trabalhar,
contudo, impondo estas condições mínimas. O perigo é que o MAS se está a dissolver numa tendência
social-democrata. O candidato a vice-presidente de Morales disse abertamente
à imprensa que não quer o socialismo para nada, prefere desenvolver um “capitalismo
andino”. Isto é dizer que acarinha o sistema. Nós não pensamos que o
socialismo está já ali ao virar da esquina e muito menos que se pode
construir por decreto, sabemos que é um processo. Mas por isso mesmo é que
exige que se vão tomando medidas que não invalidem, não dificultem, essa
possibilidade. SOBERANIA EM PERIGO Neste contexto complexo, a independência e unidade da Bolívia estão
sob ameaça? A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, foi muito clara. Os
norte-americanos querem jogar um papel na defesa do que chamam “a paz e a
democracia regional”, o que no contexto boliviano quer dizer que pretendem
que se desencadeie um clima de caos, de conflitos permanentes, os quais
justificariam uma intervenção estrangeira. Preparam-se para fazer o mesmo que
fizeram no Haiti, reunindo forças regionais sob o seu comando e vontade. A base na fronteira do Paraguai é uma estrutura avançada capaz de
mobilizar em poucas horas milhares de soldados, artilharia pesada, tecnologia
de guerra, por isso é muito perigosa. Quando falavas das contradições internas no MAS, não referiste a
questão do Tratado de Livre Comércio (TLC) com os EUA e a força que o povo
deve ter para derrotar a anexação comercial... Eu penso que o MAS vai ganhar as eleições, mas terá, muito
provavelmente, um parlamento hostil. Depois temos que ter em conta as forças
armadas contestatárias que não são respeitadoras do poder civil. Acreditamos mesmo que existem forças no interior do MAS que, na ânsia
de poder, podem fazer concessões gravíssimas a sectores reaccionários. Nos
últimos anos falaram da integração e cooperação americana, mas segundo as
palavras do candidato a vice-presidente de Evo Morales, admitem estabelecer
os tais TLC’s, ou falar inclusivamente do avanço da ALCA, factos que entram
em clara contradição com a simpatia que Morales recolhe da parte de Chávez ou
de Fidel Castro. Mas as massas bolivianas têm a sua própria experiência, e eu não
julgo que aceitem tais cedências, por isso a possibilidade da abertura de um
conflito muito sério no país. É um panorama simultaneamente delicado e
complexo, mas esperamos que a orientação geral da luta das massas obrigue Evo
Morales a seguir a voz do povo e a cumprir o que vem afirmando desde há
largos anos, rejeitando a influência dos oportunistas infiltrados no seu
partido. O pior que se pode passar na Bolívia é a reprodução da crise no
Equador. Lúcio Gutiérrez chegou ao poder com o apoio da esquerda, dos
camponeses, das comunidades indígenas, e depois revelou-se um conservador, um
pró‑imperialista traindo o povo. Pessoalmente tenho dúvidas que Evo
Morales seja uma cópia de Gutiérrez, mas a chave vai estar na acção popular e
no apoio aos sectores que preconizam mudanças. NO BALANÇO DAS EXPERIÊNCIAS Este é um problema que se tem repetido em muitos movimentos e frentes
eleitorais progressistas na América Latina. Qual a medida para a avaliação da
justeza de um candidato ou de um programa? Eu penso que os partidos comunistas vão ver as coisas mais
claramente, com maior realismo, num curto espaço de tempo. Se há uma boa
direcção e um correcto posicionamento nas práticas e prioridades políticas,
tanto melhor, caso contrário, vamos continuar a assistir a processos de
esperanças perdidas, de traições. É uma situação muito difícil para a esquerda. No nosso caso, temos
que admitir que nos encontramos organicamente diminuídos na medida em que não
somos o mesmo partido que tinha grande influência sobre os mineiros, que
constituíam o núcleo clássico que determinava o curso das lutas dos restantes
trabalhadores. O grande desafio prende-se com um redobrado trabalho de
esclarecimento e consciencialização de massas. REFORÇAR O PARTIDO, RECONDUZIR A LUTA Quando falas em reforçar os laços com o povo, falas da reconquista da
influência dos comunistas no seio sindical? Ainda que diminuído, o movimento sindical conserva grande força no
país, o problema é que muitas vezes a direcção oscila entre a desorientação e
o aventureirismo, situações que pensamos necessitarem de rápida correcção. O que traçamos como objectivo é a restruturação do movimento sindical
através da convocação urgente de um congresso nacional que restabeleça o
papel da Central dos Trabalhadores Bolivianos [COB, na sigla em castelhano]
na mobilização e esclarecimento dos trabalhadores. Sabemos que o que mais interessa à direita é que a COB mantenha um
radicalismo supostamente mais avançado, com elementos e acções próprias de
provocadores. Neste momento, uma das linhas da COB é denunciar o MAS anunciando a
intenção de mobilizar as populações para impor a nacionalização dos
hidrocarbonetos. O que não percebem é que, em plena campanha eleitoral, tal
torna‑se um elemento de confusão, não de esclarecimento. Ou seja, não
traduzem na realidade o facto de, em primeiro lugar, termos que derrotar a
direita, acumular forças, estabelecer uma direcção do movimento popular única
e com um programa mínimo. E esse trabalho vai estender-se às organizações de camponeses? Podemos dizer que a nossa fragilidade sempre foi o trabalho com os
camponeses, com as massas rurais, contrariamente ao excelente trabalho que
sempre fizemos junto dos operários e dos restantes trabalhadores. A nossa tese é que, recuperando influência no seio dos trabalhadores
e das suas estruturas representativas, possamos desempenhar um papel mais
forte no movimento camponês. Os movimentos e organizações rurais que surgiram nos últimos anos
foram animados ou conduzidos pela COB. Então, o que nos importa é usar essa
força já existente para mobilizar e sobretudo unir as lutas do campo com as
dos restantes trabalhadores. Para nós, o tema étnico-nacional é subsidiário
ao da divisão da sociedade em classes. É o enfoque de classe que deve guiar a
acção das forças populares. Já ficou demonstrado que os movimentos sociais, por muito amplos e
fortes que se apresentem, se não tiverem uma direcção política de um partido,
ou de um conjunto de partidos comunistas ou de esquerda bem unidos, pouco
consegue transformar. APRENDER COM A HISTÓRIA «Minas ao Estado e terras aos índios», é a palavra de ordem que,
desde a década de 20, tem mobilizado gerações de bolivianos. Apesar da resistência da direita, da imposição de ditaduras e
democracias musculadas, o século XX na Bolívia foi, como em toda a América
Latina e no mundo, o período em que o povo mais conseguiu impor a sua força e
capacidade transformadora. A propriedade do solo, dos recursos e dos meios de produção dos
hidrocarbonetos – principal riqueza material do país - mantém-se na ordem do
dia para milhares de pessoas. Quais as raízes e as experiências de tal reivindicação? Na Bolívia, a luta é pela renacionalização de todo um património que
se perdeu para as mãos das multinacionais durante os governos neoliberais que
sucederam ao executivo da Unidade Democrática e Popular, liderado por Siles
Zuazo. Estas são tarefas que se mantêm actuais, tanto mais que uma das
coisas que o Partido Comunista está a colocar na agenda com muita força é
que, tendo em conta as experiências revolucionárias passadas, as mudanças na
Bolívia nunca se realizam por via eleitoral. Por exemplo, a nacionalização do petróleo em 1937 – a primeira experiência do género na América Latina – a nacionalização das minas, em 1952, e a nacionalização da Gulf Oil. |