Informação Alternativa

América Latina

17/12/2005

 

A Bolívia vota e o Grande Vizinho teme

 

Pablo Stefanoni

Página/12

 

«O pior pesadelo dos Estados Unidos na América latina cedo poderia converter-se em realidade: a chegada ao poder na Bolívia de um regime esquerdista apoiado por Cuba e Venezuela, que advoga pela nacionalização das empresas petrolíferas estrangeiras e a legalização da coca», começa um artigo de Andrés Oppenheimer no Nuevo Herald. E as preocupações de Washington pela possível chegada ao poder de Evo Morales expressaram­‑se esta semana na advertência do Departamento de Estado aos seus cidadãos, alertando sobre eventuais mobilizações e acções «potencialmente violentas» como consequência das eleições gerais de amanhã. No entanto, desta vez os “gringos” aprenderam com a experiência e o seu embaixador na Bolívia, David Greenlee, manteve um papel discreto, longe do seu antecessor, Manuel Rocha, que em 2002 ameaçou a Bolívia com cortar a ajuda económica se ganhasse um “narcotraficante”, o que trouxe ao líder cocaleiro a exacta dose de vitimização e “dignidade” anti­‑imperialista que o catapultou como líder do novo nacionalismo boliviano.

 

Desta vez, o tropeço correspondeu ao bando contrário. O representante venezuelano em La Paz, Azael Valero, declarou há alguns dias que «se Evo é anti­‑imperialista, pois que viva Evo Morales». Quiroga, nem lento nem preguiçoso, armou uma concentração ante a embaixada «bolivariana» «contra a ingerência estrangeira» e acusou Morales por «chamar comandante a Hugo Chávez». O desboque custou o posto ao loquaz diplomata caribenho, mas esteve longe do “rochazo” esperado pelo “Tuto”, algo que levasse água ao moinho dos vermelhos, que aqui não são de esquerda mas de direita. Também o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu a sua preferência pelo candidato socialista, ainda que, depois, o seu assessor Marco Aurélio García o tenha justificado com um toque de ironia como «um assinalamento sociológico, não um comentário político».

 

«O cenário mais provável é que Morales chegará ao poder», disse-lhe o mesmo Manuel Rocha ao analista do Nuevo Herald numa entrevista telefónica de Pequim. E acrescentou que «o dueto cada vez mais beligerante de Cuba e Venezuela se torne num trio não seria uma boa notícia para Washington». Outro “falcão”, Charles Chapiro, acrescentou que «a natureza e alcance da nossa cooperação com o próximo governo boliviano dependerá dos nossos interesses comuns: o fortalecimento da democracia, o fomento do desenvolvimento económico e o combate às drogas ilegais».

 

A coca é um dos eixos conflitivos da campanha: há poucos dias, num foro com a imprensa, os jornalistas fizeram notar a Quiroga que a sua posição sobre o tema da coca é até mais dura do que a da embaixada estadunidense. «Estou­‑me marimbando para a embaixada», disse forçando a sua veia nacionalista. Consultado sobre se respeitará o acordo entre os cocaleiros e o ex presidente Carlos Mesa legalizando 2300 hectares de cultivos de coca enfatizou que «toda a coca do Chapare (berço do MAS de Evo Morales) vai para o narcotráfico» o que, para alguns analistas, anuncia novos confrontos com os combativos cultivadores da “folha sagrada” no caso de voltar a ocupar o cadeirão presidencial.

 

«Os Estados Unidos devem pensar cuidadosamente antes de tratar de isolar e castigar Evo Morales se for eleito. Se insisteir na sua retórica dura e inclusive em implementar sanções contra o governo de Morales, certamente que Hugo Chávez vai estar muito contente por poder aproveitar essa situação. Os políticos estadunidenses deveriam estar muito conscientes disso», recomendou o analista especializado na Bolívia John Walsh a George Bush.

 

Num gesto de apoio ao processo democrático e a pedido do governo boliviano, chegou ontem a La Paz o representante do Mercosul Carlos “Chacho” Alvarez para apoiar o processo eleitoral boliviano. Também se fez presente o enviado de Néstor Kirchner, Eduardo Fellner. «As eleições de Domingo são muito importantes para a Bolívia e para a região, que se encontra num momento muito interessante e estimulante da sua integração regional. É a primeira vez que o Mercosul participa com uma voz homogénea num evento como este», disse o ex vice-presidente argentino numa palestra informal com jornalistas argentinos, juntamente com os embaixadores do Uruguai e do Paraguai. Fellner acrescentou que a consolidação do processo institucional neste país permitirá levar por diante uma série de projectos compartilhados de integração viatória, de saúde e de energia como o gasoducto Puna em La Quiaca. «Há uma identidade cultural e histórica compartilhada que por motivos errados foi deixada de lado nos últimos anos», acrescentou o governador jujenho, que desistiu de responder sobre a afirmação de Morales e Quiroga de que aumentarão o preço de venda de gás à Argentina. Em referência ao “anel energético” e ao gasoducto Caracas-Buenos Aires, Chacho Alvarez assinalou que «a partir da eleição de novas autoridades vai ficar mais claro que tipo de integração vai propor a Bolívia».

 

«PROJECTO DE CENTRO-ESQUERDA»

 

A admiração de Alvaro García Linera pela sociologia francesa, especialmente por Pierre Bourdieu, e por Karl Marx pode ver-se nas estantes da sua biblioteca, que quase não deixa espaços nas paredes do seu departamento. A sua candidatura junto a Evo Morales atraiu sectores médios urbanos, inicialmente arredios ao perfil mais “populista” do líder cocaleiro. Nesta entrevista com Página/12, o candidato vice­‑presidencial do MAS aclara o seu pensamento e antecipa algumas linhas mestras do seu projecto político, no caso de ganhar as eleições do próximo Domingo.

 

García Linera, candidato e intelectual do MAS

 

Alguns temem um triunfo do MAS; onde situaria ideologicamente o seu projecto político?

 

No centro­‑esquerda, porque o projecto de mudanças que o MAS tem que levar por diante não poderia qualificar-se nem como comunista ou socialista nem de teor comunitarista. É um projecto com uma forte ênfase no produtivo, num choque produtivo; só as petrolíferas que vêm jogando deslealmente com o país teriam que se preocupar.

 

Você propôs, em várias oportunidades, a tese de que hoje o socialismo não é possível na Bolívia.

 

Há duas razões que não permitem visualizar a possibilidade de um regime socialista na Bolívia. Por um lado, há um proletariado minoritário demograficamente e inexistente politicamente, e não se constrói socialismo sem proletariado. Em segundo lugar, o potencial comunitarista agrário e urbano está muito debilitado. Há uma implosão das economias comunitárias em estruturas familiares, que foram o sustento das últimas sublevações sociais. No nosso país, 70 por cento dos trabalhadores nas cidades são de economia familiar e não se constrói o socialismo sobre uma economia familiar.

 

Então por onde passaria a “refundação” da Bolívia que o MAS propicia?

 

Por um tipo de capitalismo andino.

 

Para muitos esse continua a ser um conceito não muito claro.

 

Propiciamos a construção de um Estado forte, que articule equilibradamente as três plataformas económico­‑produtivas que convivem na Bolívia: a comunitária, a familiar e a moderna-industrial. Trata-se de transferir parte do excedente dos hidrocarbonetos nacionalizados para propiciar formas de auto­‑organização, autogestão e de desenvolvimento mercantil propriamente andino e amazónico. Até agora estes sectores “tradicionais” foram subsumidos pelo moderno-industrial que açambarcou os excedentes. A ideia é que estes sectores tenham suporte económico, acesso a insumos e a mercados, que gerem no seu processo económico artesanal e familiar processos de bem-estar. A Bolívia continuará a ser capitalista nos próximos 50 ou 100 anos. As experiências dos últimos anos mostram os limites comunitaristas do actual movimento social; foi mais fácil expulsar as multinacionais (como a da água em Cochabamba no ano 2000) do que pôr em pé e gerir novas empresas. Mas, em todo o caso, estas experiências permitem pensar numa revolução política, no sentido marxista do termo, que no caso boliviano se refere à descolonização do Estado.

 

Que diferenças há entre o actual candidato do MAS e o dirigente do Exército Guerrilheiro Túpak Katari (EGTK) de princípios dos anos ’90?

 

Há uma linha de continuidade e uma linha de ruptura. A continuidade é a convicção de que os povos indígenas devem governar a Bolívia como única maneira de fechar o fosso entre a sociedade e o Estado que arrastamos desde há 180 anos, e acabar com a colonialidade da república, que atravessa tanto as instituições como a vida privada dos bolivianos. A diferença está nos meios: há quinze anos pensávamos que isso devia conseguir­‑se mediante uma sublevação armada de comunidades e hoje pensamos que se pode conseguir mediante um grande triunfo eleitoral. Variação nos meios, continuidade nas metas.